ADRIANA LISBOA

Encantadora de Cotidianos

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

 

 

 

 

Adriana Lisboa é a romancista contemporânea que mais admiro. Digo isso não só por gostar da sua escrita tomada por poesia, mas também por admirar a relação consciente que estabeleceu com o seu ofício.

“Acredito, em primeiro lugar, que escrever é quase sempre consequência da leitura. Um escritor é, antes de mais nada, um leitor que se apaixona tanto pela leitura que também quer fazer… Pelo menos comigo foi assim. Mas confesso que existe um quê terapêutico em escrever; quando estou numa situação ruim – mesmo nos piores momentos, nas piores experiências – sempre penso que posso fazer dela um conto ou um romance. Acho que é um modo de viver, de viver o mundo, de tentar “reciclá-lo” dentro da cabeça”, explica Adriana.

Nascida no Rio de Janeiro, Adriana já foi traduzida na Suécia, em breve estará nas livrarias da Itália, França, México e, dependendo das negociações, EUA e Japão – país onde se passa o seu último romance Rakushisha . Sua prosa, densa e poética, é revelação das coisas mais simples do nosso cotidiano.

“Um escritor nunca está pronto. No dia em que estiver pronto, ele acabou. Porque nesse dia terão acabado suas perguntas. E, para terminar, acho que a literatura se faz de curiosidade, de perguntas, de dúvidas”.

Conheci seu trabalho através do livro Caligrafias  (2004), mas depois fui buscar os outros livros: Fios da Memória (1999); Sinfonia em Branco (2001), ganhador do Prêmio José Saramago; Um Beijo de Colombina (2003) e o infantil Língua de Trapos (2005) – todos pela Editora Rocco.

“O meu predileto é o Rakushisha . Mas, entre esses que você listou, acho que escolheria o Colombina, embora a maioria das pessoas – e dos editores fora do Brasil – prefira o Sinfonia. Porque este é um livro que transita por questões da história recente do país, como os anos da ditadura – embora isso não seja o núcleo do enredo –, assunto sobre o qual, fora do Brasil, creio que as pessoas ainda estão querendo ler; além de lidar com incesto, tentativas de suicídio… Enfim, de ser o meu livro mais ‘dramático’ (risos)”, confidencia.

A entrevista aconteceu por Msn, pois a Adriana está morando em Denver, nos EUA, onde trabalha como pesquisadora na Universidade do Novo México.

Rio de Janeiro, Teresópolis, Brasília, França, Japão e EUA. Em qual desses lugares você mais gostou de morar? E que experiências você costuma tirar dessas vivências?

Adriana Lisboa  – A cidade onde passei a maior parte da vida foi o Rio, portanto acho que é a que está mais presente em mim. Mas acho muito bacana a situação do estrangeiro. Tenho gostado das experiências internacionais. Moro num lugar que tem uma natureza impressionante. Mas acho que, de todos esses, se tivesse que escolher um definitivo, seria Paris. O filósofo Vilém Flusser diz uma coisa muito bacana sobre a situação do estrangeiro: “Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.”

Tenho tentado sentir isso na minha vida e na minha literatura.

Você teve a oportunidade de ir para França pelo projeto literário Amores Expressos. Como foi a experiência de ir para um país com o objetivo de escrever um livro?

AL  – Bem, maravilhosa, um privilégio. Estou adorando escrever o livro depois dessa viagem; sem dúvida “procurar” uma história numa cidade nos faz ter uma experiência muito particular dela. Acho que faltam projetos dessa natureza no Brasil, que divulguem o país fora de suas fronteiras. O projeto foi elogiadíssimo no exterior por várias pessoas que encontrei; escritores, editores, jornalistas, professores e até o Sérgio Paulo Rouanet – falamos sobre o assunto na embaixada do Brasil em Londres, ele considerava toda a polêmica criada em torno do projeto uma bobagem.

Você foi ao Cemitério de Montparnasse, na França, para visitar o túmulo de Sartre e Simone, Ionesco, Marguerite Duras, Cortázar. Como foi isso?

