BOTIKA

AUTOR

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Seu nome de batismo é Bernardo Rinaldi Botkay, mas ele é conhecido por Botika, apelido de infância que se tornou nome artístico. Escritor e músico — vocalista da banda de rock Os Outros —, Botika tem imaginação fértil, terrível, seus personagens não perdoam nada, nem ninguém.

É possível vivenciar suas histórias no livroBúfalo , recém-publicado pela editora Língua Geral. Suas palavras duras e, por vezes, engraçadas, são cobertas de violência, pornografia e escatologia. Assim como o livro de estreia, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), o autor se apropria de personagens alegóricos para criticar o social, sem pudor.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Botika contou como passeia pela música e a literatura, além de falar sobre o próximo livro, Calendário.

Seu nome é Bernardo Botikay…

Botika – Minha mãe e meu pai me chamaram de Bernardo Rinaldi Botikay. É o nome que os pais deram. Eu acho bonito o nome, mas eu não me identifico muito com Bernardo mais não. Todo mundo me chama de Botika há muito tempo.

E Bernardo?

B – Só minha mãe me chama assim. E minha família lá de São Paulo.

Você os atende?

B – (risos ) Atendo. Sacanagem, eles me viram nascer assim… Mas a minha carteira de motorista, ó, vou mostrar… Já pesquisei para mudar o nome no cartório, na certidão de nascimento. Tipo a Xuxa, mas ela é Xuxa Meneghel. E você não pode ter um nome só, eu queria que fosse só Botika. Eu renovei minha carteira de motorista, está oficialmente: Bernardo Rinaldi Botikay. Mas eu assinei Botika… (risos) Eu estou assinando como acho que tem que ser. Foi um amigo, Miguel Gandelman, filho do saxofonista Leo Gandelman, que me batizou. A história do nome é essa.

Além da literatura, você flerta com o teatro e com a música…

B – A música sempre rolou muito, principalmente de teatro, por causa do meu pai (Caique Botkay), que é músico de teatro. Ele também dirige de vez em quando, mas é especificamente músico. Nasci e cresci dentro de teatro, vendo ensaio ou meu pai compondo… Sempre vendo meu pai trabalhar. Aos 12 anos, acabei fazendo, como ator, uma peça com a Zezé Polessa, minha madrinha, Lúcia Coelho tinha feito a direção do infantil. Eu fiz um ano de experiência no palco de teatro, o suficiente para eu não me sentir ator. E logo comecei a compor música, na peça eu já tocava algumas coisas. Depois veio o negócio de banda, conheci o Vitor Paiva, conheci uma galera que fez uma banda chamada Aneurisma, que virou Neura. Depois acabou essa banda e fizemos Os Outros.

Recentemente vocês lançaram um CD…

B – Pacote felicidade . Os Outros: eu, Vitor Paiva, Eduardo Sodré, Papel e Fabiano Ribeiro.

Basicamente as letras são suas e do Vitor Paiva.

B – As bases das composições são nossas, letra e melodia. Só que a banda toda trabalha as músicas, com a liberdade de mudar, fazer tudo.

Você diferencia a letra de música da literatura?

B – Diferencio totalmente, são duas coisas extremamente diferentes para mim. O Vitor, por exemplo, fala que para ele tem uma aproximação. Eu vivo de duas formas, respiro de um jeito quando estou no meu quarto, escrevendo sozinho, e respiro de outro, quando estou compondo uma letra junto com uma melodia na minha cabeça. Ou a letra chama a melodia ou a melodia chama a letra. Mas quando paro para escrever livro, conto ou alguma coisa parecida com prosa, é outra sensação, outro sentimento, outra forma de lidar com a palavra.

Você escreve poemas?

B – Não. Não consigo escrever, tenho dificuldade de ler poesia. Acho difícil pra caralho! Sei que é lindo, genial. É um limite meu, com certeza. Terminei de ler o livro do Ericson Pires  (Pele tecido) e fiquei emocionado, meu peito ficou estufado. Comecei a ler o do Pedro Rocha (Chão inquieto), também estou muito emocionado dentro do livro. Mas eu não sei, talvez porque sou amigo, eu “saco” eles, a gente se identifica… Poesia é muito bom, mas não entendo de poesia. Poesia é muito difícil.

