DODÔ AZEVEDO

DJ DE PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

dodo

 

Dodô Azevedo é um indivíduo que faz “tudo-ao-mesmo-tempo-agora” e que não se incomoda em assumir que nem tudo que resolve fazer é sempre bom. Escritor, DJ, professor de literatura, pesquisador e crítico musical, ou seja, ele é um DJ de palavras.

“O homem sempre foi múltiplo; o Leonardo Da Vinci é um dos paradigmas disso. Você não encontra nenhum escritor anterior ao século XIX que não tivesse uma segunda profissão. É claro que ele pode ser melhor em uma coisa do que na outra, mas isso é outra história. Todo mundo faz tudo. Assumo, e não tenho nenhum pudor de dizer isto: algumas coisas não faço bem… É uma bobagem afirmar que só existe um modo de fazer bem alguma coisa”, defende.

O que ele faz melhor?

“Hoje? DJ! Estou no auge da minha maturidade como DJ, até porque, de todas as atividades, é a mais fácil’”

Seu primeiro livro Pessoas do Século Passado, uma referência na literatura da virada deste século, foi seu trabalho de estreia. Mas é com DJ Pessoal – Áudio-Ajuda (ambos da editora Rocco) que ele afirma que veio para ficar e escrever sobre o umbigo do leitor.

“O Áudio Ajuda surgiu na gestação do que seria meu segundo livro, o Pé na Estrada. A Rocco acompanhou uma viagem que fiz em 2003, na época do lançamento do meu primeiro livro, a mesma viagem que fez Jack Kerouac comOn The Road. Fui com a Luiza Leite, uma fotógrafa brasileira que mora nos EUA. Mas aí a editora me convidou para realizar o Áudio Ajuda. Esse seria o livro para viver uma vida ideal, uma audiobiografia ideal.”

Num restaurante do cinema Arteplex, em Botafogo, no Rio de Janeiro – entre uma garfada e outra num waffer coberto de sorvete – Dodô revelou como consegue administrar tantas ideias e palavras simultaneamente.

Entre no ritmo dessa conversa.

Escritor, DJ, professor de literatura e linguística, além de pesquisador crítico musical; como você consegue transitar em todas essas áreas?

Dodô Azevedo – É natural, porque todas elas têm em comum a arte. E, mesmo que não tivessem, ainda seria natural. Essa história de que nós fazemos uma coisa só na vida é invenção recente da Revolução Industrial. O homem sempre foi múltiplo; o Leonardo Da Vinci é um dos paradigmas disso. Você não encontra nenhum escritor anterior ao século XIX que não tivesse uma segunda profissão. É claro que ele pode ser melhor em uma coisa do que na outra, mas isso é outra história. Todo mundo faz tudo. Assumo, e não tenho nenhum pudor de dizer isto: algumas coisas não faço bem… É uma bobagem afirmar que só existe um modo de fazer bem alguma coisa. Mas só entro em algum projeto quando eu não tenho dúvidas que vou conseguir realizá-lo. Tenho uma banda, por exemplo, em que os membros tocam todos os instrumentos…

E qual instrumento você toca melhor?

DA – Nenhum… (Risos.) Não falei para você que não tenho vergonha de assumir quando não faço algo bem?!

Então, o que você faz melhor?

DA – Hoje? DJ! Estou no auge da minha maturidade como DJ, até porque, de todas as atividades, é a mais fácil.

Mas, se é tão fácil ser DJ, por que você lança um livro chamado Áudio Ajuda?

DA – O livro mostra exatamente como é fácil; ensina as pessoas a perceberem o DJ que existe dentro delas. No dia do lançamento, uma pessoa chegou para mim e disse: “Dodô, faltou incluir “Get Up Stand Up”, do Bob Marley, na lista de músicas para funeral.” Achei genial… Essa pessoa é tão DJ, ou melhor, do que eu. Era um leigo, que conseguiu despertar o DJ adormecido. Se a ideia do primeiro livro é despertar o escritor e a ideia do segundo é despertar o DJ, então sou um professor. E, de fato, sou professor, então não há nada desconectado.

E o que você não fez ainda, mas gostaria de fazer?

DA – Dirigir um longa-metragem. Já fiz um curta e gostei tanto, que quero fazer um longa com o Pessoas do Século Passado. Acredito que esse livro daria um bom filme, como Magnólia. Ah, mas ainda quero fazer cenário para uma peça de teatro, fotografia…

E o que chegou primeiro? A música ou a literatura?

DA – O cinema. Ele junta literatura e música, o que me encanta. Assisti ao Guerra nas Estrelas, em 77, aos sete anos de idade, e isso me despertou para os quadrinhos. Os filmes da Disney me despertaram para a música. Ah, e não disse antes, mas dou aula sobre o Stanley Kubrick.

Como funciona o seu processo criativo? É diferente em cada área?

