ALICE SANT`ANNA

MEMÓRIAS AFETIVAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

 

  

 

A delicadeza de Alice Sant’Anna me seduz. Gosto da doçura de suas palavras, poemas quase fotográficos, recortes do cotidiano, resquícios de memórias afetivas. Não é à toa que a menina encantou os poetas Chacal e Armando Freitas Filho, seus padrinhos.

“A memória perde as coisas, não conserva nada – estava falando sobre isso com minha professora de francês. Tenho de ler Proust. Minha memória prática não serve para nada. Mas minha memória afetiva é muito forte. Lembro, perfeitamente, de um cheiro – pelo menos na minha cabeça. Não consigo contar histórias, mas lembro dessas sensações”.

Carioca, estudante de jornalismo, estagiária do selo Alfaguara da editora Objetiva, Alice prepara as malas para fazer um intercâmbio de seis meses em Lyon, na França. Pretende estudar Letras, aperfeiçoar o Francês, conhecer pessoas diferentes do seu meio. E, em breve, voltar ao Brasil para continuar dedicada ao trabalho no mercado editorial.

“Comecei a fazer jornalismo porque não tive coragem de fazer Letras. Por enquanto, quero continuar na editora mesmo, é um trabalho maravilhoso”.

Prometi a conversa há mais de um ano, antes do lançamento do seu primeiro livro, Dobradura  (7 Letras), mas imprevistos adiaram os planos. Até, finalmente, nos encontrarmos no apartamento da Gávea, onde mora com a família e a gata Juju.

“Cachorro é alegre, abana o rabo. E gato não. Chego em casa e Juju não está nem aí para me receber. Mas gosto de gatos, eles têm vida própria. Acho o ronronar deles incrível. O gato é tão discreto que até a felicidade dele é um motorzinho dentro. É um bicho interiorizado. To falando um monte de besteiras (risos). Eu gosto de gato porque gato é legal”.

O bate-papo, bem humorado, passeou pelas lembranças de infância, sons de piano e trechos de poesia.

“cabelos esvoaçantes emolduram o rosto / os óculos são grandes para cobrir os olhos / não quero fazer aniversário / gosto dos meus quinze”.

Seus poemas remetem muito a sua infância. Fale um pouco sobre essa fase da vida.

Alice Sant’Anna  – Sou carioca. Nasci aqui, nesse apartamento, na Gávea. Sempre morei nesse apartamento, nunca mudei de quarto. Tenho uma irmã mais velha, chama-se Marina. Mas somos completamente diferentes. Sobre o livro, realmente meus poemas são muito ligados à infância. A memória perde as coisas, não conserva nada – estava falando sobre isso com minha professora de francês. Tenho de ler Proust. Minha memória prática não serve para nada. Mas minha memória afetiva é muito forte. Lembro, perfeitamente, de um cheiro – pelo menos na minha cabeça. Não consigo contar histórias, mas lembro dessas sensações.

Lembra de algum episódio de infância que tenha sido marcante?

AS  – Lembrei de dois momentos, assim que você perguntou. O primeiro: casa no campo, essa coisa lúdica de que todo dia é fim de semana.

Você ia para o campo quando era criança?

AS  – Sim. E agora temos um sítio no Sul de Minas. Mas antes disso, eu ia muito para Caxambu com a minha família. Sempre tive contato com cidades do interior: Araras, Petrópolis… Gosto do fato de a memória não ser fiel, pois assim você redesenha e reescreve. Não lembro muito dos momentos críticos. Mas lembro que fiquei angustiada com uma prova de matemática, esse foi o segundo momento. Eu era boa em química, mas em matemática e física sempre fui terrível.

Química tem as letrinhas da tabela periódica…

AS  – (Risos.) Verdade. Tirando a angústia da prova de matemática, minha infância foi muito boa. Sempre tive muitos primos, brinquei muito quando era pequena. A música me trouxe alegria. Eu ouvia Tom Jobim, adorava a Maria Luiza Jobim.

