BRUNO CATTONI

POETADEMASIADO HUMANO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

Em novembro de 2007, recebi um e-mail da poeta Priscila Andrade sobre uma manifestação no Dia Mundial Contra a Aids. Na troca de correspondências virtuais, surgiu o interesse de conhecer o fundador do Grupo Pela Vidda, Bruno Cattoni, que luta para promover a poesia e os direitos humanos na sociedade.

Bruno Cattoni é jornalista e poeta, com seis livros publicados – Figuras; Conspiração e Inconfidências de Um Caçador de Meninas Gerais; Ah!; Kalusha; Osso Na Cabeceira das Avalanches e Silêncio dos Girassóis – e soropositivo militante, desde 1989.

“Desde que me entendo por gente acredito que a poesia pode ser uma bússola para mim. Viver é mais importante. E a poesia dá condições para prosseguir nesse caos que é a vida”.

Ao meio-dia, num café do Jardim Botânico, ocorreu o encontro. Cheguei mais cedo que o poeta e sentei a sua espera, enquanto relia algumas perguntas. Em seguida, Bruno chegou e pediu café, que quase derrubei todo em cima dele. Mas durante a entrevista pedi mais duas xícaras do expresso, enquanto ele fumava seu cachimbo. Com uma voz grave e olhar distante, Bruno Cattoni contou sobre a importância da sua militância e sobre a relação com a poesia.

“Se eu tenho uma doença que chama tanta atenção pelos seus aspectos metafóricos, como a Aids, é importante que eu chame mais atenção. Não por ego, nem para compensar o fato de ter uma sentença correndo em meu sangue. A importância de atrair atenção, a importância política, serve para lutar pelo que é mais humano”, afirma o fundador do Grupo Pela Vida.

E no fim do encontro: “Gostaria de mudar da noite para o dia e escrever prosa, escrever como Clarice Lispector. Gosto de ler a Clarice Lispector. Eu gostaria de ser a Clarice Lispector”, confessa aos risos

Uma entrevista especial, palavras de ser humano sensível e humanista. Leitura obrigatória.

Como iniciou seu interesse pela poesia?

Bruno Cattoni – Há vários graus e níveis de compreensão do mundo. A compreensão poética, desde que o ser humano pensou em arte, não demanda instrução ou construção acadêmica. Mas compreender requer muita reflexão, que não exige nada além da vida e da convivência. Através da poesia, todos podem ter uma aproximação crítica sobre a vida. Os poetas podem contagiar, com essa visão de mundo, cientistas e acadêmicos. A poesia dá uma habilidade maior para compreender os caminhos. Desde que me entendo por gente acredito que a poesia pode ser uma bússola para mim. Viver é mais importante. E a poesia dá condições para prosseguir nesse caos que é a vida.

Existiu algum fato específico?

BC – Minha resposta será muito poética. Tive uma infância muito feliz, em contato com a natureza e os animais. Os animais me ensinaram muita poesia. A natureza – os rios, as montanhas, as árvores – me ensinaram a viver. Mas se não houvesse ninguém para prestar atenção a essa aprendizagem, talvez eu não tivesse desenvolvido a minha poesia. Tive um pai muito sensível!

Seu pai era poeta?

BC – Ele era arquiteto e fazia letra de música, um homem muito sensível. Quando eu tinha nove anos, ele percebeu meu gosto apurado pelas coisas bonitas da vida. E me disse: “Você não escreve, mas vou mostrar a poesia que há dentro de você.” Apertou o botão do gravador e me fez algumas perguntas. Eu achava que poesia era coisa de lunático. Ele colocou as minhas repostas no papel e disse: “Isso que você falou é poesia.” Depois deu nome à poesia, a contração do meu nome com minha idade: BruNove. Quando vi, comecei a acreditar que era possível. E ganhei uma máquina de escrever, a mesma com a qual meu pai havia passado a poesia para o papel (risos). Ele era arquiteto, fazia letra de música…

(Bruno fica bastante emocionado neste momento, mas é uma emoção alegre, próxima ao riso.)

