ZUENIR VENTURA

O TEMPO DE HOJE

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

zuenirventura

 

Para o escritor e jornalista Zuenir Ventura, o tempo pode se confundir com palavras como amor e amizade. Aos 79 anos, a reflexão não poderia ser diferente: “Não me sinto com 79 anos. Eu me lembro quando fiz 60, levei um susto. Acordei e estava com 60 anos. ‘Mas eu não mereço isso…’”, ri. Resultado concreto desse passar do tempo foi, recentemente, testemunhado por Luis Fernando Veríssimo, no livroConversa sobre o tempo (Ediouro, 2010), papo que teve a mediação de Arthur Dapieve. Os três se reuniram num sítio para registrar a efemeridade de uma vida marcada pela amizade.

Dedicando-se diariamente ao ofício da escrita, Zuenir Ventura busca no cotidiano, entre os livros de seu escritório e o calçadão da orla de Ipanema, a inspiração necessária para expor sua visão de mundo. A memória, muito prezada por Zuenir, sua grande companheira, assim como a esposa Mary, é uma forte aliada. Assim como a reportagem, vide os livros publicados ao longo dos anos: 1968, o ano que não terminou / 1968, o que fizemos de nós (Planeta, 2008), Cidade partida(Companhia das Letras, 1994), Chico Mendes, crime e castigo (Companhia das Letras, 2003), Minhas histórias dos outros (Planeta, 2005)…

Não é à toa que, atualmente, dedica-se a escrever suas “memórias inventadas”: uma espécie de inventário sobre adolescência passada em Friburgo, interior do Rio de Janeiro, nos anos 1940, tendo como pano de fundo a II Guerra e a Ditadura do Estado Novo (1937-1945), comandada por Getúlio Vargas. Nesta conversa em seu escritório, Zuenir passeou pelo tempo, buscou significados para ele, comentou sua trajetória do interior de Minas Gerais a Friburgo, até chegar ao Rio de Janeiro, para onde se mudou nos anos 1940 com o intuito de cursar a Faculdade de Letras e se tornar professor. Obra do acaso, importante em sua trajetória, começou no jornalismo trabalhando no arquivo da Tribuna da Imprensa, onde logo estaria escrevendo e reportando.

Sobre a próxima grande reportagem, Zuenir diz que não faz projetos, eles caem em seu colo. Mesmo sem saber sobre o que irá tratar, será algo que aborde o Brasil, ou o Rio, mais especificamente: “Gostaria muito de poder escrever ainda em vida alguma coisa contra Cidade partida. Que pudesse ser, enfim, a cidade unida”, finaliza. A seguir, a íntegra da conversa com Zuenir Ventura.

Recentemente você se reuniu com Luis Fernando Veríssimo para conversar sobre o tempo, sob a mediação de Arthur Dapieve. O resultado é o livro Conversa sobre o tempo (Ediouro). Você está com 79 anos, o que muda nesse tempo escrevendo?

Zuenir Ventura – Primeiro, essa relação com a idade é muito curiosa. Eu não me sinto com 79 anos. Eu me lembro quando fiz 60, levei um susto. Acordei e estava com 60 anos. “Mas eu não mereço isso…” (risos) “Sessenta anos? Eu não mereço!” Depois, quando fiz 65, escrevi uma crônica, que fica correndo por aí, em antologias, chama-se “Um idoso na fila do Detran”. Foi quando presenciei uma cena no Detran, que era uma fila enorme, e a mulher que estava organizando, de repente: “Deixa o idoso passar! Deixa o idoso passar…” Eu também comecei a ajudar: “Deixa o idoso passar…” O idoso era eu (risos). Eu nunca tinha sido chamado por essa palavra, foi realmente um certo choque. A partir daí, eu realmente convivo… O problema não é idade, o problema é doença, não é? Eu não tenho problema com a morte, medo da morte, não é uma obsessão… Não é uma coisa que me persiga como medo ou pensamento. Mas eu tenho muito medo do sofrimento. Essa talvez seja a pior coisa. Conversamos muito sobre isso, Luis Fernando é bem mais novo do que eu, uma criança. Foi um papo descontraído, durante dias, ficamos num sítio, isolado, só conversando sobre amizade, amor, tempo… Enfim, foi uma experiência muito curiosa, em que se falou muito do tempo, sem ver o tempo passar. Passou muito rápido.

