CHICO MATTOSO

 ESTRANHEZA E INTIMIDADE NO PRIMEIRO ROMANCE

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

O livro Parati para mim(Planeta), produzido e lançado na primeira edição da Festa Literária de Parati (FLIP/2003), despertou a minha atenção para os três jovens escritores: Chico Mattoso, Santiago Nazarian e João Paulo Cuenca.

O conto “Emílio”, escrito por Chico, ficou durante algum tempo guardado em minha memória. Mas depois acabei esquecendo e acompanhando mais a produção do Cuenca e do Nazarian, que publicam com mais frequência.

“Eu nunca tive pressa para publicar. Achei que aconteceria na hora certa. A experiência com os livros coletivos foi importante para mim, tanto como exercício literário como pelo contato com outros escritores. Meu romance era até para ter ficado pronto antes, mas me envolvi num projeto que interrompeu o processo. O livro ficou na gaveta por quase um ano, e em 2006 retomei o trabalho”, explica o escritor, que é formado em Letras na USP.

Depois de quase cinco anos, leio o romance do Chico Mattoso, Longe de Ramiro(Editora 34), seu primeiro livro “solo”. Trocamos algumas palavras durante um evento literário no Rio de Janeiro, mas a entrevista ocorreu por MSN. Foi a nossa primeira entrevista ”virtual-instantânea”.

“Eu tinha 17 anos, estava começando a escrever com mais frequência, e aquilo bateu forte em mim. Eu já tinha interesse em literatura, mas nunca tinha pensado que poderia transformar aqueles textinhos de colegial em uma atividade mais séria. Aliás, até hoje não sei se consegui fazer isso”, iniciamos a conversa.

Arrisco dizer que Longe de Ramiro foi um dos melhores lançamentos que li em 2007. O personagem Ramiro causa tanta estranheza ao leitor que, no decorrer das páginas, é impossível não se sentir íntimo dessa história ”kafikiana”. Leia.

Você é francês? Como é essa história?

Chico Mattoso – Não, não tenho nada de francês. Meus pais estavam exilados na França, e aconteceu de eu nascer lá. Vim para o Brasil com seis meses, sou brasileiro de pai e mãe.

Você chegou a morar na França em 1997. De que maneira essa experiência serviu para sua escrita?

CM – Fui para lá com 18 anos. Foi importante para mim, nesse período eu saquei que podia levar mais a sério a escrita. Mas isso não tem muito a ver com o fato de estar lá, acho que teria acontecido se eu estivesse no Brasil.

De que maneira a literatura chegou a você?

CM – Meus pais sempre foram bons leitores, e acho que isso teve alguma influência no meu interesse pela literatura. Desde pequeno tenho certo encantamento por essa coisa de contar histórias, mas não posso dizer que tenha sido um escritor precoce. Gostava de ler e escrever, mas preferia jogar videogame.

Esse interesse pela literatura surgiu por causa de algum livro ou escritor?

CM – Engraçado. Nunca havia pensado nisso, mas acho que houve um livro importante para mim. Fiquei muito impressionado quando li O Estrangeiro, do Camus. Eu tinha 17 anos, estava começando a escrever com mais frequência, e aquilo bateu forte em mim. Eu já tinha interesse em literatura, mas nunca tinha pensado que poderia transformar aqueles textinhos de colegial em uma atividade mais séria. Aliás, até hoje não sei se consegui fazer isso.

Escritor, tradutor, editor, roteirista. Em que você mais se realiza?

CM – Gosto do que faço. Posso dizer que escolhi ser escritor, mas o resto aconteceu meio por acaso. Foram oportunidades que apareceram e eu resolvi encarar. Até porque não dá para viver só de escrita no Brasil.

Como foi esse “exílio” encomendado em Cuba? O que mais o atraiu lá? Já está escrevendo um novo livro?

CM – Não sei dizer o que mais me atraiu. Cuba é um lugar muito particular. É tudo familiar e estranho ao mesmo tempo. Ainda estou aprendendo a entender aquilo lá. Escrever o livro está me ajudando nesse sentido. Mas não gosto de falar de algo que ainda não está pronto. Estou no meio do processo, fica difícil dizer alguma coisa.

De que maneira São Paulo está presente no que você escreve?

