SANTIAGO NAZARIAN

PALAVRAS DE UM ESCRITOR PSICODÉLICO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2006]

   

santiagonazarian

 

O escritor paulista Santiago Nazarian, 29 anos, lança seu quarto livro – Mastigando Humanos (Nova Fronteira) – um romance psicodélico, repleto de ironia ácida, referências à cultura pop na voz de um jacaré, o seu protagonista.

Nos seus romances, personagens de livros anteriores passeiam pelos livros atuais, por exemplo, o Thomas Schimidt.

“É engraçado notar que em todos os meus livros há um embate entre o escritor estabelecido e o iniciante. É Olívio com Thomas, Miguel com Thomas, Lorena com o autor e Victório com Sebastian Salto. Então, da mesma maneira que quero ser Thomas Schimidt, quero matá-lo, enfrentá-lo, para manter a liberdade, a independência e os ímpetos criativos”, explica o escritor que tem como referência Oscar Wilde, Kafka, João Gilberto Noll e Caio Fernando Abreu.

Elogiado pela crítica e com uma legião de jovens fãs, Nazarian se estabelece como autor da geração 00 – discutida classificação que batizou os escritores do ano 2000 – e inaugura a coluna Click(in)Versos**, que se propõe a entrevistar jovens autores.

O que ele diria a escritores iniciantes?

“Façam gostoso. Façam por prazer. E não me mandem originais.”, ironiza.

Uma tentativa de entrevista aconteceu num bar do Baixo Gávea, no Rio de Janeiro, após um evento de literatura da PUC. Mas a empolgação dos jovens emos, que nos acompanhavam, não permitiu a conversa. Por fim, as perguntas foram respondidas por e-mail.

O que o motiva a escrever?

Santiago Nazarian – Talvez tenha começado para fugir do chapéu de “burro” na escola. Mas, bem, sempre criei histórias. Tinha a capacidade de lidar sozinho com um universo criado e materializado por minhas paixões e vontades, e de poder viver nele por algum tempo. Podemos chamar isso de um “autismo produtivo”.

Você foi redator de conteúdo erótico, isso influenciou sua maneira de escrever?

SN – Não, era uma escrita bem rasa, calcada em clichês. Talvez me tenha servido como exercício de diálogos coloquiais, só isso.

Como o Jacaré, protagonista do seu livro mais recente, você também escreve para combater a angústia, a depressão ou algo parecido?

SN – Não sei se escrevo exatamente para isso… Mas o efeito é esse. Talvez, quando me sinto desconfortável no mundo, a literatura me lubrifique para que eu passe pelo buraco… É aconchegante poder viver no seu próprio universo. É essa a sensação que tenho quando estou trabalhando num romance.

Por que a escolha de animais para dar voz aos personagens?

SN – Primeiro porque eu nunca o havia feito. Segundo pela necessidade de romper radicalmente com o realismo, essa “representação do humano – inclusive esse é o tema central em Mastigando Humanos. Era preciso encontrar uma maneira menos óbvia e previsível de representar isso.

Como acontece seu processo criativo?

SN – Ocorre antes de eu dormir, quando a inconsciência ronda meus pensamentos, e logo ao acordar, quando a consciência ainda não está totalmente estabelecida. São os momentos mais produtivos para eu escrever. Gosto de manter a porta aberta a esse fluxo do inconsciente, para que a narrativa se desenvolva de maneira mais espontânea. Depois, os fluxos são (re)trabalhados. Releio, acrescento, pesquiso e tiro coisas, mas o primeiro momento é um jorro. Jorro prazeroso, gozo gostoso…

Como é a sua relação com o universo multimídia?

SN – Já fiz algumas experiências multimidiáticas. Por exemplo, uma leitura ao vivo, em Santos, que se misturava com bases pré-gravadas. Acho interessante, quero experimentar mais nesse campo, mas não abro mão também do livro puro e simples.

Nos seus romances, personagens de livros anteriores passeiam pelos livros atuais, como o Thomas Schimidt, por exemplo. Esse é o escritor que gostaria de ser?

SN – Hum, sim, talvez meu “eu ideal público”. Mas é engraçado notar que em todos os meus livros há um embate entre o escritor estabelecido e o iniciante. É Olívio com Thomas, Miguel com Thomas, Lorena com o autor e Victório com Sebastian Salto. Então, da mesma maneira que quero ser Thomas Schimidt, quero matá-lo, enfrentá-lo, para manter a liberdade, a independência e os ímpetos criativos.

Quais foram suas maiores influências literárias?

