CHACAL

POETA MAGISTRAL

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Quem convive com Chacal, seja no CEP 20.000 ou nos arredores do Baixo Gávea, consegue entender que, prestes a completar 60 anos — em 24 de maio de 2010 —, o poeta carioca mantém o vigor e o entusiasmo do garoto que estreou com o livro Muito prazer, no início dos anos 1970.

Autor de 13 livros de poemas, entre os quais Drops de abril,Letra elétrika e A vida é curta pra ser pequena, em 2007 lançou Belvedere – Poesia Reunida, pela Editora Cosac Naify. Integrante de grupos emblemáticos como Asdrúbal Trouxe o Trombone e Nuvem Cigana, Chacal faz de sua poesia um dínamo para lidar com o dia a dia. Dono de uma linguagem ágil, característica da poesia marginal, movimento ao qual até hoje é associado, o poeta circula entre diversos meios sem se prender a nenhum.

No recente livro de memórias, Uma história à margem (7Letras, 2010) — motivo do encontro — Chacal faz uma revisão biográfica, registrando a convivência com artistas no Circo Voador até a criação do CEP 20.000, o Centro de Experimentação Poética que comemorou 20 anos de formação em 2010. Chacal relembra também, personagens que, ao longo de 40 anos, passaram por sua trajetória.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, em seu apartamento, Chacal ilustra detalhes desses episódios que marcaram a cultura brasileira, testemunhando que a busca pela melhor maneira de dizer seus poemas é uma obsessão.

Chacal – Quarenta anos da minha vida em 150 páginas? Uma história à margemfoi um projeto meu de 2007 para o edital da Petrobras Cultural. Na verdade, Uma história à margem começa antes… Indo para um festival de poesia em Goiás Velho, em dezembro de 2006, encontro Augusto Massi, editor da Cosac Naify, e pergunto: “E meu livro? Vai sair ou não vai?” Seria o próximo livro da Coleção Ás de Colete. Esse livro já estava há dois anos na mão da Cosac…

Belvedere, sua reunião de poemas produzidos de 1971 a 2010.

C – Sim, a coletânea, poesia reunida, Belvedere, que foi lançado em 2007. Nessa viagem, ele me contou histórias e comecei a contar histórias sobre poesia marginal… Os primeiros fracassos da Nuvem Cigana, que gerou grandes sucessos mais à frente. Ele falou: “Por que você não coloca isso no livro? Seria interessante dar uma contextualizada…” Quando cheguei ao Rio, depois do festival, fui para a máquina e, rapidamente, deram 20 páginas de histórias… Histórias não faltam, não é? Eu já tinha vontade de escrever essas histórias. Enviei essas vinte páginas para o Massi, ele demorou um pouco a me responder. Foi o tempo para eu pensar que uma coisa iria brigar com a outra. Eu não queria que a minha poesia reunida ficasse brigando com o texto introdutório… As pessoas, de repente, iam se orientar para ler os poemas através da minha vida pregressa. Eu falei: “Não! Faço, então, uma pequena introdução para Belvedere, falando sobre o título do livro, e o texto eu guardo. Vamos fazer outro livro com essas histórias.” Ao mesmo tempo, abria o edital da Petrobras pela primeira vez para literatura, poesia e ficção. E o que precisava? Justamente 20 páginas do livro e o compromisso de uma editora para publicar. Escrevi de 2008 a 2010, dois anos foi o prazo que me deram. A Cosac demorou a me dar a resposta se iria publicá-lo, então falei com a 7Letras.

Como é rememorar sua trajetória?

C – É mais alegria que dor. Quando se passa a vida a limpo e vejo tantas coisas produzidas, mesmo em situações adversas, que foi a maior parte do tempo… Todo o período da Ditadura, muitas dificuldades financeiras e de cabeça… Conseguir passar pela história, estando vivo, contando sem ser psicografado… (risos) É um motivo de orgulho. Não só de orgulho, mas entender que valeu a pena, que se construiu alguma coisa. Não só uma obra literária, uma obra mais ampla… Se for pensar no CEP 20.000, uma área de produção de cultura, de produção de acontecimento, isso é bom.