CM – Putz, não sei. Cresci aqui, é difícil avaliar. Mas sou apaixonado por São Paulo. Acho um lugar fantástico. Outro dia, um amigo que nunca veio para cá me perguntou como era a cidade, e eu respondi que São Paulo era muito melhor e mais feia do que ele poderia imaginar. Acho que é mais ou menos por aí.

Você é formado em Letras na USP. Você crê que a universidade, a faculdade de Letras em específico, pode travar o processo criativo?

CM – Não acho. Quem quer escrever, escreve. É verdade que o ambiente acadêmico não é o lugar mais propício para grandes voos de imaginação, mas acho perfeitamente possível conseguir separar as coisas. Eu consegui.

Você teve alguma experiência com artistas cubanos?

CM – Tive contato com alguns escritores e músicos. Gente muito legal, muito talentosa. Mas meu interesse maior estava no dia a dia de Havana, nesse exercício absurdo que é tentar decifrar uma cidade estrangeira.

Dois livros em grupo: Cabras (1999) – Com Antonio Prata, Paulo Werneck e José Vicente da Veiga e Parati para Mim (2003) – com João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian. Você demorou a escrever e a publicar o seu livro solo – Longe de Ramiro. Por quê?

CM – Eu nunca tive pressa para publicar. Achei que aconteceria na hora certa. A experiência com os livros coletivos foi importante para mim, tanto como exercício literário como pelo contato com outros escritores. Meu romance era até para ter ficado pronto antes, mas me envolvi num projeto que interrompeu o processo. O livro ficou na gaveta por quase um ano, e em 2006 retomei o trabalho.

Como acontece o seu processo de criação? Você é disciplinado para escrever?

CM – Eu gostaria de ser mais disciplinado. É uma luta que tenho travado comigo, porque sou caótico por natureza. Mas tenho evoluído. Acho.

Quem é Ramiro?

CM – Boa pergunta. Eu estava com o telefone dele aqui, comigo, mas agora não estou achando. Vai ficar para outra hora… (Risos.).

Por que você escreve?

CM – Já me perguntei muitas vezes por que escrevo. Não sei a resposta. Mas tenho outros hábitos estranhos, como beber Coca-Cola sem gás e torcer pelo Corinthians.

Você tem algum parentesco com o poeta Glauco Mattoso?

CM – É meu sobrinho. Brincadeira. As pessoas sempre me perguntam. Glauco Mattoso é um pseudônimo, não temos conexão nenhuma.

Como foi a experiência de escrever roteiro de novela?

CM – Foi… intensa. Aprendi muito. Tenho vontade de voltar a trabalhar em Televisão, mas não sei se escrevendo novela. É massacrante demais.

Sua prosa é diferente dos autores contemporâneos que tenho lido. Uma escrita não fragmentada que sai costurando a história e arrastando o leitor. Quais são as suas referências?

CM – Gosto muito dos americanos, dos russos, dos argentinos: Salinger, Saroyan, Roth, Carver, Tchekhov, Tolstói, Cortázar. Ultimamente tenho lido Bolaño, Graciliano, Onetti. O último livro do Javier Cercas é excelente. Mas quem me ensina mesmo a viver é o Bill Watterson.

Você lê a galera nova que está produzindo? Quem?

CM – Acompanho, na medida do possível. Evito um pouco cair na armadilha de ler só os contemporâneos, acho que não faz muito bem para saúde. Mas acho essa geração de escritores brasileiros muito boa. O Daniel Galera, o JP Cuenca, o Edward Pimenta, a Cecilia Giannetti, o Antonio Prata, o Joca Terron. E o legal é que são autores muito diferentes uns dos outros, com vozes muito particulares. Acho que ainda vem muita coisa boa por aí.

Você escreve poesia? Que poetas você lê?

CM – Não escrevo poesia, mas leio com alguma frequência. Gosto de Apollinaire, de Drummond, de Maiakovski, de Ginsberg, de Walt Whitman. No Brasil há também uma boa geração de poetas. Gosto muito da Angélica Freitas e do Fabrício Corsaletti.

O que diria para os jovens que desejam ser escritores?

CM – Leiam. Escrevam. Leiam mais um pouco. Tenham paciência. E não se levem a sério demais.


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