BOTIKA

LOUCURA E LIBERDADE CRIATIVA 

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007 ]

   

 

O encontro com Botika finalmente aconteceu no (extinto) Café Severino, da Livraria Argumento, em Copacabana, depois de um atraso por conta de uma ressaca do artista que comemorava a gravação do primeiro CD da sua banda na noite anterior.

O nome dele é Bernardo Botkay, mas é mais conhecido por seu apelido de infância: Botika. Poeta, escritor e músico – vocalista da banda de rock Os Outros –, já cursou Letras e Filosofia na PUC-RJ, mas abandonou pela preguiça que o persegue. Como só faz o que tem muita vontade, resolveu se dedicar somente à música e à literatura, que no momento têm sido onde mais se reconhece.

“Sempre cantei; o meu pai é músico, então é herança de família. Mas não consigo me considerar mais uma coisa que a outra, não. Ultimamente tem sido mais confortável escrever, eu me reconheço mais na escrita. A música trabalha mais o coletivo, essa necessidade de coletivo, do palco”.

Performático no palco, Botika tem uma atitude que lembra muito o Cazuza. Não é tímido, mas tem inibição para se expressar em entrevistas. Há mais de dois meses estávamos planejando esta conversa, mas várias situações atrasaram o encontro; inclusive, seu romance, Autobiografia de Lucas Frizzo  (Editora Azougue), me foi furtado num ônibus da Zona Sul do Rio.

O que ele pensa da produção contemporânea?

“Espero que a minha mãe esteja certa: essa galera nova que está batalhando vai ocupar o lugar desses grandes que já estão indo… Preencher as lacunas desse processo. Acho que tem muita gente boa por aí. E também muita gente preguiçosa, como eu. Mas não sei se dá para olhar para o próprio umbigo agora, talvez daqui a uns anos”, completa:

“Tento escrever todos os dias. São várias as ideias de livros e preciso trabalhar cada uma. Alguns já têm títulos, estão mais adiantados. O Búfalo  já está pronto e, no momento, me dedico ao Calendário – livro que terá 365 páginas, representando cada dia do ano. Diariamente, entro no Google e faço uma pesquisa superficial sobre fatos importantes daquela data, que guardo para uma desconstrução. Tenho escrito bastante por causa da proposta do livro, mas a televisão sempre me atrapalha; fico preso a ela, mudando de canal.”

Uma conversa com autor (e amigo) que vai preencher as lacunas daqueles que nos fazem sorrir com as artes e a loucura.

Em 2003, você lançou Uma Autobiografia de Lucas Frizzo (Editora Azougue). Como surgiu esse livro?

Botika  – Foi em 2003? Nem lembro, faz tempo… Comecei a escrever sem saber que estava escrevendo um livro, sem me considerar escritor. Isso partiu de uma necessidade muito grande de vomitar as ideias. Em relação à forma, eu estava impregnado de José Agrippino de Paula, autor de PanAmérica , que tem uma linguagem própria de ritmo, sem capítulo e sem muita pontuação. Tive a sorte de conhecer o editor da Azougue, Sérgio Cohn, que topou publicar essa maluquice. Acho que ninguém além dele toparia. O livro é bem pesado…

Esse livro fala de violência, aborto, incesto, pedofilia… Por que tanta agressividade? Você quer chocar?

B  – Não, não quero chocar ninguém. Mas há pessoas, amigos e parentes, que vêm perguntar: “Por que você escreveu esse livro?” Estou experimentando, escrevendo, só isso. As pessoas não conseguem separar o escritor do personagem. Quero usar o potencial do bizarro, do que é real e do que as pessoas têm pudor de falar.

É, você mistura nomes de pessoas famosas nas histórias, como: Malu Mader, Guilherme Zarvos, ACM…

B  – Sim, mas tive que assinar um termo de responsabilidade sobre o livro. Até agora não tive problemas, ninguém me processou.

Você sabe que perdi seu livro num ônibus e só encontrei outro na Livraria Da Conde, na seção de biografias…

B  – Isso é muito bom (Risos)… É um romance.

E tem muito de você nesse livro?

B  – Sim, muita situação maluca em que me joguei mesmo. À medida que me lembrava delas, as colocava no Lucas Frizzo .

