LOBO ANTUNES

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009 ]

   

 

- Foi engraçado?

– Foi ótimo!

– Só queria que fosse engraçado…

Enquanto nos preparávamos para a entrevista exclusiva — rápida, porém intensa — com António Lobo Antunes, ele nos questionava sobre a performance na coletiva de 40 minutos, que terminou com aplausos ao escritor português. Nela, Lobo Antunes comentou sobre sua educação severa, normativa, do norte do Brasil, já que seu avô era de Belém do Pará, abordou, ainda que a contragosto, a terrível experiência na guerra (ele esteve como soldado por quatro anos em Angola, no final dos anos 1970), a trajetória como médico psiquiatra, antes de poder se dedicar exclusivamente à literatura. Mas, sobretudo, procurou relatar como encara seu ofício, segundo ele, algo tão ordinário como qualquer outro, apesar do glamour e charme que ostenta. Confira alguns trechos da coletiva:

“Não me interessa nada contar estórias. O livro é algo simbólico, sem significado definido. Não procuro escrever romances naturalistas, realistas. Me interessa colocar o mundo entre as capas.”

“Conhecem aquele tenista Björn Borg? Ele falava que os outros jogavam tênis; ele jogava outra coisa. É isso. Outra coisa. Procuro reinventar a escrita.”

“Não se pode fazer nenhuma transigência ao leitor. O livro deve ser lido com as chaves do próprio livro, do escritor, e não com as do leitor. O livro é um organismo, com características próprias. Se os livros fossem anônimos evitariam vários problemas, poupava-se muito trabalho.”

“Os bons livros foram feitos pra mim, e não interessa quem os escreveu.”

Autor de mais de 20 romances, entre elesOs cus de Judas(1979),Conhecimento do Inferno(1981),Explicação dos pássaros(1981),Eu hei de amar uma pedra(2004),Ontem não te vi em Babilônia(2006) eO meu nome é Legião(2007), que foram e estão sendo lançados pela Alfaguara/Objetiva no Brasil, Lobo Antunes recebeu o Prêmio Camões, o mais importante em língua portuguesa, em 2007. Ele serviu ao exército português em Angola e, junto com sua experiência como médico psiquiatra, essa vivência transparece em sua literatura, sobretudo em suas primeiras obras. A mais recente aqui lançada,O meu nome é Legião, aborda os jovens marginais da periferia de Lisboa, filhos de imigrantes.

Abaixo, a transcrição na íntegra da entrevista.

O ESCRITOR

Lobo Antunes – Se você quer mesmo escrever, tem que escrever para ser o melhor. E tem que escrever para chegar o mais longe. Chegar o mais longe, no interior da alma humana, no interior da pessoa, no interior da vida — estar mais perto da vida. Você conhece aquele pintor Paul Klee? Era um pintor suíço que quando morreu quis que o botassem perto de uma maternidade. Ele dizia: “Para estar perto do coração da vida.” Então, escrever é um pouco isso, você tem que tentar estar mais perto do coração da vida, onde estão os homens — e você no meio deles. O escritor não pode estar no alto que está. A gente não pode amar aquilo que não pode tocar. Tem que estar no meio dos homens, entre eles. Só no meio dos homens que vale a pena viver. Não entendo o artista distante que está a parte do mundo. Você é um homem comum, vivendo entre homens comuns. Seu trabalho é escrever, como podia ser pintor de paredes, engenheiro, médico, sapateiro… É preciso desmistificar o escritor enquanto criatura superior. É um homem comum. Abraços como a criação que o cerca e não controla.

A POESIA

Lobo Antunes – Meu pai tinha sobretudo poesia (em casa). Meu avô não tinha, porque achava que poesia era coisa de viado. Mas era sobretudo poesia: Bandeira, Drummond, Jorge Lima, Murilo Mendes… Escritores, mais ou menos o que a geração dele lia. Não lia muito, porque a poesia vende muito pouco. É engraçado, porque na casa do meu pai não havia fotografias de filhos, fotografias de família. Só havia fotografia de poetas. Eu tinha um imenso respeito pela poesia. Então, ao invés de encontrar um tio ou uma avó, passei a encontrar as fotografias dos poetas.

