ANA PAULA MAIA

A CASINHA DE BONECA DE UMA ESCRITORA PUNK

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos   – 2007 ]

 

  

 

Ana Paula Maia. Já ouviu falar neste nome? Trata-se de uma das escritoras mais promissoras da nossa geração. Autora de Habitantes das Falhas Subterrâneas  (Editora 7 Letras); Sexo, Drogas e Tralálá… (Editora 7 Letras);Entre Rinhas, Cachorros e Porcos Abatidos (folhetim virtual) e Guerra dos Bastardos (lançado recentemente pela editora Língua Geral).

“Escrever é minha casinha de boneca, sempre digo isso. Porque é mundo de fantasia. Só escrevo ficção e dentro dela tem um pouco de mim, de bom e ruim. É o lugar onde brinco e choro. Não bebo, não fumo, não me drogo; sou uma mocinha…(Risos.) Meu vício é a escrita, na verdade é mais um comichão do que um vício. Tenho uma relação de sonhar muito com o que escrevo; tenho muitos pesadelos”.

Uma mulher que escreve com uma voz masculina e mancha o papel com a violência dos meninos que povoam seu imaginário. Uma moça certinha que esconde uma escritora punk, um texto ácido e um humor leve. Ou seja, uma bastarda, como ela mesma se considera, que te arrasta para o lado avesso do cotidiano, para os lugares que poucos gostam de frequentar.

Por que a sua voz literária é masculina?

“Eles me perseguem. Sou impregnada de homem na cabeça. Gosto tanto, tanto, que eles não me largam. (Risos.) Já escrevi um conto narrado por uma mulher, mas percebo que é um homem falando. Eu me dou bem com os meus meninos, é melhor continuar com eles. Talvez a explicação seja que, quando criança, eu quisesse ser o Luke Skywalker, acho que o cinema me trouxe muito isso. Acho que é uma questão de empatia com o universo masculino”.

Conheci seu trabalho depois de entrevistar Fábio Fabrício Fabretti e Thiago Picchi, seus parceiros de projetos literários.

“Em 2005, participei de uma antologia chamada Contos sobre Tela, do Marcelo Moutinho. Nesse meio tempo, eu estava escrevendo Guerra dos Bastardos  e o Fábio Fabretti teve a ideia de fazer um livro de microcontos, o Sexo, Drogas e Tralálá… Em princípio, não queria fazer, porque não sou boa em microcontos, tenho fôlego diferente. Aí eu escrevi, ele e o Thiago Picchi viram e gostaram…”.

A conversa, mais do que interessante, foi divertida e coberta de ironia.

Como você entrou para o universo das letras?

Ana Paula Maia  – Comecei na literatura em 2000, tem sete anos que escrevo. Comecei escrevendo um roteiro de curta-metragem. Ficou um roteiro “meio” livro, mostrei para um colega, que passou para outro, e acabou sendo filmado. Fui escrevendo pelo incentivo, no anonimato. Não dava credibilidade grande àquilo, apesar de gostar muito. Depois, veio Habitantes, que escrevi em dois meses e meio. Em seguida, o enviei para as editoras, mas não tive retorno de ninguém. Aí consegui uma indicação na editora 7 Letras, a mesma para onde eu já havia mandado o livro. Para você ver como é indicação, né?! Da próxima vez, posso blefar e falar que fulano me indicou. Acho que funcionaria da mesma maneira. Em um mês, o editor aprovou, mas nunca falei para ele que já lhe havia mandado o livro pelas vias tradicionais.

Você também escreveu para antologias não é?

APM  – Sim, em 2004 participei da antologia do Luiz Ruffato, As 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira . Também participei de uma antologia italiana chamada Sexy in Bossa, um trabalho bacana, com textos do Noll, da Hilda Hilst, do Campos de Carvalho… Em 2005, participei de uma antologia chamada Contos sobre Tela, do Marcelo Moutinho. Nesse meio tempo, eu estava escrevendo Guerra dos Bastardos e o Fábio Fabretti teve a ideia de fazer um livro de microcontos, o Sexo, Drogas e Tralálá… Em princípio, não queria fazer, porque não sou boa em microcontos, tenho fôlego diferente. Aí eu escrevi, ele e o Thiago Picchi viram e gostaram…

O que é o Entre Rinhas, Cachorros e Porcos Abatidos?

