VIVIANE MOSÉ

PALAVRA DE POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

vivianemoseDivulgação

 

A capixaba Viviane Mosé é filósofa, psicanalista e poeta. Sua produção literária é tão intensa como sua maneira de levar a vida: “Toda vez que estou tomada por uma sensação quero imediatamente escrever. Colocar palavra no papel é um alívio. Eu sou uma pessoa de palavra. As palavras dominam a minha cabeça”.

É um engano creditar ao quadro ”Ser ou não ser”, do Fantástico, o reconhecimento do seu trabalho. O programa de TV trouxe popularidade, mas foi através da paixão pelas palavras e maneira de dizer poesias que Viviane, cria do CEP 20.000, conquistou seus leitores.

O livro Receita para lavar palavra suja (Arte Clara) foi o convite que recebi para conhecer seus poemas. Encontrei o exemplar rasurado num sebo, no Centro do Rio de Janeiro, em 2004. Sem saber, a poeta me ensinou a ”arte de lavar palavras”. Desde então, a minha relação com a poesia se modificou: a leitura, antes considerada chata, passou a ser sinônimo de prazer.

Outro livro também chamou minha atenção: Stela do Patrocínio – Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Azougue Editorial), uma coletânea de poemas de Stela do Patrocínio, paciente da Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira. Mas o que me impressiona em Viviane é sua capacidade de transitar entre o universo acadêmico e a efervescência da produção literária contemporânea.

Além dos livros de poesia, como Escritos (Ímã e UFES); Toda Palavra ePensamento Chão (ambos pela Record), Viviane participou da coletânea de artigos filosóficos, Assim Falou Nietzsche (7Letras, UFOP), e publicou sua tese de doutorado, Nietzsche e a grande política da linguagem (Civilização Brasileira) – filósofo que ela estuda desde os 16 anos. E, ainda, é autora dos textos poéticos da personagem Camila no filme Nome Próprio, do cineasta Murilo Salles.

Não faltou assunto em nosso encontro no Rio de Janeiro, no Talho Capixaba – local escolhido pela poeta. A conversa foi muito longa, por isso teve de ser publicada em três partes. Viviane fala sobre psicanálise, filosofia, família, amores e o ofício da escrita. Enfim, um bate-papo realizado por um admirador confesso.


Foto Tomas Rangel

Você é filósofa, poeta, psicanalista e, agora, roteirista. Como é relação da psicanálise com o seu processo de criação literário?
VM – Eu entrei na faculdade aos dezesseis anos. E sempre foi assim, sei muito o que sei e não sei nada o que não sei. Depois que fiquei mais velha, fui obrigada a aprender o que também não gosto. Aos 15 anos, tive de decidir por fazer faculdade de psicologia. Havia uma coisa insuportável dentro de mim, eu não cabia dentro de mim. Tenho um poema novo, Rio, que diz assim: ”eu sofro de excessos.” A psicologia ajudou a enfrentar esse monstro insuportável que há dentro de mim. Nunca separei uma coisa da outra: estudava psicologia, monitorava uma turma de filosofia e escrevia poemas. Sempre gostei de escrever e falar poemas, tudo está misturado dentro de mim. Quando terminei a faculdade, fiz mestrado em filosofia e continuei escrevendo.

Você faz análise?

VM – Fiz análise dos 19 anos aos trinta e poucos anos. E trabalhei 15 anos como psicanalista. Fiquei cerca de sete anos morando no Rio de Janeiro e trabalhando num consultório no Espírito Santo. Eu só conseguia ganhar dinheiro em Vitória. Quando meu filho nasceu, há quatro anos, eu parei trabalhar como psicanalista.

Como é ser psicanalista?

VM – É ótimo, mas há um lado complicado. Uma vez fui convidada para ser passista da União da Ilha. E eu adoro sambar, é o que faço melhor na vida. Se você acha que escrevo bem poemas é porque nunca me viu sambando (risos). Eu amo samba. Então, eu estava em um ensaio e me chamaram para um teste para ser passista. Mas não concorri porque era psicanalista. Imagina? Uma psicanalista de tapa-sexo e sandálias (risos). O que tornou minha vida insuportável em Vitória era que eu atendia metade da cidade, não podia nem tomar um porre. Mas é maravilhoso ser psicanalista. As pessoas derramam, transbordam na sua frente. São momentos de extrema beleza. Adoro lágrimas. O dia que me toquei foi quando vi o afeto de uma pessoa se transformar num rio. As pessoas viram água.

