ADÉLIA PRADO
A SIMPLICIDADE DE UM ESTILO 
Por Ramon Nunes Mello (Revista SaraivaConteúdo – 2010)

 

   

 

A poeta Adélia Prado tem profundo respeito pela criação, principalmente no que se refere a sua produção poética. Há dez anos sem publicar um livro de poemas, Adélia lança A duração do dia (Record, 2010), marcado por versos que transmitem desejos, frustrações, sonhos e amor.

Para a autora de 75 anos, nascida em Divinópolis, interior de Minas Gerais, a poesia e a fé são manifestações de revelação da realidade através de um processo divino, a mesma fonte da graça. “O poeta é o cavalo da poesia”, já afirmou.

A lírica de Adélia Prado, ao contrário do que se pensa, nada tem de uma pacata mulher do interior. Pelo contrário, estamos diante de uma intelectual, no sentido de que ela, ao seu modo simples e apaixonado, estuda, reflete acerca de ideias. Uma lente muito pessoal, que conquista pela simplicidade de uma bagagem de vida inteira.

Adélia Prado – (…) Tudo é ficção, viu? Tudo.

A duração do dia, seu novo livro, acaba de ser lançado pela editora Record. Por que dez anos sem publicar um livro de poemas? Como funciona sua experiência poética com a escrita?

AP – Não tem mistério nenhum e tem todo o mistério. Porque passo dez anos sem fazer poesia… Mas nesse intervalo eu fiz prosa, fiz um livro infantil. Eu podia estar num deserto criativo, né? Uma noite escura que não desse conta de nada, já me aconteceu. E também acho que é um processo natural, quer dizer, a musa está dormindo (risos). Qualquer coisa assim. Você não é uma usina permanente, nenhum autor é, em nenhuma categoria de arte. Nesses dez anos, o que eu estava fazendo? Tratando de viver o melhor possível. Então, eu tinha poemas, fragmentos de experiências… Experiências que estavam em algum fragmento de natureza poética, que eu falei: “Isso aqui é matéria de poesia.” Estava guardada. E, de repente, eu começo: “Deixa eu ver minhas coisas de poesia.” Nesse tempo, fiz alguns poemas muito novos, bem recentes, e outros antigos, que falei: “Que poema, gosto desse poema!”, sabe? Outros precisavam só de corte. Corte e costura. Foi assim, não tem esse mistério, não. Acho que isso acompanha a vida da gente. Enfim, quando comecei Bagagem, eu escrevi assim… Eu estava até a tampa, né?


Você estreou com Bagagem (Imago), em 1976, depois de enviar os originais para o poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna, que repassou para o poeta Carlos Drummond de Andrade…

AP – Pois é. Aos 40 anos fiz Bagagem. Então tinha muita coisa. Depois deBagagem veio Solte os cachorros (1979), O coração disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981). Depois o vulcão dá uma pausa. Mas fiquei feliz por ele não estar extinto.


Você encontra alguma relação entre Bagagem (1976) e A duração do dia (2010)?

AP – Absolutamente, encontro sim. Bagagem é um livro solar, feliz, alegre… A própria dor em Bagagem tem um ritmo diferente, uma percussão diferente. Esse aí (A duração do dia), nessa altura da vida eu sinto que é — do ponto de vista da fundação poética e de fazer um livro de poesia — a mesma alegria de fundação que a gente sente. É absolutamente igual. Mas tenho aí experiências que eu nem sonhava ter em Bagagem, que foram experiências marcantes e tudo. Mas são experiências de outra natureza que Bagagem. Enquanto livro e poesia é uma coisa só. Eu vou fazer um livro só a minha vida inteira. Eu quero escrever Bagagem a vida inteira, a vida inteira. Por causa do limite da gente, né? Eu só tenho essa “vozinha”, eu só tenho esse quadradinho para olhar o mundo. É com essa lente limitada, finita, que eu vou, enfim, experimentando o mundo. E, naquilo que ele tem de beleza, vira poesia. Às vezes.