Sobre sua amizade com o Luis Fernando Veríssimo…

ZV – Nós nos conhecemos em Paris. Quem nos levou, a mim e Mary (esposa de Zuenir), para conhecer o Luis Fernando e Lucia foi o Roberto D’Ávila. Luis Fernando estava morando em Paris. Ele fazia isso, morava em temporadas com a família, ia para Paris, Roma, Estados Unidos… Ele estava em Paris naquela época. Já têm 20 anos, ficamos muito amigos. As mulheres, Lucia e Mary, são muito amigas também. Nós participávamos, às vezes, de um tour de palestras, os dois juntos… Eu costumo dizer: “Entre nós, já rolou tudo, menos sexo. Assim mesmo porque ele não quis.” Ele completa: “Por enquanto…” (risos) Nós viajamos muito juntos, Luis Fernando é uma grande companhia. Já viajei com ele como motorista. Ele é um ótimo motorista porque não fala (risos). Há toda essa lenda de que o Luis Fernando não fala. Na verdade, ele diz: “Eu não falo pouco, os outros é que falam muito” (risos). Ele tem razão. É realmente uma grande amizade, figura maravilhosa. Fizemos várias viagens, fomos ao Amazonas juntos… É uma amizade, realmente, muito gostosa. Adoro o casal.

O que mudou em sua escrita com o passar dos anos? O que se aprende com o tempo?

ZV - Se há uma coisa desagradável nisso tudo é escrever. Eu não gosto de escrever. Eu prefiro ter escrito a escrever. Prefiro ler, é muito melhor, muito mais agradável do que escrever. Escrever é uma tarefa. Depois que você escreve, quando dá certo, é até legal. Bom é ter escrito. O processo da escrita é um processo penoso, de busca da palavra, de corte… Cortar palavras é cortar um pouco de você. Esse trabalho é um trabalho penoso. Eu, se pudesse, se soubesse fazer outra coisa… Mas, enfim, tem que escrever. Escrevo duas vezes por semana, uma crônica, um artigo, para o jornal O Globo, às quartas e sábados, trabalho com o cotidiano. Meus temas são o que vejo na rua, observo… Escrevo aqui (no escritório) o dia inteiro. Saio todo dia, para mim é sagrado caminhar na praia de manhã. Não é nem para o físico, é para cabeça. É um remédio, uma endorfina que isso gera. Se eu tive umas boas ideias na vida, foi andando no calçadão de Ipanema de manhã. Teve um dia que eu estava reclamando para mim mesmo da falta de tempo: vários compromissos, tendo coisas para entregar, angustiado… Falei: “Que coisa, trabalho… Não tô com tempo nem para parar. O meu ócio…” Eu não vejo o tempo passar. Não é que eu tenha muita atividade, para mim o tempo passa bem com os amigos, indo ao cinema, lendo… E não tenho muito essa “angústia do tempo passar”, eu levo susto, assim como levei. Hoje mesmo quando falo que tenho 79 anos, que ano que vem vou fazer 80 anos, já é mais para lá do que para cá (risos), eu me surpreendo. Já? Quanto tempo… Não me angustia não, o passar do tempo eu levo bem. Meu pai morreu aos 97 anos, pareço com ele (aponta o pai em um porta-retrato). Espero chegar até lá, sem sentir. Tomara.

Você está escrevendo suas “memórias inventadas”, sobre a adolescência passada em Friburgo (interior do Rio de Janeiro), nos anos 1940, com a II Guerra e a Ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) como pano de fundo. O que o motivou a escrever sobre esse período? Como está esse projeto?

