THIAGO PETHIT

ENTRE BERLIM E TEXAS

Por Ramon Nunes Mello E Márcio Debellian [SaraivaConteúdo – 2010]

   

thiagopethit

 

Um lugar dominado por cabarés misteriosos de uma Alemanha fria e pré-nazista, frequentado por cowboysencharcados de suor, que, segurando suas doses de whisky, exibem suas potentes garruchas no melhor estilo Velho Oeste. Por mais mirabolante que pareça, este local existe, perdido no tempo e no espaço dentro da mente do cantor paulista Thiago Pethit. O som ambiente ora parece de época, ora atual, numa mistura influenciada por nomes como Tom Waits, Kurt Weill e Bertolt Brecht, e criada em pleno século XXI. Para conferir do que se trata, não é necessário voltar no tempo, basta apenas colocar o recém-lançado álbum Berlim, Texas no CD player mais próximo.

 

“Tinha uma inspiração que poderia ser um universo de vaudeville, que eram aqueles teatros bizarros. Conforme as gravações foram rolando, eu sentia que tinha uma parte das músicas com um clima meio de cabaré de Berlim dos anos 1920. Uma ou outra tinha uma cara meio texana, de saloon, de mulheres dançando cancã. O nome do disco seria Prólogo, mas me soava muito empolado. Fiquei mirabolando nomes e, por acaso, fui numa locadora, olhei para o Paris, Texas (do Win Wenders), e falei: Nossa! Berlim, Texas!”, afirma o cantor em entrevista exclusiva ao Saraiva Conteúdo.

Pethit lançou o álbum de forma independente, desembolsando, aproximadamente, 25 mil reais com estúdio, mixagem e lançamento, ocorrido no último mês de abril. Produzido por Yury Kalil, do grupo Cidadão Instigado, o disco conta com tom melancólico de músicas como “Forasteiro”, “Não se vá” e “White hat”. O cantor, formado em teatro, foi morar em Buenos Aires em 2007, com o intuito de estudar literatura, porém acabou sendo levado para o cenário musical. Em 2008, lançou o EP Em outro lugar, já com músicas em francês e inglês, além do português, característica presente também em Berlim, Texas.

“Tenho muitas referências, entre elas o folk, mas o pop nos anos 2000 engoliu qualquer gênero. Eu não sou folk, não sou caipira, não sou hippie. Eu digo que eu faço pop universal contemporâneo. Comecei a fazer música porque eu descobri que podia criar um diálogo artístico com o mundo inteiro. Moro no Brasil, o mercado é brasileiro, que fala português, muita gente não fala inglês. Mas música você entende de algum jeito. Você escuta uma música em russo e algo inspira a gente”, afirma.

O cantor faz parte de uma nova geração de cantores paulistas, juntamente com Tulipa Ruiz, Tatá Aeroplano, Dudu Tsuda e Tiê, com quem faz parcerias em composições e shows. Além disso, ele a considera uma madrinha musical, pois a cantora o ensinou a tocar violão e piano e, segundo Pethit, o estilo tranquilo das músicas dela o interessava.

“A Tiê já tinha esse trabalho autoral dela desenvolvido e tem a ver comigo. É um jeito de dialogar com o mundo que me interessa, esse jeito de fazer as letras, esse tipo de sonoridade. É muito engraçado o jeito que a gente compõe junto. No disco dela, a faixa que se chama ‘Dois’, a letra é minha e dela. No meu EP, tem uma ou outra música que a gente fez junto. De repente, a gente está tomando chá, falando da vida e ela diz: ‘Ah, comecei essa música e não consigo mais fazer a letra’. E eu solto uma frase. Parece que encaixa muito naturalmente a letra”, diz o cantor.

Assim como Tiê, Thiago Pethit não se considera um instrumentista. Aprendeu a tocar para poder trabalhar com música e compor. Desde quando ingressou na área, já tinha certeza de que não gostaria de ser apenas um intérprete de músicas de outras pessoas. Aos poucos, sua sonoridade foi surgindo, juntamente com suas composições.

“Quando comecei a compor, eu não tocava instrumentos. As primeiras três músicas que estão no meu EP eu compus criando uma melodia na cabeça fazendo “lá, lá, lá” e passando pra alguém tirar a melodia. Aí eu descobri alguns acordes no violão. Essa relação com o instrumento automaticamente tornou tudo mais natural. E parece que o mais espontâneo era falar sobre mim, falar sobre o que tinha me acontecido, contar coisas. Ah, eu sou um pouco melancólico mesmo, não tem solução para isso”, conclui.

 

https://www.youtube.com/watch?v=MGtpiVicSjk

 


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