Além de escrever, você fala poesia e é vocalista da banda de Rock Os Outros. Em que área você atua melhor: música ou literatura? Sente muita diferença de uma para outra?

B  – Sempre cantei; o meu pai é músico, então é herança de família. Mas não consigo me considerar mais uma coisa que a outra, não. Ultimamente tem sido mais confortável escrever, eu me reconheço mais na escrita. A música trabalha mais o coletivo, essa necessidade de coletivo, do palco.

Você também é ator?

B  – Fiz a peça A Mulher que matou os peixes , da Clarice, durante um ano, junto com a Zezé Polessa. Mas não sou ator, isso foi no início…

Sabia que no palco você tem algo que lembra muito o Cazuza?

B  – (Risos.) É engraçado, as pessoas andam me falando isso …

Como é circular entre a música e literatura?

B  – Tenho muita dificuldade de escrever letras para música, mas acabo me dando bem com uma banda, isto é, parceiros musicais. É mais natural surgirem melodias e cantos na minha cabeça, e a palavra para a composição peço muito para o outro; para o Vitor Paiva, por exemplo.

O que você ouve?

B  – Não escuto muita música, gosto do silêncio. Já há tanto barulho o tempo inteiro, que quando chego a minha casa prefiro não ter som… Gosto de muita coisa – Radiohead, Macalé, Barnabé, que é incrível – , mas não baixo, não compro disco…

Como acontece o seu processo criativo?

B  – Tento escrever todos os dias. São várias as ideias de livros e preciso trabalhar cada uma. Alguns já têm títulos, estão mais adiantados. O Búfalo  já está pronto e, no momento, me dedico ao O Calendário – livro que terá 365 páginas, representando cada dia do ano. Diariamente, entro no Google e faço uma pesquisa superficial sobre fatos importantes daquela data, que guardo para uma desconstrução. Tenho escrito bastante por causa da proposta do livro, mas a televisão sempre me atrapalha; fico preso a ela, mudando de canal.

E de onde vem seu interesse pelos livros, pela literatura?

B  – Da criação; o interesse se intensificou a partir do momento em que escrevi o primeiro livro. Mas também de sempre estar rodeado de livros e de todo mundo lendo. Minha avó, Dona Ivone Botikay, é escritora e tem livros bem simpáticos. Meu pai, Caíque Botikay, tem dois livros publicados e é músico, compõe para teatro. Também há escritores na família da minha mãe, mas não os conheço.

Você não participou um tempo do CEP 20.000?

B  – Bem lembrado, tenho uns 10 anos de CEP. Logo que entrei, fui ajudar a produzir com uma galera. Ali praticamos as palavras e a vontade de estar no palco, improvisando.

Por que você escreve?

B  – Para conversar; não escrevo para mim. Desabafo para chegar ao outro; é comunicação. Além disso, pela vontade de chegar a lugares diferentes, experimentar, propor ideias… Não tenho feito nada a partir de leituras. Talvez porque eu não tenha lido nada que me surpreenda, ao menos no momento.

O que você está lendo?

B  – Guia das Galáxias  – um guia de mochileiros com um quê de Cortázar – e As Palavras, do Sartre, que é excelente…

E o que você leu? Quais são as suas referências?

B  – Cortázar – bastante e na veia –, Borges, Zarvos… Sou péssimo para lembrar nomes. Ah, o Vitor Paiva é uma influência grande. Ele está lançando um livro agora, Boca Aberta  (Editora Confraria do Vento); uma prosa maluca, muito boa.

O que você pensa dessa turma que está aí batalhando, produzindo arte?

B  – Espero que a minha mãe esteja certa: essa galera nova que está batalhando vai ocupar o lugar desses grandes que já estão indo… Preencher as lacunas desse processo. Acho que tem muita gente boa por aí. E também muita gente preguiçosa, como eu. Mas não sei se dá para olhar para o próprio umbigo agora, talvez daqui a uns anos.

O que você falaria para a galera da nossa idade que deseja entrar nesse universo de letras?

B  – Para ler o meu livro? (Risos.) Brincadeira… Acho que a pessoa tem que ler muito, viajar, acho que é isso.


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