Percebo que sua poesia está extremamente ligada aos direitos humanos…

BC – No ano passado, na ONG Movimento Humanos Direitos – a mesma da Dira Paes, Marcos Winter, Bete Mendes e Letícia Sabatella – nós utilizamos o evento Poesia Voa para promover os direitos humanos, em parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos, a fim de que as pessoas pudessem se sensibilizar através da emoção, entendessem os absurdos que as elites, os governos, o mercado financeiro e o pensamento neoliberal fazem ao desprezar aqueles que sofrem. Não é possível limitar a vida à riqueza.

Qual a intenção da ONG Movimento Humanos Direitos?

BC – A ONG Movimento Humanos Direitos tem como principal bandeira a erradicação do trabalho escravo; o acompanhamento dos casos de abuso e exploração de crianças e adolescentes; das questões indígenas, dos povos Quilombolas, no Brasil. Consegui ampliar esse ativismo, que esteve restrito, de 1989 a 2003, ao discurso de cidadania com a Aids. Os Direitos Humanos têm de reunir bandeiras de vários segmentos sociais. Não é possível se separar a sociedade em segmentos para se lutar por uma coisa ou outra. Precisamos lutar debaixo de um só guarda-chuva, pela instalação da dignidade humana.

O que mudou em sua vida depois que você se tornou um ativista?

BC – Ser soropositivo é muito bom quando se tem um pensamento voltado para o próximo, para a alteridade. Assim se tem um gancho para promover o que você acredita ser direito de todas as pessoas. Se eu tenho uma doença que chama tanta atenção pelos seus aspectos metafóricos, como a Aids, é importante que eu chame mais atenção. Não por ego, nem para compensar o fato de ter uma sentença correndo em meu sangue. A importância de atrair atenção, a importância política, serve para lutar pelo que é mais humano.

Como foi o processo desde que você se descobriu soropositivo até você se tornar um ativista político?

BC – Sempre que sou entrevistado, as perguntas são: “como contraí” e “se sou discriminado”. Não acho que essas perguntas devam ser respondidas hoje em dia, do contrário perde-se tempo e a atenção acaba sendo voltada para o comportamento pessoal. Não acredito que a Aids seja um problema psicológico ou comportamental da humanidade. É um problema de saúde pública, político e de cidadania.

Você é fundador do Grupo Pela Vidda. Qual a intenção deste grupo?

BC – A intenção primordial do Grupo é implantar políticas públicas e mostrar que só quem sofre da doença pode falar o que deve ser feito. Se não se pode ouvir quem está sofrendo, porque a situação clínica não permite, é necessário que os médicos tenham uma aproximação maior com a sociedade. As políticas públicas que nós reclamamos foram implantadas. As campanhas que vieram se foram. Mas ao menos sabemos que o Estado pode produzir informação. Nós mostramos que é possível viver sem ser clandestino! Passamos a reclamar as posições de cidadão, como o direito de trabalhar, de poder transitar em qualquer lugar, de amar e de ter direitos humanos.

Quando vai acontecer o Festival Poesia Direitos Humanos?

BC – Este ano esse festival se transformou no Rio ComVida, uma proposta do movimento Humanos Direitos ao Fórum Social Mundial para que celebremos os seres humanos através da cultura. A poesia foi uma espoleta. Mas hoje eu penso que toda a cultura é deflagradora de consciência. Nas comunidades do Rio, há 650 favelas, existem muitos trabalhos de autogestão, as pessoas estão deixando de lado as dores para tomar com as próprias mãos o rumo da vida. O ativismo e a poesia não devem buscar heróis. A vida não precisa de heróis, precisa de seres humanos.

Você produz uma coluna, com Edney Silvestre, no RJTV…

BC – Sim, criamos uma coluna em que entrevistamos exemplos de vida. Procuramos pessoas simples, que mantêm um trabalho silencioso, mas promovem os direitos humanos na comunidade. É preciso mostrar que não é necessário ser herói, com espírito de colaboração, muitos seres humanos podem resolver situações complicadas. Não é possível existir egoísmo num mundo em que há tanta gente com necessidade de amor e atenção. É uma forma de compartilhar a vida.

O que é a vida?