Você toca piano, não é?

AS  – Toco.

Há quanto tempo?

AS  – Se eu falar, você vai achar que eu toco muito bem. Mas não toco.

Poderia tocar uma música?

AS  – Não (risos ). Não lembro de nada, minha memória não é boa. Comecei a fazer aula aos seis anos. Eu tinha um pianinho de madeira, vermelho. Em 94, no dia que o Ayrton Senna morreu, fui para o piano e tirei a música: tantantan tantantan tantantan… E toda vez que eu tocava minha irmã chorava. Não sei por que aquilo tocava tanto a ela. Então, achei que fosse um dom (risos). Eu amava tanto o piano que ele se tornou um gato, uma coisa incrível. Até que um dia resolvi dar um banho no piano. Eu não era muito esperta. Peguei um balde d’água e joguei em cima do bicho. Meu piano morreu. Meu pai ficou com pena e me deu um teclado de aniversário. O teclado veio junto com uma professora. Foi ótimo! Fiz aulas dos seis aos 11 anos, mas depois parei.

Você tinha uma banda?

AS  – Sim. Os Subterrâneos.

De onde surgiu essa relação com a música?

AS  – Sempre gostei do Tom Jobim. Meu pai ouvia o Tom no carro e em casa. Depois ele me deu o teclado. Já toquei violão e violino, mas eles já estão enferrujados. Ninguém aguentava mais me ouvir.

Hoje você ouve o quê?

AS  – Continuo ouvindo Tom Jobim (risos ). Gosto da Billie Holiday, Nina Simone, Marisa Monte, Gal – há uma música dela… Não lembro. Memória não serve para nada.

E quando você despertou para a Literatura?

AS  – Sempre gostei de ler. Não lembro o que me despertou assim. Lembro na poesia: Ana Cristina César. Eu era muito ruim em educação física, então tive de me dedicar à outra coisa. Eu sempre era última a ser escolhida no grupo, muito dramático. Mas eu era boa em português e redação. Entre os 17 e 18 anos, dei aula de português na Escola Parque. Eu gostava de escrever. Gostava de Clarice Lispector, eu era tão pequena. Mas aquilo fazia todo o sentido.

Clarice é uma influência?

AS  – Com certeza. Mas tenho medo de “influência”, pois parece que quero escrever igual. Não é isso. É perigoso. É legal ter muitas influências, mas tem de saber lidar.

Há muitos textos em prosa no seu livro de poesia.

AS  – Verdade. Quando eu estava na escola, só escrevia prosa. Só no final do Ensino Médio que comecei a escrever poesia. A escola foi muito importante, havia um grupo de estudos, o Oficina da Palavra. O professor João Guilherme Quental, por exemplo, era fantástico. Ele levava haikais, contos do Borges… Foi muito importante.

Seu pai é fotógrafo e sua mãe produtora de moda. Eles a incentivaram à leitura?

AS  – Sim. Minhas tias também me incentivavam muito. Estou lendo um livro por indicação de uma delas: O Bigode , de Emmanuel Carré. É sobre um cara que tem um bigode há dez anos. Até que ele resolve raspar o bigode, mas ninguém percebe. Você não sabe se ele enlouqueceu, é muito bom. Meu pai sempre quis que eu lesseQuarup, do Antonio Callado, mas não li ainda. Quando eu estava na escola, dois livros me marcaram muito: A Hora da Estrela, da Clarice Lispector e Ensaio Sobre a Cegueira, do José Saramago.

Você citou a Ana Cristina Cesar como um despertar para a poesia. Fale um pouco mais sobre isso.