ZV - Pois é, ele (o livro) se passa nos anos 1940, período que passei em Friburgo, na cidade da Serra, no Estado do Rio. Na verdade, eu não nasci lá, meu pai nasceu. Minha mãe nasceu em Minas. Eu nasci em Além Paraíba, fui com dias (de nascido) para Ponte Nova… Aí fomos para Friburgo, passei minha adolescência lá. Foi uma adolescência de um tempo muito curioso porque era uma cidade que estava há cento e poucos quilômetros do Rio, mas, digamos, culturalmente e psicologicamente era uma distância enorme. Estava havendo a Segunda Guerra Mundial, a Ditadura do Estado Novo no Brasil, e a gente enclausurado lá na serra. As coisas chegavam pelo rádio com muito atraso. E os usos e costumes daquela época eram muito diferentes dos de hoje, sobretudo no comportamento sexual, comportamento amoroso, com todos aqueles preconceitos, aqueles tabus. Fico lembrando, as minhas primas, as minhas irmãs, a dificuldade que era para uma moça, por exemplo, namorar. Ela podia ficar mal falada, ter a reputação estraçalhada, de um dia para o outro porque, por acaso, segurou a mão do namorado ou foi vista no cinema. Isso me marcou muito. Eu vivi os anos 1960, a transição, a revolução sexual, toda aquela libertação dos costumes, a mulher tomando consciência do seu corpo. Então, resolvi escrever, menos por saudosismo ou nostalgia. Não tenho nostalgia do passado. Como diz Paulinho da Viola: “Meu tempo é hoje”. Não tenho essa coisa de olhar para o passado: “Aquele tempo que era bom…” Não era não! Muito pior do que hoje. Enfim, eu quis registrar na minha memória, com todo esse imaginário da época, aquela coisa que se passou. Eu digo que são memórias inventadas ou emprestadas porque tem muito da minha vida, mas muito mais da vida coletiva, dos meus amigos, das pessoas que conheci, dos casos que ouvi e vivi. É a história de duas irmãs que se apaixonam por dois irmãos. Uma foi muito infeliz, o marido batia nela. E a outra, por isso mesmo, acaba não se casando… Uma história muito bonita de amor. E o pano de fundo é o Brasil daquela época, o registro desses costumes repressivos, sobretudo para a mulher, tudo era muito repressivo. E hoje, que vivemos esse tempo de permissividade, é curioso olhar para trás e ver como era uma época como aquela.

E, hoje em dia, o que espanta?

ZV - (risos) O problema é que hoje não tem mais espanto, não tem mais perplexidade. Tudo é possível. Realmente é o fim do espanto, tudo é possível. Eu acho que era bom ter (o espanto), já escrevi muito sobre isso. Tudo acontece e é possível acontecer, para o bem ou para o mal. Então, você perdeu aquela capacidade de se espantar, se surpreender. A outra coisa é o fim do pudor, no tempo despudorado como é nosso. Nem tanto os anos 1940, todo repressivo. Mas hoje a sensação é que se pode tudo, não existe mais limite, não existe mais barreiras, não existe mais referências… Essa permissividade não é legal. Um pouco de recato não faz mal, não, até para o sexo. Um pouco de pudor faz muito bem. Lembro a passagem dos anos 1970 para os anos 1980, quando começa no Rio de Janeiro a libertação sexual, as mulheres começam a falar… A fala sobre o falo. Falava-se mais até do que se fazia. Aquilo realmente foi um choque. As mulheres começavam a falar de sua intimidade, de sua relação. Não estávamos acostumados. Perde um pouco a graça quando tudo fica exposto…

Numa de suas crônicas, você lembrou uma declaração de José Saramago sobre o Twitter: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.” Como é sua relação com a Web?