BC – Uma vez, uma mulher minha foi a um centro espírita para saber se eu morreria de Aids. Lá baixaram muitos espíritos que deram uma mensagem fantástica: “A moça não precisa se preocupar. Ele está preocupado com isso porque a vida, para ele, é a coisa mais importante no mundo. Não existe o menor risco de ele perder esse amor, mesmo que ele venha a morrer de Aids. É preciso deixar de se preocupar com a antinomia da vida, que é a morte. Para ele não existe a morte.” E para encerrar: A vida é bela!

(Bruno se levanta, emocionado, e vai até o banheiro.)

Seu último livro, Silêncio de Girassóis, é uma aventura solidária no lixão Morro do Céu. Fale sobre esse trabalho…

BC – Foi com o quadro do RJTV, através de uma estagiária que conheci em Niterói, dona Edith, que trabalha com crianças que vivem no lixão. No meio desse lixão, de todo esse sofrimento, nascem girassóis. Fiquei tão emocionado com dona Edith que comecei a escrever Silêncio de Girassóis. Nessa época, escrevi um e-mail para uma amiga, que estava muito recolhida: “Se não está na hora de você dizer algo, me manda seu silêncio de girassóis.” Ela gostou e falou para eu escrever poemas. Nessa época, eu estava lendo um filósofo lituano que viveu na França, chamado Emmanuel Levinas, que escreve sobre o outro. Ele dizia que temos de nos posicionar para o outro. Levinas percorre todas as áreas da minha vida.

Você lê prosa?

BC – Hoje em dia não leio muita prosa, mas quando tinha a sua idade, eu li muito, pois achava que, quando fosse mais velho, teria pouquíssimo tempo para ler. Hoje, com o tempo que tenho, leio filosofia para embasar minha luta. Li muito Machado de Assis, Dostoiévski, José de Alencar… Gostei muito da literatura russa. Também li quase a obra inteira do Sartre.

E você lê poesia?

BC – Já li muito Goethe e sempre gostei muito do João Cabral de Melo Neto. Fiz até um manifesto para o Cabral, nos anos 80, chamado Construtivismo Romântico. Eu pensava que a poesia tinha de ser materialista e utilitária. Me aproximei de Affonso Romano de Sant’Anna, Reinaldo Jardim e Thiago de Mello – esse último me levou para o Partido Comunista, acompanhou-me como um pai. Thiago de Mello abriu minha cabeça para a humanidade, me fez ver que poesia pode ser muito mais do que encantar; a poesia pode transformar. Só senti algo parecido quando li Neruda. Para ambos, viver e amar eram atos políticos. E isso me ajudou muito com a Aids, pois ela fala de sexo, contato humano, solidão. Eu usei a Aids a fim de chamar atenção para esses aspectos da vida.

FigurasConspiração e Inconfidências de Um Caçador de Meninas GeraisAh!KalushaOsso – Na Cabeceira das Avalanches eSilêncio de Girassóis: qual o seu predileto?

BC – Gosto muito do primeiro livro, que refletiu minha convivência com os comunistas. São poemas da juventude, de tendência surrealista. Mas era um livro muito influenciado, eu ainda buscava minha voz. O mais importante é buscar uma linguagem própria, uma maneira própria de enxergar o mundo. Temos de escutar nossa voz interior, todos têm uma voz diferente – é isso que nos enriquece

Como você vê a relação entre o movimento poético atual e o mercado editorial?

BC – Não me importo com pessoas que reclamam da qualidade da poesia. É tão importante uma pessoa sentir-se poeta. Que coisa mais chata cobrar qualidade do poeta. “Calem esse poeta! Calem esse poeta sem qualidade! Calem esse poeta!” Eu não compartilho desse controle de poesia. Todos podem escrever poesia.

O que você diria para os jovens que desejam se tornar poetas?

BC – Viva!

(Bruno pede para que eu ligue o gravador, ele quer acrescentar mais algumas palavras.)

BC – Gostaria de mudar da noite para o dia e escrever prosa, escrever como Clarice Lispector. Gosto de ler a Clarice Lispector. Eu gostaria de ser a Clarice Lispector. Se eu não fosse (risos), se eu não fosse Bruno Cattoni, eu gostaria de ser a Clarice Lispector (risos).


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