APM  – É uma novela que escrevi na net, o meu Folhetim Pulp. Os três primeiros capítulos foram publicados na antologia Sexy in Bossa e se chamam “Não deve se meter em porcos que não te pertencem”. Eu tive a ideia de colocar na net depois que publiquei o meu blog, o Killing Travis . É uma história mais violenta e difícil de digerir. É uma zombaria que também tem um lado político.

Como é essa sua relação com a Internet?

APM  – A Internet facilita escoar a produção, ela sempre foi minha grande aliada. Tenho blog, Orkut, MSN; me dou muito bem com a net, estou sempre pesquisando nela, sou “interneteira” mesmo.

Como acontece o seu processo criativo? Como surgem as suas histórias?

APM  – Não tenho horário para escrever, não. Mas, quando surge uma história, fico um tempo com ela na cabeça. A cabeça começa a pedir alguma coisa além do meu cotidiano. Começo a sentir a necessidade de criar um mundinho. Escrever é minha casinha de boneca, sempre digo isso. Porque é mundo de fantasia. Só escrevo ficção e dentro dela tem um pouco de mim, de bom e ruim. É o lugar onde brinco e choro. Não bebo, não fumo, não me drogo; sou uma mocinha…(Risos.) Meu vício é a escrita, na verdade é mais um comichão do que um vício. Tenho uma relação de sonhar muito com o que escrevo; tenho muitos pesadelos.

De onde vem essa violência que você escreve?

APM  – Então, do sangue, dos meus sonhos. Não sei explicar o porquê disso! Tenho muitos sonhos, às vezes sou a vítima… Pego isso tudo e coloco na escrita. Antes de escrever, já estou vivendo aquela história por algum tempo, tudo o que está ao redor pode entrar no personagem.

Por que você escreve?

APM  – Deve ser porque não aprendi a andar de skate…(Risos.) Não sei. Não escrevo porque sou introspectiva – fui uma adolescente piradérrima, tocava bateria numa banda de punk rock – nem tenho perfil de escritor atormentado, com as coisas dos demônios da escrita. Escrevo porque é o lugar que encontrei para brincar de casinha, desde pequena crio esses universos. Eu era uma criança narrativa, não consegui sair disso e levei para a literatura.

Você teve incentivo da família?

APM  – Sim. Quando criança, dormia ouvindo boas histórias que minha mãe e avó contavam. Cada dia eu dormia com uma delas para ouvir histórias diferentes. Minha avó contava realismo fantástico e minha mãe era realismo urbano…(Risos.) Ouvi muitos disquinhos. E depois, aos sete anos, passei a fugir delas para assistir filmes.

Por que a sua voz literária é masculina?

APM  – Eles me perseguem. Sou impregnada de homem na cabeça. Gosto tanto, tanto, que eles não me largam. (Risos.) Já escrevi um conto narrado por uma mulher, mas percebo que é um homem falando. Eu me dou bem com os meus meninos, é melhor continuar com eles. Talvez a explicação seja que, quando criança, eu quisesse ser o Luke Skywalker, acho que o cinema me trouxe muito isso. Acho que é uma questão de empatia com o universo masculino.

Quais são as suas maiores influências?

APM  – Começou com o cinema, depois vieram os desenhos animados e as séries de TV. Cresci na frente da televisão e assisti toda a porcaria B do cinema. Tudo o que passou na década de 80 no cinema… Também assisti a todas as novelas e filmes de terror. Minha mãe e avó que foram fundamentais como contadores de histórias. Na literatura, li os tradicionais: “Os Três Porquinhos”. (Risos.) Eu não fui criança “Monteiro Lobato”, fui criança “Os Três Porquinhos”. Li pouco na infância. Na adolescência, lia revista de rock e biografia do Metallica. Ah, eu estava cheia de hormônios e queria era beijar na boca.

Então, quando você começou a ler?