ZV - (risos) Não é boa, não. A Internet já me matou, né? Um site botou no ar que eu tinha morrido. E isso ficou no ar durante três horas. Eu estava num lugar inacessível, as pessoas não chegavam, uma reunião que não podia entrar ninguém. Era a inauguração do Instituto Moreira Salles (IMS), com o presidente da República, o governador e o prefeito. E tinha ido como jornalista convidado, mas a imprensa não podia chegar lá. Eu estava lá dentro e correu essa notícia. Meu filho ficou, durante três horas, procurando meu corpo nos hospitais do Rio. Uma mulher, que tinha um telefone antigo meu, já não aguentava mais as pessoas ligando por engano, e resolveu fazer essa gracinha, dizendo: “Zuenir teve um acidente às quatro horas da tarde e às seis ele morreu. A Mary está inconsolável”. Ainda fez essa graça, essa maldade. As pessoas começaram a correr e não conseguiam confirmar. Houve gente que levou três dias para ressuscitar, eu levei três horas (risos).

Isso foi uma missão, virou um case, passaram a estudar nas redações, nas escolas de comunicação… É evidente, com toda a revolução tecnológica, tem os ganhos e as perdas. É claro, o ganho para a minha profissão. Imaginar que a gente já pode viver sem o Google? Se tivesse o Google quando comecei o jornalismo, eu teria morrido de fome. Eu comecei em arquivo, recortando jornal para guardar, fazendo pastas de arquivo. Hoje você aperta (uma tecla) e tem todas as informações que quiser. E tem questões como a autoria, por exemplo: todo mundo pode ser autor. É uma democratização legal da escrita, publicar o que quiser na Internet. Há questões para se resolver. São questões complicadas, não se pode achar que a censura vai resolver. Não vai, já tivemos censura, sabemos o mal que ela faz. Mas têm essas falsificações, o Luis Fernando é vítima…

Os textos apócrifos.

ZV - As pessoas escrevem e assinam Luis Fernando. E não tem como desmentir. Há um certo deslumbramento em relação à Internet. Sobre o Saramago, me ocorreu em relação ao Twitter. Há pessoas que defendem tese que você pode escrever tudo em 140 toques. Converter Os lusíadas… Não pode, não é bem assim. Pode converter, mas com perda de substância, de conteúdo, de tudo. Saramago que disse: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido” (risos). Ele temia essa comunicação monossilábica. É um exagero, mas é muito engraçada a imagem dele, do grunhido. Tem que olhar com distanciamento, e sem esse deslumbramento que temos com a tecnologia. Sempre que existe uma revolução tecnológica, vem essa fantasia de que vai resolver todos os problemas. Não é a tecnologia que vai resolver, é o homem.

Você viaja bastante participando de debates e palestras. Quais são as principais angústias dos jovens, que desejam ser jornalista e/ou escritor?

ZV - Tive uma grande surpresa no começo, hoje menos porque já me acostumei. Nós aqui, do eixo Rio-São Paulo, achamos que tudo passa pelo nosso umbigo, que não há vida inteligente fora do eixo Rio-São Paulo. Eu me surpreendia com o público numa cidade do interior do Brasil. Tive agradáveis choques culturais. Eles sabem, às vezes, mais da gente do que nós mesmos. Talvez por causa do tempo, tem um pouco mais de tempo, prestam mais atenção nas coisas. Um pouco daquilo que estávamos falando do mundo moderno, dessa velocidade que tudo passa, o tempo corre. O tempo realmente está mais acelerado. Não é só uma percepção psicológica, ele está acelerado. Você tem informação antes de acontecer. Todo mundo viu as Torres Gêmeas caindo, no momento que estavam caindo. Qual a preocupação desses jovens? Eles veem uma pessoa velha, um velhinho, querem conselho. Digo: “Conselho quem dá é velho. Eu não sou velho, então não dou conselho. Vocês quem sabem o que fazer. Eu já fiz a minha parte, já dei o que tinha que dar.” Temos que estabelecer um diálogo. A minha geração olha com certo desprezo para esses jovens, como quem diz: “Não fazem nada…” Não é bem assim. Essa revolução tecnológica é toda feita por jovens. Ficaram ricos (risos). É uma inteligência mais voltada para a tecnologia e não para a leitura, por exemplo. Um dos problemas do Brasil, hoje, é o baixo índice de leitura. Eu fico com pena quando um jovem diz: “Não gosto de ler.” É uma pena. Leitura é um prazer.