Essa experimentação surge diretamente da religiosidade. Em entrevista ao Caderno de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, você declarou: “Deus quer falar e me usa, no caso sou eu o oráculo.”

AP – Ele usa você também. Eu acho que todo artista. Toda obra, o objetivo dela é atingir o momento poético. Seja escultura, teatro, cinema, música. Ela só acontece quando ela vibra poeticamente, numa revelação absolutamente original, singular e única. Nesse sentido, você ou eu, qualquer autor é instrumento de algo que o suplanta, que é maior que ele. Você é realmente uma boquinha, um oráculo, para algo que está se dizendo, se expressando, através de você. Em nosso caso, através da palavra. Se eu for cineasta, vou fazer um filme de arrasar (risos). Mas para quê? Para tocar no outro aquilo que é a experiência poética. No caso, é a experiência do religioso — respondendo o outro lado da pergunta. Por uma razão muito simples: tanto a experiência poética quanto a experiência religiosa (vamos dizer, dos místicos ou, simplesmente, do fiel, do crente) remete a você a um centro de significação e sentido. Isso é religioso. A significação e o sentido são de natureza religiosa. Porque você toca em algo maior que você, melhor que você, mais bonito que você. Eterno, não é finito, que te provoca aquela sensação de sentido: “Minha vida tem um sentido! Por alguma razão estou aqui. Por alguma razão, o absurdo da vida pode ser explicado.” Quer dizer, é uma fé religiosa, mas é uma fé poética. Porque ela vem através da revelação do inusitado, da beleza, que é sempre jovem, maravilhosa. Eu não dou conta de associar isso a outra coisa que não seja o Divino. A gente fica assim mesmo diante disso… Vontade de escrever poesia um dia sim, outro também. Mas não tem jeito, é quando Ele quer, quando Ela quer.


Você saberia dizer o que é Deus?

AP – Não, não sei, não! Nossa Senhora! Nó! Nó! O que é D… Não… Você tende a ser atraído para uma coisa inominável, inefável. Mas é isso que dá sentido, esse empuxo na alma de todo ser humano. A alma quer adorar, ela quer prostrar-se, ela quer reverenciar algo maior do que nós. Tem graça eu me curvar diante de alguém do mesmo tamanho meu? Que tem o mesmo medo? (risos) O mesmo limite?! Eu preciso de algo maior do que eu, é isso que me dá segurança, que me consola, que me conforta. É por isso que falo: “Dá para esperar, dá para aguentar, né?” Acho que arte toca nisso aí. A despeito dos criadores que se dizem ateus. O Drummond tem um poema…


Drummond se dizia ateu.

AP – O Drummond nem era propriamente ateu. Ele achava demais. Para um mineiro, “ser ateu” era demais. Ele falava agnóstico. Tem um poema dele sobre uma postada da Igreja de São Francisco, não sei se em Ouro Preto ou São João Del Rei… Mas é maravilhoso. Ele quase que pede desculpa de estar querendo crer. Sabe? É muito bonito! É despeito do poeta que aquilo que é transcendente se manifesta. Não adianta, não adianta, eu não mando nisso. A vingança da poesia é essa: ela ser maior que a gente.


Neste novo livro, no poema “Tão bom aqui”, tem um verso assim: “Só quero saber do microcosmo.”

AP – (risos) Estou fazendo aula de física, agora. Física Quântica (risos).

Como é essa relação consciente com o microcosmo?

