CHRISTIANE TASSIS

 MEMÓRIAS, SONHOS E PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 

A escritora Christiane Tassis merece ser lida. O livro Sobre a Neblina (Língua Geral), resultado da Bolsa Criação Literária da Flip 2004, arrasta o leitor junto com as memórias do protagonista, o fotógrafo Henrique. Os personagens são desconstruídos através de textos, cartas, depoimentos e fotos, para dar sentido à narrativa.

A mineira, de Governador Valadares, parece carregar a “mineirice” no modo de se expressar, mesmo depois de ter morado em diferentes países.

“O Rio tem uma sabedoria de vida que me interessa. O carioca é menos autocrítico e faz as coisas sem pensar. O mineiro pensa de mais, é uma carga muito grande. O Rio de Janeiro tem uma leveza que me permite escrever. Se eu não tivesse passado por essa cidade, eu não teria escrito meu livro. Acho que por isso que os escritores mineiros vieram para cá: Drummond, Hélio Pellegrino…”.

Com uma fala bem lenta, quase sem sotaque, a escritora respondeu minhas perguntas sobre sua relação com as letras.

“Acho que escrevemos para encontrar uma coerência na vida, tem muito a ver com o que acabei de dizer sobre ser honesto”.

O encontro aconteceu em dezembro de 2007, com a companhia da escritora Ana Paula Maia, na livraria Argumento, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Por que demorei para publicar a entrevista? A fita do registro desapareceu, junto com outro material de trabalho, por algum motivo inexplicável.

Passado o susto, finalmente compartilho as palavras de uma escritora talentosa

Você é formada em jornalismo, publicidade e, ainda, trabalha como roteirista. Como surgiu seu interesse por literatura?

Christiane Tassis – Na verdade, o interesse pelas palavras surgiu muito antes do universo acadêmico. Tenho uma relação muito forte com a literatura, sempre li e escrevi muito. Mas na época de optar pelo lado profissional, optei pelo jornalismo. Eu pensava na maturidade para poder publicar, só mais tarde consegui encontrar minha linguagem.

Você teve incentivo de alguém?

CT – Não (risos). Ninguém! Tudo aconteceu naturalmente, fui uma criança que gostava muito de ler. É uma relação instintiva mesmo. Sempre tive vontade de trabalhar com a escrita, por isso optei pelo jornalismo. Mas eu queria separar a profissão e a literatura. Acredito que com a literatura como profissão surge a cobrança de vender livros. Não quero isso. Quero uma literatura que não tenha como objetivo a ligação com o mercado.

O jornalismo atrapalha seu trabalho como escritora?

CT – As pessoas que cursam Letras têm um discurso assim: estudar muito teoria faz com que a autocrítica prejudique o processo criativo. Não acredito, a autocrítica surge, com ou sem o estudo da teoria. A publicidade e o jornalismo não afetam nada. Sei separar as personas: uma coisa é a atividade profissional e outra é a escritora Christiane que escreve do jeito que acha legal.

Fez um ano que você publicou o livro Sobre a Neblina. O que mudou após o lançamento?

Ana Paula Maia – Ela me conheceu… (Risos.)

CT – (Risos.) Conheci a Ana Paula… Estou aqui na (livraria) Argumento, em Copacabana. Acho que mudou muita coisa. Tem um conto do Cortázar que fala de uma determinada coceira. Eu sentia essa coceira, como se eu estivesse o tempo todo com fome de publicar. Mas ao mesmo tempo eu não queria escrever qualquer livro. Queria escrever um livro de que eu não tivesse vergonha. Não sei se foi a melhor forma, mas foi o que batalhei. Revelei os conflitos que eu tinha com a publicidade – é inevitável ter questionamentos com a atividade profissional. A publicação do livro mudou minha relação com muitas coisas.

O que mudou no processo de escrita?

CT – Mudou que o meu computador quebrou (risos). Saio amanhã de férias para a Bahia, mas vou ter de levar um caderno para escrever à mão (risos). Quando fui colocar o computador na mochila percebi que ele estava quebrado (risos). O primeiro livro foi resultado de um reencontro com Minas. Morei em muitos lugares: Roma, Barcelona, São Paulo…

Você é brasileira, mas tem traços europeus…

CT – Tenho origem italiana e polonesa.

APM – Você trabalhou nesses países?

CT – Não, juntei dinheiro antes de ir. Sempre faço isso, para ficar exclusiva para literatura. A rotina de trabalhar com outras coisas é muito sufocante, mas aprendi a ser uma pessoa disciplinada. Atualmente, me obrigo a escrever umas três horas por dia.

APM – Você fica emocionalmente desgastada quando escreve ficção?

CT – No primeiro livro eu fiquei muito desgastada por causa do retorno a Minas, da bolsa da Flip… Eu me cobrei muito porque estava experimentando uma linguagem.