Dá angústia de não conseguir ler todos os livros…

ZV - Dá angústia. Os jovens chegam aqui (no escritório) e perguntam: “Já leu tudo?” (risos) Respondo: “Ainda não. Não é bem assim. Por exemplo, dicionário…” (risos) A iniciação da leitura é muito falha. O livro chega pelo dever e não pelo prazer. Se chegar para o jovem mostrando a descoberta daquele mundo, ele não larga mais o livro. Tem que motivar pelo prazer.

Em Minha história dos outros (Planeta, 2005), você fala sobre sua formação, quando teve aula com Manuel Bandeira, entre outros escritores. Fale um pouco sobre seu início, seu despertar para a leitura.

ZV - É uma coisa curiosa, porque fui para Friburgo com 11 anos, comecei a trabalhar com meu pai. Éramos uma família pobre, ele era pintor de parede, comecei como auxiliar dele. Depois trabalhei num banco, como contínuo, office-boy, hoje. Trabalhei num bar, também como office-boy, depois num laboratório de prótese dentária, ainda como boy, e depois caixeiro em uma camisaria. Atividades que não tinham nada a ver com a leitura, com os livros. E se lia muito pouco lá em Friburgo. A minha família mesmo não lia muito. Mas aí sempre tem umas coisas misteriosas. Eu sempre gostei muito de ler, e acabei descobrindo, meio que por acaso, às vezes por causa de um amigo ou outro, livros que acabaram sendo fundamentais. Lembro-me dessa época em Friburgo, dos 11 aos 20 anos. Se você me perguntar quais são os livros… era uma quantidade de livros que chegava, e eu lia misturando tudo. Então claro que a minha leitura foi toda desorganizada, cheia de lacunas nesse período. Como último emprego em Friburgo, fui professor, alfabetizando, lá no colégio onde estudava. Para ter o ensino de graça, à noite, a diretoria me ofereceu lecionar de manhã para as crianças.

E aí descobri uma vocação. Eu queria aquilo, lecionar, dar aula. E para fazer isso, tinha que vir para o Rio, fazer a faculdade de Letras, que formava para o magistério. E assim que fui parar no curso de Letras Neolatinas da Universidade Nacional de Filosofia. E dei essa sorte de cair lá, onde tinha um timaço. Você falou no Manuel Bandeira. Ele já era um grande poeta da língua portuguesa, um dos maiores, e professor de Literatura Hispano-americana. Tinha o Alceu Amoroso Lima, figura também incrível. Tinha a Cleonice Berardinelli, famosa Divina Cléo, queridíssima, eu que dei esse apelido a ela, do qual me orgulho muito. Divina Cléo. Ela até hoje me cobra isso, “você que ficou inventando essa coisa”. E está aí. E hoje, quando digo “atrás de um bom leitor tem sempre uma grande professora”, penso sempre na Cleonice. Porque eu, lá no secundário, ensino médio, detestava Os lusíadas, porque me obrigavam a ler para fazer análise lógica, sintática, para procurar o sujeito oculto, como se você fosse um investigador. Eu odiava Os lusíadas. Aí fui para a faculdade e caí nos braços da Cleonice Berardinelli como professora de Literatura Portuguesa. E hoje é um dos livros de minha preferência, que me dá o maior prazer, porque ela me ensinou, mostrou o que tinha de bonito. Então é fundamental isso, voltando àquela tese que você tem que dar prazer ao jovem através da leitura, e não obrigá-lo a ler.

Então lá foi o lugar que eu queria, dei essa sorte, com todos esses professores, um timaço, que incluía o Celso Cunha, José Carlos Lisboa, Thiers Martins Moreira, Elson Martins, que, na verdade, era aluno, mas, ao mesmo tempo, professor, e que foi fundamental na minha vida, ele que me acabou levando para o jornalismo.

Como foi essa transição das letras para o jornalismo?

