CHACAL

 UMA HISTÓRIA À MARGEM

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 

Fiz uma oficina de produção textual com Chacal e assisti ao evento V de Verso, no Sesc de Copacabana – onde o poeta contou a trajetória junto com os amigos Charles Peixoto, Fausto Fawcett, Mimi Lessa, Viviane Mosé e Raul Mourão. Então, aproveitei o mergulho para ler Belvedere 1971-2007 (7Letras, Cosac Naify) e marcar uma breve conversa.

“Todos os movimentos de que participei ativamente. Quando o livro estiver pronto, vou fazer uma nova edição desse evento com muito mais força. Confesso que não pude preparar como deveria os encontros. O V de Verso serviu para que eu pudesse ganhar força e entusiasmo para começar a navegar nessa maré. É muita coisa! São muitas vidas! Vou fazer 60 anos daqui alguns anos, sinto a necessidade de contar essas histórias”.

Acompanhado do fotógrafo Tomás Rangel e da atriz Débora Almeida, fui ao encontro de Chacal para que pudesse falar mais sobre a paixão que o mantém com um espírito tão jovem: a poesia.

“A tendência é viver o presente. A cultura contemporânea é a cultura do presente. Aqui no Brasil não há a preocupação com a memória. Eu quero escrever para acreditar que vivi esse tempo todo”.

Vestindo uma calça jeans, um blusão de malha e um gorro verde-amarelo, o poeta-ícone da geração marginal respondeu, lentamente, a cada pergunta com atenção. Com voz rouca, baixa, confessou que está numa fase da vida em que deseja contar histórias.

“Do CEP 20000 para cá, percebo duas correntes: uma de estudantes de Letras que tem um repertório maior sobre o que é poesia; e outra, mais vitalícia, na linha da Nuvem Cigana. Uma vai para a (editora) 7 Letras e outra vai para o CEP. As duas são boas. Mas eu me identifico mais com a linha do CEP. Como diz a academia, o meu repertório é baixo. Eles não entendem nada e deveriam “fumar um” de vez em quando”.

Mimeógrafo, Nuvem Cigana, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Circo Voador, Blitz, CEP 20000 são algumas das muitas vidas de Chacal. Aos 57 anos, ele comemora os 18 anos do CEP como se estivesse brindando a própria maioridade. Um poeta que ao longo de décadas vem formando novos poetas merece, no mínimo, vida longa.

Ricardo de Carvalho Duarte. Por que o pseudônimo Chacal?

C – Chacal é uma gíria antiga que usei depois de um treino da Seleção Carioca de Vôlei, em 1964. Depois a gíria caminhou para a rua e assim ficou: Chacal.

Durante a oficina Pintura e Lanternagem do Texto, no Sesc de Copacabana, você disse que o Oswald de Andrade foi uma grande influência. E a família o influenciou de alguma maneira?

C – Em casa, eu lia Guimarães Rosa. Nos tempos de colégio, lia os autores da época, por exemplo, o Herman Hesse. Conheci a obra do Oswald em 1970, na Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), através do (poeta) Charles Peixoto. Depois que li Oswald comecei a escrever muito próximo, como os poemas Kodak, com ideia de fotografar o ambiente.

Depois você foi para Londres e assistiu a uma performance do Allen Ginsberg. Esse fato influenciou sua maneira de dizer poesia?

C – Sim, foi um start. A performance foi muito forte, não tinha aquela leitura formal de dizer poesia. O Ginsberg chegou todo desgrenhado, vestindo um macacão jeans, e começou a falar o texto sem ler nada. Ele dava uivos e gargalhadas, era fascinante. Eu olhei aquilo e pensei que o poeta tinha de ter aquele tipo de atitude. Ainda mais naquela época, em 1973, quando tudo era contestado. Assim que pude, coloquei em prática aquele aprendizado.

Você sente preconceito da academia em relação aos poetas que falam poesia?