AP – É que, afinal, você percebe que tudo é basicamente igual. O que interessa mesmo é a tua vidinha. Porque você não tem mais que ela (risos). Você não tem mais do que as 24 horas do dia. Ninguém tem mais que isso. E é nessa experiência pequeninha, miserável, limitada, carente, que eu vou dar uma resposta ao absurdo da minha existência e do mundo. É esse microcosmo mesmo: a filinha do supermercado, a barra da calça… Não por isso que você é poeta do cotidiano ou poeta da metafísica. A metafísica está aí nessas coisas. Aquilo do (José) Ortega y Gasset (1883-1955, filósofo espanhol): “Admirar-se do que é natural é dom do filósofo.” É o dom do poeta! Todo mundo sai correndo para ver um fenômeno da natureza, sei lá o quê. Mas preocupar-se com aquilo que é absolutamente natural é a grande riqueza, aquilo que é o dado imediato da vida. E o dado imediato são nossas carências e obrigações cotidianas. Não tem nada tão grande porque tudo você pode amansar. Você nunca viu o palácio da Rainha da Inglaterra, fica lá um dia ou dois e amansa o lugar. “Só isso? Eu quero mais, eu quero mais.” Você está sempre querendo além do que você tem. E esse além é de natureza transcendente, é a fome da alma, a fome do espírito. É uma coisa impressionante porque você, limitado e finito, fala em conceitos loucos para nós que somos tão pequenos: o infinito. Infinitamente pequeno (risos). “Infinitamente pequeno” está me perturbando ultimamente (risos). Ele é perturbador mesmo, perturbador.

Você escreveu dois livros Manuscritos de Felipa (1999), de prosa, e Oráculos de maio (1999), de poesia, no mesmo período. O processo de escrita difere entre os gêneros?

AP – Ah, demais, demais. A poesia já vem com aquela laçada própria. Você sabe que aquela coisa que se quer dizer tem o ritmo próprio da poesia. A prosa não, ela exige o discurso. Agora, com uma diferença, se você pretende ser autor de verdade, se a sua prosa não tiver poesia, pode jogar ela fora também. A pretensão da prosa é atingir a mesma coisa que a poesia, mas só que ela, coitada, é mais pobre. Toda hora os teólogos falam isso. Os paradoxos da física e da teologia — lá vem a física de novo! — que, realmente dizem, são flashes. O resto a gente fica pelejando com sintaxe, aquela coisa toda para narrar. Se você ler uma obra-prima do Guimarães Rosa… Quantas páginas tem Grande sertão: veredas (1956)? Mas no final você fica só com aquilo. Só com aquela “suspiração” que ele provoca na gente (risos).

A Bíblia é poesia?

AP – Pura. Ela é uma metáfora. É um discurso religioso vazado em metáforas. Só por isso ela tem a duração que tem. Só por isso ela dura até hoje. Todos os grandes livros, fundadores das grandes religiões, são vazados em poesia. Salmos, Cânticos dos Cânticos. É poesia pura. O subtexto de um relato bíblico, por exemplo, é uma revelação Divina: “Deus nos ama. Deus morre por nós.” É isso tudo que está lá. Mas “vazado” como? Em linguagem poética. Porque fora dessa linguagem o religioso não se apresenta, ele é poético por natureza. Você pode fazer um poema sobre uma missa das 10 ou daquela pedra (aponta para a janela) saindo do mar, ambos religiosos se forem poéticos. E ambos poéticos se forem de fato religiosos. São fontes da mesma água, do mesmo rio. Separar isso é duma infantilidade, é gente muito verde que faz isso. Ou que recusa, por um orgulho profundo, o religioso. Porque o religioso, assim como arte, supõe do fiel, do crente, uma adesão. Você não aceita a fé, você adere. A arte é a mesma coisa. A natureza do religioso e da experiência poética é absolutamente igual.

Você tem um versículo preferido?

AP – É um versículo de um texto evangélico. Prefiro todos porque são maravilhosos demais. Mas tem um que, ultimamente tem me acompanhado, que é uma fala de Cristo, não sei em qual dos Evangelhos: “Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino” (Lucas 12, 32-48). Olha que maravilha! (risos) Você fica em pé de novo. Você fica em pé nas pedras. E diz: “Eu vou dar conta. Eu vou dar conta!”

