OMAR SALOMÃO

MÚSICA E POESIA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

omarsalomao

 

Filho de uma entidade poética, Omar Salomão não teme a herança do pai – o poeta Wally Salomão – e ainda reverencia seu mestre em sua poesia. A conversa com o poeta de sorriso largo, e palavras precisas, aconteceu no Rio de Janeiro, na Livraria Letras e Expressões, no Leblon, bairro onde mora.

“Eu não estaria escrevendo poesia se não fosse meu pai. Ele certamente me influenciou bastante, não só pelo fato de ser pai, mas também por ser coruja; era muito carinhoso comigo. O poema que fecha o meu livro ele utilizou como prefácio no livro dele. Então, essa influência carrego no sobrenome.”, explica Omar, e completa:

“Meu pai me abriu várias portas, e num âmbito muito maior do que meramente publicar livro ou trabalho. Ele me ajudou com as amizades; conheci diversos amigos por meio do meu pai, como é caso da Heloisa Buarque de Hollanda, Marcelo Yuka, Ericson Pires, Antonio Cícero… Por outro lado, carrego todo o peso das pessoas me verem como o filho do Wally Salomão, até por conta da aparência física. Isso é complicado porque opressivo. As pessoas esperam que eu seja como meu pai ou pense da mesma maneira. Então, é um orgulho enorme ao mesmo tempo que uma luta para afirmar ‘eu sou outra pessoa’”.

O jovem artista multimídia quando criança queria ser astronauta e se tornou poeta. Publicou seu primeiro poema Pedras Portuguesas aos 13 anos, na revistaO Carioca. E hoje, aos 23 anos, é um dos apresentadores do programa Quarto Mundo (Multishow) e integrante da banda Vulgo Quinho & Os Caras, onde fala poesia. Omar ainda pretende terminar a faculdade de cinema na PUC–RJ, enquanto escreve outro livro.

“Acho letras um saco. Não acredito que uma pessoa vai escrever bem só lendo muito. É claro que tem que ler. Mas e a vida? O que adianta só ler e ficar naquele redemoinho de informações? Acho necessário um equilíbrio nesse casamento. Por que não letras? Porque letras fica nesse âmbito acadêmico, nesse preciosismo. Sou muito preconceituoso com a Academia”, confessa.

Seu primeiro livro de poesias – À Deriva (Dantes) – está cercado de prestígio: Marcelo Yuka e Heloisa Buarque de Hollanda assinaram, respectivamente, a orelha e o prefácio da obra. O texto mistura universos distintos – mitos, utopias e ideologias – infectados por palavras trabalhadas pela sua sensibilidade de “poeta-andarilho”.

“Estou deixando para ver aonde a poesia vai me levar, mesmo fugindo dela. Abro o livro com uma frase que, talvez, traduza: ‘Quis um dia ser poeta para me livrar de todas minhas frustrações’.”

Um bate-papo descontraído, regado à cerveja e poesia.

Omar, não tem como falar de você sem falar do seu pai – o poeta Wally Salomão. No prefácio do seu livro, há um canto da capoeira baiana que diz: “menino quem foi seu mestre?/meu mestre foi Salomão”. Como lida com a influência do seu pai?

Omar Salomão – Eu não estaria escrevendo poesia se não fosse meu pai. Ele certamente me influenciou bastante, não só pelo fato de ser pai, mas também por ser coruja; era muito carinhoso comigo. O poema que fecha o meu livro ele utilizou como prefácio no livro dele. Então, essa influência carrego no sobrenome.

É difícil trabalhar em uma área na qual seu pai se destacava? Ou, ao contrário, isso só lhe abre portas?

OS – São diversas facetas. Meu pai me abriu várias portas, e num âmbito muito maior do que meramente publicar livro ou trabalho. Ele me ajudou com as amizades; conheci diversos amigos por meio do meu pai, como é caso da Heloisa Buarque de Hollanda, Marcelo Yuka, Ericson Pires, Antonio Cícero… Por outro lado, carrego todo o peso das pessoas me verem como o filho do Wally Salomão, até por conta da aparência física. Isso é complicado porque opressivo. As pessoas esperam que eu seja como meu pai ou pense da mesma maneira. Então, é um orgulho enorme ao mesmo tempo que uma luta para afirmar “eu sou outra pessoa”. Às vezes, acho que quanto menos penso na forma como meu pai agiria, mais me pareço com ele.

Seu livro chama-se À Deriva (Dantes Editora). Há alguma relação em estar perdido e não saber se realmente quer seguir a poesia?

OS – Engraçado… hoje recebi um e-mail da Anna, da Livraria Dantes (no Rio de Janeiro)que diz o seguinte: “A vida só da vida se deriva.” (Do livro O Gabinete de Curiosidades, de Domenico Vandelli). E acho que é isso. O livro é derivação de minha vida. E tem essa ideia de estar à deriva, perdido. Mas não perdido em alto-mar, e sim perdido no alto mar – que representam milhões de influências. Se quero ser poeta? Não sei. O que é ser poeta? Não escrevo porque acho interessante o método ou a forma ou porque é bacana escrever poesia. Escrevo por necessidade.

Você consegue interagir com diversos meios. Seja escrevendo poesia, falando poesia na banda lítero-musical Vulgo Quinho & Os Caras, sendo um dos apresentadores do programa Quarto Mundo(Multishow) ou estudando cinema. Qual é o elo de ligação entre tudo isso?

OS – A poesia! (Risos.) A minha poesia é a forma como vejo a vida, e com esta o meu elo de ligação. Talvez seja esse o diferencial, seja isso que aprendi com a poesia. A ter um outro olhar! Na poesia se pesca sutilezas, obviedades e as transforma. E preso ao livro o suporte físico da poesia é muito limitado, por que não levá-la para outros meios? Meu livro teve uma tiragem de 500 exemplares, já esgotou. Por que não levá-la para a música, para o cinema ou a televisão? Não quero fazer nada inteligível, não! A poesia é sutil, é delicada. E tem alguma novidade ali… Ou não.

