BETH E CLARICE

Beth Goulart vive no palco a escritora ucraniana Clarice Lispector 

Por Ramon Nunes Mello [PortalCultura.rj – 2009 ]

   

 

Ao entrar no teatro para assistir à atriz Beth Goulart em Simplesmente eu, Clarice Lispector , é impossível ficar indiferente. As semelhanças entre atriz e escritora trazem, ao mesmo tempo, encantamento e estranheza. O impacto é imediato e forte. Beth busca o entendimento do amor da personagem através de uma interpretação pessoal e técnica: a tradução cênica de Clarice Lispector. Um trabalho artesanal onde a atriz utiliza a composição gestual para dar vida aos personagens da escritora e à própria escritora. O jeito de andar e a maneira como mexe os dedos enquanto fuma um cigarro são reproduzidos com precisão, assim como o famoso ‘sotaque’ de erres firmes de Clarice – que na verdade se tratava de uma língua presa.

Elogiada pela polêmica crítica de teatro Bárbara Heliodora, Beth Goulart mergulha no misterioso universo da escritora para trazer à ribalta uma narrativa intimista e fragmentada por fluxos de consciência. Um mergulho iniciado anos antes, quando adaptou cartas trocadas entre Clarice e Fernando Sabino. Na trajetória artística de Beth, literatura e teatro sempre caminharam juntos. Essa aliança, ao que tudo indica, pode render bons espetáculos. Resta-nos acompanhar o “bater desse coração no mundo” – aspas de Clarice.

Em entrevista ao Cultura.rj , Beth Goulart fala da experiência de amor ao viver a escritora Clarice Lispector.

Como surgiu o interesse por Clarice Lispector?

Beth Goulart  – Li a Clarice pela primeira vez na minha adolescência: Perto do coração selvagem . Ou seja, li Clarice nesta fase difícil, quando tentamos descobrir o nosso olhar no mundo, quem somos nós no mundo. Um período difícil, mas a Clarice foi minha companheira. A partir disso, ela passou a me acompanhar em vários outros momentos. E descobri outros livros, a relação foi se intensificando. É como ter uma relação com alguém que conhece um pouco da sua alma. A Clarice está nesse lugar de intimidade.

Você chegou a conhecê-la?

BG  – Pessoalmente não. Não. Mas eu lia muita coisa sobre ela. Gosto muito de livros sobre o processo de criação. Gosto de saber como o personagem vivia, o que gosta, o que não gosta. É uma forma de chegar um pouco mais perto da alma do personagem que será criado, tendo outras referências. Busco essas referências na construção do personagem. É claro que existem vários outros processos. Por exemplo, quando eu fiz o espetáculo Amor consciente , que era baseado em dois textos de dois autores ingleses – Bliss, de Katherine Mansfield, e O homem que morreu, de D. H. Lawrence. A Clarice quando leu a Katherine Mansfield disse: “Mas essa sou eu”. Justamente o conto que encenei. Ou seja, em Amor consciente Clarice esteve presente.

O teatro e a literatura sempre juntos, não é?

BG  – Verdade. Outro trabalho, que fiz com Stela Miranda, foi inspirado na obra da Virginia Wolf. A literatura é muito presente. Gosto muito de literatura. E livros de imagem, livros de arte, fotografias. A nossa criação chega a esse lugar do abstrato, que às vezes na arte é registrado. Às vezes, uma foto ou um poema nos faz chegar perto de um estado da alma para construir um personagem.

Quando você está no palco, vemos a Clarice. Mas, ao mesmo tempo, é a Clarice da Beth. Como lidar com essa dicotomia?

BG  – Nesse espetáculo sou totalmente Beth, a começar pelo nome da peça: Simplesmente eu, Clarice Lispector . É uma ponte entre a Beth e a Clarice. Tento ser pessoal na minha interpretação como ela foi pessoal nos textos que escreveu. A minha arte é palco, o corpo, a voz, o espaço cênico, o jogo teatral que se estabelece. O local onde posso brincar e me colocar de maneira bastante forte. Inclusive, o Amir (Haddad), quando estava fazendo a supervisão, falou: “Você nunca reparou que esse depoimento da Clarice é seu? Você está aí.” Estou vendo o meu processo criativo de busca de personagem. Como vivo ela sendo eu?

É possível medir essa troca? 

BG  – Medir não, mas é possível sentir. Eu sou mãe, a maternidade também tem importância na minha vida. Eu não me contentei em ficar só como atriz, quis me expressar de uma forma mais criativa, autoral. Eu tinha que assumir esse impulso criativo que era tão forte quanto a Joana (personagem de Perto do coração selvagem ). Entendeu? É como a Clarice, que se sentia morta quando não estava criando.

Como foi a gestação desse espetáculo?