AS  – Eu estava na oitava série, tive de fazer um trabalho sobre Modernismo. Então, fui pesquisar e caí num site em que tinha vários autores. E tropecei de paraquedas num poema dela. Fiquei impressionada por ter achado um poema curtinho e forte, sem formato medido. E isso coincidiu com a época do lançamento do livro Novas Seletas  (Nova Fronteira), organizado por Armando Freitas Filho. E meu pai conhecia o Tutty Vasquez que conhecia o Armando, que sabe tudo sobre a Ana Cristina. Nós fomos encontrar com ele e eu levei uns textos meus. Ele e sua mulher, Cristina, foram uns amores. Depois, ele leu meus textos e me enviou um e-mail. Foi genial, ele fez vários elogios e deu várias dicas. Mandou ler Drummond, que ele ama. Foi bom conhecer a Ana, uma mulher que estava ”fora” e ao mesmo tempo era sociável.

Você se considera “fora”?

AS  – Eu me considero ”fora”, mas não sou essa pessoa incompreendida. Não acho isso legal. Essa coisa de “sou um gênio e ninguém me entende” não é comigo. Gosto de me relacionar, de conhecer lugares diferentes. Ao mesmo tempo, gosto de privacidade.

Como você entende a morte da Ana C.?

AS  – Eu não sei. Acho triste. Não sei falar sobre isso. É uma relação estranha, eu não a conheci. Mas nunca contestei a morte dela, eu nasci com esse fato. Ana se matou jovem e isso a imortalizou. Só lembro dela linda com óculos escuros.

De que outros poetas você gosta?

AS  – Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. Das mulheres: Emile Dickson, Silvia Plath, Elizabeth Bishop.

Você publicou o primeiro livro de forma independente e foi bem recebida pela imprensa e pela crítica. Como é isso aos 20 anos?

AS  – É legal. Todo mundo gosta de receber elogio. Tô adorando ouvir elogio por aí. Mas adoro ouvir uma crítica mais pensada. Por exemplo, o professor João Guilherme comprou o livro e me chamou para conversar. Ele apontou várias coisas: “Isso aqui eu acho infantil. Por que você não fez de outro jeito?” Gosto de ouvir uma crítica construtiva. Ainda bem que há um monte de falhas. Eu tenho 20 anos, posso errar e amadurecer. Acho que tenho o complexo de Peter Pan, sempre odiei fazer aniversário (risos). Até fiz um poema aos 15 anos. Vou tentar lembrar. É ruim, tá?

Sem críticas…

AS  – “cabelos esvoaçantes emolduram o rosto / os óculos são grandes para cobrir os olhos / não quero fazer aniversário / gosto dos meus quinze”. (Risos .) Eu falei que era ruim. É bobo.

Houve algum momento em que você decidiu ser escritora?

AS  – Houve. Era engraçado, porque eu era muito mais séria do que sou hoje. Escrevi dois livros que não chegaram nem à metade. O primeiro, sobre um dentista frustrado de Copacabana. Eu pesquisei sobre odontologia (risos). Eu adorava esse projeto, mas não tinha o que escrever. O dentista perdeu os pacientes (risos). E eu perdi esses textos. Ainda bem, né? Eu estava levando tudo muito a sério. O outro projeto era sobre um menino de 14 anos que viajava o mundo de caminhão para ficar bem depois da morte do pai. Esse projeto também foi por água abaixo.

O que é ser poeta?

AS  – Não sei. Não faço a menor ideia.

Você não é poeta?

AS  – Se você fala que eu sou, eu sou. Ramon, é que assim fica uma coisa pretensiosa. (Pausa.) Mas para ser poeta não precisa ser o Manuel Bandeira. Tá, eu sou poeta.

Você já está escrevendo o segundo livro?

AS  – Acho que estou.

Já tem nome?

AS  – Não faço a menor ideia.

Como é o seu processo de criação?

AS  – Geralmente, vem com um tema ou uma frase que fica na minha cabeça um tempo até decidir o que fazer com ela. O meu processo de criação é mambembe. Não tenho hora para escrever. Escrevo à noite, andando, no ônibus. Por isso, acho que não vou conseguir escrever um romance. Hoje em dia, escrevo mais no computador do que no caderno.

