CECÍLIA GIANNETTI

 

FRAGMENTOS DE UMA (BEM HUMORADA) ESCRITORA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

Há dois ou três anos eu já ouvia falar que a carioca Cecilia Giannetti estava para lançar um romance. Ficava intrigado como comentavam tanto de um livro que ainda estava em produção. Finalmente, depois de ter ido ao seu lançamento, em Botafogo, no Rio de Janeiro, liLugares que não conheço, pessoas que nunca vi e entendi: a moça é uma talentosa escritora.

“Eu já escrevia contos desde 1998, e tinha a ideia pro romance. Foi mais lento de desenvolver que um conto, por isso demorou tanto tempo para ser lançado. É difícil dividir qualquer emprego diário e uma rotina de ‘frilas’ intensa com literatura”, explica Giannetti, e completa:

“Eu preciso ficar quieta. Demoro muito a escrever. Em geral peço demissão do trabalho. O que não vou poder fazer a esta altura da vida. Tenho que encarar que é necessário manter um emprego e ter cabeça boa para a madrugada. Não dormir é uma opção. A farmacologia está muito adiantada no sentido de manter-nos acordados ou manter-nos apagados, pode auxiliar bastante nesse caso”, ironiza.

No seu primeiro romance ela encaminha o leitor a um emaranhado de ficção e realidade. Pessoas, fatos, lugares e casos são revelados numa escrita fragmentada e constroem a narrativa. A cada página lida, se tem a sensação de desconstrução das coisas que estão ao redor.

“Alguns recortes de notícias de jornal são utilizados na história, transformados – nomes de lugares são trocados propositalmente, por exemplo, para mostrar que a cidade na qual o livro começa não é a mesma conforme a loucura avança na narrativa”.

Tentei entrevistar Cecilia pessoalmente, mas os contratempos não deixaram. O que ela considera bom, pois costuma dizer que se faz entender melhor escrevendo do que falando. Então aqui está a conversa, que aconteceu por e-mail, com essa mulher que tem cara (e jeito) de menina.

E, além de jornalista e escritora, ela ainda canta.

Lugares que não conheço, Pessoas que nunca vi. Como surgiu esse livro?

Cecilia Giannetti – Eu já escrevia contos desde 1998, e tinha a ideia pro romance. Foi mais lento de desenvolver que um conto, por isso demorou tanto tempo para ser lançado. É difícil dividir qualquer emprego diário e uma rotina de “frilas” intensa com literatura.

Percebo muito a influência do jornalismo no seu livro. Por quê?

CG – Não há qualquer influência do jornalismo no meu romance. Alguns recortes de notícias de jornal são utilizados na história, transformados – nomes de lugares são trocados propositalmente, por exemplo, para mostrar que a cidade na qual o livro começa não é a mesma conforme a loucura avança na narrativa.

Por que um livro com ilustrações?

CG – Conheço o ilustrador desde criança, há 20 anos. Tivemos uma banda, somos músicos, estamos juntos desde sempre. Achei natural que o meu primeiro romance fosse dividido com ele.

Você tem um blog chamado Escreveescreve. Como é sua relação com a Internet?

CG – Quase não tenho tempo para escrever ou ler blogs. Posto agora somente divulgação dos trabalhos – como lançamentos e palestras – ou um alô mais diferenciado de vez em quando, beirando a crônica.

Você já teve uma banda de rock. Como se estabelece essa relação entre música e literatura? Sente falta de cantar?

CG – Não sinto falta de palco. Nunca mais escrevi uma letra de música e passei anos sem pegar no violão. Canto em casa e me dou por feliz. Se eu fizesse música hoje, seria hip hop ou dixieland.

Sobre o projeto Amores Expressos, já começou a escrever o novo livro? Como foi a experiência em Berlim?

CG – Já comecei a escrever o livro. A experiência em Berlim tem um pouco do seu dia-a-dia relatado no blogdaceciliagiannetti.blogspot.com, estilo crônica.

Como acontece o seu processo criativo?

CG – Eu preciso ficar quieta. Demoro muito a escrever. Em geral peço demissão do trabalho. O que não vou poder fazer a esta altura da vida. Tenho que encarar que é necessário manter um emprego e ter cabeça boa para a madrugada. Não dormir é uma opção. A farmacologia está muito adiantada no sentido de manter-nos acordados ou manter-nos apagados, pode auxiliar bastante nesse caso.

De onde surgiu o seu interesse por literatura? Teve incentivo da família?

CG – Minha família não lê ficção, romances, contos. Só jornal e, de vez em quando, um tio distante aparecia com Lobsang Rampa. Fucei tudo sozinha.

E o que você leu? Quais são as suas referências?

CG – Referências mudam. Hoje gosto do Salinger, Borges, Paul Auster, Dave Eggers… É injusto tentar fazer minha cabeça juntar todos os nomes agora, de estalo. Gosto de muitos autores bastante diferentes entre si e leio várias coisas ao mesmo tempo.

Como enxerga os escritores da sua “geração”? Lê os seus contemporâneos? Quem?

CG – Enxergo-os muito bem, quando estou com minhas lentes, e acho alguns até bem apanhados. Leio todos eles, principalmente os bonitos.

Por que você escreve?

CG – Não sei não escrever. Prefiro não ter que fazer outra coisa. Gosto muito de correr e nadar. Mas a minha produção é a escrita, e algumas notas musicais que, modéstia à parte, quando estou num período em que fumo e bebo pouco, atinjo maravilhosamente bem com a garganta limpa.

O que você diria para jovens que desejam ser escritores?

CG – Escrevam diariamente. Tenham senso de humor. Leiam diariamente. Assistam a bons comediantes. O humor poderá ou não refletir na sua literatura, mas certamente vai preparar a sua alma para receber as coisas pesadas com que vai lidar ao escrever.


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