Em 24 de maio 2011, você completa 60 anos. Como lidar com o tempo?

C – Quando eu fizer 60, vou ter a crise dos 20 (risos). Eu não sei, não tenho tempo para ficar pensando em idade, tempo. Aquelas coisas de sempre, o tempo não perdoa, como a bola, segundo Muricy (Ramalho, treinador de futebol hoje no Fluminense). Problemas de vista, pequenos problemas de ordem física, ter que usar óculos, perder óculos, e não sei o quê… Mas o resto eu me cuido.

Você é sempre rotulado como “poeta marginal”, mesmo após a publicação da coletânea de poemas em edição de luxo. Ainda se considera um “poeta marginal”?

C – Não. Costumo dizer que agora sou um poeta magistral (risos). Só para tirar uma onda. Eu não gosto dessa coisa de estigmatizar. A academia gosta muito de classificar o poeta, e coloca num escaninho, como para esquecer… Identificou, classificou, pronto. E todas as características identificadas naquele movimento passam para o poeta. Então, se sou um poeta marginal, devo escrever como se fala, distribuir meu livro de mão em mão, publicar em mimeógrafo… Não é isso. A categorização é da academia, às vezes, me preocupa querer sair desse museu. Eu sou outras coisas, sou um poeta concreto, sou um cordelista, sou um repentista, falo meus poemas… Não que eu seja contra ou tenha algum problema com poesia marginal, foi um movimento que trouxe muitas conquistas. Como o concretismo também trouxe. Não gosto de ser classificado assim, estou sempre mudando. Sei que vou terminar minha vida como vilão de teatro infantil…

Um objetivo?

C – Objetivo. A minha fantasia, meu sonho é esse…

Afinal, Chacal é um nome assustador.

C – Justamente (risos).

Seu nome é Ricardo Carvalho.

C – O Chacal veio do vôlei. Eu jogava vôlei na seleção carioca. Acabou o treino, me atrasei no banheiro, tomando banho… Quando cheguei à cantina, ali onde era ginásio do Mourisco, a turma estava comendo e bebendo: “Que onda Chacal.” Uma gíria que tinha na época, não sei mais o que quer dizer… Talvez, “onda devagar”.

Seus pais não ficaram assustados?

C – “Bicho carniceiro! O que é isso? Ricardo, um nome tão bonito…” Mas gostei da mudança, é sonoro. Na época, só tinha o meu, nem tinha o terrorista boliviano, colombiano… Hoje tem uma porção de MCs, grafiteiros.

E a Nuvem Cigana, nos anos 1970?

C – É uma história longa. A gente já tinha começado o movimento da Poesia Mimeógrafo, Poesia Marginal. Meu primeiro livro é de 1971, junto com o Charles Peixoto, ainda não havia a Nuvem Cigana. Depois, em 1973, encontrei o Ronaldo Bastos, parceiro do Milton Nascimento, em Londres. Ele falava que queria fazer uma produtora no Rio, que se assemelhasse a Apple inglesa, produzindo capas de discos, long plays, livros, shows… Voltei para o Brasil no final de 1973, o movimento de poesia independente estava em ebulição, principalmente com o Cacaso fazendo a Coleção Frenesi: Chico Alvim, Roberto Schwarz, Geraldo Carneiro e João Carlos Pádua. Naquela efervescência, escrevi outro livro, chamado América, que saiu pela Coleção Vida de Artista, que Cacaso organizava. Nesta coleção, saíram livros de Luís Olavo Fontes, Zuca Sardana, Eudoro Augusto e Cacaso. A importância da Nuvem Cigana foi que, pela primeira vez, tinha uma organização mais profissional na poesia marginal e nós mesmos cuidávamos da distribuição e do lançamento. Eram lançamentos maravilhosos, que a gente dava nome de Artimanhas. Em determinado momento a gente começou a falar nossos poemas. Mas não daquele jeito formal, parnasiano, clássico de leitura de poemas, com a voz impostada e embargada. A gente falava com o corpo todo, era uma poesia rock’n’roll.