“Não quero morrer nunca, porque temo perder o que desta janela se desdobra em tesouros” está escrito no poema “Viação São Cristóvão”, do livro Oráculos de Maio.

AP – Não quero morrer nunca. De vez em quando ainda acredito que não vou morrer (risos). Lá no fundo, lá no substrato do microcosmo da alma (risos) eu acredito que não. Porque acho que tem um sentido também, a aspiração humana de viver. O que quero é viver. Ninguém quer morrer. Isso aliado a uma fé que aceito, abraço e que me consola profundamente, que é a vida eterna. Acreditar na vida eterna. Porque se estou viva agora é evidente que posso viver o resto da vida. Isso é absolutamente consolador. E poético até não poder mais.

SR. SHAKESPEARE

Com ‘Macbeth‘, Aderbal Freire-Filho monta pela terceira vez uma obra do autor inglês 

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

 

O encenador Aderbal Freire-Filho faz o terceiro mergulho na obra William Shakespeare, assinando a direção e tradução de Macbeth , protagonizado pelos atores Daniel Dantas e Renata Sorrah. A segunda experiência foi com Hamlet, no ano passado, tendo Wagner Moura no papel principal. E a primeira foi As you like it, em 1985. Uma trajetória que rendeu ao diretor intimidade com as metáforas de autor inglês.

Desde a juventude, quando trocou o Ceará pelo Rio de Janeiro, Aderbal vive de teatro, com especial gosto pela palavra. Talvez seja essa a explicação pelo prazer que sinta de levar ao palco os mestres da literatura dramática. Shakespeare é um dos maiores desafios do encenador.

A encenação de Macbeth , que estreou dia 15 de janeiro no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, é um projeto do ator Daniel Dantas, que convidou Aderbal para a direção, com quem havia trabalhado em Tio Vania, de Anton Tchekhov. No processo de montagem deste espetáculo, o diretor convocou o elenco para leituras de poetas brasileiros, com a intenção de se aproximar da poesia do texto shakespereano, mantendo a reverência e coloquialidade.

Em entrevista ao Cultura.rj , Aderbal Freire-Filho fala justamente sobre esse equilíbrio.

Macbeth  foi adaptada para o cinema, televisão, ópera, quadrinhos e muitas outras mídias. Como é encenar um texto tão consultado? Quais caminhos seguir?

Aderbal Freire-Filho  – Não quis fazer nenhuma adaptação, mas montar o texto original (traduzido, naturalmente). Não posso chamar uma encenação de adaptação, pois teria que chamar então todas as montagens de adaptações. Não estaria de todo mal, essas palavras, adaptação, tradução, versão, encenação, em certo sentido se equivalem. Talvez, daí advém tantas incompreensões, tantos mal-entendidos, os puristas só aceitando a montagem imaginária deles próprios, que chamam presunçosamente de fiéis, e nem sabem que também são montagens. São duas línguas, a literária e a cênica, com gramáticas próprias e passar de uma para outra, encenar, é sempre, de alguma forma, traduzir, adaptar. Mas não no sentido de uma adaptação literária, como fazem os roteiros de cinema, por exemplo, que cortam cenas, acrescentam outras, podem mesmo inventar personagens, criar novas situações. Nesse sentido, quis dizer que não fiz adaptação alguma. Está lá a peça toda (bom, um ou outro pequeno corte e deslocamento é uma coisa natural numa montagem). Mas também está um modo de expressar a peça que é pessoal, pessoal do encenador e pessoal e do pessoal todo que criou junto e, sobretudo, dos atores, emprestando seus corpos e almas aos personagens. Ninguém sabe como foi montada pela primeira vez uma peça que tem 400 anos, e não há porque tentar aproximações. O que faço é buscar no texto original a fonte principal da montagem e expressá-la com os recursos da minha poética cênica. Nesse sentido não invento nada, não sou dos encenadores que cedem a caprichos, minha cena explode a partir do texto, se meus espetáculos não se parecem a outros, menos ainda aos espetáculos acadêmicos é porque estou na vida, mudando com ela, e não em um museu.