Lembro, uma vez, pouco antes de morrer, um dos meus irmãos perguntou: “O que gostaria de deixar para seus filhos?” E eu respondi: “O amor das coisas belas.” E fiquei com uma grande admiração por essa resposta. Eu tinha um imenso respeito pelos artistas, achava que eles sofriam mais que as outras pessoas. Não sei se sofrem mais, sofrem talvez da maneira mais aparentemente dramática. A nossa vida é feita de coisas tão contraditórias e os grandes sofrimentos, as grandes transformações são interiores. Não se passam por fora, passam-se por dentro. Os grandes cataclismas e os grandes tremores de terra são sempre interiores.

O PROCESSO DE CRIAÇÃO

Lobo Antunes – Sabe, nada disso foi premeditado. Comecei a escrever com cinco, seis anos. Era muito interessante porque você punha as palavras uma seguida das outras e fazia sentido. Então era maravilhoso. Depois começa a ser difícil. Aos quatorze, quinze anos, você nota que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal. Aí começa a angústia, né? E, depois, aos dezoito, você compreende que há diferença para escrever uma obra-prima. Porque você quer escrever uma obra-prima, quer dizer o que nunca ninguém disse.

Tem que ser profundamente ambicioso: “Eu vou fazer o que até agora ninguém fez.” E pode falhar, evidente. Mas pelo menos não fica com remorso por não ter tentado.

SOBRE O LIVROO MEU NOME É LEGIÃO

Lobo Antunes – Não era tanto a imigração que interessava. Todo livro é sobretudo uma reflexão pessoal e profunda sobre a arte de escrever. Era como se a polícia do livro fosse o escritor e aquelas vozes daqueles meninos fosse o material, que escapa de todas as maneiras, estão sempre fugindo. E, ao mesmo tempo, é inestinguível o ser de ternura daqueles meninos. Simplesmente, eles não tiveram outro meio de exprimir a não ser matando, foi assim que foram educados. Porque só conheciam o mundo da violência, em que até o amor é pedido com violência. Aquilo que nós estamos pedindo sempre é: “Gostem de mim, gostem de mim, goste de mim… Reparem em mim, estou vivo, estou aqui.” Porque nós damos muito pouca atenção uns aos outros, não há tempo. As pessoas vão ao psiquiatra porque ele é uma orelha muito grande para quem podem falar. Em casa é difícil falar, porque chega em casa tem marido, mulher, filhos, Internet, televisão. Então substitui-se o diálogo pelo comunicado. As pessoas não dialogam, emitem um comunicado como um boletim de saúde. E um livro é um objeto, uma coisa que acaba por se tornar vivo, porque com ela você pode partilhar. E o livro partilha consigo e você partilha com o livro, e consegue ter uma relação quase carnal, quase sensual com o livro, né? E fica apaixonado. Eu estou apaixonado pela Emily Brontë,O morro dos vendavais (O morro dos ventos uivantes, na tradução brasileira). Porque ela escreveu aquele livro para mim, e estava a dizer aquilo que eu sentia. Aquilo que eu sentia e não era capaz de dizer, porque não me era consciente. Então você está lendo e sente a mesma coisa, isto que senti e não era capaz de dizer.

 

O TEMPO DA ESCRITA

Lobo Antunes – Isso é variável. Nunca menos de um, dois anos. Trabalhando todos os dias, oito, nove horas por dia, sábados, domingos. Não menos que isso. Mas você lêA cartuxa de Parma, de Stendhal, foi ditado em 57 dias. O tempo que você demora não torna o livro nem melhor nem pior. Tem livros que são mais rápidos que outros. ComA explicação dos pássaros, eu tive só cinco ou seis meses. Com os outros, tive muito mais tempo. É assim, milagres. Você não sabe porque em um dia faz três linhas, no outro dia faz uma página, trabalhando as mesmas horas. Não sei, não tenho uma explicação para isso. Obrigado.

 


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