Zuenir – Sabendo que eu estava com problemas de dinheiro, o Elson Martins, que dirigia o arquivo da Tribuna da Imprensa, jornal do Carlos Lacerda, então me ofereceu um emprego no arquivo do jornal, de seis à meia-noite, a única hora em que eu podia, pois passava o dia inteiro na faculdade. Eu fui para lá para ler os jornais, recortar, fazer clipping e separar as fotografias. A partir daí, com o Elson Martins insistindo sempre para que eu escrevesse para o jornal. “Aproveita essa chance, você está no jornal, a linguagem do jornal dá disciplina, ela melhora o estilo…” Ele fazia todo um discurso de convencimento e eu resistindo. Não vou ser jornalista, não vou ser escritor, eu quero é ler. Mas, enfim, acabei no jornalismo e de lá nunca mais saí.

A respeito dos seus livros, de reportagens, memórias, ficção, volta a eles, relê, tem vontade de reescrevê-los?

ZV - Não, não volto por isso. Porque se voltar eu vou querer reescrever. Então não volto. Só para você ter uma ideia, esse último eu não li até hoje (Conversa sobre o tempo, Ediouro, 2010), com Luis Fernando Veríssimo e org. de Arthur Dapieve]. E esse foi curioso, porque me mandaram para fazer umas correções, eu fiz, devolvi e achei que teria mais uma leitura, mas não. E não tinha lido, só feito as correções. Um dia, liguei para lá para saber da última leitura que faria e o livro já estava impresso. Meu Deus! E é um livro muito confessional, com muitas confidências, muitas coisas que eu não diria, porque foi num papo muito descontraído, informal. Aí simplesmente não quis ler. Porque a gente tem, e vocês sabem disso, como jornalistas, esse cacoete de reescrever sempre. Até o último momento você está reescrevendo, reescrevendo, reescrevendo. Então prefiro não ler. Não leio, não. Às vezes, leio assim, 20 anos depois um artigo e acho engraçado. “Olha, até que não tá ruim, não…” Mas prefiro não ler.

Já que você falou desse livro confessional, queria que falasse de outro, Minhas histórias dos outros (Planeta, 2005). Como foi selecionar o que entra ou não, já que tem relatos de pessoas muito próximas, como Leon Hirszman, Pedro Nava, Glauber Rocha?

ZV - Isso foi difícil. Até onde posso ir? O capítulo emblemático desse dilema foi o do Pedro Nava. Porque a história, resumindo, é que, quando ele morreu, eu estava na revista Istoé, tinha saído da Veja. E ele, na verdade, foi vítima de uma extorsão de um garoto de programa, uma coisa assim. E houve uma pressão muito grande dos amigos dele para que não se dissesse, revelasse sua opção sexual. Falavam algo como “Você vai comprometer a reputação dele.” E aí, também por preconceito nosso, e não só esta pressão, a gente omitiu coisas nesse episódio. E ficou uma dívida grande, minha, ao menos, com o leitor. Com que direito você fica omitindo, faz essa censura? E não deixa o leitor fazer. Enfim, aquilo tinha pesado e na hora de fazer o livro esse episódio voltou com uma força muito grande e resolvi então contar, e contar as dificuldades. Repórteres de vários jornais que tinham participado da apuração na época estavam aí, procurei ouvi-los. E contei, fazendo uma autocrítica, mostrando que a gente deveria ter publicado direito a história na época, fiquei devendo. E também por preconceito individual, não só coletivo, social. Já com o Leon, ele foi uma das primeiras pessoas públicas a morrer de AIDS, declaradamente, na mesma época que o Cazuza. Muita gente morreu, mas não se sabia, não se dizia. Eu era muito amigo dele e fui encarregado de fazer o obituário, trabalhava no Jornal do Brasil e escrevi sobre a morte dele. Acompanhei ao lado da cama, no hospital, até o último momento, nós éramos muito amigos. O Leon vivia lá em casa, morava lá, se separava muito aí ia para lá, queridíssimo, quase irmão. E achei que devia começar e comecei assim o texto: “Morreu ontem de AIDS o cineasta Leon Hirszman.” E fui muito patrulhado por isso. As pessoas, amigos queridos, da família, acharam que eu não tinha o direito de ter declarado isso, confessado que ele tinha a doença. Naquele momento, imagina, AIDS era um tabu, não podia dizer. Como você lembrou há pouco, era o câncer gay. Mas achei que, até em homenagem a ele, eu deveria dizer. O Leon era uma pessoa tão corajosa, verdadeira, transparente, que seria hipocrisia inventar outra causa para a morte dele. Ele não iria gostar. As dificuldades foram estas. E sobre o Pedro Nava, com o tempo isso foi ficando claro que era isso mesmo que tinha que fazer.

