CAROLA SAAVEDRA

 

"A LÍNGUA PORTUGUESA É MINHA CASA"

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

A escritora e tradutora Carola Saavedra nasceu no Chile, mas mora no Rio de Janeiro desde os três anos de idade. Escolheu a língua portuguesa como pátria, fazendo dela instrumento de transformação. A delicadeza das palavras de Carola emite o eco de autoras como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. A incomunicabilidade das relações afetivas costura as histórias de três de seus romances: Toda terça (2007), Flores azuis(2008) e Paisagem com dromedário (2010), ponto final dessa trilogia, todos editados pela Companhia das Letras. Mas o início dessa busca se iniciou com a publicação do livro de contos Do lado de fora (7Letras, 2005), metáfora para o “olhar estrangeiro” herdado dos pais, que marca sua escrita. Uma trajetória literária construída com a precisão de quem está disposta a vivenciar cada passo, devagar e sem medo.

Você nasceu no Chile e vive no Brasil desde os três anos de idade. De que forma essa relação com os dois países interfere na sua produção literária?

Carola Saavedra – Costumo sempre enfatizar que sou uma escritora brasileira, não sou uma escritora chilena que escreve em português. Nasci no Chile, meus pais são chilenos, mas fui voltar lá com 17 anos… Eu tinha a “ilha Chile”, que era a casa dos meus pais, com a música, a comida, a literatura. Me lembro que tive um choque muito grande ao perceber que havia diferença entre o “Chile, casa dos meus pais” e o “Chile, país”. Foi um choque cultural, emocional, existencial… Eu tinha uma ideia, quase que uma ilusão, que havia sido passada pelos meus pais. Percebi que aquilo tudo tinha pouco a ver comigo. Na casa dos meus pais ficou um país congelado no tempo. Eu tenho uma herança, claro, mas não me identifico. Andava por Santiago e diziam: “Mas você é uma típica brasileira!” Eu achava curioso porque até aquele momento não estava muito claro o que era ser uma “típica brasileira”, ou ser uma “típica carioca”. Aliás, não acho que eu seja tão “típica” assim, em nenhuma das duas hipóteses. Muita gente me pergunta: “Por que você não escreve em espanhol?” Nunca passou pela minha cabeça escrever em espanhol. Talvez porque a minha formação intelectual tenha sido no Brasil, fui alfabetizada em português. Em casa eu tinha outro mundo. Por exemplo, comecei a ler literatura hispano-americana ainda muito nova. Eu era uma “típica adolescente carioca”, mas lia (Juan Carlos) Onetti, (Julio) Cortázar, (Jorge Luis) Borges… Era pouco comum. Eu tinha referências do Brasil e do Chile, que eram de casa: música e literatura. Junta-se a tudo isso a Alemanha. Eu estudei em colégio alemão, e desde os oito anos de idade esse idioma faz parte do meu dia a dia.

Você foi estudar na Alemanha?

CS – Quando me formei em Comunicação Social, Jornalismo, eu fui fazer mestrado na Alemanha. E fiquei dez anos morando na Europa. A Alemanha foi muito importante também. Às vezes, não sei dizer o que foi mais importante: Chile ou Alemanha. Eu não escreveria se não tivesse passado por essas experiências. O título do meu livro de contos, Do lado de fora, traduz um pouco como eu me via como escritora. Esse olhar de quem está de fora, de quem não pertence totalmente. É um sentimento de sempre ser estrangeiro. Por estar olhando de fora, observando, talvez seja capaz de perceber alguma coisa que quem está “dentro” não perceba. Talvez essa seja uma marca da minha literatura, a experiência do estrangeiro.

Como fica seu afeto ao se deparar com a sensação de pairar sobre a vida?

CS – Já foi um problema bastante complicado na minha vida, por muitos anos, a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Eu sou muito flexível, me adapto rapidamente a muitos lugares. E, ao mesmo tempo, eu nunca me senti em casa em lugar nenhum. Tudo isso mudou quando comecei a escrever, a publicar. Estreei levando a literatura a sério, com o projeto de escrever todos os dias. Quando eu morava na Alemanha, era raro eu falar em português. Mas ficou claro que eu me sentia em casa com a língua portuguesa, não importava onde estivesse. Essa foi uma construção que fiz, criei uma identidade. E esse mundo que criei é em português, onde me encontro. Quando isso começou a ser construído, essa questão de não pertencimento deixou de ser um problema. A língua portuguesa é a minha casa.