As adaptações de Macbeth para o cinema são antológicas, onde se destacam as versões do norte-americano Orson Welles (1948), a do japonês Akira Kurosawa (1957) e a do polonês Roman Polanski (1971). Essas fontes foram consultadas para montagem da peça? Qual a sua versão predileta?

AFF  - Queria muito ver (ou rever, não me lembro se vi, memória de velho) o filme do Kurosawa, não tive tempo. Mas vi o Orson Welles e o Polanski. Gosto dos dois, em seus estilos. Ambas as adaptações, a do Orson Welles mais teatral. Na verdade, elas não informam a nossa montagem, mas quando você vê uma versão do mesmo material com que está trabalhando.

Macbeth  já foi comparada a outra peça do próprio Shakespeare,Antônio e Cleópatra. Você concorda com essa proximidade?

AFF  - Podemos achar semelhanças e diferenças, o amor de Macbeth e Lady Macbeth não é como o de Antonio e Cleópatra Macbeth é uma peça que é um bloco, Antonio e Cleópatra é, ao contrário, multifacetada. Antonio e Cleópatra teria sido escrita logo depois de Macbeth, algum coisa ficaria nessa passagem. Supõe-se que o jovem ator que representou Lady Macbeth foi o mesmo que fez Cleópatra e, provavelmente, Volumnia, em Coriolano. Talvez seja melhor perguntar a ele.

A peça atraiu alguns dos maiores atores de seu tempo para os papéis de Macbeth e Lady Macbeth. Como está sendo a experiência de trabalhar com Renata Sorrah e Daniel Dantas?

AFF  - Já tinha trabalhado com o Daniel, no Tio Vania , é um dos meus atores prediletos, sou fascinado com a capacidade de viver e mostrar um personagem que ele tem, de uma maneira única. Com a Renata trabalho agora pela primeira vez. Já conhecia seu talento como espectador e me encantei de conhecer sua curiosidade, sua dedicação, sua imaginação, a paixão com que se dedica ao personagem. Além disso, a combinação dos dois é perfeita, um ajuste em que se somam e se completam talentos. São realmente dois dos melhores artistas brasileiros, um privilégio criar com eles um texto maior do teatro universal, grandes artistas em grandes personagens. E quero destacar também o elenco todo. É muito difícil, senão impossível, juntar atores desse nível que a produção conseguiu juntar para formar um elenco tão grande: com alguns já tinha trabalhado antes, com outros não, muitos deles já protagonizaram outras peças, um elenco raro, porque em Shakespeare todos os personagens são fundamentais e o que depende desse elenco está lá, em cena.

No processo de montagem você dedica ao texto um minucioso estudo, realizado em conjunto com os atores, que serve à criação da linguagem de cada espetáculo. Você chegou a realizar rodas de leituras com atores, que levaram Bandeira, Drummond, Leminski. Por que poesia para o processo de montagem de um espetáculo de teatro? Qual o tipo de trabalho vem sendo realizado com os atores?

AFF  - Ensaiar uma peça é compreendê-la e expor essa compreensão. Somos críticos e depois somos artistas, ou somos simultaneamente críticos e artistas. Cada espetáculo – em função do texto, dos artistas com quem trabalho, do momento em que estão minhas obsessões, etc – tem um processo próprio, mesmo que repita certos caminhos. Fiz Macbeth  depois de fazer Hamlet Moby Dick (que é um Shakespeare escrito pelo Melville). A força da poesia foi o primeiro que quis destacar, ao mesmo tempo mostrando que ela se torna viva se não a tratamos com reverência, o falso respeito que não é mais do que o pó que a encobre. Por isso, lemos muitos poetas, a maioria poetas mais próximos a nós, para estabelecer um bom diálogo com a poesia. É preciso que as palavras de Shakespeare não sejam ditas como se estivessem gravadas em bronze e ao mesmo tempo não são palavras coloquiais. Esse foi o primeiro passo, a busca desse equilíbrio, Depois, uma longa estrada. Mas com belas paisagens à esquerda e à direita.

