DANIEL GALERA

GALERA E SEU RANCHO DE PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

danielgalera

 

Daniel Galera é escritor, tradutor e editor. Mas também tem fases de envolvimento com jornalismo, música e design gráfico. Mora em São Paulo, mas viveu durante algum tempo em Porto Alegre – onde exerceu, em 2005, o cargo de coordenador do Livro e da Literatura na Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura. Cultura – especificamente a literatura – o acompanha desde a infância.

“Tive incentivo para ler; meus pais liam muito, tinham livros à vista pela casa. Considero-me muito mais leitor que escritor. Só me ocorreu que podia tentar escrever lá pelos 16 ou 17 anos, mas quando descobri a força da expressão por meio da literatura não consegui abrir mão dela. Parar de escrever me traria de volta a um estado relativamente solitário ao qual, por enquanto, não tenho interesse em retomar”, revela Galera.

Seu livro Mãos de Cavalo foi indicado ao 49º Prêmio Jabuti, concorrendo com os consagrados escritores Moacyr Scliar e Luis Fernando Veríssimo. O primeiro romance, Até o dia em que o cão morreu foi adaptado para o cinema por Beto Brant e Renato Ciasca, no filme O cão sem dono.

“Gostei do filme. É uma releitura, tem a visão de outros autores ali, e isso dá novo sentido à minha história. Ao mesmo tempo, a adaptação foi bem mais fiel ao livro do que eu esperava. Achei que mudariam quase tudo, mas, no fim, o essencial está preservado. Há diferenças, é claro. O filme dá um tratamento mais redentor ao protagonista e omite a versão da personagem Marcela para a história – o que me incomoda um pouco –, mas não é algo que o comprometa. Acho Cão sem Dono inteligente e intenso, tanto em termos de narrativa quanto de estética”, defende.

Galera já está trabalhando num novo romance, que faz parte do projeto Amores Expressos. Ele passou um mês em Buenos Aires e agora tem a missão de escrever uma história de amor ambientada na cidade.

“Creio que pude aproveitar muito bem a oportunidade. Estou no meio do romance, e acho que está ficando bom. É uma história que poderia se passar em qualquer lugar, mas a situei na Argentina – porque foi para lá que resolveram me mandar –, e isso lhe deu uma cor inesperada. Adorei Buenos Aires, mas não vivi nenhuma estranheza na cidade; ela é muito acolhedora e tem algo semelhante a Porto Alegre, onde passei 80% da minha vida. O que mais me atrai em Buenos Aires é a carne”, brinca.

A entrevista foi realizada, por e-mail, na época da pré-estreia do filme.

O que você mais gosta de escrever: conto ou romance? Sentiu muita diferença ao passar de uma estrutura para a outra?

Daniel Galera – Gosto dos dois. Passar de um para o outro não fez muita diferença. Um conto é um tiro de 50m (ou um salto ornamental), um romance é uma travessia em alto-mar, mas no fundo é tudo natação. Sinto falta de escrever contos, que foi o gênero com o qual comecei. Estou escrevendo outro romance agora, mas adoraria me dedicar a um punhado de contos depois disso. É um projeto.

Por que você escreve?

DG – Isso é um pouco como perguntar “por que você fala?” ou “por que você usa expressões faciais?”. Escrevo para me expressar, não sei justificar de outra forma.

Enxergo a presença constante da angústia em todos os seus livros. Você se considera muito angustiado?

DG – As pessoas vivem me chamando de sério, introspectivo, angustiado, mas por dentro eu me acho bem feliz e saltitante. Já me acostumei com isso, deve ser a minha cara, meu jeito de falar, sei lá. Quando me bate angústia, eu a mastigo com gosto – é crocante –, mas não é frequente. Já tentei muito ser angustiado e infeliz, mas não consigo.

Seus personagens, na maioria das vezes, estão passando por uma crise existencial. Como ocorre o seu processo criativo? Você cria durante suas crises?

DG – Minhas crises existenciais cabem nos dedos de uma mão. O resto é frescura; aquela coisa de acordar meio de mal com a vida, tomar um trago e acordar bem no dia seguinte. Aproveito as crises e os ataques de frescura para pensar um pouco e ter ideias, mas não consigo escrever nada nesses períodos. Acho que meus personagens não passam exatamente por crises, mas estão sempre tentando interpretar o mundo, se dedicando ao esporte inútil de cultivar certezas.

Como é sua relação com as letras? Teve incentivo da família para se aproximar dos livros?

