BRUNA BEBER

DEMÔNIO DE PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

Conheci os versos de Bruna Beber por acaso, folheando páginas de jornal. Além da qualidade dos poemas, irônicos, o que mais me chamou a atenção foi título de seu livro: A fila sem fim dos demônios descontentes.

“O título é uma frase que vi pichada no Viaduto da Perimetral (não no viaduto do Caju, saiu errado no livro!), e resumia o meu livro. A frase era maior, era ’A fila sem fim dos demônios descontentes no amor‘, mas resolvi tirar o ‘amor’. Até então, a frase era anônima, até sair uma matéria no O Globo e o autor apareceu. Mas foi ótimo, ficamos amigos. Ele é um artista plástico de 24 anos, chama-se Gustavo Speridião, faz parte duma turma de street art, pessoal da UFRJ.” explica a poeta.

Tentei o contato, primeiro por e-mail, depois por telefone, mas senti um tomblasé e quase desisti. Depois que li o livro, decidi recorrer à editora 7 Letras para marcar um encontro. Finalmente nos conhecemos na livraria Letras e Expressões, do Leblon. Antes de iniciarmos o papo, Bruna desfez toda a falsa impressão que eu tive. Além de uma sensível escritora, é uma mulher simples e aos 22 anos é totalmente consciente do seu ofício.

“Sou ’filha única-poeta-e-boêmia’, isso é péssimo! Mas, apesar de tudo, tive incentivo, sim. Duas pessoas foram importantes nesse aspecto: minha mãe e minha tia, que eu chamo de ’Traça’, dado seu amor pelos livros. Elas só me davam livros de presente. Hoje em dia, meus pais acham o máximo. Eles veem que pode dar certo, que a filhinha está dando entrevista, aparecendo, e valorizam. Mas arte é sempre conflito na família, né?”

Bruna é uma poetisa viciada em café (durante o papo de uma hora, ela tomou cinco expressos!) e ”internerder”, como gosta de dizer. Fornece conteúdo para alguns espaços na rede: tem o Bife Sujo – em que escreve sobre tudo; o Cutelaria & Chapelaria – que escreve só poesia; é uma das colaboradores do blog Paralelose já está escrevendo um livro novo.

“Não sei por que escrevo, mas me divirto muito escrevendo. Nada de ficar no quarto sofrendo e escrevendo o romance do século. Claro que não escrevo soltando pipa, mas escrevo sem esse tal sofrimento. Não escrevo para ser estudada na Universidade!”

Ela também é publicitária ”mas isso não dá alegria”, e, por isso, prefere brincar entre as palavras.

Qual foi o seu primeiro contato com as palavras?

Bruna Beber – Ah, acho que desde pequena. Sempre gostei de escrever. Participei de concursos de poesia, saraus, essas coisas todas. Mas, dos 10 aos 16 anos, parei de escrever poesia. Depois, aos 17, volteie comecei a publicar na Internet. Gosto de “soltar” o poema; acho que ele tem que andar!

Seus pais a incentivaram?

BB – Sou “filha única-poeta-e-boêmia”, isso é péssimo! Mas, apesar de tudo, tive incentivo, sim. Duas pessoas foram importantes nesse aspecto: minha mãe e minha tia, que eu chamo de “Traça”, dado seu amor pelos livros. Elas só me davam livros de presente. Hoje em dia, meus pais acham o máximo. Eles veem que pode dar certo, que a filhinha está dando entrevista, aparecendo, e valorizam. Mas arte é sempre conflito na família, né?

Alguém da sua família escreve?

BB – Tinha um parente do meu avó. Primo, de não sei que grau, o Jorge de Lima. Escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles Invenção de Orfeu. É dele o poema que deu origem ao O Grande Circo Místico, do Chico Buarque e Ruy Guerra. O poema chama-se “O Grande Acidente Aéreo de Ontem”.

E quais são suas maiores influências?

BB – Quando criança, lia muito Monteiro Lobato e Ziraldo, de O Joelho Juvenala O Menino Maluquinho. Li também um monte de livros que minha avó tinha em casa, até uns caderninhos que vinham de brinde no Biotônico Fontoura. Cresci ouvindo muita música; MPB, samba de raiz e música brega. Outro dia fiz uma lista com as minhas principais influências, aqui vão algumas:

Beatles, Roberto Carlos, Tim Maia, Jorge Ben, Bob Dylan, Neil Young, Harry Nilsson, Nick Drake, Tom Waits,Otis Redding, Joni Mitchell, Nina Simone, John Coltrane, João Gilberto, Nara Leão, Caetano, Gal, Bethânia…

Quais são as escritoras que você mais admira?

BB – Ih, quase não li as mulheres. Tenho certo problema em começar a ler Clarice, por causa dessa idolatria que existe. Hoje em dia toda escritora quer ser Clarice. Não dá, não precisa. Lá em casa há todos os livros dela, mas estou aguardando o momento para começar. Não tenho essa coisa que coloca o escritor como ele se fosse de outro mundo. De outro mundo por quê? Só pode ser porque somos bizarros. Mas, vamos lá, gosto muito da poeta Ledusha e da Elizabeth Bishop…

E, dos autores da sua geração, de quem você gosta?

BB – Não leio muito os contemporâneos de prosa, mas gosto do Joca Terron e da Cecilia Giannetti. De poesia gosto da Angélica Freitas, da Alice Sant’anna, do Sérgio Mello, do Marcelo Montenegro, do Ricardo Domeneck…

Por que o título A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes?

BB – É uma frase que vi pichada no Viaduto da Perimetral (não no viaduto do Caju, saiu errado no livro!), e resumia o meu livro. A frase era maior, era “A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes no Amor”, mas resolvi tirar o “Amor”. Até então, a frase era anônima, até sair uma matéria no O Globo e o autor apareceu. Mas foi ótimo, ficamos amigos. Ele é um artista plástico de 24 anos, chama-se Gustavo Speridião, faz parte duma turma de street art, pessoal da UFRJ. Já estamos pensando em algumas frases para fazer outras intervenções urbanas.

Por que você escreve?

BB – Não sei por que escrevo, mas me divirto muito escrevendo. Nada de ficar no quarto sofrendo e escrevendo o romance do século. Claro que não escrevo soltando pipa, mas escrevo sem esse tal sofrimento. Não escrevo para ser estudada na Universidade! Tenho um poema que fala sobre isso. Chama-se “A Novíssima Literatura”. Mas acho que caí no próprio feitiço, pois fiquei sabendo que um professor da UFRJ está me investigando.

Você sentiu algum preconceito por morar na Baixada Fluminense?

BB – Não, em momento algum. Não rola nenhum preconceito. Sempre circulo por todos os lugares, tenho amigos na Zona Sul e na Zona Norte.

O que você falaria para a galera que deseja se aventurar na carreira literária?

BB – Acho que a Internet é um bom caminho e o boca a boca também. O escritor tem que colocar a “bunda na janela”! A Internet é um bom lugar para conhecer pessoas afins. Não que isso seja uma verdade absoluta, mas acredito nisso.


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