Seu primeiro livro, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), é polêmico, utiliza nomes de personalidades em situações nada amistosas… Você foi processado por alguém?

B – (risos ) Não me processaram, ainda bem, senão ia dar merda. Mas o Sérgio Cohn, editor da Azougue, me fez assinar um contrato que me responsabilizasse por possíveis danos. Cheguei a dar o livro para a Malu Mader, pessoalmente. Mas não sei se ela leu, ou se leu e jogou fora… Ou entendeu que é uma coisa louca, mas ela não me processou. E ela é a que mais sofre na mão do personagem. Mas comecei a escrever esse livro sem saber que queria ser escritor, sem me sentir escritor. Comecei numa necessidade de ter que botar para fora, de forma textual, um monte de coisa que estava sentindo… Eu estava vindo de uma relação que tinha acabado; uma merda… E quando vi foi virando um texto mesmo. E o Guilherme Zarvos (poeta), que sempre me acompanhou e me indicou várias direções, me disse: “Você está escrevendo uma parada, vai, considere isso um texto.” Então, levei mais a sério, virou um livro. Eu entreguei o livro para o Sérgio Cohn num avião, com um monte de poeta maluco indo participar de uma Bienal do Livro no Ceará… O Sérgio estava no meio da galera, leu o livro e topou publicar. Depois eu demorei um pouco mais para conseguir publicar o Búfalo(Língua Geral, 2010)… (risos)

A Língua Geral demorou a editar o seu livro…

B – Não só a editora, não. Para eu conseguir uma editora demorou. Escrevi a primeira versão e sai procurando editora, corri atrás… Não rolava. Até que o Rodrigo Bittencourt, que havia lançado pela Língua Geral, sugeriu para o (editor, na época) Eduardo Coelho, que é um cara da pesada. Ele topou, depois de um bom tempo. Além disso, o livro ficou parado um tempo por conta da crise…

O que é o Búfalo?

B – Búfalo  já um livro pensado, eu sabia que estava escrevendo um livro desde o início. Eu trabalhei muito o texto depois de achar que tinha terminado. Até por sugestões de pessoas como a Bia (Beatriz) Bracher, que foi a primeira a ler o livro. Ela me conhece desde criança, enviei o livro para ela, o livro impresso, xerocado, pensando que ela pudesse sugerir para a (editora) 34. E ela me devolveu anotado, página por página, lindamente anotado. Eu nunca tinha visto isso, fiquei até assim: “O que é isso? Como é que faz isso com meu livro?” No final das contas, me ajudou muito, cortei uns capítulos. Um processo completamente diferente do primeiro livro, onde não cortei nada. Lucas Frizzo é um livro sem parágrafo, sem capítulo, inspirado no Agripino (de Paula), no PanAmérica. Mas Búfalo, não. Este livro tem capítulos e parágrafos, é mais formal nesse sentido. Ele também vem do término de uma relação que estava pegando…

A falta de amor inspira?

B – O poço. O “poção” dá onda. Escrever quando há tensão sempre me dá leveza. Isso também acontece na música, quando estou muito fodido, consigo escrever letras alegres.

E o novo livro, Calendário?

B – Voltei a escrever depois que Búfalo  finalmente saiu. Calendário é uma tentativa de sair desse tipo de prosa corrida, “linear”. Calendário é uma pesquisa que faço no tempo, escrevendo todos os dias do ano, o livro vai ter 365 páginas. Vou lá e dou um Google no dia, que me traz uma informação incerta porque é Internet, e detono isso. Mudo a informação que me interessa. É mudar a história a partir de informações incertas da Internet para ser uma espécie de livro de consulta, que a pessoa pode abrir em qualquer página e ter uma sacanagem ali.

A arte é a única saída?

B – Não tem outro jeito, depois que entrei nessa parada, que senti que tinha que me expressar, não tem mais saída. É uma coisa mesmo de sobrevivência. Se não fizesse essas coisas acho que não seria feliz. Seria infeliz, triste. É da nossa espécie, a gente gosta de se comunicar muito. Isso tem a ver com a necessidade de criação, de produção. Por que faço isso? Não é essa a pergunta? (risos ) Por quê? Acho que eu consegui responder… (risos) Deve ter muito mais coisa… (risos)


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