Foto Tomas Rangel

E você chora muito?

VM – Eu choro com facilidade, mas não na frente dos outros. Eu choro de dobrar. Mas transbordo sem lágrima, por pura timidez.

O que atrai no Rio de Janeiro e no Espírito Santo?

VM – Adoro o Espírito Santo. Moro no Rio há 18 anos, mas faço questão de não mudar o meu sotaque.

Há um poema seu que fala do Espírito Santo…

VM – Eu venho do Espírito Santo / Eu sou do Espírito Santo / Eu trago a Vitória do Espírito Santo / Santo é um espírito capaz de operar milagres sobre si mesmo. O povo do Espírito Santo é muito forte. Eu saí de lá porque estava pequeno para mim. As coisas não me cabem, sinto muita angústia.

O que foi melhor na mudança de cidade?

VM – Na época, foi andar na rua e ninguém me conhecer.


vivianemose5Foto Tomas Rangel

Como você lida com a popularidade do quadro Ser ou Não Ser no Fantástico?

VM – Eu adoro quando estou andando na rua e me dizem: “minha vida mudou porque assisti o quadro do Fantástico.” Se o programa agrada a pessoas que não leem é porque o meu trabalho funciona. Quando passo no Jardim Botânico e o porteiro fala – “ser ou não ser?” – fico satisfeita. O programa abriu portas profissionais, mas não é uma carreira que me interessa. Tive convites para fazer outros trabalhos e neguei. Gosto de produzir conteúdo para televisão. Essa é a popularidade que posso suportar. Preciso de pouco para ser invadida, porque sou envergonhada.

Como reage às críticas ao seu quadro no Fantástico?

VM – Eu tive medo, mas não tive críticas dos acadêmicos. Meus professores elogiaram, isso importa. Os jornalistas criticaram, mas não entendem nada. Sou muito rigorosa com meu trabalho. Trabalhei um ano inteiro para ficar três meses no ar. Se falam mal do meu quadro no Fantástico é pelo excesso de zelo.

O que une a poesia, a psicanálise e a filosofia?

VM – A palavra. A paixão pela palavra. Tenho um poema que diz:

Palavras são estacas fincadas no chão / Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.

Fale dessa relação com as palavras.

VM – Toda vez que estou tomada por uma sensação, quero imediatamente escrever. Colocar palavra no papel é um alívio. Eu sou uma pessoa de palavra. As palavras dominam a minha cabeça. Por que faço filosofia e psicanálise? Para dar vazão a essas palavras, encaminhar a galera. Eu tenho perplexidade pela palavra. Como pode um som dar conta de tanta coisa? Eu me casei com um homem que fala bem, por exemplo. Ele fala com amor e isso é essencial.

Você é casada com o cineasta Daniel Rocha. Você se casou com um homem mais jovem e foi mãe aos 37 anos…

VM – Exatamente. Saí de casa aos 19 anos e fui morar com o namorado, ficamos quatro anos juntos. Casei cedo, mas quando me separei, senti não podia ter uma família. Eu demorei muito a ser uma pessoa. O que eu era? Um monte de pedaços que eu ia juntando, não tinha pé no chão. Eu me separei, mesmo amando, consciente de que precisava de mais. Tive muitos amores, mas com nenhum tive a ideia de ter filho. Quando fiz trinta anos achei que estava velha, que não podia usar determinada roupa. Mas esse pensamento ridículo não durou três meses. Sei que uma mulher de trinta anos é uma menina (risos). Mas não tive crise de idade, não. Tenho 44 anos e nunca tive dor de idade. Sou uma pessoa que vai querer morrer, mas não tenho problema com isso.

Você tem poemas que abordam o envelhecimento: ”Por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo”. ”O tempo riscou meu rosto com uma navalha fina”. Como é a sua relação com o tempo?

VM – Posso morrer com uns 95 anos, minha família vive muito. Eu adoro a velhice! Tenho saudade da minha velhice, quase. O tempo tira determinadas expectativas. Já não dá mais para ser bailarina, não preciso sofrer. Tenho uma lista de livros para serem lidos. A vida não para, não tem pausa. Não tenho medo da morte. Mas tenho um filho, então só posso morrer depois dos setenta.

O que é ser mãe?