Você é conhecido pelas adaptações de obras literárias para o teatro:A Mulher Carioca aos 22 Anos (1990), de João de Minas; O Carteiro e O Poeta (1997), de Antônio Skármeta; O Que Diz Molero (2003), de Dinis Machado; O Púcaro Búlgaro (2006), de Campos de Carvalho; eMoby Dick (2009), de Herman Melville. Por que o interesse por adaptações de obras literárias?

AFF  - Sou um leitor mais de romances do que de peças de teatro. Mas isso é só um detalhe. Gosto de palavras. E vivo desde a juventude uma paixão pela cena, um caso de amor com o teatro. Quando começaram a dizer que o teatro e a palavra eram coisas que não combinavam, achei que estavam loucos (o louco do Artaud não tem nada a ver com isso, com a maneira como o entenderam). E aí quis fazer um teatro delirantemente teatral, pura poética cena, e encharcado de palavras, muitas palavras. Só perco espaço em festivais internacionais, por que falo esse idioma desconhecido, o português.

Nos últimos anos, jovens dramaturgos tem se destacado na cena teatral, entre eles Jô Bilac, Rodrigo Nogueira, Newton Moreno, Silvia Gomes, Grace Passô, Paulo Santoro, Alessandra Colassanti e Júlia Spadaccini. Qual seu interesse pela produção contemporânea?

AFF  - Todo interesse. Os encenadores abriram o palco no século XX. Agora é a hora de os autores escreverem peças para esse palco aberto, infinito. A bola está com eles. E acompanho todos esses que você cita com interesse e admiração, já dirigi textos do Newton, do Marcelo Pedreira, com uma tradução feita pela Silvia, já vi a Alessandra Colassanti, coisas do Rodrigo, do Henrique Tavares, da Carla. O Poeira trouxe ao Rio o Sinisterra e o Marco Antonio de la Parra para um encontro fértil com muitos desses autores. Aí está o caminho. Agora inclusive quero montar meus textos, sou um homem velho, mas um autor jovem.

O ensino é uma atividade presente na sua trajetória. Você já lecionou na Casa das Artes de Laranjeiras, na Escola de Teatro Martins Pena e na Faculdade de Letras da UFRJ. O que os jovens precisam para ser tornar verdadeiros atores de teatro?

AFF  - Já passei da idade de ensinar e sobretudo de dar conselhos. Ou ao menos de dar aulas formais e de resumir em uma frase o que já vivi e já esqueci.

Em 1959, aos 18 anos, você deixou o Ceará para ser técnico em prospecção da Petrobras, no Rio. E antes de descobrir a vocação para a direção teatral, chegou a cursar direito. Em 2010, como avalia sua trajetória de diretor de teatro?

AFF  - Essa é outra entrevista, por que, como ex-técnico de prospecção de petróleo, tenho que ir até a minha camada de pré-sal.

ADRIANA LISBOA

Encantadora de Cotidianos

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

 

 

 

 

Adriana Lisboa é a romancista contemporânea que mais admiro. Digo isso não só por gostar da sua escrita tomada por poesia, mas também por admirar a relação consciente que estabeleceu com o seu ofício.

“Acredito, em primeiro lugar, que escrever é quase sempre consequência da leitura. Um escritor é, antes de mais nada, um leitor que se apaixona tanto pela leitura que também quer fazer… Pelo menos comigo foi assim. Mas confesso que existe um quê terapêutico em escrever; quando estou numa situação ruim – mesmo nos piores momentos, nas piores experiências – sempre penso que posso fazer dela um conto ou um romance. Acho que é um modo de viver, de viver o mundo, de tentar “reciclá-lo” dentro da cabeça”, explica Adriana.

