CARLA FAOUR

TESÃO DE ESCUTAR (E LER)

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 

“Tenho prazer com a palavra, tenho tesão de escutar como as pessoas constroem as frases, como dão forma aos pensamentos, os cacoetes da fala de cada um. Palavra é sonoridade, ritmo, significante, significado… Por isso que eu adoro poesia. Gosto de juntar sonoridades, palavra é para juntar, mexer, pisar… É uma relação de artesã, afetiva.” Essa declaração não explica o sucesso da peça A arte de escutar, de Carla Faour, que acaba de ser publicada como ficção pela editora Agir, mas faz compreender que para escrever bem é necessário — antes de tudo — saber ouvir.

O livro é um caso raro: nasceu de uma peça teatral quando o comum é o teatro adaptar textos literários. A peça A arte de escutar foi a estreia de Carla Faour como dramaturga, que, até então, vinha desempenhando os ofícios de atriz e diretora. O espetáculo, sucesso de crítica e público, indicado ao Prêmio Shell 2008, na categoria Melhor Texto, levou ao convite para transformar o texto teatral em ficção. Desafio superado através de uma escrita bem elaborada e precisa, um trabalho de artífice da palavra.

No romance (e na peça), diferentemente da autora, a personagem que possui o dom de escutar é anônima. E ela nem mesmo pode ser classificada como protagonista, já que, em cada história que relata, o foco está naqueles que falam, que contam suas histórias. Esses são os personagens principais. Ela limita-se a ouvir os desabafos, as confidências de pessoas encontradas por acaso. Na fila do banco, uma ex-hippie lembra seus tempos de sexo, drogas e rock‘n’roll ao mesmo tempo em que se revolta contra o desejo da filha de enquadrá-la. Na academia de ginástica, outra mulher a escolhe como ouvinte de suas aventuras extraconjugais. No metrô, ouve história de um homem atormentado. Escuta em silêncio, mas sempre atenta.

Nascida no Rio de Janeiro, integrante do grupo teatral Quem são esses caras?, Carla Faour não acredita na “crise da dramaturgia”, como tentam apontar alguns críticos. “Tem muita gente boa escrevendo. No próprio grupo de que participo tem o Henrique Tavares — que foi a primeira pessoa a me incentivar a escrever. Ele escreveu peças ótimas: Barbara não lhe adoraCidade Vampira… Tem também o Pedro Brício, Daniela Pereira de Carvalho, Eduardo Rieche e muitos outros… Não acredito nessa crise de dramaturgia brasileira. O que há é uma dificuldade de o dramaturgo levar o texto à cena. Se ele não tem os meios de produção, fica muito difícil. Não há incentivos para dramaturgos, o que é lamentável”, defende a escritora e dramaturga que já adaptou para o teatro textos de Janete Clair e Nélida Piñon.

A arte de escutar é, principalmente, uma redefinição de caminho. Confirmou que tenho um caminho aberto para escrever, quero investir”, diz Carla. E o veterano ator Sérgio Britto, em declaração na contracapa do livro, aprova: “O livro que acontece depois do prefácio é caminho novo para essa moça tão talentosa, e, antes de tudo, para sempre uma escritora.”

Você é boa ouvinte?

Carla Faour – Sim. Acho que sou.

Faz análise?

CF – (risos) Já fiz, mas por seis ou sete meses. Não tive muita paciência para continuar. Sou boa ouvinte, mas falo muito (risos). Sempre que uma pessoa para e me conta uma história, eu escuto com atenção.

Eu poderia dizer que a palavra costura suas personas: atriz, dramaturga, escritora…

CF – Sim. A palavra.

Como lidar com as palavras?

CF – Como autora, eu sofro pela palavra. Principalmente se eu estiver em cena como atriz. Sou uma atriz que sempre teve muito cuidado com o texto. Sou uma autora que escreve e reescreve incessantemente, meu texto deve ter umas 50 versões. Então, quando um ator troca uma palavra eu sofro. Porque se um autor colocou aquela palavra no papel é porque ele queria dizer uma determinada coisa. Tenho prazer com a palavra, tenho tesão de escutar como as pessoas constroem as frases, como dão forma aos pensamentos, os cacoetes da fala de cada um. Palavra é sonoridade, ritmo, significante, significado… Por isso que eu adoro poesia. Gosto de juntar sonoridades, palavra é para juntar, mexer, pisar… É uma relação de artesã, afetiva.

Você conhece o livro Rumores imprecisos de conversas alheias, do escritor e ator Thiago Picchi? Fala sobre essa arte de ouvir.

CF – Não, não conheço.

É um romance que dialoga muito com a sua peça. Como é o processo de criação da autora?