BG  – Foi uma longa gestação para existir. Lembrei de uma frase de Clarice: “Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa.” Eu ia fazer a Clarice em outro projeto, na verdade um encontro de Clarice com Fernando Sabino. Seria em cima da correspondência dos dois, que está no livro Cartas perto do coração. Cheguei a adaptar e nomeei Cartas perto do coração selvagem , fiz logo uma ponte com o livro da Clarice. Mas os herdeiros do Sabino não quiseram.

É difícil essa relação com os herdeiros da obra?

BG  – Sim, muito. Mas temos que aceitar, obviamente. Naquele momento, que eu estava mergulhada no processo, não dava mais para não fazer a peça. Claro que tive que recomeçar tudo novamente.

Acabou sendo uma preparação para esse espetáculo?

BG  – Na verdade, eu queria dividir o palco com outro ator, fazer o jogo de cena. Mas fui levada para o monólogo, não dava para não fazer. Se eu não realizasse eu ia pirar.

Esse é o seu terceiro monólogo. Como é estar sozinha no palco?

BG  – O primeiro foi Pierrot , o texto era de poesias, uma pesquisa de linguagem. Foi a primeira viagem sozinha.

Na verdade não é sozinha, a equipe é enorme…

BG  – Exatamente. São quase 20 pessoas para eu subir sozinha no palco. Depois dessa fase do Pierrot  fiz Doroteia minha – a primeira dramaturgia que realmente assinei. Doroteia foi escrito a partir de cartas de amor do Nelson Rodrigues para minha avó, Eleonor Bruno. É uma história muito pessoal. Minha avó nunca respondeu às cartas do Nelson, então eu dei voz a esses escritos. Eram cartas lindas, de uma poesia incrível para ficar sem respostas. Respondi como se fosse uma mulher de hoje em busca desse grande amor na vida. Ela só leva porrada da vida, mas escreve cartas para cultivar esperança.

Foi uma longa trajetória até chegar a Clarice.

BG  – É uma relação de amadurecimento. Tudo que somos hoje é um somatório do que passamos na vida. Essa bagagem é experiência.

Que pessoas passaram por sua vida e transformaram o seu modo de lidar com a arte?

BG  – Por exemplo, eu era adolescente, e tive um encontro fortíssimo com Juliana Carneiro da Cunha. Ela estava chegando da França e iniciou um workshop com um grupo de pessoas. Eu fiz esse curso e até hoje utilizo exercícios que aprendi com ela. Depois fui trabalhar com o Gerald Thomas, outra referência de corpo, voz e conceito cênico.

Você chegou a gravar discos, não é?

BG  – Aos três anos de idade eu já queria ser atriz, brincava de fazer teatro. Distribuía personagens para meus amiguinhos. Devo a minha estreia, ainda criança, ao Abujamra (diretor de teatro), ele me fez gostar do palco. Trabalhei com música logo que cheguei ao Rio e fazia novelas. Sou muito inquieta artisticamente. Casei com Nando Carneiro, um excelente músico, e desenvolvemos um trabalho juntos. Fui ser cantora, apesar de todo preconceito. Valeu a experiência. Falei: “Não sou mais cantora!” Mas não parei de cantar em espetáculos.

O artista não precisa estar vinculado a apenas uma linguagem.

BG  – É, não preciso do rótulo. Tudo está junto. Por exemplo, o Arnaldo Antunes conseguiu conceber muito bem o trabalho dele, a poesia dele está na performance, no disco, no livro. O teatro é o templo de todas as artes, podemos nos expressar da forma como desejarmos. Aprendi que o desequilíbrio é que dá o primeiro passo, se você não corre o risco, não caminha.

Quando você pensa em Clarice, que frase você lembra?

BG  – Agora me lembro de: A maior salvação do homem é o amor. Ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca . Tudo isso tem ligação com os valores que permeiam a minha vida. Por isso, o espetáculo tem tanto de mim, porque falo de valores que são caros para mim. Falo da fé, sem ela eu não subiria no palco. O teatro é uma arte de resistência, se você não tiver fé, amor, paixão e teimosia, você não consegue realizar. Acho que Clarice era assim também, lidava com a dificuldade de ser escritora no Brasil. Além da dicotomia de ser mulher, mãe, dona de casa e escritora. Para resumir, diria: “O amor ainda salva tudo.”

ACC  – Quando eu li Quarup  fiquei empolgadíssima, impressionada. Eu trabalhava na Livraria Carlitos, no Leblon. O Antonio frequentava essa livraria quando começou a jogar charme para mim. Fiquei pensando: “Ana, que horror! Parece aluna querendo namorar professor” (risos). Foi um encontro de vida, tivemos um relacionamento adorável. Nós casamos no civil, escondido. Mas o Zuenir (Ventura) descobriu e noticiou: “Casamento escondido”. (risos) Antonio me ensinou muito, ele era um “intelectual-operário”. Quando eu ficava chateada com uma pessoa porque ele fazia alguma coisa errada, ele dizia: “Não se chateie, não é maldade. É burrice.” Uma sabedoria. Eu me lembro dele todos os dias, mas não fiquei uma viúva triste. Ele aprovaria minha alegria de viver.


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