APM  – Aos 18 anos, comecei lendo filosofia… eu não sabia nem por onde começar. Nessa época, comecei a sentir a necessidade de ler e um livro foi puxando outro. A Internet me ajudou muito, o mundo se abriu para mim. Eu tinha uma janela no meu quarto que tinha tudo! Acho que comecei lendo pensadores, li muito Platão. Eu não tive um mestre, um professor…

Você lê os seus pares?

APM  – Às vezes leio um pouco, não gosto e paro. Li todos os livros do Santiago Nazarian. A gente faz uma barganha e hoje somos amigos. Isso devido ao meu primeiro romance, que mandei para ele. Além dele, leio a Simone Campos, as antologias que já têm uma galera… E poesia é um negócio que não aprendi a ler. Mas outro dia descobri a poesia de autor português que morreu, o Luis Miguel Nava. Ele é mágico.

Você acredita que as pessoas ainda estão interessadas em literatura?

APM  – Sim, olha essa livraria lotada de livros. É claro que será sempre uma parcela menor. As pessoas preferem o cinema, afinal, em duas horas você pode absorver tudo comendo pipoca e ainda beijando na boca. A leitura é introspectiva, você precisa ficar sozinho. Mas a literatura está na moda! Porque o que tem de escritor/modelo, escritor/big brother, prostituta/escritor… Tá na moda, mas acredito que vai passar.

Como é para uma mulher trabalhar em um meio dominado por homens?

APM  – Por isso que escrevo pela pessoa masculina (risos). Para ver se ajuda! Sou um menino quando escrevo. Quem escreve é o Travis, o menino que mora na minha cabeça. Não cresci lendo a literatura feminina.

Você acredita na existência de uma literatura feminina?

APM  – Acho que existe uma voz feminina – isso é perceptível –, mas não acredito na existência de uma literatura feminina.

Você se considera uma bastarda?

APM  – Ah sim, apesar de ter pais, me considero uma bastarda. Bastardo significa para mim exatamente o que diz o dicionário Aurélio: degenerado da espécie que pertence. Eu dedico o meu livro a essas pessoas: aos bastardos, renegados e degenerados.

Por que o interesse por essas pessoas?

APM  – Porque são as mais interessantes. Numa festa, reparo muito mais no garçom do que no convidado. Tenho essa coisa de olhar para o rodapé da parede. E uma mania: sigo pessoas estranhas na rua e fico observando.

Enxergo uma crítica ao cristianismo na sua escrita. Você acredita em Deus?

APM  – Sim, acredito em Jesus, oro tudo direitinho. Sou protestante, olha o meu cabelo… (Risos.) Mas geralmente não o divulgo muito; as pessoas me aborrecem um pouco com isso. Se fosse uma louca, drogada e com piercing, seria muito mais fácil. É isso que as pessoas esperam. Se tivesse uma tattoo e fumasse um baseado, não teria que dar metade das explicações que preciso dar. Comecei a escrever depois que já era protestante. Mas como sou uma garota careta para cacete e tenho Chuck

Norris como ídolo, é complicadíssimo! Mas fico tranquila, não existe pecado na literatura.

É verdade que o trailer do seu livro vai para o cinema?

APM  – Sim, verdade! Esse lance do trailer do livro nenhuma editora faria, só a Língua Geral mesmo. Quando escrevi o roteiro do livro e arrumei a trilha, conheci o Fabiano Viana, o Fabis, um designer de Curitiba. Eu estava passeando numa comunidade no Orkut e ficamos amigos. Ele fez a ilustração do meu folhetim e depois surgiu a oportunidade do trailer. Ele chamou um amigo dele, o Marcelo Calazans, e o gravou. Depois vendi para a editora, e em breve estará no cinema. A cena do trailer está escondida entre um capítulo e outro do livro, ninguém conhece.

O que você diria aos jovens que gostariam de escrever?

APM  – Sejam econômicos; arranjem um trabalho de meio expediente para custear vida modesta; sempre que escreverem um livro, que seja o seu melhor livro; usem a imaginação; sejam ridículos; e não tenham medo, tenham fé.


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