AL  – Uma experiência estranha… Fazia um sol absurdo quando cheguei ao cemitério, mas o tempo começou a fechar no segundo em que encontrei o túmulo da Marguerite Duras, em seguida, um temporal. Daí, fui ver Sartre e Simone enquanto o céu desabava, depois corri para casa, e ao chegar lá o céu estava azul de novo.

O livro dessa viagem vai ser sobre o quê? Já tem nome?

AL  – Tem. Chama-se Como escrever uma história de amor em Paris . É sobre um fotógrafo que vai a Paris com a incumbência de fotografar um velho e excêntrico escritor francês. De modo geral, o amor aparece no livro de várias formas – amor de um pai pelo filho, amor não-correspondido, amor de um casal casado há mais de meio século, o amor da amizade e o amor, claro, pela cidade…

Você acaba de lançar Rakushisha. O que tanto te atraía na cultura oriental?

AL  – Coloquei o pé na cultura oriental através do zen-budismo, que pratiquei durante alguns anos – fui a mosteiros e retiros, no Brasil e na Califórnia… Li muito sobre a filosofia e acabei caindo de quatro pela poesia de inspiração zen, o que me levou ao haikai clássico japonês. Ao me apaixonar pelos diários de viagem de Bashô, resolvi escrever um romance sobre isso, daí vieram meus estudos de japonês durante alguns anos – não serviram para nada – e meu pedido de bolsa à Fundação Japão para ir a Kyoto. Tenho admiração enorme pelo oriente, mas, como as ideias vão migrando na minha cabeça, restou o interesse pela viagem em si, que transporto agora para o deserto do sudoeste dos Estados Unidos.

Sinfonia em Branco Os Fios da MemóriaCaligrafiasUm Beijo de ColombinaLíngua de Trapos. Qual é o seu predileto?

AL  – O meu predileto é o Rakushisha . Mas, entre esses que você listou, acho que escolheria o Colombina, embora a maioria das pessoas – e dos editores fora do Brasil-prefira o Sinfonia. Porque este é um livro que transita por questões da história recente do país, como os anos da ditadura – embora isso não seja o núcleo do enredo –, assunto sobre o qual, fora do Brasil, creio que as pessoas ainda estão querendo ler; além de lidar com incesto, tentativas de suicídio… Enfim, de ser o meu livro mais “dramático” (risos). Acho que, de lá para cá, vim enxugando os enredos. Às vezes as pessoas querem mesmo é história comprida, mas Rakushishaé o meu preferido por isso, pelo enredo rarefeito.

Língua de Trapos  é o seu livro infantil. Você tem vontade de se voltar mais para esse público?

AL  – Tenho uma novela juvenil saindo neste mês pela Publifolha , e um novo infantil saindo em 2008 pela Rocco. Adoro escrever para esse público. Não pretendo parar.

Romance, contos, literatura infantil; escrevendo, qual gênero te proporciona mais prazer?

AL  – Cada ideia surge com um formato distinto, mas acho que do que mais gosto mesmo são romances. Com os textos longos o convívio é maior, e isso me agrada.

Como funciona o seu processo criativo?

AL  – Não tenho. Escrevo como e onde dá. Com filhos – tenho um, mas meu namorado tem uma coleção –, você aprende a aproveitar todo o tempo livre… Clarice Lispector dizia que, quando se é mãe, acabam as portas fechadas, e isso é verdade. Quer dizer, eu até fecho a porta, mas eles batem! De todo modo, sempre fui de escrever de dia.

Por que você escreve?

AL  – Escrevo porque é sólido; se fosse líquido, eu bebia… (Risos.) Acredito, em primeiro lugar, que escrever é quase sempre consequência da leitura. Um escritor é, antes de mais nada, um leitor que se apaixona tanto pela leitura que também quer fazer… Pelo menos comigo foi assim. Mas confesso que existe um quê terapêutico em escrever; quando estou numa situação ruim – mesmo nos piores momentos, nas piores experiências – sempre penso que posso fazer dela um conto ou um romance. Acho que é um modo de viver, de viver o mundo, de tentar “reciclá-lo” dentro da cabeça. Claro que isso poderia ser feito de muitas formas, mas a palavra sempre foi a minha matéria-prima preferida.

Quando você decidiu se dedicar à literatura?