Você usa muito a Internet?

AS  – Uso, mas sou muito ignorante em relação à Internet. Eu mal baixo música. Ou uma pessoa diz, ”aperta aqui”, ou…

Você tem um blog A dobradura e o seu livro chama-se Dobradura

AS  – O livro iria se chamar ”a dobradura ”, mas o Armando (Freitas Filho) disse que o artigo enfraquecia o título. Então, deixei só Dobradura.

(Juju, a gata de Alice, invade a entrevista .)

AS  – Juju, esse é o Ramon. Amigo.

Há muitos poemas sobre gatos no seu livro.

AS  – Acho gato um bicho engraçado. Sempre gostei mais de cachorro, achava gato um bicho arisco e esquisito. Não tive como ter cachorro no apartamento. Cachorro é alegre, abana o rabo. E gato não. Chego em casa e Juju não está nem aí para me receber. Mas gosto de gatos, eles têm vida própria. Acho o ronronar deles incrível. O gato é tão discreto que até a felicidade dele é um motorzinho dentro. É um bicho interiorizado. To falando um monte de besteiras (risos ). Eu gosto de gato porque gato é legal.

Você trabalha na Editora Objetiva. O que faz exatamente?

AS  – Um pouco de tudo. Sou estagiária, estou fazendo o sétimo período de jornalismo na PUC – Rio. Trabalho no selo Alfaguara, eu e meu chefe. Ajudo em tudo: revisão, escrever orelha, avaliar originais, tradução, pagamento de capista, cobrar o tradutor… Aprendo o processo editorial.

Você pretende trabalhar em redação de jornal ou no mercado editorial?

AS  – Comecei a fazer jornalismo porque não tive coragem de fazer Letras. Por enquanto, quero continuar na editora mesmo, é um trabalho maravilhoso.

Você namora o poeta Mariano Marovatto. É bom namorar um poeta?

AS  – É ótimo. Leio poemas para ele. Ligo e falo: ”acabei de escrever um poema. Diz o que você acha.” E ele: ”esse aí é mais ou menos.” Eu fico arrasada e digo: ”Então tá, Mariano. Boa noite!” (Risos .) É legal. A poesia foi o que nos uniu. Ele não pede pitacos para os textos dele.

O que você espera daqui a vinte anos?

AS  – Viajar muito. E ter um monte de livros publicados, inclusive romance. E acho que vou trabalhar em editora, virou até um sonho.

Por que escrever?

AS  – Não sei. Eu poderia viver se não escrevesse. Mas teria de fazer outra coisa. Talvez, ginástica olímpica. Ou, desenho. Gosto de escrever, faço o que acredito. Mas não acho que isso vai mudar a vida de ninguém.

Há tanta imagem de santo na sua casa. Você é religiosa?

AS  – Não. Ninguém é religioso, é só decoração. Eu não acredito em nada. Mas deve haver alguma coisa regendo esse relógio. Não tenho um ‘deus’, ainda.

Você está indo morar fora do Brasil. Fale sobre isso.

AS  – Sim, vou fazer intercâmbio. Já fiz seis meses de intercâmbio na Nova Zelândia, foi importante. Agora vou para França, em Lyon, de julho a dezembro. O processo de seleção foi tenso, precisava de carta de recomendação e tudo mais. Vou feliz, deixando as coisas no lugar para a retomada.

O que você diria para alguém que deseja ser poeta?

AS  – Ter sensibilidade e trabalhar muito. Não gosto da ideia de que alguns podem ser escritores e outros não. Você tem de trabalhar no que você gosta. Se você acha que a escrita é o seu lugar, siga em frente. Não acredito em dom. Será que existe isso? Será que com o trabalho você também não alcança? Ou seja, não daria conselho nenhum (risos). Vai ler. O conselho mais valioso que meus pais me deram foi: nunca perder o bonde. Tem bonde passando? Pega! Não deixa os bondes passarem. Bota a cara à tapa!


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