CF – A arte de escutar escrevi de uma forma absolutamente intuitiva. Como atriz e autora do espetáculo, tenho o prazer de completar o ciclo da obra; escrever, participar de todo o processo de ensaios, produção… E depois, durante a temporada, ouvir a resposta do público. É maravilhoso. O público procura e pergunta: “Você leu fulano? Leu sicrano? Conhece psicologia?” Eu não sei como, de alguma forma, toquei em vários conceitos de psicanálise, filosofia, antropologia… Mas tudo aconteceu de uma forma intuitiva, poética. O texto, ao mesmo tempo em que é poético, tem também uma coloquialidade na fala das personagens. Eu não quis ler sobre o assunto para escrever o livro, é uma observação do cotidiano. Como foi a peça. As pessoas falam muito de si e escutam pouco. Hoje em dia todo mundo tem blog, Orkut, fotolog… São ferramentas voltadas para a fala, para o externo, para se fazer notar pelo maior número de pessoas possível. Escutar é o contrário. É uma forma de voltar a si.

Você tem uma companhia de teatro há mais de 10 anos. E recentemente teve o reconhecimento na TV…

CF – Eu nunca tive muita ansiedade, porque senão eu já teria desistido. Adoro fazer televisão, sempre que me convidam eu vou com prazer. Mas é o teatro a minha realização. Tenho um trabalho de mais de 10 anos com uma companhia. O sucesso, em grande escala, pode vir agora ou daqui a cinco anos, não busco isso com ansiedade.

O que muda?

CF – Nada de importante. Muda o momento, coisas pequenas. Na verdade, os outros é que mudam. Quem não te conhece passa a te conhecer, a ser íntimo. É claro que aparecem mais oportunidades de trabalho. Eu não saio do eixo.

Seu trabalho foi elogiado pela crítica Barbara Heliodora, indicado ao Prêmio Shell de Melhor Texto…

CF – Isso foi ótimo porque começamos de uma forma muito despretensiosa, no porão da Casa de Cultura Laura Alvim e aos poucos a peça foi ganhando uma projeção maior e teve uma série de desdobramentos. Fui convidada para escrever esse livro, baseado no texto da peça, que sai agora pela Editora Agir, do grupo Ediouro. A peça foi traduzida para o inglês e estreou no Canadá, em julho. E ainda estamos viajando com o espetáculo pelo Brasil. Espero que ainda venha mais coisa por aí. Mas A arte de escutar é, principalmente, uma redefinição de caminho. Confirmou que tenho um caminho aberto para escrever, quero investir.

Como você avalia a produção dos dramaturgos brasileiros?

CF – Tem muita gente boa escrevendo. No próprio grupo que participo tem o Henrique Tavares – que foi a primeira pessoa a me incentivar a escrever. Ele escreveu peças ótimas: Barbara não lhe adora, Cidade Vampira… Tem também o Pedro Brício, Daniela Pereira de Carvalho, Eduardo Rieche e muitos outros… Não acredito nessa crise de dramaturgia brasileira. E acho muito louca essa coisa de safra. O que há é uma dificuldade do dramaturgo levar o texto à cena. Se ele não tem os meios de produção, fica muito difícil. Não há incentivos para dramaturgos, o que é lamentável. O teatro é uma arte efêmera, o que fica dele é o texto. Há pouco, li uma matéria sobre o Alcione Araújo, ele diz que está com vários textos na gaveta. O lugar do texto de teatro é no palco. Deveria ter um projeto, através do poder público, de apoio à dramaturgia brasileira.

Por que adaptar Nélida Piñon e Janete Clair para o teatro?

CF – Obedeço meu gosto pessoal. A Nélida Piñon é uma autora incrível, uma das mais importantes da língua portuguesa. O livro que adaptei, A força do destino, é extremamente teatral, usa metalinguagem e fala, justamente, da criação. Do ato de escrever. Da Janete, adaptei o único livro dela, Nenê Bonet, um folhetim que se passa no Rio de Janeiro, na década de 1920, e conta a história de uma moça de família tradicional que sai em busca de sua liberdade, seus direitos, numa época em que a sociedade era dominada pelo homem. Eu gosto muito de autores mais antigos, acabei de ler Eça de Queiroz. Nelson Rodrigues é sempre uma referência. Poesia, também: (T.S.) Eliot, (Fernando) Pessoa, Florbela Espanca, (Mário) Quintana, Manuel Bandeira e Cecília Meireles, que sou apaixonada.

Sobre o que você escreve?

CF – Sobre o que vejo e o que está a minha volta. Não sei…(risos) Tanta coisa. Cada dia escrevo sobre alguma coisa diferente, de uma forma diferente. Escrevo sobre o que sinto.

Sobre a relação com a Internet…

CF – A Internet é um suporte bacana para publicar textos. Não tenho blog. Mas estou com vontade de ter um. O blog é um lugar legal para postar textos, experimentar formatos, ideias, escrever sem ter o compromisso imediato de acertar. Mostrar textos que ficariam no fundo da gaveta. Além de poder ter contato direto com o leitor, saber o que pensam do seu texto, interagir com pessoas de outros lugares e tudo isso de uma forma rápida e direta.

O que você espera em 10 anos?

CF – Espero dar continuidade a esse trabalho: escrever, atuar, produzir… Mas, principalmente, avançar como escritora. Quem sabe, experimentar outros meios como o cinema, a TV…

O que diria para algum jovem que deseja trabalhar com a palavra?

CF – Leia muito. E seja uma antena das coisas que estão acontecendo. Leia os contemporâneos e os clássicos. E se arrisque, tenha coragem para vencer o desafio da página em branco. E não tenha preconceitos.


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