Inclusive influenciado pela sua experiência de assistir Allen Ginsberg em Londres…

C – Justamente. Assisti Allen Ginsberg em Londres, em 1973, num festival internacional de poesia. Foi engraçado, porque tinham vários poetas de vários lugares do mundo, todos de paletó e gravata, lendo os textos. A visão de poesia sempre foi essa… Quando entrou o Ginsberg de macacão, muleta, perna engessada e barba toda desgrenhada… Eu fiquei maluco com aquilo. Primeiro ele não pegou nada para ler! Acho que ele falou um trecho de “Uivo”. Gargalhava e berrava, sabe? Depois tirou uma sanfoninha da bolsa e disse: “Vou falar um blues.” Pegou a sanfona, em pé, amparada na mesa, e começou a marcar e entoar um blues. Eu que já tinha ficado pirado com Bob Dylan em 1965, 1964, ele cantando “Like a rolling stone”. Para mim, foi a primeira vez que havia poesia falada, só que cantada. Quando vi Ginsberg, lembrei do Dylan.

Em 2010, o CEP 20.000 completou 20 anos. O que esse Centro de Experimentação Poética representa hoje?

C – O CEP 20.000 começou a partir de um projeto chamado Terças-Feiras Poéticas, do Guilherme Zarvos, na Faculdade da Cidade (hoje, UniverCidade), em abril ou maio de 1990. Ele convidava um artista consagrado: Ferreira Gullar, Antonio Assis, Silviano Santiago, João Cabral de Melo Neto, Gerardo de Mello Mourão… E no final, Zarvos, muito abusadamente, convidava um garoto, poeta, amigo dele da rua, Baixo Leblon, Baixo Gávea… Foi uma coisa ousada, uma garotada não conhecida. A turma que ia assistir o Gullar viu uma garotada. Essa mistura é sempre poderosa para cultura, cria uma soma, um atrito, que vai juntar público, dicções, tudo… Quando o projeto acabou, lá pela sexta ou sétima edição, fui convidado pelo Zarvos — que eu não conhecia — para fazer a última edição. Era a Heloisa Buarque (de Hollanda) falando dos poetas dos anos 1970 e eu lendo os poemas deles. E aí vi o Boato, um grupo que estava começando, alunos da PUC, performáticos até a medula. Eu estava ali na meia idade, com uns 40 anos…

E você continua dialogando com a nova geração de poetas.

C – Isso me traz sempre felicidade. É saber que tem sempre novas gerações com a mesma doença que tenho: a palavra escrita, falada… Eu acho que você só escreve se tem essa doença, se não tem, pode esquecer. Você precisa estar sempre cuidando da doença, (tomar) alguns remédios, (produzir) uma página por noite (risos).. O CEP tem essa contribuição de ser o primeiro palco para muitos artistas do Rio, e alguns do Brasil. As novas gerações vão chegando e ocupando o espaço delas no CEP. Acho que a gente está na quarta geração de poetas no CEP…

O que você busca na poesia?

C – Quero estar sempre começando. Outro dia, ouvi o Carlito Azevedo, uma pessoa que admiro, dizendo: “Quando estou feliz com um tipo de poema, quero ficar infeliz para começar outra coisa.” Eu venho perseguindo uma forma ótima de falar. A apresentação oral do poema é uma forma, é nela que me interesso mais. Eu e a Saraiva temos conteúdo, sabe? (risos) Um pé na Internet e outro no papel. Quero continuar escrevendo poesia, qualquer verso é bem-vindo.

 


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