C – Para a academia é difícil absorver. Mas não acredito que exista preconceito, até porque muitos acadêmicos começaram a falar poesia ou, pelo menos, a ler. (Chacal interrompe a entrevista com um grito de saudação a Raul Mourão, artista plástico que finalizou o dueto do evento V de Verso’ representando a geração 00: “Salve mocorongo, mestre!”). Então, é natural que a academia vire a cara porque ela gosta da coisa morta, do poema frio para análise do texto. A presença do poeta causa um problema para eles. Primeiro, porque entra a emoção da fala do poeta e, segundo, porque é efêmero. Seria necessário que eles se deixassem levar pela emoção, isso é difícil. E dissecar uma performance não é possível, porque o momento morre. Uma fotografia de uma performance não é performance. A gravação de uma performance não é performance. É a emoção do momento que é interessante, é o que vale. E os acadêmicos não têm instrumental para analisar isso. Ou melhor, não sei se existe instrumental para essa análise. Tenho alguns poemas que são contra a academia, como o “Bendita Palavra Maldita”.

O que é preciso para ser um poeta?

C – Fazer um bom poema, um bom texto. Tem de ser guerreiro, ter atitude, mas isso está em segundo plano. Em primeiro plano está o poema.

Você é formado em jornalismo pela ECO/UFRJ…

C – Fiz comunicação social, com especialização em Teoria da Informação e Editoração. Mas não cheguei a exercer a profissão. Fui cronista na Folha e no Correio Braziliense, mas o jornalismo nunca me atraiu.

Como está sendo a experiência de rever a vida no evento V de Verso?

C – É uma experiência muito boa, principalmente porque serviu como pontapé inicial para o que será este momento do meu trabalho: uma revisão dos 40 anos de poesia e produção cultural no Rio de Janeiro. Serviu para esquentar os motores para o livro que pretendo escrever sobre essa trajetória. E serviu em relação aos meus amigos que são pessoas importantes para esse trabalho. Eu ganhei uma bolsa da Petrobras para escrever um livro, Uma História à Margem, sobre essa caminhada. Vou falar de vários momentos da poesia: Mimeógrafo, Nuvem Cigana, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Circo Voador, Blitz, CEP 20000, Free Zone, Miscelânea… Todos os movimentos de que participei ativamente. Quando o livro estiver pronto, vou fazer uma nova edição desse evento com muito mais força. Confesso que não pude preparar como deveria os encontros. O V de Verso serviu para que eu pudesse ganhar força e entusiasmo para começar a navegar nessa maré. É muita coisa! São muitas vidas! Vou fazer 60 anos daqui alguns anos, sinto a necessidade de contar essas histórias.

Você transmite muita jovialidade. Como é envelhecer com a vida marcada por gerações?

C – É isso que estou tentando entender. Talvez esse livro possa ajudar a ter uma melhor perspectiva. A tendência é viver o presente. A cultura contemporânea é a cultura do presente. Aqui no Brasil não há a preocupação com a memória. Eu quero escrever para acreditar que vivi esse tempo todo.

Há algum tipo de crise com a idade?

C – Não. Estou sempre reciclando. A vida para mim é lucro, sabe? Acho que não temos de ter muitas expectativas, o que vier é bacana. O importante é você estar entusiasmado. Eu não quero perder o entusiasmo pela vida. Cada vez mais produzo melhor porque as pessoas já conhecem um pouco do meu trabalho. Quero tentar conjugar o trabalho com o ócio. O poeta vive o ócio sagrado, um sacerdócio.

Diante dessa trajetória, como você avalia a produção poética atual? O que é a “geração 00”?

C – Ainda é um enigma para mim. Eu não sei o que é a geração 70 que dirá a 00 (risos). A cada ano, vamos criando valores diferentes para perceber a geração anterior. Do CEP 20000 para cá, percebo duas correntes: uma de estudantes de Letras que tem um repertório maior sobre o que é poesia; e outra, mais vitalícia, na linha da Nuvem Cigana. Uma vai para a (editora) 7 Letras e outra vai para o CEP. As duas são boas. Mas eu me identifico mais com a linha do CEP. Como diz a academia, o meu repertório é baixo. Eles não entendem nada e deveriam “fumar um” de vez em quando. Então, vejo esses dois pólos. Vejo pouca gente fazendo um cruzamento entre as duas áreas. Há o Domingos Guimaraes que faz uma excelente performance. Torço pela Alice (Sant’Anna), ela tem conhecimento e uma simplicidade que me interessa. Admiro a Claudia Roquete-Pinto e o Carlito Azevedo, mas eles não fazem essa transição.

