FAUSTO FAWCETT

A ESCRITA PROFÉTICA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

faustofawcett

 

Ícone do submundo de Copacabana, o escritor e cantor que eternizou o bairro mais famoso do Rio de Janeiro no imaginário popular, Fausto Fawcett, está de volta. Desta vez, mais literário, “palavroso”, do que quando surgiu na década de 1980 com suas loiras provocantes: a editora Papagaio vai investir em sua produção literária.

“Todos me associam a um trabalho musical e shows. Essa vertente literária ainda não está ‘cravada’, digamos assim, como uma referência. Por isso, vai ser importante (a publicação dos livros). Como derivação dessa iniciativa, também o fato dos textos estarem com força, passando pelo tempo.”

Além de lançar dois títulos inéditos — Favelost e Loirinha levada —, Fausto Fawcett organiza a reedição dos livros anteriores: Santa Clara Poltergeist(1990), Básico instinto (1992) e Copacabana lua cheia (2001). Tudo sem perder a força de suas histórias, que misturam caos tecnológico e urbanidade, e sempre se desdobram em outros trabalhos, seja show musical, teatro ou performance.

“Escrevo ouvindo música, vendo televisão, parando para botar um filme, DVD… Já tenho esse processo tudo-ao-mesmo-tempo-agora-junto-e-misturado. Uma coisa acaba parando na outra. Uma letra que eu faça para Fernanda Abreu pode chegar a ser burilada, virar uma história. Não fico escrevendo e colocando na gaveta. Isso pra mim não existe”, afirma Fawcett.

Na verdade, a literatura sempre serviu como base, e pretexto, para os outros trabalhos de Fawcett, recheados de referências cultivadas ainda na infância. O encontro com os parceiros Laufer, Nélson Meirelles e Sérgio Mekler — os Robôs Efêmeros — foi fundamental para que escolhesse seu caminho.

“O negócio era temático pra mim. O primeiro álbum é Copacabana (Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987)); o segundo tem Copacabana, mas já passou para São Paulo, Império dos sentidos (1989), com Silvia Pfeiffer na capa, como se fosse uma ópera-rap; e o terceiro foi Básico instinto (1993), já com aquele supercabaré, quando inventamos o teatro de revista samba-funk.” A base são os textos, sempre. Por isso, Fawcett comemora a (re)publicação de livros.

A editora Papagaio vai lançar dois inéditos seus: Favelost e Loirinha levada. Além disso, haverá a republicação de títulos anteriores:Santa Clara Poltergeist (1990), Básico instinto (1992) e Copacabana lua cheia (2001). Fale sobre esse investimento em sua produção literária.

Fausto Fawcett – No que diz respeito à republicação dos livros, vai ser importante para colocar essa “marca literária” do meu trabalho de forma mais enfática. Todos me associam a um trabalho musical e shows. Essa vertente literária ainda não está “cravada”, digamos assim, como uma referência. Por isso, vai ser importante. Como derivação dessa iniciativa, também o fato de os textos estarem com força, passando pelo tempo. O Santa Clara…está fazendo 20 anos, teve uma aceitação boa da crítica, acabou se tornando uma referência para o universo de ficção científica.

Você já definiu seu livro Loirinha levada como “um infantil para crianças espertas”…

FF – (risos) Exatamente. Ainda vamos ver como colocar isso. É uma menina sub-12. Não sabemos como estão as crianças hoje. Talvez possamos classificar como tamagotchi até uns três e quatro anos, depois entre quatro e oito: “Tá bom, crianças.” Depois é sub-12, sub-16… São demarcações mentais, comerciais. Até chegar o neoidoso. Acabou essa história do cara ficar velho, aposentado, pijama. Em Copacabana, os velhinhos botam pra quebrar o tempo todo. No caso da menina, a personagem vai contando a história. O adjetivo “levada”, é pelo fato de ela aprontar bastante e por acompanhar os pais a muitos lugares. Ela gostou de ouvir um músico dizer que tinha uma “levada” bacana para uma música. Então, ela gosta de dizer que tem uma “levada” dentro dela. E vive de “tuitagem”, pega todas as falas dos adultos… O irmão morre, os pais se separam… Ainda não acabei. Vai ser um livro para crianças espertas. Ou o primeiro livro infantil só para adultos (risos).

E o Favelost?