AL  – Desde sempre – escrevo histórias e poemas desde os nove anos de idade. A escrita e a leitura eram minhas atividades preferidas desde que tive acesso a elas. Mas, na adolescência, comecei a estudar música e acabei indo fazer faculdade nessa área. Assim que me formei, vi que não tinha, definitivamente, nascido para aquilo, que não tinha a mesma paixão por tocar meu instrumento do que por escrever. Então me propus escrever um romance inteiro e tentar publicá-lo; foi quando surgiu Os Fios da Memória , que a Rocco decidiu publicar.

Como foi esse processo de procurar uma editora?

AL  – Mandei os originais para quatro editoras. Não conhecia ninguém no meio literário. Uma das editoras não me respondeu até hoje. (Risos.) Outras duas recusaram, e a Rocco resolveu bancar. Mas essas recusas são curiosas, e hoje me entendo muito bem com todas elas… As duas que recusaram os originais de Os Fios da Memória foram a Nova Fronteira, para a qual estou fazendo traduções e que recentemente me convidou a um projeto que não pude aceitar, e a Cia das Letras, que lançará o romance do Amores Expressos. Então, está tudo ótimo.

Você esperava tanta receptividade ao seu trabalho?

AL  – No começo, achei que publicar o meu primeiro livro já era a glória, o final da carreira, sabe? Depois me dei conta de que mal podia ser considerado o começo. Tenho muita sorte de ter encontrado uma editora que apostou em mim, na minha carreira, e que foi caminhando junto comigo, acompanhando meus passos. Ainda não sei muito bem qual a receptividade do meu trabalho, te confesso que não consigo olhar de fora e ter a dimensão disso. Para mim ainda sou aquela autora de dez anos atrás, cada livro é um novo desafio. Embora eu tenha segurança diante do que escrevo, nunca sei se da noite para o dia vou deixar de ter.

Sua família influenciou a escolha pela literatura?

AL  – Minha família é absolutamente maravilhosa; sempre me apoiou em tudo o que eu quisesse fazer – fosse literatura, balé ou sei lá o quê. E sempre bancaram isso, nunca me negaram dinheiro para cursos de música ou comprar livros. Não há escritores nela, ainda que haja algumas pessoas ligadas a arte – principalmente música, e um pouco de artes plásticas –, com literatura acho que sou a primeira.

O que seu filho acha da mãe dele ser escritora?

AL  – Senti grande emoção com o fato de o Língua de trapos  ter sido o primeiro livro que ele leu sozinho… Mas acho que meu filho considera essa atividade como outra qualquer, afinal ele já nasceu me vendo escrever e publicar. Hoje em dia, ele está querendo ser colaborador e ganhar por isso – juro! – – com pesquisas e afins. A filha do meu namorado, Giulia, de 13 anos, me ajudou com umas pesquisas para essa minha novela juvenil que a Publifolha lança agora, e eu dei 10% do meu adiantamento; agora todo mundo quer!

Você já foi casada com um escritor. De que maneira isso influenciava no seu trabalho?

AL  – Bem, para mim foi um período muito bacana e muito importante; nós conversávamos muito sobre literatura. Temos estilos diferentes, mas até hoje, de tempos em tempos, trocamos ideias (e originais, em busca de opinião). O Flávio [Carneiro] é uma pessoa cuja visão sobre literatura eu respeito muito.

Você é graduada em música pela UNIRIO e é flautista. Como se estabelece para você a relação entre a música e a literatura?

AL  – Faz anos que não toco, mas a música faz parte da minha vida. Creio que a sonoridade do meu texto é muito importante. Às vezes escolho palavras pelo som que produzem na frase. Escrevo com os ouvidos também… O que acho que é válido para quem escreve poemas – e, embora hoje não escreva mais poesia, leio muita.

No seu livro Beijo de Colombina, você faz uma grande homenagem ao Manuel Bandeira. E, nos outros livros, é perceptível a forte a presença da poesia na narrativa. Como você lida com a poesia? Você tem vontade de lançar um livro só com seus poemas? Quais são os poetas que admira?