Qual a importância da comemoração dos 18 anos do CEP 20000?

C – O CEP é muito importante porque é a conquista de uma geração. O CEP instalou uma cultura jovem, pop, dentro de uma área gerida pelo município. É aquele lance de uma zona de ocupação temporária: o que interessa não é chegar ao poder, mas fazer uma zona de ocupação temporária. Só que o CEP é uma zona de ocupação de 18 anos. Ali nós instalamos uma república livre, neguinho faz o diabo e a Prefeitura não se mete. Porque há o apoio de uma galera grande. O que acontece lá? É poesia, música, arte. Mas o mais importante é o encontro das pessoas.

O que representou o Nuvem Cigana?

C – O começo de tudo, em termos de ação poética e musical. Antes disso, teve o Tropicalismo, que foi a grande matriz musical. Mas a ação poética de misturar poesia e política foi na Nuvem. Depois aprendi com Asdrúbal e depois com o Circo Voador.

Qual era diferença entre os três?

C – A Nuvem era extremamente anarquista, misturando vida com poesia. E era assim o tempo todo. O Asdrúbal já tinha um eixo no teatro, o Fernando (Luiz F. Guimarães) e a Regina (Casé) eram concentrados. O início da atividade profissional foi com o Asdrúbal, quando percebi que não era só transportar a vida para a arte. Entrei para o grupo no final de 1977, eu estava lançando Quampérios. Mas a poesia sempre falou mais alto, não sou um ator de teatro. Gosto de falar poesia. Gosto de escrever poesia e prosa poética.

Você tem parcerias com Moraes Moreira, Jards Macalé, Lulu Santos, Cláudio Venturini, Evandro Mesquita e Fernanda Abreu. Como é sua relação com a música?

C – É uma relação muito arisca. A métrica da música me prende um pouco, como se eu tivesse de escrever um soneto. Isso eu não gosto. E também há um sentimento de que é um material para a cultura de massa. Prefiro o meu trabalho com Mimi Lessa, poesia e guitarra, acho que funciona melhor. Fiz muita coisa, mas não é algo de que tenho orgulho. Gosto do trabalho que fiz com a Fernanda Abreu, porque eu mandava a letra e ela jogava um bit em cima, sem muita melodia.

De todos os seus livros, existe algum pelo qual você tenha um carinho especial?

C – O último (Belvedere), que contém todos os outros (risos).

O que você lê?

C – Eu não leio. Leio pouquíssima coisa. Pronto, falei (risos).

Você ainda se considera um poeta marginal?

C – É difícil responder isso. O poeta por si só é uma criatura marginal. A poesia não é indústria cultural, ela é artesanato. O poeta já está à margem do sistema, pois o produto de seu trabalho não tem valor de troca. Eu não sou um poeta acadêmico, não faço o jogo da academia, então já estou à margem desse grupo que é à margem. Por outro lado sou aceito, tenho uma coletânea pela Cosac Naify. Sou um poeta clássico, tenho consciência disso. Não sei… Sou poeta. Não interessa se um poeta é marginal ou não. Vivi os anos 70, continuo ligado a movimentos alternativos e vou vivendo…

Como é o seu processo de criação?

C – Vai muito do momento. Há dias em que escrevo mais, quando aflora um sentimento mais forte. Tenho dois blogs que me estimulam a criar. Mas é um processo intermitente.

O que você diria para um jovem que deseja ser poeta?

C – Seja! E depois vai ser poeta. Primeiro seja. Exercite todo o seu potencial de ser humano. Depois de ser, escreva!


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