DIRA PAES

DO CINEMA PARA LITERATURA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

dirapaes

 

Conhecida pelos filmes de que participou, e mais recentemente pela aparição na TV, com destaque para a Solineuza, do programa “A Diarista”, e a Norminha, de “O Caminho das Índias”, a paraense lançou em Paraty seu primeiro livro, Menina flor e o boto, dentro da Coleção Mãe África, da Língua Geral, voltada a narrativas infantis a partir de mitos e lendas. A iniciativa partiu de um convite da editora, que ela prontamente aceitou. Depois do sim, ela foi buscar saber o porquê dessa aceitação tão automática e espontânea. A resposta, encontrou na lembrança de sua avó que teria “visto o boto”, presenciado a lenda. O livro parte dessa reminiscência para contar a história da menina ribeirinha, que vai para a escola de canoa e ama mais as letras que as brincadeiras.

A seguir, a atriz e escritora fala sobre o livro, de como descobriu a literatura, dos personagens literários que já interpretou e recomenda o escritor paraense Dalcídio Jurandir, autor de uma bela saga amazônica, admirado por Jorge Amado, mas pouco editado hoje em dia.

Você está lançando pela Língua Geral, na Coleção Mãe Brasil, o livroMenina flor e o boto. Como surgiu essa nova experiência?

Dira Paes – Eu acreditava, mas não tanto, na máxima: plante uma árvore, escreva um livro e tenha um filho. E comigo, de certa forma, aconteceu isso. Foi um convite da Connie Lopes, uma das sócias da Língua Geral. A gente se encontrou, e ela falou assim: “Queria te fazer um desafio. Quero te convidar para ser umas das autoras da nossa Coleção Mãe Brasil.” Ela é inspirada na Coleção Mama África, em que eles experimentavam com autores de Língua Portuguesa da África. Uma história infanto-juvenil baseada numa lenda, que, no meu caso, por ser paraense e amazônica, seria uma lenda amazônica. Imediatamente eu falei sim. Só que depois que falei sim, pensei: “Onde fui me meter? Por que eu disse um sim tão espontâneo?” Tempos depois, agora que o livro está pronto, e que as coisas estão mais amadurecidas na minha cabeça, percebi que eu tenho essas histórias entranhadas no meu consciente e inconsciente, na minha formação. Comecei a lembrar nos tempos remotos da minha infância; o máximo que consegui lembrar: eu realmente ouvia as histórias das lendas amazônicas para dormir, antes de ouvir Cinderela e Branca de Neve. Antes de ouvir o universo infantil, literário, que só veio penetrar mesmo na minha vida aos 12 anos, pela puberdade.

Eu tinha que escolher qual lenda ia trabalhar a minha história. Aí lembrei que minha mãe contava que minha avó tinha visto o boto. Você sabe o que significa isso, você ver uma lenda? Minha avó viu o boto. “É isso, é isso que vou fazer.” Vou escrever a história da minha mãe, que foi essa criança ribeirinha, essa criança amazônica, essa criança que viveu a ilha e o rio como se fosse a sua rua. E vou colocar esse personagem rondando essa casa. O fato de estar aqui em Paraty é extremamente emocionante. Eu vivi em Paraty seis meses: três, quatro meses fazendo A floresta das esmeraldas (John Boorman, 1985), que é o meu primeiro filme; e o meu segundo trabalho, que foi Ele, o boto (1987), do Walter Lima Jr., que foi feito aqui (em Paraty). Eu falei: “É essa lenda que tenho que trabalhar mesmo”, e foi ótimo porque vieram as lembranças.

A menina flor é uma criança amazônica, que vive no seu habitat, uma ilha. Ela vai para a escola de canoa, volta da escola, ama as letras, decora seus livros e lições, declama para os irmãos que gostam mais de brincadeiras… Essa menina tem, vamos dizer, entre nove e onze anos, ela está no desabrochar de virar menina, de deixar de ser criança e virar menina. Durante esse período da família, o boto vai visitar a casa… Aí tem que ler o livro para saber (risos).

Na infância, você teve contato com livros?

DP – Não. Era a oralidade. O que eu consigo lembrar, de mais remoto, do livro… Tinham os livros, mas tinha uma escassez de impressão de livros infantis. Sou uma pessoa da classe média, muitos irmãos mais velhos, eu absorvia mais uma literatura juvenil dos meus irmãos do que uma literatura infantil. Lembro, assim, de começar no colégio a ter (acesso a) um volume de literatura infantil.

Você estudou teatro na Escola Estadual de Teatro Martins Pena (no Rio de Janeiro). Como foi o contato com a literatura dramática?

DP – Quando eu cheguei ao Rio e decidi ser atriz, eu fiz Martins Pena, CAL, fiz todos os cursos que apareceram… Mas me formei na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), que foi uma decisão maravilhosa. O autodidatismo dos artistas… Tem uma hora que você quer pertencer a uma classe, estar junto com pessoas que tem o mesmo interesse que você. E eu sempre fiz cinema, quase vinte anos de carreira, dezessete deles fazendo cinema, exclusivamente. Quando comecei a fazer televisão já estava formada pelo que eu queria: estudo de História da Arte, Teatro Brasileiro, Teatro Universal. A universidade foi maravilhosa para isso.

Que autor você descobriu nesse período?

DP – Minha primeira descoberta realmente foi Machado de Assis e, depois, José de Alencar. Foi a época que tinha quatorze anos, antes de fazer meu primeiro filme; o professor de literatura propunha redação sobre os livros. Eu tinha bloqueio com redação. Eu me boicotava muito, escrevia e, imediatamente, achava bobo o que acabava de fazer. Fizemos coisas muito interessantes que hoje eu paro pra lembrar. E depois, a partir dessa experiência, a gente começou a escrever nossos próprios textos. Acabou que a gente fez um caminho até, talvez, mais difícil. Nesse período, eu lembro que os romancistas brasileiros eram mais legais de fazer essa encenação.

Você é muito privilegiada por fazer bons filmes no cinema. Há algum personagem literário que tem orgulho de ter feito?

DP – O personagem mais literário que eu fiz foi a Leocádia, o primeiro amor de Castro Alves. Leocádia foi o primeiro amor, mas não foi o amor mais eloquente dele. Mas quando ficou muito doente, aos 24 anos, ele voltou para esse primeiro amor, como um lugar seguro, um lugar onde ele poderia estar. Inclusive, ele fez um poema como se ela estivesse falando com ele. Eu me lembro de algumas estrofes em que ela falava assim:

Onde vais ó estrangeiro

O que busca no solitário albergue do deserto

Por que cruzar os píncaros dos montes

Se podes achar o amor tão perto

Acho lindo demais. Era uma fala minha para o Castro Alves. É um personagem pequeno no filme, que é do (cineasta) Sílvio Tendler. (O filme é Castro Alves – Retrato falado de um poeta, 1998). É um filme de que gosto muito, e foi pouco visto. Acho que é o personagem mais literário que eu fiz. Adoraria fazer outros, adoraria. Será que estou esquecendo? Não. Acho que foi esse mesmo.

De quais poetas você gosta?

DP – O Castro Alves. Nessa época, rolou uma paixãozinha louca pelo Castro Alves. Dizem que ele era um homem irresistível, dizem que quando ele subia para declamar, desmaiava homem, mulher… (risos) Eu nutri um paixãozinha muito real por esse homem que existiu na vida. Eu li bastante Castro Alves, Augusto dos Anjos… Augusto dos Anjos tem um exercício vocal para ator que é incrível. Dos poetas paraenses, tem o João de Jesus de Paes Loureiro, um professor, primo do meu pai, um grande filósofo paraense. Eu estou numa fase voltada para a Amazônia. Tenho uma vontade de ir fundo, não tanto de poesia, mas de literatura amazônica. Onde estou agora é no Dalcídio Jurandir. Muita gente não conhece o Dalcídio Jurandir, é normal não conhecer. Mas estou querendo muito divulgar esse grande nome da literatura brasileira, para fazer um paralelo entre os grandes autores: ele seria um Guimarães Rosa da Amazônia se tivesse sido mais relacionado, no sentido de se promover na sua época. Ele é contemporâneo do Graciliano Ramos, ele é um dos “musos” do Jorge Amado, uma pessoa incrível. Estou recomendando mesmo: Dalcídio Jurandir. Não temos as obras dele, só em sebo, é uma dificuldade muito grande de se conseguir. Ele tem uma saga norte, que são dez livros, sendo nove livros amazônicos e um livro que se passa no Rio Grande do Sul. Eu estou apaixonada por esse universo.

Você gosta do Milton Hatoum?

DP – O Milton foi uma injeção de ânimo para a descoberta desses literatos amazônicos. E o Milton, apesar de ser manauara — porque ele é de Manaus, e eu sou paraense — ele tem uma universalidade daquela Amazônia. Eu, como paraense, percebo algumas diferenças entre as influências, mas é impressionante… Eu ainda não o conheço pessoalmente, a gente já se conhece de e-mail. Os livros dele eu gosto muito. Comecei com Dois irmãos (Companhia das Letras), como todas as pessoas estão começando, mas o Cinzas do Norte (Companhia das Letras) me pegou mais profundamente — foi mais inusitado para mim.

Em Menina flor e o boto (Língua Geral, 2009), aparecem vários termos amazônicos.

DP – Eu tentei usar dos meus “paraensismos” todos porque eu, como paraense, me sinto muito estrangeira, quando vou falar. Agora menos até, assim: azeite de andiroba, copaíba, cupuaçu, taperebá, uchi, bacuri, tracajá… É uma linguagem que dá para fazer uma poesia só de falar os nomes amazônicos, você pode colocar em qualquer ordem que vai falar de poesia. Então, imagina numa atividade extraclasse você colocar esses nomes, colocar as crianças para tirarem e começar com um nome. O que é cupuaçuzeiro? Ou açaizal? O próprio boto. A minha expectativa com o livro é aguçar a curiosidade em torno de palavras muito comuns para uma criança amazônica e totalmente incomuns para uma criança que não teve essa relação com a Amazônia. Um afilhado meu, o Lourenço, oito anos, disse: “Tia, mas seu livro é difícil.” É? E o que é difícil? “Olha aqui: a-ça-i-zei-ro; cu-pu-a-çu-zei-ro; ta-pe-re-ba-zei-ro.” Falei: “É porque você não conhece.” Na verdade, ele tinha entendido a historia, tinha absorvido, mas realmente: cu-pu-çu.. cu-çu.. cu-a-pu.. Nem eu sei falar mais essa palavra (risos). Cupuaçuzeiro, pronto, foi. Mas achei legal essa observação porque era isso que eu queria realmente despertar. E eu perguntei: “O que é cupuaçuzeiro?” Ele: “O quê?” “Você não toma suco de cupuaçu? Já experimentou?” “Ah é, a árvore do cupuaçu.” E aí começa a descobrir.

Você lembra algum poema de cor?

DP – Eu não tenho. Engraçado, outro dia eu estava conversando com meu marido sobre isso: os que conseguem declamar; é um exercício. Eu já declamei muito, e já decorei poemas enormes. Mas é como se eu precisasse vagar o espaço para entrar outras coisas. Então, eu não me atreveria a declamar, mas, por exemplo, tem coisas que eu gosto muito: de Manuel de Barros. Ele traz uma sensibilidade muito acessível e muito atemporal; parece que ele está escrevendo para um ser humano que não tem idade. Eu aprecio muito, mas eu não sei de cor. Infelizmente vou ficar devendo.

Então, fica a indicação do filme do cineasta Pedro Cezar: Só dez por cento é mentira — um documentário sobre Manuel de Barros.

DP – Ainda não assisti. Quero ver.

 


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