DA – Há dois processos criativos para mim: a ideia e a execução. A ideia, a famosa inspiração, aparece de repente. Então, paro para a executar, é uma construção. Não tenho disciplina nenhuma para sentar e escrever ou compor. Só faço isso quando vem a ideia, e, muitas vezes, passo meses sem nenhuma. Quando tenho várias ao mesmo tempo, é problema sério…

De que forma você chegou a uma editora para publicar seus livros? Foi fácil ou difícil?

DA – Foi difícil chegar a uma editora. Por incrível que pareça mais difícil chegar a uma editora pequena do que a uma grande. Uma editora grande é movida pela subjetividade, ou seja, publica o que o corpo de profissionais diz que tem qualidade e vale a pena. Uma editora pequena, em 90% dos casos, é feita por profissionais que vieram de uma editora grande e publica apenas os amigos – eventualmente, estes são mais talentosos do que os autores publicados numa grande editora –, o que é até natural, mas é preciso uma abertura… Estou falando isso para mostrar como é difícil publicar. E, mais difícil do que publicar, é um novo autor conseguir espaço na imprensa.

Pessoas do Século Passado antes de ser livro era uma festa?

DA – Não, veio tudo junto. Mas, como a festa é só fazer, ela veio um pouco antes…(Risos.) Pensei como um projeto: festa, site, livro, companhia de teatro e, eventualmente, cinema – acho que seria um ótimo nome para uma produtora.

E como surgiu o Áudio Ajuda?

DA – O Áudio Ajuda surgiu na gestação do que seria meu segundo livro, o Pé na Estrada. A Rocco acompanhou uma viagem que fiz em 2003, na época do lançamento do meu primeiro livro, a mesma viagem que fez Jack Kerouac com On The Road. Fui com a Luiza Leite, uma fotógrafa brasileira que mora nos EUA. Mas aí a editora me convidou para realizar o Áudio Ajuda. Esse seria o livro para viver uma vida ideal, uma audiobiografia ideal. Escrevi esse livro em três meses, parei tudo na minha vida para escrevê-lo. Para escolher as 10 melhores músicas de cada tema, ouvia umas 150 músicas…

O que mudou depois que você publicou o primeiro livro?

DA – Ninguém se tornou meu conhecido ou amigo por causa do livro. Todos os conhecidos já sabiam que eu era escritor. E também continuei com a mesma postura, não houve diferença. Depois que fui ao Jô, para falar do Pessoas, me reconheciam, mas não sabiam que eu era escritor. As pessoas não compravam meu livro…(Risos.) Já o Áudio Ajuda mudou tudo, as pessoas passaram a me enxergar como escritor.

Seus pais o influenciaram de alguma maneira?

DA – Meu pai tinha o hábito de ouvir muita música, tinha uma coleção de vinis. Com cinco anos de idade, eu já ouvia tudo de bom nessa vida: Beatles, Pink Floyd, Cartola, Clube da Esquina… Meu pai também lia muito, ele era muito politizado, então eu achava tudo muito chato e não lia. Ficava na rua jogando bola, fui ler depois, aos 19. Tenho grande identificação com o Bukowski, que só decidiu ler e se tornar escritor depois que descobriu Fante. Comigo foi assim, com o Cortázar, em O Jogo de Amarelinha. Aí falei: quero ser escritor.

Quais são suas maiores influências?

DA – No cinema, Peter Greenaway, Stanley Kubrick, Jim Hargos e Steven Spielberg. Na música, tive a influência do rock independente dos anos 80, o que chamam de college rock. Depois vieram as influências de Domingos Oliveira, Tom Zé, Cartola e Caetano Veloso. Tem gente que é do time do Chico, sou do time do Caetano.

De que maneira a Internet entra na sua vida?

DA – A Internet é a realização física do que eu já vivia desde os anos 70. Ou do que o Borges já vivia na literatura dele, desde os anos 30. Ou do que o próprio Da Vinci vivia no seu tempo. Ela é a materialização disso, é o veículo que o homem inventou para fazer o que ele já fazia antes.

Você lê os seus contemporâneos?

DA – Não, por falta de tempo. Estou com uma fila enorme e dando prioridade para quem veio primeiro. Sei que é meio maluco, porque estou dizendo para as pessoas não me lerem… Mas, por isso, tento não fazer um livro-umbigo, procuro descrever o umbigo do leitor.

Em seu novo livro, você cita uma pesquisa que diz que o homem contemporâneo ouve, voluntária ou involuntariamente, aproximadamente dois milhões de canções durante toda a vida. Em que momento você fica em silêncio?

DA – Minha mulher falou outro dia que faço um barulho angustiante quando estou escrevendo. Acho que nunca fico.

O que você falaria para os jovens que desejam escrever?

DA – Leiam, leiam… Até encontrar o que vocês gostam e começar a escrever.


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