Nascida no Rio de Janeiro, Adriana já foi traduzida na Suécia, em breve estará nas livrarias da Itália, França, México e, dependendo das negociações, EUA e Japão – país onde se passa o seu último romance Rakushisha . Sua prosa, densa e poética, é revelação das coisas mais simples do nosso cotidiano.

“Um escritor nunca está pronto. No dia em que estiver pronto, ele acabou. Porque nesse dia terão acabado suas perguntas. E, para terminar, acho que a literatura se faz de curiosidade, de perguntas, de dúvidas”.

Conheci seu trabalho através do livro Caligrafias  (2004), mas depois fui buscar os outros livros: Fios da Memória (1999); Sinfonia em Branco (2001), ganhador do Prêmio José Saramago; Um Beijo de Colombina (2003) e o infantil Língua de Trapos (2005) – todos pela Editora Rocco.

“O meu predileto é o Rakushisha . Mas, entre esses que você listou, acho que escolheria o Colombina, embora a maioria das pessoas – e dos editores fora do Brasil – prefira o Sinfonia. Porque este é um livro que transita por questões da história recente do país, como os anos da ditadura – embora isso não seja o núcleo do enredo –, assunto sobre o qual, fora do Brasil, creio que as pessoas ainda estão querendo ler; além de lidar com incesto, tentativas de suicídio… Enfim, de ser o meu livro mais ‘dramático’ (risos)”, confidencia.

A entrevista aconteceu por Msn, pois a Adriana está morando em Denver, nos EUA, onde trabalha como pesquisadora na Universidade do Novo México.

Rio de Janeiro, Teresópolis, Brasília, França, Japão e EUA. Em qual desses lugares você mais gostou de morar? E que experiências você costuma tirar dessas vivências?

Adriana Lisboa  – A cidade onde passei a maior parte da vida foi o Rio, portanto acho que é a que está mais presente em mim. Mas acho muito bacana a situação do estrangeiro. Tenho gostado das experiências internacionais. Moro num lugar que tem uma natureza impressionante. Mas acho que, de todos esses, se tivesse que escolher um definitivo, seria Paris. O filósofo Vilém Flusser diz uma coisa muito bacana sobre a situação do estrangeiro: “Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.”

Tenho tentado sentir isso na minha vida e na minha literatura.

Você teve a oportunidade de ir para França pelo projeto literário Amores Expressos. Como foi a experiência de ir para um país com o objetivo de escrever um livro?

AL  – Bem, maravilhosa, um privilégio. Estou adorando escrever o livro depois dessa viagem; sem dúvida “procurar” uma história numa cidade nos faz ter uma experiência muito particular dela. Acho que faltam projetos dessa natureza no Brasil, que divulguem o país fora de suas fronteiras. O projeto foi elogiadíssimo no exterior por várias pessoas que encontrei; escritores, editores, jornalistas, professores e até o Sérgio Paulo Rouanet – falamos sobre o assunto na embaixada do Brasil em Londres, ele considerava toda a polêmica criada em torno do projeto uma bobagem.

Você foi ao Cemitério de Montparnasse, na França, para visitar o túmulo de Sartre e Simone, Ionesco, Marguerite Duras, Cortázar. Como foi isso?

AL  – Uma experiência estranha… Fazia um sol absurdo quando cheguei ao cemitério, mas o tempo começou a fechar no segundo em que encontrei o túmulo da Marguerite Duras, em seguida, um temporal. Daí, fui ver Sartre e Simone enquanto o céu desabava, depois corri para casa, e ao chegar lá o céu estava azul de novo.

O livro dessa viagem vai ser sobre o quê? Já tem nome?