Existe a expectativa do segundo livro?

CT – Sim. Mas agora eu tenho todo tempo do mundo. Estou mais tranquila com a angústia de ter de encontrar uma voz, uma dicção, apesar de todo livro ter sua idiossincrasia.

Você mora em Minas Gerais. Há dificuldade com o meio editorial por causa disso?

CT – Acho que afeta porque eu frequento poucos eventos literários. Mas acho que não se deve pensar nisso. Um bom livro vai sair de Minas ou da Paraíba para tomar o mundo.

Que escritores de Minas Gerais você admira?

CT – Há os cânones mineiros: o Guimarães Rosa, Drummond, Hélio Pellegrino… Dos novos tem Maria Esther Maciel, que acho muito interessante. Acho que em Minas, atualmente, a produção audiovisual é bem maior do que a produção literária.

Mesmo com tanto apelo audiovisual as pessoas ainda estão interessadas em literatura?

CT – Acredito que sim. Nunca se publicou tanto no Brasil, a Internet favorece muito essa situação. As editoras pequenas estão interessadas em escritores contemporâneos e as grandes editoras também estão abrindo espaço…

Li, em seu blog, um texto emocionante sobre a perda do seu pai no ano de publicação do seu livro…

CT – Foi um momento muito sensível, ele ficou dois anos doente. Acho que é algo muito pessoal, prefiro não mais tocar no assunto. O que escrevi no blog fechou um ciclo, a superação…

O que é mais importante na vida?

CT – Ser honesto com você mesmo. Viver de acordo com o código de ética que você estabeleceu, sem forçar mudanças. É o que mais procuro como meta de vida.

Por que você escreve?

CT – Vou falar igual a Clarice (Lispector): ”Por que você bebe?” (Risos.) Acho que escrevemos para encontrar uma coerência na vida, tem muito a ver com o que acabei de dizer sobre ser honesto.

APM – Que mundo de ideias norteia o seu livro? O conceito, a busca…

CT – Tenho percebido que me interessa a relação com o outro. O outro é o grande enigma da vida. Por enquanto, me interessa recriar versões de diferentes histórias. Não sou uma contadora de histórias, gosto de trabalhar o texto.

Quais são suas maiores influências?

CT – O filme Rashomon, de Kurosawa. Gosto muito do Borges, Cortázar, Clarice Lispector…

Você escreve roteiros e romances. Existe muita diferença?

CT – Sim. O roteiro é mais pragmático, uma peça de um trabalho. São linguagens diferentes. Mas prefiro o livro a qualquer outra coisa na vida.

Seu livro foi indicado na bibliografia de uma disciplina da UFMG…

CT – Sim. Fiquei muito feliz por ter interlocução com estudantes de Letras. Essas coisas pequenas que valem a pena.

O segundo romance já tem nome?

CT – Não. Nomes são dificílimos, sempre faço a escolha por último. O livro vai mudando…

Como acontece seu processo de criação?

CT – Quando escrevo roteiro, faço uma sinopse. Mas com o livro não consigo fazer nada disso. Geralmente, quando trabalho um romance, não faço a menor ideia do que vou escrever. É estranho, o livro vai mudando.

Se você pudesse escolher um lugar para morar, escolheria o Rio?

CT – Acho que sim. O Rio tem uma sabedoria de vida que me interessa. O carioca é menos autocrítico e faz as coisas sem pensar. O mineiro pensa de mais, é uma carga muito grande. O Rio de Janeiro tem uma leveza que me permite escrever. Se eu não tivesse passado por essa cidade, eu não teria escrito meu livro. Acho que por isso que os escritores mineiros vieram para cá: Drummond, Hélio Pellegrino… (Risos.) Para tirar um pouco do peso do minério… (Risos.)

Li numa entrevista que você escreve sobre o que não entende. Por quê?

CT – Porque tenho interesse pelo desconhecido. Sou minha primeira leitora. A primeira pessoa que tenho de agradar sou eu, o que já é coisa de mais. Levando isso em consideração, preciso me apresentar a coisas que não conheço. Tenho interesse pela elite cultural, pelas pessoas que trabalham com cultura.

Você tinha um blog chamado Basicamente Isso, que agora tem o nome de Multiprocessador. Como é sua relação com a Internet?

CT – Uso mais a Internet como exercício, meu interesse é publicar textos que não tenham outro suporte. Procuro usar o blog escrevendo textos curtos, despretensiosos.

Existe literatura de Internet?

CT – Acho que sim. Mas não me vejo publicando um romance pela Internet, por exemplo. Claro que há textos bons na Internet, mas talvez não sirvam para um livro.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

CT – Tente a medicina (risos). A profissão de escritor é difícil, tem de ter vocação. Não existe receita de bolo. Seja honesto com a escrita!


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