FF – Favelost estava na minha cabeça há uns três anos, mas no começo do ano que mandei quinta marcha. Tem quatro núcleos na história. É uma mancha urbana, Rio-São Paulo, ali na Via Dutra, na beira do Paraíba do Sul, completamente tomada. Não tem mais São José dos Campos, Aparecida, Volta Redonda… As cidades são lembradas por causa das entradas. Elas viraram bairros de uma grande mancha, as cidades praticamente se juntaram. Nova York, Tóquio, todas as grandes cidades têm uma mancha urbana. Isso me fascina. Essa mancha ganha o apelido de Favelost. Tem “tuiteiros” multibilionários – aqueles que têm mais de 50 bilhões na conta, o resto é merda — que se perguntam: “O que vamos fazer?” Loucos pelo seriado Lost, sequestraram os atores para colocar numa mancha urbana do Brasil. Nesse lugar se prolifera um território off-off. Favelost pode ser definida como Serra Pelada, Caixa de Pandora, Arca de Noé… Vai muita gente para fazer parte dessas experimentações. Mas ali nada dura muito tempo, inclusive as pessoas. E há um casal — Júpiter Alighieri e Eminência Paula —, uma paulista com uma carioca, que se encontram no meio dessa história. Essa história tem a ver com os livros Santa Clara…, Copacabana eBásico instinto.

O que mudou desde a publicação do seu primeiro livro Santa Clara Poltergeist (1990)? Como avalia sua trajetória literária?

FF – Primeiro, os assuntos. No caso do Favelost, especificamente, urbanidade e tecnologia estão presentes. Todas as observações que venho colocando em música e texto, desde 1980, vêm-se confirmando. É como se eu estivesse falando de um mesmo assunto com amadurecimento em torno do tema.

Há autores que acreditam escrever o mesmo livro. Na sua obra é possível perceber a presença constante desses temas: caos tecnológico, urbanidade, Copacabana, as loiras… Você escreve um mesmo livro?

FF – De certa forma, sim. Essas obsessões, compulsões, para escrever, são fundamentais. Eu gosto de escritores como o Dalton Trevisan. Ele está fazendo várias biópsias sociais, psicológicas. É uma pedra de Sísifo, como uma cobra que morde o próprio rabo. Cada vez que uma mulher abre a perna, coloca um tamagotchi no mundo. Vamos repetir a mesma história etc… Inventamos utopias, civilizações, histórias para dizer que vamos mudar. O cristianismo foi quem mais fomentou essa ideia. Como não tenho essa perspectiva progressista, faço um flagrante dessas redundâncias. Dessa agoniada, mas também maravilhosa forma de vida apelidada de humanidade. E com foco nas grandes cidades, nesse caos. Como se tivesse um cinturão vulcânico, daqueles que têm no Oceano Pacífico. É como se pegasse São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Tóquio… Priminhas entre si, por razões capitalistas e poluição humana. Cada uma, obviamente, com seus molhos locais.

Tem uma letra de música sua que diz: “A novidade cultural da garotada favelada, suburbana, classe média marginal é a informática metralha subazul equipadinha com cartucho musical de batucada digital.” Você se considera um profeta da tecnologia?

FF – Essa letra é de “Rio 40 Graus”, de 1992. No primeiro álbum também tinha alguma tirada, reflexão, sobre esse assunto. Temos que ficar atentos para tendências. Assim, na ficção científica e outras literaturas, damos uma exagerada nessa tendência. Faço uma especulação em torno disso, uma espécie de bolsa de valores literária, estética. Não há como negar que uma das características não é a tecnologia como algo que vai nos salvar, mas a banalidade dos gadgets, das quinquilharias. Não precisa se preocupar muito, toda semana tem novidade. A banalização é mais interessante do que certas utopias tecnológicas, a Internet… Tudo que está acontecendo agora como uma recreação da humanidade. Não vejo dessa forma. Temos a classe média mundial, mas também temos a sombra do Mad Max. O Haiti é um exemplo. Alguma hora pode faltar petróleo… Vai ter sempre guerra para sacudir a gente. Tecnologia é um detalhe.

Enquanto músico e escritor, como é sua relação com a tecnologia no dia a dia?

FF – Estamos falando de tecnologia no sentido digital. É muito pouca a inclusão digital. Quando todo mundo souber programar, estiver inventando na máquina, aí sim teremos a utilização em grande escala. Por enquanto é eletrodoméstico. Quando se digita, a solidão parece que fica mais leve. Estou nessa onda de todo mundo, de uso normal, trivial.

Há diferença na sua produção de música e de literatura?

FF – É misturado. Escrevo ouvindo música, vendo televisão, parando para botar um filme, DVD… Já tenho esse processo tudo-ao-mesmo-tempo-agora-junto-e-misturado. Uma coisa acaba parando na outra. Uma letra que eu faço para Fernanda Abreu pode chegar a ser burilada, virar uma história. Não fico escrevendo e colocando na gaveta. Isso pra mim não existe. Gosto muito de trabalhar por encomenda. Estou sempre tomando nota: aforismos, frases, ideias. Se o Chelpa Ferrro — grupo experimental de artistas plásticos — me chama para fazer uma apresentação no CEP 20.000, do Chacal, faço um texto… E isso pode servir como piso literário para encenação, performance. E, ainda, vai servir para música. Mesmo o livro, que tem a mancha de prosa, tem um pé no ritmo. O modo como escrevo, gosto que tenha ritmo. Qualquer página vai ter alta voltagem de batida verbal, a música do verbo cinematográfico. Parte para várias linguagens. O princípio é o verbo, daí vai para música, teatro… A música tem uma ginga de prosa que tem uma sedução literária.

