SR. SHAKESPEARE

Com ‘Macbeth‘, Aderbal Freire-Filho monta pela terceira vez uma obra do autor inglês 

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

 

O encenador Aderbal Freire-Filho faz o terceiro mergulho na obra William Shakespeare, assinando a direção e tradução de Macbeth , protagonizado pelos atores Daniel Dantas e Renata Sorrah. A segunda experiência foi com Hamlet, no ano passado, tendo Wagner Moura no papel principal. E a primeira foi As you like it, em 1985. Uma trajetória que rendeu ao diretor intimidade com as metáforas de autor inglês.

Desde a juventude, quando trocou o Ceará pelo Rio de Janeiro, Aderbal vive de teatro, com especial gosto pela palavra. Talvez seja essa a explicação pelo prazer que sinta de levar ao palco os mestres da literatura dramática. Shakespeare é um dos maiores desafios do encenador.

A encenação de Macbeth , que estreou dia 15 de janeiro no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, é um projeto do ator Daniel Dantas, que convidou Aderbal para a direção, com quem havia trabalhado em Tio Vania, de Anton Tchekhov. No processo de montagem deste espetáculo, o diretor convocou o elenco para leituras de poetas brasileiros, com a intenção de se aproximar da poesia do texto shakespereano, mantendo a reverência e coloquialidade.

Em entrevista ao Cultura.rj , Aderbal Freire-Filho fala justamente sobre esse equilíbrio.

Macbeth  foi adaptada para o cinema, televisão, ópera, quadrinhos e muitas outras mídias. Como é encenar um texto tão consultado? Quais caminhos seguir?

Aderbal Freire-Filho  – Não quis fazer nenhuma adaptação, mas montar o texto original (traduzido, naturalmente). Não posso chamar uma encenação de adaptação, pois teria que chamar então todas as montagens de adaptações. Não estaria de todo mal, essas palavras, adaptação, tradução, versão, encenação, em certo sentido se equivalem. Talvez, daí advém tantas incompreensões, tantos mal-entendidos, os puristas só aceitando a montagem imaginária deles próprios, que chamam presunçosamente de fiéis, e nem sabem que também são montagens. São duas línguas, a literária e a cênica, com gramáticas próprias e passar de uma para outra, encenar, é sempre, de alguma forma, traduzir, adaptar. Mas não no sentido de uma adaptação literária, como fazem os roteiros de cinema, por exemplo, que cortam cenas, acrescentam outras, podem mesmo inventar personagens, criar novas situações. Nesse sentido, quis dizer que não fiz adaptação alguma. Está lá a peça toda (bom, um ou outro pequeno corte e deslocamento é uma coisa natural numa montagem). Mas também está um modo de expressar a peça que é pessoal, pessoal do encenador e pessoal e do pessoal todo que criou junto e, sobretudo, dos atores, emprestando seus corpos e almas aos personagens. Ninguém sabe como foi montada pela primeira vez uma peça que tem 400 anos, e não há porque tentar aproximações. O que faço é buscar no texto original a fonte principal da montagem e expressá-la com os recursos da minha poética cênica. Nesse sentido não invento nada, não sou dos encenadores que cedem a caprichos, minha cena explode a partir do texto, se meus espetáculos não se parecem a outros, menos ainda aos espetáculos acadêmicos é porque estou na vida, mudando com ela, e não em um museu.

As adaptações de Macbeth para o cinema são antológicas, onde se destacam as versões do norte-americano Orson Welles (1948), a do japonês Akira Kurosawa (1957) e a do polonês Roman Polanski (1971). Essas fontes foram consultadas para montagem da peça? Qual a sua versão predileta?

AFF  - Queria muito ver (ou rever, não me lembro se vi, memória de velho) o filme do Kurosawa, não tive tempo. Mas vi o Orson Welles e o Polanski. Gosto dos dois, em seus estilos. Ambas as adaptações, a do Orson Welles mais teatral. Na verdade, elas não informam a nossa montagem, mas quando você vê uma versão do mesmo material com que está trabalhando.

Macbeth  já foi comparada a outra peça do próprio Shakespeare,Antônio e Cleópatra. Você concorda com essa proximidade?

AFF  - Podemos achar semelhanças e diferenças, o amor de Macbeth e Lady Macbeth não é como o de Antonio e Cleópatra Macbeth é uma peça que é um bloco, Antonio e Cleópatra é, ao contrário, multifacetada. Antonio e Cleópatra teria sido escrita logo depois de Macbeth, algum coisa ficaria nessa passagem. Supõe-se que o jovem ator que representou Lady Macbeth foi o mesmo que fez Cleópatra e, provavelmente, Volumnia, em Coriolano. Talvez seja melhor perguntar a ele.

A peça atraiu alguns dos maiores atores de seu tempo para os papéis de Macbeth e Lady Macbeth. Como está sendo a experiência de trabalhar com Renata Sorrah e Daniel Dantas?