SN – Wilde, Kafka, Noll, Caio, Mann e, mais recentemente, Dennis Cooper, William Burroughs, Saki, Paulo Henriques Britto. Mas ultimamente tenho lido autores contemporâneos. Acabo de terminar a obra mais recente do Noll e descobrir a Márcia Denser, que é fabulosa.

Sua mãe é escritora, ela o incentiva na escrita? Ou o inverso?

SN – Ela sempre me incentivou à escrita. Eu a incentivei à publicação. Ela sempre escreveu, só não tinha vontade ou coragem de publicar, mas, depois que abri a porta, resolveu experimentar. E gostou, então podemos esperar mais livros dela por aí. Mas nossa relação com a escrita é muito diferente, ela tem outros métodos e outros motivos.

O que você pensa da crítica atual?

SN – Rasa. Ninguém que trabalha em mídia impressa hoje tem tempo nem espaço para ler a fundo um livro e escrever sobre ele.

Você também trabalha como tradutor. Sente prazer nesse ofício?

SN – Sim. Bastante. É o que me dá mais prazer, depois do romance. Mais até do que fazer roteiros, por exemplo. E aprendo muito, muitíssimo traduzindo. Estou me esforçando para me tornar cada vez melhor como tradutor.

Nos livros anteriores, você aparece com a mão sangrando, agora aparece babando um líquido viscoso… Por que essa mudança?

SN – As fotos anteriores eram um link para a body art* e o conteúdo do livro; quase uma forma de me colocar como personagem, ilustração. Mastigando Humanos mantém isso. Mas nela estou babando como autoparódia, para afastar um pouco a aura soturna, a rigidez de estar sangrando em cada orelha. É uma brincadeira com o título do livro e também com a frase “todos os prazeres são orais”…

Esse seria o seu romance mais autobiográfico?

SN – Acho que não. Quer dizer, todos têm componentes autobiográficos, masFeriado de Mim Mesmo era mais relacionado objetivamente com minha vida, enquanto Mastigando Humanos é mais relacionado aos meus ideais e o universo criativo.

Seu último livro é mais cômico que os outros. É o Santiago ou a literatura dele que está mudando?

SN – Espero estar mudando constantemente, é proibido estacionar. Não posso com 29 definir o tom do que vou escrever até o final da vida, senão morro. É preciso estar aberto à experimentação, à mudança. O próximo livro também será diferente de Mastigando Humanos e dos anteriores.

Em Mastigando Humanos, seu protagonista tem um entrave em relação ao meio acadêmico. E você, o que pensa do meio acadêmico?

SN – Uma grande piada. Sinceramente, não sei como alguém pode levar a sério toda essa formatação do conhecimento, esses rituais de ensino. Porque se trata disso, rituais. Então, como podem se pretender absolutamente racionais, sérios? Essas são questões-chave do meu livro.

O que acha das universidades que têm cursos de formação de escritor?

SN – Como é impossível sobreviver diretamente de literatura no Brasil, escritores precisam encontrar outros bicos. A maioria está acima do peso e se dá melhor como professor do que como prostituto.

A crítica literária Beatriz Resende disse que Feriado de mim mesmo é o seu romance mais bem resolvido. Concorda?

SN – É meu romance mais “enxuto”, só isso. Meus favoritos continuam sendoMastigando Humanos e A Morte Sem Nome. Talvez sejam mais imaturos, exagerados, sim, mas é disso que gosto em literatura. E, aliás, para tirar proveito da imaturidade no papel também é preciso talento.

Alguns escritores e críticos acreditam na existência de uma “literatura gay”. Você acredita nesse tipo de classificação?

SN – Sim. Ou não. Acho que a boa literatura não pode ser reduzida só a isso. Mas acho que pessoas com sexualidade semelhante manifestam alguns traços semelhantes em suas obras, por exemplo.

“Todos os prazeres são orais”?

SN – Sim. Mas nem sempre o oral é um prazer.

O que diria para os jovens escritores que estão começando no universo literário?

SN – Façam gostoso. Façam por prazer. E não me mandem originais.

*A Body Art (do inglês, arte do corpo) está associada à arte conceitual e ao minimalismo. É uma manifestação das artes visuais onde o corpo do artista é utilizado como suporte ou meio de expressão. O espectador pode atuar não apenas de forma passiva, mas também como voyeur ou agente interativo.

** O Click(in)Versos surgiu como uma coluna de literatura no portal Click21. Três meses após a implementação do projeto, resolvi transformá-lo num blog.

 


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