VM – Ser mãe é mudar radicalmente de perspectiva. Quando Davi nasceu, aprendi a esperar e a ser portadora de algo. No primeiro ano de vida do meu filho, não existi como “eu”. Existi para o trabalho, que era para ele. Sempre defendi o não ser. O ”eu” é a desgraça contemporânea, uma centralização em torno do nome. Somos muito mais do que o ”eu”, que é reduzido. O meu filho me faz exercitar menos o ”eu”. Davi é a palavra, ele fala coisas incríveis com um discurso elaborado. As pessoas se impressionam, é engraçado.

Na infância, você teve relação com livros?

VM – Tive. Meu pai só cursou o segundo grau, supletivo, porque teve de trabalhar para ganhar dinheiro. Mas ele sempre foi apaixonado por estudo. No almoço, meu pai sempre discutia um livro que estava lendo. Eu digo, explicitamente, me relacionei com os livros para seduzir meu pai.

Quais escritores influenciam o seu trabalho?

VM – Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, Drummond, Arnaldo Antunes, Manuel de Barros e Guimarães Rosa. Tenho muita dificuldade com outras línguas. Leio bem, mas não falo e não escrevo nada em outro idioma. É um problema.

Você lê os contemporâneos?

VM – Leio pouco. Quando leio literatura, sempre vou para os clássicos. Até na filosofia é assim, raramente leio filosofia contemporânea. O mais recente que li foi o Arnaldo Antunes. Falta tempo. Mas nos próximos anos quero me dedicar mais a literatura do que a filosofia.

”Nietzsche, João Cabral de Melo Neto, Jorge Luis Borges, Clarice Lispector, Michel Foucault, Tom Jobim e Astor Piazzola. Mas meu grande ídolo mesmo é Pelé”. É isso mesmo?

VM – (Risos.) Sim, é o Pelé. Adoro futebol. O futebol é uma arte impressionante, como se o mundo estivesse no pé. Pelé é um gênio do futebol. Adoro o Garrincha, mas o Pelé me emociona.

Você tem dois sambas compostos com a Martinália?

VM – (Risos.) São antigos. Conheci o Martinho da Vila, em Vitória, num encontro de arte negra, o Quizomba. Tentei ser letrista com a Martinália, mas nunca me satisfiz. Uma letra chama-se ”Contradição” e a outra ”Não me balança mais”. O Emílio Santiago e Martinália gravaram. Tenho outras letras não gravadas em parceria com compositores capixabas. Mas essa não é minha praia, é difícil.

Você estreou como atriz no monólogo de sua autoria, Pensamento Chão, dirigido por Ana Kfouri, em cartaz no Teatro Sérgio Porto, em janeiro de 2001. Em novembro e dezembro de 2004, esteve em cartaz no Teatro ArteClara com o monólogo Receita para lavar suja, dirigido por Daniel Rocha. Você também é atriz? Pretende voltar a atuar no teatro?

VM – Não trabalho como atriz. Sou muito ruim como atriz porque só sei fazer o meu papel. Num espetáculo de poemas, eu me transponho a um personagem meu. O que sei fazer é ficar no palco falando poemas. Em 2009 quero fazer um novo espetáculo de poemas. É isso que me interessa. Sabe qual o meu sonho de vida? Falar poemas num teatro grande, como o Theatro Municipal. É um sonho megalomaníaco.

Como consegue conciliar a professora de filosofia, a poeta, a mãe, a apresentadora de TV e a esposa?

VM – Faço uma coisa de cada vez. Quando escrevo filosofia, tenho de eliminar a poesia. Espero que um dia tudo isso se junte. Espero um dia escrever poesia com filosofia e vice-versa. É difícil, mas um dia, quem sabe…

O que é mais importante para você?

VM – Transformar a intensidade em signo. É o mesmo que viver. Viver é transformar a vibração em palavra, signo. O que importa é manter os poros abertos para continuar sentindo. A coisa mais importante do mundo é ser um filtro. Recebo o tempo inteiro da vida.

As pessoas estão interessadas em literatura?

VM – Muito! Quando cheguei ao Rio, para falar poesia no CEP 20000, eu dava autógrafo no Posto 9. No Rio de Janeiro, fiquei conhecida pelos poemas. Sabe por que poesia vende pouco? Porque um livro de poesia dura a vida inteira. É diferente do romance, acabou você sabe o final.

Você tem experiência em falar seus versos em público. Qual a importância do CEP 20 000?