E o ofício da crônica no jornalismo diário, em um jornal de grande circulação, como é o seu vínculo com os leitores?

ZV - Até tirei meu endereço de e-mail da coluna há algum tempo, porque criava o seguinte problema: o leitor escreve para você e você não pode desconhecer, virar as costas. E aí eu não fazia outra coisa a não ser ficar respondendo e-mails todo o dia. Isso diminui muito esse fluxo de e-mails. Mas é curiosa essa relação, porque às vezes o leitor faz uma leitura que é completamente diferente das suas intenções. Não só a escrita é aberta, mas a leitura também. Você, na verdade, lê um pouco o que quer. Então tem coisas curiosíssimas, de você escrever numa direção e o leitor ler na outra. Há poucos dias, teve um episódio, até muito desagradável, onde o leitor me escreveu e respondi com bom humor, brincando. E ele respondeu uma tréplica, desaforado, dizendo que eu o tinha desrespeitado, não o levava a sério, estava brincando. Foi uma coisa tão desagradável que resolvi desconhecer. Tinha vontade de dizer: “Cara, peraí, você não entendeu o que escrevi?” Mas aí ia virar um… e achei melhor engolir a seco e deixar passar, porque se ele entendeu dessa maneira, equivocada… Então tem muito isso, de que a sua intenção nem sempre é apreendida, captada pelo outro lado. E eu não dedico muito tempo a Internet, apesar de já ficar parte do dia no computador.

Você escreveu Chico Mendes, crime e castigo (Companhia das Letras, 2003), um desdobramento do que aconteceu lá depois do assassinato dele, quando foi ao Acre cobrir para o Jornal do Brasil e como estava a situação anos depois. Como vê a ascensão da Marina Silva, alguém que surgiu com Chico Mendes naquele momento, com uma trajetória única, que se alfabetiza na adolescência, surge na selva, chega ao Ministério do Meio Ambiente, onde travou uma batalha pesada, e depois como candidata à presidência?

ZV - Conheci a Marina em 1989, quando fui ao Acre pela primeira vez, um mês depois da morte do Chico Mendes. Fui cobrir aquele período e aí conheci, primeiro, a história de Chico Mendes, que não conhecia, uma figura extraordinária, acho que nosso protomártir da causa ambiental. Ele era mais conhecido lá fora do que aqui, nessa época. E (conheci) seus discípulos, amigos, entre os quais a Marina, que era uma figura que me chamou logo a atenção, aquela figura magrinha, e ao mesmo tempo, quando abre a boca, tem aquela força. E as histórias da Marina, histórias do “empate”. O empate era algo que Chico comandava lá, reunia as famílias, crianças, mães e se colocavam entre os jagunços e as árvores, para não deixar abaterem-nas. Era uma coisa de coragem, e tinha histórias incríveis da Marina, que comandou um empate e começou a cantar o hino nacional e a polícia também se comoveu. E as histórias de alguém com a saúde frágil, que teve problemas de envenenamento, foi se alfabetizar com 16 anos. Figura lenda e não sabia bem o que era verdade ou lenda naquela história sobre ela. E 15 anos depois voltei para fazer o livro. Na época (1989), o Luiz Schwarcz (editor da Companhia das Letras) quis fazer o livro e eu não quis, pois estava muito em cima. E, quinze anos depois, eles estavam lançando a Coleção Jornalismo Literário e eu não teria mais desculpas para recusar. Então decidi voltar lá, revisitar aqueles personagens, aquelas situações. O livro tem duas partes, a primeira que vai até o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, e a outra, que é a minha revisita ao Acre. E nesse tempo todo, pude conhecer melhor a Marina. Ela é muito melhor do que imaginava que se dizia dela. E não só a história de vida dela, ela é uma mulher atuante hoje, tem uma presença na vida nacional. É um luxo para o país você ter a candidatura da Marina, comparo um pouco com o advento de Barack Obama.

