ZECA FONSECA

AS PALAVRAS QUENTES DE UM ADORADOR

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

zecafonseca

 

Zeca Fonseca acaba de concluir uma etapa especial de sua vida. Está lançando seu primeiro livro, O Adorador, pela Editora Guarda-Chuva. E a expectativa se torna maior para alguém que acaba de completar 50 anos, afirmando “nunca ter terminado nada na vida”, e ainda mais se tratando do filho de umas das vozes literárias mais importantes do nosso país, Rubem Fonseca.

“Resolvi fazer exatamente o contrário do que meu pai falava. Quer dizer, nem tanto assim, pois ele também foi fotógrafo, e inclusive a minha primeira câmera pertencia a ele. Mas o ato de escrever não tem a ver com o DNA. Você pode saber escrever e não compor três laudas…”.

O Adorador é surpreendente (oticamente atraente), as palavras seduzem em cada página. Ao folheá-lo, é impossível não querer seguir as aventuras do seu protagonista Lemok, um escritor frustrado que passeia por diversas referências contemporâneas expostas no nosso cotidiano. Quem acompanhar a caminhada desse personagem vai vivenciar experiências bastante excitantes. O livro do Zeca é repleto de “vidas possíveis”, como ele mesmo gosta de dizer.

‘’Não existe papo de alter ego! Para mim ficou muito mais claro que deveria escrever as coisas que não vivi ao ler uma frase do escritor francês chamado André Gide: ‘Um escritor medíocre escreve sobre a sua própria vidinha, enquanto um bom escritor escreve sobre as suas vidas possíveis!’ Ouça isso: ’Vidas possíveis!’ E é isso. A nossa vida pode ser outra o tempo inteiro, temos possibilidades…”.

O encontro aconteceu no apartamento do escritor, na Zona Sul do Rio de Janeiro, um espaço repleto de obras de arte – ele também é artista plástico –, fotos penduradas em todas as paredes. Conversamos na sala, com a companhia da sua assessora de imprensa, durante quase duas horas. Pensamentos maduros escapuliam no seu jeito meio adolescente e bem humorado.

“… Adorador de Boceta – assim queria primeiramente chamar o livro, mas a editora preferiu O Adorador, que depois também achei ótimo!”.

O DNA da escrita bateu agora?

Zeca Fonseca – Acho que não existe isso. Eu era “do contra”. Resolvi fazer exatamente o contrário do que meu pai falava. Quer dizer, nem tanto assim, pois ele também foi fotógrafo, e inclusive a minha primeira câmera pertencia a ele. Mas o ato de escrever não tem a ver com o DNA. Você pode saber escrever e não compor três laudas…

Você ainda trabalha com o jornalismo?

ZF – Ainda sou requisitado para trabalhos de fotojornalismo, mas há uns seis anos faço somente fotos por encomenda. Faço a foto que quero fazer. Sou artista-plástico. Olhe para estas paredes, são meus quadros (aponta para quadros pendurados na parede). A capa do meu livro saiu desta foto (aponta para uma foto enorme de uma boca com uma rosa vermelha). Então, comecei a fazer esses trabalhos, passei a ser chamado para exposições e vi que estava me afastando de jornalismo. Ah, tem hora que cansa… Uma vez fui fotografar um personagem para uma matéria de revista cujo tema era maconha. Lá, saiu tudo direitinho, mas, quando cheguei à redação, o editor reclama da foto, da luz… Perguntei se ele queria que eu fichasse o cara! Ele queria a foto do jeito dele, mas não é assim que trabalho, então fui me afastando. Chegou um momento em que eu estava solitário neste apartamento, fazendo fotos da lua.

Na infância você era ligado aos livros? Recebia incentivo para ler?

ZF – Meu pai nunca obrigou a gente a ler, o ambiente já era propício; um ambiente de literatura. Só se obriga a ler numa casa onde não há literatura. O primeiro livro que li foi um do Kafka, aos nove anos, e fiquei muito impressionado. Foi muito importante para mexer com meu imaginário, transformou minha percepção.

Como surgiu o livro?

ZF – Por causa desse caos de não pintar trabalho para mim, fui me transformando. Primeiro, me tornei artista plástico e fui vendendo uns bons trabalhos – tem gente que os curte, que se orgulha em colocá-los na parede! Depois passei a escrever. Já escrevia antes, mas na época desse livro eu estava com uma energia cumulada; estava apaixonado por uma mulher. Mas os personagens não têm nada a ver com a vida real, nada a ver. São ingredientes misturados; ovos, leite e um bocado de experiência acumulada. Não existe papo de alter ego! Para mim ficou muito mais claro que deveria escrever as coisas que não vivi ao ler uma frase do escritor francês chamado André Gide: “Um escritor medíocre escreve sobre a sua própria vidinha, enquanto um bom escritor escreve sobre as suas vidas possíveis!” Ouça isso: “Vidas possíveis!” E é isso. A nossa vida pode ser outra o tempo inteiro, temos possibilidades…

Quando tempo levou para escrever esse livro?