VM – Conheci o Chacal em Vitória, nas minhas falações de poesias. Eu nem tinha um livro escrito. Quando vim morar no Rio, fiz uma oficina com o Chacal no Parque Lage. A oficina acabou, mas o grupo ficou se reunindo por dois anos. Depois, fui convidada para participar do CEP e fiquei. O CEP é uma das coisas por que mais tenho carinho no Rio de Janeiro. O CEP faz as pessoas virarem adultas sem enlouquecer, sem se matar. O CEP deveria ser política pública. O Chacal e o (Guilherme) Zarvos inventaram algo que vai ficar eterno.

Você publicou um livro sobre a Stela do Patrocínio. Como você descobriu a Stela? Qual a relação entre a loucura e a arte?

VM – A Stela é uma das pessoas mais incríveis que já existiu. Na época, fui convidada pelo diretor do Museu Bispo do Rosário para organizar a área de literatura. Fiquei lá um tempo catalogando e no meio disso apareceu um livrinho da psicóloga da Stela do Patrocínio. Então, resolvi procurar a Stela e me disseram que ela já tinha morrido há muitos anos. Fiquei arrasada. Contei minha angústia para o Chacal e ele disse já ter ouvido falar na Stela. O Cabelo, do grupo Boato, falava poemas dela no CEP. A estagiária, Carla Gaiarde, era a melhor amiga do Cabelo e tinha as fitas de entrevista da Stela. Ela me deu as fitas e consegui fazer o livro.

Por que você escolheu estudar Nietzsche?

VM – Porque me apaixonei por ele aos 16 anos. Desde o primeiro dia de aula, na faculdade de psicologia, quando o professor falou de existencialismo. Ao mesmo tempo conheci o Daniel Lins, que na época trabalhava como terapeuta em Vitória e fazia um grupo para estudar Nietzsche. E depois conheci o professor Nelson Lutero. Cresci com o Nietzsche, fiz mestrado e doutorado.

Qual a importância do filósofo Roberto Machado na sua vida?

VM – Toda. Se Chacal tem importância para mim na poesia, o Roberto Machado é fundamental na filosofia. Conheci o Roberto na graduação, quando apresentei um trabalho chamado ”Nietzsche, Artaud e a Arte”. Fiz mestrado na PUC-RJ só para estudar com ele.

Por que a maioria das pessoas tende a achar que filosofia é chata?

VM – Porque os professores são chatos. Não todos, mas alguns. A Filosofia tem de resgatar o saber explosivo, o exercício vivo do pensamento. Mas ela fica chata quando alguém ensina como uma coisa morta. A Filosofia está morta por culpa da universidade. Como diz Cristóvão Buarque: ”A universidade é um cemitério de intelectuais.” A Educação está enterrada, a universidade precisa se renovar.

Como foi a experiência de trabalhar com Murilo Salles, em Nome Próprio?

VM – Quando fui convidada, achei que não fosse conseguir fazer. Mas o Murilo falou: “O filme está pronto, na verdade você vai inserir poemas em determinadas cenas.” Decidi que faria o trabalho em trinta segundos de filme, fiquei impressionada com a câmera do Murilo. Fiz o filme porque fala de transbordamento e intensidade. Amo. Foi uma ótima parceria. O Murilo me convidou para participar de seu novo filme. Vou dar intensidade filosófica e poética para o texto dos personagens.

O que é poesia?

VM – É um estado poético. É o momento em que me encaixo na vida. Não sou nada, não tenho medo ou angústia. É situação de perfeição, rara (risos).

(Viviane ri da própria empolgação)

Você pode falar um poema?

VM – Vou falar um que eu adoro falar quando termino de falar poemas:

era tarde nas janelas da sala / gosto de tarde que eu queria lamber / eu tenho vontade de lamber as coisas que gosto / mesmo as que não gosto costumo lamber sem querer / às vezes com língua molhada escorrida / outras vezes com a língua da palavra / quando tem cheiros ruins ou asperezas estranhas ao paladar de minha pessoa / ou por nada mesmo por gosto / passo a língua nas coisas que vejo / e passo as coisas que vejo para língua

(Risos.)

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

VM – Jamais aconselharia um jovem escritor a fazer Letras. Estudar Letras pode humilhar um iniciante. Para mim, é humilhante ler Clarice. Ninguém precisa escrever mais nada depois dela. Eu tenho sempre que matar Clarice para poder existir. A arte é igual para todos. Sou artista. O que é ser artista? Ficar disponível a exterioridade. Da vida interior não sai nada, é da relação com a vida. Temos que desenvolver a perplexidade do olhar, alguns suportam o fardo e continuam. O Nietzsche diz que a condição da arte é a coragem.


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