E em relação à Marina, o fato de ela ser evangélica, ligada à Assembleia de Deus, não te incomoda? Isso não contradiz a história dela?

ZV - Isso me incomoda, já escrevi sobre isso, inclusive. Não tanto a crença, mas o que isso impõe como restrição, como preconceito em relação a coisas como homossexualidade, aborto, isso que sabemos. Isso realmente me incomoda. Agora, isso é uma questão de fé, então acho que é uma perda. Mas ela é tão grande em relação a tudo o mais. É uma pena que esses princípios religiosos impeçam que ela seja em relação ao comportamento tão revolucionária quanto é com o meio ambiente, por exemplo.

Você já escreveu sobre a violência no Rio de Janeiro (Cidade partida, Companhia das Letras, 2003), a revolução cultural nos anos 1960 e 1970 (1968, o ano que não terminou / 1968, o que fizemos de nós – Planeta, 2008, a Amazônia (Chico Mendes, crime e castigo, Companhia das Letras, 2003), um livro de memórias (Minhas histórias dos outros, Planeta, 2005). Tem algum tema que pensa em escrever, investigar, se dedicar na próxima década, próximas duas décadas…

ZV -… ou nas próximas três, né? (risos)

… três, né? vamos estender esse tempo. Mas algo que te interessa muito e ainda não abordou longa e profundamente, como fez nesses livros reportagens.

ZV - Esses temas surgiram e se impuseram para mim. Não parei e disse: “Vou escrever sobre a Amazônia etc.” Fui meio que obrigado a escrever sobre estes temas, obrigado pelos fatos, pelas circunstâncias. Os temas se impuseram. Cidade partida, por exemplo, nunca tinha pensado (em escrever a respeito) antes de passar a conviver e frequentar uma favela durante dez meses. E quando comecei a fazer isso, não estava pensando em colocar em um livro. O material que observei, recolhi, acabou se impondo. Não faço esses projetos. Para a Amazônia, também, fui mandado pelo jornal, depois virou livro. Brinco que o acaso na minha vida é impressionante, tudo acontece por acaso. E todos os livros também surgiram por acaso ou encomenda. Eu não sei, mas certamente algum tema desse vai se impor. E é um pouco também com o negócio da crônica. “Como você escolhe os temas e assuntos?”, me perguntam. Na verdade, entram dentro de mim. Você está escrevendo sobre porque aquilo que te mobilizou, aí você escreve. Não tenho projeto, mas será certamente alguma coisa sobre o Brasil, que é minha grande obsessão, minha segunda é o Rio de Janeiro. Não sei, mas gostaria muito de poder escrever ainda em vida alguma coisa contra Cidade partida. Que pudesse ser, enfim, a cidade unida. Isso me pesa muito, no sentido de que dá sempre a impressão o fato de ter escrito Cidade partida e isso ter virado um bordão, gostaria muito que fosse substituído por um outro. Quem sabe, ainda tenho esperança de que o Rio atenda a sua vocação do encontro, da festa, da comemoração. O Rio é uma cidade do encontro, não é uma cidade da segregação. Então, essa apartheid social que a gente vive é uma circunstância que vai ser vencida com o tempo. Eu gostaria muito de estar vivo para escrever sobre esse momento.

Muito obrigado, Zuenir.

ZV - Obrigado a vocês.

 

PARTE 1

 

PARTE 2


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