ZF – Pesquisei durante oito meses, depois, comecei a escrever… Acho que gastei um ano para escrever, em setembro de 2006 acabei. Foi a primeira coisa que acabei em minha vida; nunca tinha terminado nada. Nunca terminei nada na minha vida. Escrevia poemas e nada… Em outubro, eu andava com um calhamaço na mão, para baixo e para cima.

A quem primeiro mostrou o livro?

ZF – A uma ex-namorada, que trabalha no mercado editorial e ao meu irmão, Zé Henrique; ambos gostaram e me incentivaram muito. Antes, já tinha contado a meu irmão que estava pesquisando na Internet sobre mulheres casadas caçando homens no meio virtual – as mulheres casadas repetem o padrão dos homens de antigamente; é assustador. Ao ouvir sobre essa pesquisa, ele leu as primeiras páginas – as mais pesadas – e me ofereceu uma grana para comprar uma “escaleta” da história… Mas, ao chegar a minha casa, liguei para ele e falei: “Não, não vou vender. Vou escrever essa história, essa história é minha.” Foi então que mostrei à minha ex. Depois mostrei para o meu padrinho de crisma – que fazia as revisões dos livros do meu pai –, ele se surpreendeu e gostou… Fiquei feliz, porque eram pessoas em quem eu confiava muito!

E seu pai, como soube?

ZF – Não queria falar sobre isso, mas vou te falar como foi. A família inteira ficou sabendo, porque meu irmão contou. Estávamos todos num almoço e minha irmã perguntou “Zeca, é verdade que você escreveu um livro e vai publicar?” Respondi, tímido: “Vou!” E aí meu pai falou: “Então, você não vai fazer igual ao Veríssimo, que esperou o pai morrer para depois publicar? “Não, porque o senhor ainda vai viver muito!” O papo foi indo por aí… Não gosto de falar sobre isso, porque o papo acaba estacionando aí. Sabe-se lá se o Veríssimo esperou mesmo o pai morrer?! Essas coisas já passaram pela minha cabeça, de nunca conseguir escrever pela cobrança de ter um pai escritor. É como se meu pai fosse uma grande mangueira frondosa, e eu estivesse embaixo sem conseguir pegar sol. Agora consegui um “solzinho”… Ó, mas estou correndo há tempos, viu?!

Você se irrita quando o comparam ao seu pai?

ZF – Não me irrito, até sinto uma semelhança de estilo entre nós. Noto muito isso no livro.

Vejo a Internet muito presente no seu livro. Como você lida com essas novas tecnologias?

ZF – Há pouco tempo só usava e-mail, não conhecia o Orkut. Esse mundo de se comunicar na Internet começou para mim em 2005, quando uma amiga me convidou para entrar nessa rede de relacionamentos. Entrei e foi um susto, pois por trás desse mundinho aparente do Orkut, existe um submundo. Iniciei a minha pesquisa quando notei que havia muita mulher casada querendo uma transa. E aí criei uma comunidade chamada de Adorador de Boceta – assim queria primeiramente chamar o livro, mas a editora preferiu O Adorador, que depois também achei ótimo!

As pessoas vão se surpreender com seu livro…

ZF – Acho que se surpreenderão ao verem que não é um livro pornográfico. É um romance quente, que tem o erotismo presente. Está também em minhas obras de artes plásticas… Esse erotismo é presente, porque sou muito erotizado. Acho que é isso.

E por que a presença de personagens hipocondríacos?

ZF – Confesso que me envolvi com uma mulher meio vidrada em remédios. Ela era hipocondríaca total, e acho que depois até fiquei também um pouco… (Risos.) Eu queria dar uma função a esse escritor frustrado, então o coloquei para escrever bulas de remédio.

Já pensa no próximo livro?

ZF – Não queria falar do segundo – meu primogênito acabou de nascer –, mas já existe um movimento, sim…

O que você lê?

ZF – Leio muito Rubem Fonseca! (Risos.) E Nietzsche, Fausto, Henry Miller…

Você lê seus contemporâneos?

ZF – Leio muito a Fernanda Young, o Rubem…

Como é o seu processo criativo?

ZF – Não tenho essa coisa de sentar e escrever, isso não existe! É igual a Coelho da Páscoa. Quando me vêm umas frases, escrevo. Então, só sento em frente ao computador quando pronto para mordê-lo.

O que você diria a um jovem que deseja se tornar escritor?

ZF – Diria primeiro para parar de pensar em publicar! Escreva e leia, leia bastante! E as coisas vão fluindo… Tá certo que, no meu caso, tinha um facilitador, que nem precisamos comentar. Mas é importante ler, escrever e deixar as coisas acontecerem.


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