Por que você escolheu estudar cinema e não letras?

OS – Acho letras um saco. Não acredito que uma pessoa vai escrever bem só lendo muito. É claro que tem que ler. Mas e a vida? O que adianta só ler e ficar naquele redemoinho de informações? Acho necessário um equilíbrio nesse casamento. Por que não letras? Porque letras fica nesse âmbito acadêmico, nesse preciosismo. Sou muito preconceituoso com a Academia. Acho que em comunicação social pude crescer muito, sobretudo com as pessoas, das mais diversas áreas; inclusive quem está perdido na vida vai estudar comunicação.

No programa do evento de poesia Bendita Palavra Maldita (2006) tem uma frase curiosa sua: “Quando criança eu queria ser astronauta. Frustrado, fui escrever poesia.” Fale um pouco sobre isso.

OS – Não sei… Acho que sempre quis tocar as estrelas. E talvez a poesia permita isso. E o cinema também. Tocar as estrelas, sonhar. O cinema me permite sonhar, explorar outros campos. E o jornalismo, que de certa forma é rígido, permite com que eu escreva um texto mais próximo à realidade. Você tem que estar ligado todo momento. O artista tem que estar em sintonia com o seu mundo. Tem que conhecer e respeitar o passado, mas não estar preso a ele.

Certa vez, seu pai declarou numa entrevista para o Jornal do Brasil: “Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro, mas sem estar oprimido pela leitura. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria.”E você, como é a sua relação com os livros ou com a palavra?

OS – Meu pai também dizia que colocaria um dicionário na cesta básica. Eu cresci rodeado de livros, vendo meu pai falando com amigos poetas no telefone, citando Nietzsche, Drummond como se falasse de amigos íntimos; aliás, eu realmente acreditava que eram amigos vivos. Acho que não tenho nenhuma relação interessante com a palavra, mas a adoro; adoro ler, adoro texto, adoro o cheiro do livro…

E por que falar poesia numa banda rock/MPB?

OS – Falar poesia para mim sempre foi coisa estranha; não era confortável. Fui recitar pela primeira vez na exposição Tudo é Brasil (Paço Imperial / RJ), à qual o curador Lauro Cavalcanti me chamou, entre outros poetas. Mas eu ficava com medo de incomodar as pessoas. Depois, no aniversário de dez anos da Livraria Dantes. A ideia era falar junto com o Michel Melamed, mas, como ele não pôde ir, chamei esses meus amigos da PUC para tocar. Assim a banda começou, improvisando um fundo sonoro para eu falar poesia. Depois o Quinho musicou um poema e as pessoas gostaram. É legal, um pouco diferente de lidar com a linguagem.

Você compõe músicas?

OS – Não… (Risos.) Não, não componho. Tento, mas não consigo. Não é nenhum preconceito com a música, mas, até o momento, certa inabilidade.

Como é seu processo criativo?

OS – É intuitivo, mas sento e escrevo. Tenho sempre aquela caneta no bolso, anoto no celular; sempre trabalhando, 24h me relacionando com alguma coisa. Acho que esta é a função: estar sempre ligado. Preciso de certa disciplina, senão não consigo. E mexo muito no poema até achar que ele está bom.

No seu livro você fala que sua poesia está “infectada pela rua”. Até a parte visual do seu livro tem um pouco da rua. É feita por um grafiteiro, não é?

OS – Sim, o Marinho. Quer dizer, não exatamente um grafiteiro, mas ele pinta as ruas. O que me interessa no grafite é certa agressividade que ele traz. Diferente dessa coisa certinha feita hoje para decorar casas. E o mais interessante é que o grafite pode morrer a qualquer momento. O Marinho é genial. A marca dele está espalhada pelo Rio de Janeiro. Acho que temos que sair para a rua. A rua é muito viva! E o que acho interessante nela são os imprevistos que acontecem.

Como vê o movimento artístico da sua geração?

OS – Acho que tem um movimento muito legal de pessoas de vinte e poucos anos. Está na música, na literatura, no cinema… Tem o Botika, que é uma figura bem interessante na literatura. Tudo começando, mas com uma energia muito forte fluindo. Há enorme vontade de mudar esse mercado vazio. Hoje não há crítica, há release. O mercado é Paulo Coelho, são cascas, só entretenimento. O legal do pessoal que está chegando é que ele quer colocar um pouco de conteúdo nesse entretenimento; bagunçar um pouco a hipocrisia.

Além do seu pai, quais são as suas maiores influências?

OS – Não diferencio influência musical de influencia literária ou cinematográfica. Acho que os meus amigos são os que mais me influenciam: o Ingnácio que é artista plástico, o Quinho e o Caio Barreto, que são da minha banda, o Vitor Paiva… São os papos loucos no bar, discutindo a validade do Tropicalismo. Ou falar mal do Caetano Veloso mas mesmo assim chegar em casa e colocar o disco dele para ouvir. É ir à Tijuca conversar com Marcelo Yuka. É ler os antigos: Kafka, Borges, Camus, Pessoa, Drummond, Bandeira… Tudo isso. Acho que William Bonner (risos)…

E o próximo livro?

OS – Estou escrevendo, ainda está bem no Início. Ainda estou tentando entender o que estou fazendo. Tem o nome provisório, Mercador de Nuvens… Estou deixando para ver aonde a poesia vai me levar, mesmo fugindo dela. Abro o livro com uma frase que, talvez, traduza: “Quis um dia ser poeta para me livrar de todas minhas frustrações.”


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