Quando me lembro de Copacabana, algumas figuras se impõem: Drummond, Ana Cristina Cesar e você. Fale sobre sua paixão por Copacabana.

FF – O Gilberto Gil disse que a Bahia deu régua e compasso para ele. Copacabana me deu a papelaria inteira. Ali começa a classe média, a zona Sul, a praia… Se você quiser história, está ali. Tem o Carlos Lacerda tomando tiro. Bossa Nova, Teatro Teresa Raquel, Jovem Guarda, TV Rio… História, história, história… Crimes. O que é interessante? O lugar é o principal cartão-postal do Rio. E cartão-postal do Brasil, em termos de sociedade. Copacabana é como se fosse uma capital humana do Rio de Janeiro. E, na zona Sul, tem a característica de ser um bairro heterogêneo. Você não sabe o que vai encontrar. É interessante para quem escreve. Outra coisa boa: tem uma vida boêmia, boate, submundo. Você pega a revista Cruzeiro, de 1950, está lá o submundo de Copacabana. Uma meia dúzia, mas está lá… (risos) É muito rico, e com todas as mazelas. É um ponto purgatório intenso. Muita gente tem medo de Copacabana: “Não vou aguentar isso aqui. É muita agitação…” Esse bairro é um laboratório, uma coisa vertiginosa e interessante.

Você estourou com o disco Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, com a música “Kátia Flávia”, em 1987. Pode-se dizer que desde então você está mais literário do que musical?

FF – Sim. Eu sempre me interessei em fazer performance. Fazíamos os Robôs Efêmeros — eu, Laufer, Nélson Meirelles e Sérgio Mekler — com apresentações de histórias, meia hora, eram duas, três histórias. A “Kátia Flávia” era uma história grande, foi retirado um pedaço dela para virar disco — o Liminha fez isso. Então, não tinha o rock and roll, já estava inserido num contexto literário. A apresentação que tinha um jeito de rock e tal… Eu não me via como cantor, eu queria fazer uns espetáculos que tinham a música como base. O negócio era temático pra mim. O primeiro álbum é Copacabana (Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987)); o segundo tem Copacabana, mas já passou para São Paulo,Império dos sentidos (1989), com Silvia Pfeiffer na capa, como se fosse uma ópera-rap; e o terceiro foi Básico instinto (1993), já com aquele supercabaré, quando inventamos o teatro de revista samba-funk. Não era para chegar a virar uma estrela de rock da música popular, tanto que fiquei mais numa linhagem mais de Walter Franco, Arrigo Barnabé… É claro, com um pé na Blitz, a coisa falada. A base, na verdade, eram os textos. Vai ser importante (re)publicar estes cinco livros.

Que escritores são suas referências?

FF – Aos quinze, dezesseis anos, houve uma certa enxurrada de livros que dão uma ideia pelo que mais me interesso. Laranja mecânica. Se eu tivesse que escolher o livro da minha vida seria Laranja mecânica. Pelas antecipações sociais do Anthony Burgess, em uma Inglaterra futurista, que depois virou o filme do Stanley Kubrick. E por esse caráter de prosa com batida poética. Porque Anthony Burgess era um estudioso do James Joyce, que acaba sendo o pai de todos. A Bíblia e depois o James Joyce. O Paulo Leminski com o livro Catatau; a Clarice Lispector, com Água viva e Maçã no escuro… Tinha Flores do mal (Baudelaire).O Muro, do Sartre. E Antonio Callado lançou um livro chamado Reflexos do baile, que é sensacional. O Jorge Mautner, com Fragmentos de sabonete. Toda uma literatura que tinha como mote a experimentação, isso que me interessava. E outro tipo mais filosófico e ensaístico, que é o que mais gosto, eu lia muito Aldous Huxley, Admirável mundo novo e A filosofia perene — um apanhado de ensaios de todas as religiões. Essa primeira fornada de livros que me deu uma base. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca também, uma época de contos, contos, contos o tempo todo. Passando por revistas científicas, faunas… Gosto de saber dessas coisas e fuçar.

O que você diria para um jovem que desejar se tornar um escritor?

FF – Leia, primeiro. Leia e estude. É básico. Escreva bastante. Depende o que está na cabeça da garotada que está querendo escrever. Não fique tão preocupado com o best-seller, ou ficar pra trás. Tem que ter obsessão. Um interesse muito genuíno, muito maluco, que precise escrever. E não achar que é a oitava maravilha do mundo. Tem que ter um senso de escriba. Tem que escrever e se interessar.



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