AL  – Tantos! Tenho lido atualmente o Paul Celan em traduções esmeradas da Raquel Abi-Sâmara, mas entre os brasileiros de hoje posso citar, de cara, Paulo Henriques Britto, Claudia Roquette-Pinto, Eucanaã Ferraz, Heitor Ferraz Mello, Celina Portocarrero, Dora Ferreira da Silva, Carlito Azevedo… (são muitos!) Acho que leio mais o pessoal da poesia do que da prosa, no Brasil atual. Nossos poetas são fantásticos, um time de primeira linha. Mas não escrevo poesia – ou, antes, só escrevo poesia em prosa. Abandonei o verso porque… Não sei por quê.

O que você costuma ler de prosa? Você lê os seus contemporâneos?

AL  – Tento, mas não tenho muito critério; não leio por obrigação, mas sim por curiosidade. Este ano eu estava lendo dois livros ainda inéditos na minha lista,Rayuela  do Cortázar e On the Road do Kerouac. Li também o novo livro do Bernardo Carvalho porque é sobre o Japão. E tenho agora lido algumas coisas relacionadas ao deserto, porque é o tema que está me interessando – aí rola de tudo, de Saint-Exupéry a Edward Abbey.

Quais são suas influências?

AL  – Honestamente, não sei. Sempre digo que acho muito pretensioso elencar influências “vip”. Eu poderia dizer que admiro Cortázar, Guimarães Rosa, Machado, Bandeira, João Cabral… Mas será que eles são influências? Na verdade acho que tudo nos transpassa de algum modo e fica em nós, de um jeito ou de outro – tudo aquilo que admiramos, tudo aquilo que nos modifica de alguma maneira. Comigo, podem ser os Beatles, Keith Jarrett, Bashô, Bandeira, João Gilberto, Henry Moore… (escrevi um conto sobre as esculturas dele).

Você ganhou o prêmio José Saramago. O que muda quando um escritor ganha um prêmio?

AL  – Esse prêmio, especificamente, mudou muita coisa. Comecei a ser publicada fora do Brasil, estive na FLIP, e isso alavancou muita coisa dentro e fora do Brasil. A coisa toda funciona meio como efeito dominó. E os prêmios, além de ajudarem a pagar as contas – o que não faz mal a ninguém –, trazem visibilidade. Não se trata de ego, de jeito nenhum, mas, se escrevemos, é para leitores, e estes precisam saber que existimos!

Você é Doutora em Literatura Comparada, mestre em Literatura Brasileira e graduada em Música. Você acredita que o meio acadêmico pode bloquear o processo criativo?

AL  – Bloquear não. Ele pode se intrometer no texto, mas, como não sou nem nunca fui professora, estou um pouco mais protegida. Acho que as discussões que tive na universidade foram muito produtivas e tiveram consequências muito positivas no que escrevo.

Você acredita na existência de uma “literatura feminina”?

AL  – NÃO! Sou totalmente avessa a essa categoria. Não vejo sentido nela. Os argumentos são milhares… Acredito, isso sim, no masculino e no feminino como arquétipos que podem se manifestar aqui e ali, em textos de homens e mulheres indiscriminadamente.

Você tem um blog chamado Caquis Caídos. Como você vê a influência da Internet na literatura? Existe “literatura de Internet”?

AL  – Eu nunca tinha mantido um blog, nunca tinha me interessado, até o Amores Expressos, que colocou isso como uma exigência. ADOREI e depois criei o meu. Mas não se confunde, para mim, com escrever… É mais um arquivo para compartilhar coisas do dia-a-dia, principalmente porque estou longe de muita gente que amo, meus pais e irmãos no Brasil, amigos em Paris e Tóquio e Lisboa e Teresópolis. E o blog é uma forma de compartilhar minha vida um pouco mais. Para mim, pessoalmente, literatura e internet continuam não se misturando.

O que você diria para quem quer ser escritor?

AL  – O que costumo dizer é que é preciso coragem para ouvir sua própria voz e não cair em maneirismos. E também que é preciso humildade de saber que sempre se está aprendendo, descobrindo ao longo dos dias e das décadas, sempre. Um escritor nunca está pronto. No dia em que estiver pronto, ele acabou. Porque nesse dia terão acabado suas perguntas. E, para terminar, acho que a literatura se faz de curiosidade, de perguntas, de dúvidas.


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