DG – Tive incentivo para ler; meus pais liam muito, tinham livros à vista pela casa. Considero-me muito mais leitor que escritor. Só me ocorreu que podia tentar escrever lá pelos 16 ou 17 anos, mas quando descobri a força da expressão por meio da literatura não consegui abrir mão dela. Parar de escrever me traria de volta a um estado relativamente solitário ao qual, por enquanto, não tenho interesse em retomar.

O seu primeiro livro Dentes Guardados está disponível para download na Internet. Por que se interessou em fazer isso? Como é a sua relação com a Internet?

DG – O Dentes Guardados teve duas edições independentes que esgotaram. Não tenho interesse em republicar o livro em papel, mas sei que muitos leitores ainda o procuram, então achei que seria legal deixá-lo no meu site para download, bonitinho, em PDF, com uma foto de bigode. Muita gente o baixa.

Como foi assistir à adaptação do seu livro Até o Dia em que o Cão Morreu para o cinema? Ficou satisfeito?

DG – Gostei do filme. É uma releitura, tem a visão de outros autores ali, e isso dá novo sentido à minha história. Ao mesmo tempo, a adaptação foi bem mais fiel ao livro do que eu esperava. Achei que mudariam quase tudo, mas, no fim, o essencial está preservado. Há diferenças, é claro. O filme dá um tratamento mais redentor ao protagonista e omite a versão da personagem Marcela para a história – o que me incomoda um pouco –, mas não é algo que o comprometa. Acho Cão sem Dono inteligente e intenso, tanto em termos de narrativa quanto de estética.

Li resenhas que relacionam o seu último romance, Mãos de Cavalo, com a crise dos trinta anos. O que pensa sobre isso?

DG – Não sei o que seria uma crise dos trinta anos. Daqui a algum tempo descobrirei se tal coisa existe. Meu personagem passa por uma crise particular. É uma tensão entre adolescência e maturidade. Ele acredita que descobriu quem é e planeja a vida toda com base nessa descoberta, mas é claro que sua convicção logo vai por água abaixo.

Como está sendo a experiência de participar do projeto Amores Expressos? O que mais o atrai em Buenos Aires?

DG – Creio que pude aproveitar muito bem a oportunidade. Estou no meio do romance, e acho que está ficando bom. É uma história que poderia se passar em qualquer lugar, mas a situei na Argentina – porque foi para lá que resolveram me mandar –, e isso lhe deu uma cor inesperada. Adorei Buenos Aires, mas não vivi nenhuma estranheza na cidade; ela é muito acolhedora e tem algo semelhante a Porto Alegre, onde passei 80% da minha vida. O que mais me atrai em Buenos Aires é a carne.

Do que se trata o próximo livro?

DG – Gravidez e limites entre vida e literatura.

A sua passagem por Porto Alegre parece ter marcado a sua escrita. O que mais o atrai na cultura dos gaúchos?

DG – Porto Alegre é meu habitat. Posso passar o resto da minha vida morando em outros lugares, mas sou um bicho de lá. Não é questão de ter atração pela cultura, mas a noção de pertencer a um lugar.

Como surgiu a ideia da editora Livros do Mal?

DG – Surgiu quando três amigos que não apenas escreviam, mas também gostavam da ideia de editar livros, perceberam que era possível criar um selo caseiro e colocar uns livrinhos para circular, precisando somente de um pouco de dinheiro (conseguido em parte com um financiamento cultural da Prefeitura) e know-how básico de produção editorial. Foi quase como criar um fanzine, só que um pouco mais elaborado.

Como é ser um jovem escritor no Brasil?

DG – Essa pergunta trava o meu sistema operacional sempre. Desculpa, não sei responder.

Quais são as suas maiores influências?

DG – Tchekhov, Philip Roth, Georges Bataille, Abel Ferrara, Sam Peckinpah, a revista Piratas do Tietê e os jogos da série “The Secret of Monkey Island”.

Que autores contemporâneos você lê?

DG – Inúmeros, mas, no Brasil, da minha geração, destacaria Daniel Pellizzari, Joca Reiners Terron, Edward Pimenta, Simone Campos, João Paulo Cuenca e Paulo Scott. Gosto muito de Sérgio Sant´anna e João Gilberto Noll. De fora, estou lendo muito os americanos Cormac McCarthy e o David Foster Wallace, e tem um inglês também, David Mitchell, que eu adoro. E ando correndo atrás de uns latino-americanos. Andei lendo Mario Levrero e Andrés Neuman, para citar uns vivos, e Onetti e Bolaño, na patota dos já falecidos.

O que você diria a um jovem que deseja se tornar escritor?

DG – Nunca esqueça que não há evidência nenhuma de que qualquer ser humano na face da terra esteja minimamente interessado no que você tem a dizer.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates