EUCANAÃ FERRAZ

ALGUMA POESIA - ESTREIA DE DRUMMOND COMPLETA 80 ANOS E GANHA EDIÇÃO LUXUOSA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

eucanaa

 

“Às vezes, as pessoas me perguntam que poeta jovem que estou lendo hoje… Drummond é o poeta jovem que estou lendo que me deixa impactado.” A afirmação do professor e poeta Eucanaã Ferraz é a prova de que os poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ainda têm muita vitalidade.

Alguma poesia, livro de estreia de Drummond lançado em 1930 pelo selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro, ganhou uma edição fac-similar organizada por Eucanaã Ferraz. A publicação — Alguma poesia, o livro em seu tempo (Instituto Moreira Salles, 2010) — é baseada no volume que pertenceu ao próprio autor e contém anotações de Drummond, que tinha 28 anos quando o livro foi editado, além de correspondências trocadas com amigos e críticas publicadas nesse período.

“É um livro importante não só para compreender a obra do Drummond, mas o movimento da poesia moderna como um todo”, explica Eucanaã ao falar e ler poemas da edição comemorativa do poeta mais influente da literatura brasileira. Confira a entrevista e alguns dos poemas do livro.

Qual a importância de lançar a edição especial fac-similar do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia?

Eucanaã Ferraz – Esse ano se comemora 80 anos da edição do livro, lançado em 1930. É o primeiro livro do Drummond, um marco na poesia moderna brasileira. Em função desta data, pensei em fazer algum tipo de comemoração… Sugeri que fizéssemos alguma coisa no Instituto Moreira Salles, onde cuido da programação de literatura. Mas não sabia exatamente o que fazer. Conversando com Pedro Drummond, neto do poeta, ele deu a ideia: “Por que vocês não fazem uma edição fac-similar do Alguma poesia?” Eu achei a ideia muito boa, até que ele me mostrou o livro e vi que a ideia não era só boa, era excelente. Porque não era o fac-símile de um exemplar, mas o exemplar que pertenceu ao Drummond. Você não tem só uma primeira edição, mas a primeira edição anotada, com pequenas emendas que o Drummond incorporaria na edição seguinte, que é de 1942. Isso torna, de fato, esse livro um tesouro. E uma coisa que o Pedro gosta muito, esse exemplar do Drummond tem uma capa dura em couro azul e, em baixo relevo, desenho do (ilustrador) Santa Rosa (1909-1956). Achei a ideia excelente. “Vamos fazer!” A ideia do Pedro era fazer mesmo o livro, com mesmo tamanho, para se ter o próprio livro na mão. Achei que a ideia era boa, mas talvez fosse melhor crescer um pouco… É melhor que o leitor tenha uma orientação: “O que é o livro? O que o livro significa? Que livro foi esse?” Fazer simplesmente o fac-símile não era suficiente. Resolvemos fazer o fac-símile dentro e acrescentar as críticas que saíram na época. Isso é uma coisa muito curiosa porque eu sempre ouvi falar que o livro tinha sofrido ataques muito fortes. Você imagina que tipos de ataques seriam… Mas, na verdade, eu nunca tinha visto. Na (Fundação) Casa de Rui Barbosa, no Arquivo-Museu (de Literatura Brasileira) há um arquivo enorme, organizado pelo próprio Drummond, onde se tem muitos recortes de jornais. E, espalhadas ao longo, várias críticas do livro. Então, reuni essas críticas, a primeira recepção do livro, todas de 1930, duas ou três de 1931. De fato, é um levantamento histórico da recepção crítica. Além do interesse para conhecimento do livro, é curioso compreender a própria crítica. Como é que se escrevia em 1930? Como é que se recebia, em 1930, um livro tão impactante quanto esse, de fato, tão moderno, tão arrojado? Participam desse mesmo universo da recepção do livro, que descobri também na Casa de Rui Barbosa, trocas de correspondências do Drummond com seus amigos. O Drummond mandava o livro e os amigos escreviam de volta. Amigos e outros menos íntimos… Há também um quadro da recepção do livro pelas cartas. Eu já tinha montado, portanto, o livro e a recepção do livro. E fiz um prefácio, uma apresentação, contando um pouco como o livro se construiu. Na verdade, quando o livro se constrói, em 1930, o meu texto para.

Alguma poesia é fundamental para entender a obra de Carlos Drummond de Andrade, pois neste livro encontram-se características que permanecem em sua produção poética. O que há de tão impactante na poesia do Drummond?

Eucanaã Ferraz – É um livro importante não só para compreender a obra do Drummond, mas o movimento da poesia moderna como um todo. Em 1930, juntamente com Alguma poesia, tem o primeiro livro modernista do (Manuel) Bandeira (1886-1968), Libertinagem, e o primeiro livro (Poemas) de Murilo Mendes (1901-1965). Três livros que são definitivos para a poesia moderna. Em 1930, há uma consolidação do Modernismo, que vai se desenvolver na década de 1920, sobretudo na Semana de 1922, como “Festa de inauguração” — há quem não considere inauguração, mas um fio de um processo… De qualquer modo, em 1930 há o fechamento de um ciclo e o início de outro ciclo da poesia moderna. Várias questões que evoluíram, foram tramadas ao longo dos anos 1920, se resolvem. A questão do nacionalismo se resolve de outra maneira, o olhar é mais crítico, mais diferenciado. E, ao mesmo tempo, há o processo de amadurecimento de certas técnicas. Não tem mais uma certa ingenuidade do primeiro Modernismo… O livro do Drummond, na verdade, leva dez anos para ser feito. Ele vai mandando os poemas, trocando correspondência com os amigos, sobretudo com Mario de Andrade (1893–1945), que tem um papel fundamental na construção deste livro.Alguma poesia é um divisor de águas da própria poesia moderna no Brasil. Com relação ao Drummond, esse livro é fundamental porque já temos o Drummond neste livro. Quando você lê o “Poema de sete faces” — embora seja um poema muito específico, com um tipo de construção que não se encontra, por exemplo, ao longo do livro — tem todas as faces do Drummond. Você tem humor, dramaticidade, choques, ritmos e, ao mesmo tempo, o senso da medida, quase metrificada… Um jogo com as repetições, um distanciamento irônico, que é típico do Drummond: “Vai, Carlos! Ser gauche na vida.” Ele está se vendo de fora, ele chama a si mesmo de Carlos, ele inventa uma cena onde ele é o personagem… Têm vários jogos estilísticos, certas questões psíquicas e emocionais que vão continuar ao longo da obra do Drummond. É como se o livro fosse um grande balão de ensaio para a obra futura, mais madura, do Drummond. Então, quando você lê esse livro é muito surpreendente porque ele soa muito moderno hoje. Às vezes, as pessoas me perguntam que poeta jovem que estou lendo hoje… Drummond é o poeta jovem que estou lendo que me deixa impactado. Tem muito frescor, humor, erotismo, experimentação… É um livro muito corajoso formalmente. É um grande livro.

 

> Leia três poemas do livro de estreia de Drummond

 

Poema de sete faces

Quando nasci um anjo torto

desses que vive na sombra

falou: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

Que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

Pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raymundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

Infância

A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala – nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

– Psiu… Não acorde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Coração numeroso

Foi no Rio.

Eu passava na Avenida quase meia-noite.

Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar

e bondes tilintavam,

abafando o calor

que soprava no vento

e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver

(a vida para mim é vontade de morrer)

faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente

na Galeria Cruzeiro quente quente

e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,

nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas

autos abertos correndo caminho do mar

voluptuosidade errante do calor

mil presentes da vida aos homens indiferentes,

que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.

A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu

a cidade sou eu

sou eu a cidade

meu amor.



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