Você trabalha como tradutora de alemão e espanhol. Como conciliar o ofício de escritora e tradutora?

CS – Depende muito do tipo de texto que se traduz. Mesmo quando se traduz literatura, depende do tipo de texto que o autor está usando. Quanto mais poética for a linguagem, mais o texto exige do tradutor. Há quem diga que o tradutor recria a obra. Eu penso que não, tento me manter a mais fiel possível ao autor. Há momentos que se manter fiel pode ser um risco, pode ser estragar o trabalho. Mas não me vejo como autora quando traduzo. Sou autora quando escrevo meus livros. E quando traduzo sou tradutora, e traidora (risos).

O que mudou desde sua estreia? Consegue analisar que transformações ocorrem até a publicação do romance Paisagem com dromedário?

CS – Eu consigo, infelizmente (risos). Não renego o primeiro livro. O início do que sou agora está no Do lado de fora. É claro que, com a experiência que tenho hoje, vejo defeitos nesse livro de estreia. Mas não renego. Com todos os problemas e defeitos, ele tem algo que me agrada. Vejo esse livro como algo necessário, o pontapé inicial.

Na sua literatura, os personagens estão sempre se desencontrando, buscando uma comunicação que não se estabelece por inteiro.

CS – Paisagem com dromedário se assemelha quase a uma performance, uma instalação. Há um gravador em cima de uma mesa, não tem quem fale ou ouça. O que esses livros têm em comum é a impossibilidade de comunicação, a mensagem que não chega. Essa imagem do gravador numa sala vazia no Paisagem com dromedário é a imagem da minha literatura. Assim como em Flores azuis temos a imagem da carta que chega para a pessoa errada. Temos sempre essa defasagem na comunicação, uma impossibilidade. Talvez esse seja o meu tema, que vejo como um ciclo que comecei com Toda terça e terminei com Paisagem com dromedário. Além dessa questão da impossibilidade da comunicação, são livros sobre o dizer. Como dizer alguma coisa? Em Toda terça, cada personagem monta sua versão e o leitor é aquele que monta o quebra-cabeça. A ideia do Toda terçaera dizer alguma coisa através do não dito. No Flores azuis, era trabalhar essa defasagem no dizer: uma mulher apaixonada que escreve cartas para o ex-amante tentando seduzi-lo, mas as palavras chegam para outra pessoa. É como vejo a questão do leitor e do escritor. Flores azuis funciona quase como um pequeno ensaio sobre a escrita e a leitura. Quando escrevo um livro, a ideia é seduzir o leitor. Mas quando seduzimos o leitor, normalmente, é pelos motivos errados. Os livros se separam do autor, adquirem vida própria. Já em Paisagem com dromedário, escolhi trabalhar com as gravações, quase como um radioteatro: há o barulho do mar, do liquidificador, das pessoas passando… Me interessa contar fugindo da palavra escrita, buscando a forma de dizer. Essas marcações pontuam o que a personagem está narrando. Os três livros são reflexões sobre como contar uma história.

A morte está muito presente em Paisagem com dromedário: “Gosto da ideia de que a escultura já está pronta, dentro da pedra, dentro do barro, e a gente apenas a encontra. Assim como a morte, também já está pronta, desde o início seu formato definitivo dentro do barro, e a gente apenas a encontra.” Como você lida com a morte?

CS – A morte, assim como o amor, é o tema. A personagem, Érika, vive o luto em todos os sentidos, não é só essa amiga dela que morreu. Quando ela vai para a ilha e começa a repensar a morte, tem a ver como penso. A morte não existe, não é palpável. A morte é um vazio, um buraco. O que existe é o contorno da morte. E através desse contorno conseguimos ver o formato, mas o que há ali dentro é o nada. Vivemos numa sociedade que tem medo de olhar para a morte. Quando não vivemos o luto, a pessoa não morre.

E a vida?

CS – A própria vida me encanta. Com todas as tragédias e dramas, o que me encanta na vida é a intensidade. Sou uma pessoa muito apaixonada, estou dentro da vida seja para sofrer ou ter grandes alegrias. Essa intensidade permite entender que há uma compensação. Na literatura é importante entender que um autor se constrói com o tempo. O talento vai se construindo, vamos andando e fazendo o caminho…

 



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