AFF  - Já tinha trabalhado com o Daniel, no Tio Vania , é um dos meus atores prediletos, sou fascinado com a capacidade de viver e mostrar um personagem que ele tem, de uma maneira única. Com a Renata trabalho agora pela primeira vez. Já conhecia seu talento como espectador e me encantei de conhecer sua curiosidade, sua dedicação, sua imaginação, a paixão com que se dedica ao personagem. Além disso, a combinação dos dois é perfeita, um ajuste em que se somam e se completam talentos. São realmente dois dos melhores artistas brasileiros, um privilégio criar com eles um texto maior do teatro universal, grandes artistas em grandes personagens. E quero destacar também o elenco todo. É muito difícil, senão impossível, juntar atores desse nível que a produção conseguiu juntar para formar um elenco tão grande: com alguns já tinha trabalhado antes, com outros não, muitos deles já protagonizaram outras peças, um elenco raro, porque em Shakespeare todos os personagens são fundamentais e o que depende desse elenco está lá, em cena.

No processo de montagem você dedica ao texto um minucioso estudo, realizado em conjunto com os atores, que serve à criação da linguagem de cada espetáculo. Você chegou a realizar rodas de leituras com atores, que levaram Bandeira, Drummond, Leminski. Por que poesia para o processo de montagem de um espetáculo de teatro? Qual o tipo de trabalho vem sendo realizado com os atores?

AFF  - Ensaiar uma peça é compreendê-la e expor essa compreensão. Somos críticos e depois somos artistas, ou somos simultaneamente críticos e artistas. Cada espetáculo – em função do texto, dos artistas com quem trabalho, do momento em que estão minhas obsessões, etc – tem um processo próprio, mesmo que repita certos caminhos. Fiz Macbeth  depois de fazer Hamlet Moby Dick (que é um Shakespeare escrito pelo Melville). A força da poesia foi o primeiro que quis destacar, ao mesmo tempo mostrando que ela se torna viva se não a tratamos com reverência, o falso respeito que não é mais do que o pó que a encobre. Por isso, lemos muitos poetas, a maioria poetas mais próximos a nós, para estabelecer um bom diálogo com a poesia. É preciso que as palavras de Shakespeare não sejam ditas como se estivessem gravadas em bronze e ao mesmo tempo não são palavras coloquiais. Esse foi o primeiro passo, a busca desse equilíbrio, Depois, uma longa estrada. Mas com belas paisagens à esquerda e à direita.

Você é conhecido pelas adaptações de obras literárias para o teatro:A Mulher Carioca aos 22 Anos (1990), de João de Minas; O Carteiro e O Poeta (1997), de Antônio Skármeta; O Que Diz Molero (2003), de Dinis Machado; O Púcaro Búlgaro (2006), de Campos de Carvalho; eMoby Dick (2009), de Herman Melville. Por que o interesse por adaptações de obras literárias?

AFF  - Sou um leitor mais de romances do que de peças de teatro. Mas isso é só um detalhe. Gosto de palavras. E vivo desde a juventude uma paixão pela cena, um caso de amor com o teatro. Quando começaram a dizer que o teatro e a palavra eram coisas que não combinavam, achei que estavam loucos (o louco do Artaud não tem nada a ver com isso, com a maneira como o entenderam). E aí quis fazer um teatro delirantemente teatral, pura poética cena, e encharcado de palavras, muitas palavras. Só perco espaço em festivais internacionais, por que falo esse idioma desconhecido, o português.

Nos últimos anos, jovens dramaturgos tem se destacado na cena teatral, entre eles Jô Bilac, Rodrigo Nogueira, Newton Moreno, Silvia Gomes, Grace Passô, Paulo Santoro, Alessandra Colassanti e Júlia Spadaccini. Qual seu interesse pela produção contemporânea?

AFF  - Todo interesse. Os encenadores abriram o palco no século XX. Agora é a hora de os autores escreverem peças para esse palco aberto, infinito. A bola está com eles. E acompanho todos esses que você cita com interesse e admiração, já dirigi textos do Newton, do Marcelo Pedreira, com uma tradução feita pela Silvia, já vi a Alessandra Colassanti, coisas do Rodrigo, do Henrique Tavares, da Carla. O Poeira trouxe ao Rio o Sinisterra e o Marco Antonio de la Parra para um encontro fértil com muitos desses autores. Aí está o caminho. Agora inclusive quero montar meus textos, sou um homem velho, mas um autor jovem.

O ensino é uma atividade presente na sua trajetória. Você já lecionou na Casa das Artes de Laranjeiras, na Escola de Teatro Martins Pena e na Faculdade de Letras da UFRJ. O que os jovens precisam para ser tornar verdadeiros atores de teatro?

AFF  - Já passei da idade de ensinar e sobretudo de dar conselhos. Ou ao menos de dar aulas formais e de resumir em uma frase o que já vivi e já esqueci.

Em 1959, aos 18 anos, você deixou o Ceará para ser técnico em prospecção da Petrobras, no Rio. E antes de descobrir a vocação para a direção teatral, chegou a cursar direito. Em 2010, como avalia sua trajetória de diretor de teatro?

AFF  - Essa é outra entrevista, por que, como ex-técnico de prospecção de petróleo, tenho que ir até a minha camada de pré-sal.


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