AL  – Tem. Chama-se Como escrever uma história de amor em Paris . É sobre um fotógrafo que vai a Paris com a incumbência de fotografar um velho e excêntrico escritor francês. De modo geral, o amor aparece no livro de várias formas – amor de um pai pelo filho, amor não-correspondido, amor de um casal casado há mais de meio século, o amor da amizade e o amor, claro, pela cidade…

Você acaba de lançar Rakushisha. O que tanto te atraía na cultura oriental?

AL  – Coloquei o pé na cultura oriental através do zen-budismo, que pratiquei durante alguns anos – fui a mosteiros e retiros, no Brasil e na Califórnia… Li muito sobre a filosofia e acabei caindo de quatro pela poesia de inspiração zen, o que me levou ao haikai clássico japonês. Ao me apaixonar pelos diários de viagem de Bashô, resolvi escrever um romance sobre isso, daí vieram meus estudos de japonês durante alguns anos – não serviram para nada – e meu pedido de bolsa à Fundação Japão para ir a Kyoto. Tenho admiração enorme pelo oriente, mas, como as ideias vão migrando na minha cabeça, restou o interesse pela viagem em si, que transporto agora para o deserto do sudoeste dos Estados Unidos.

Sinfonia em Branco Os Fios da MemóriaCaligrafiasUm Beijo de ColombinaLíngua de Trapos. Qual é o seu predileto?

AL  – O meu predileto é o Rakushisha . Mas, entre esses que você listou, acho que escolheria o Colombina, embora a maioria das pessoas – e dos editores fora do Brasil-prefira o Sinfonia. Porque este é um livro que transita por questões da história recente do país, como os anos da ditadura – embora isso não seja o núcleo do enredo –, assunto sobre o qual, fora do Brasil, creio que as pessoas ainda estão querendo ler; além de lidar com incesto, tentativas de suicídio… Enfim, de ser o meu livro mais “dramático” (risos). Acho que, de lá para cá, vim enxugando os enredos. Às vezes as pessoas querem mesmo é história comprida, mas Rakushishaé o meu preferido por isso, pelo enredo rarefeito.

Língua de Trapos  é o seu livro infantil. Você tem vontade de se voltar mais para esse público?

AL  – Tenho uma novela juvenil saindo neste mês pela Publifolha , e um novo infantil saindo em 2008 pela Rocco. Adoro escrever para esse público. Não pretendo parar.

Romance, contos, literatura infantil; escrevendo, qual gênero te proporciona mais prazer?

AL  – Cada ideia surge com um formato distinto, mas acho que do que mais gosto mesmo são romances. Com os textos longos o convívio é maior, e isso me agrada.

Como funciona o seu processo criativo?

AL  – Não tenho. Escrevo como e onde dá. Com filhos – tenho um, mas meu namorado tem uma coleção –, você aprende a aproveitar todo o tempo livre… Clarice Lispector dizia que, quando se é mãe, acabam as portas fechadas, e isso é verdade. Quer dizer, eu até fecho a porta, mas eles batem! De todo modo, sempre fui de escrever de dia.

Por que você escreve?

AL  – Escrevo porque é sólido; se fosse líquido, eu bebia… (Risos.) Acredito, em primeiro lugar, que escrever é quase sempre consequência da leitura. Um escritor é, antes de mais nada, um leitor que se apaixona tanto pela leitura que também quer fazer… Pelo menos comigo foi assim. Mas confesso que existe um quê terapêutico em escrever; quando estou numa situação ruim – mesmo nos piores momentos, nas piores experiências – sempre penso que posso fazer dela um conto ou um romance. Acho que é um modo de viver, de viver o mundo, de tentar “reciclá-lo” dentro da cabeça. Claro que isso poderia ser feito de muitas formas, mas a palavra sempre foi a minha matéria-prima preferida.

Quando você decidiu se dedicar à literatura?

AL  – Desde sempre – escrevo histórias e poemas desde os nove anos de idade. A escrita e a leitura eram minhas atividades preferidas desde que tive acesso a elas. Mas, na adolescência, comecei a estudar música e acabei indo fazer faculdade nessa área. Assim que me formei, vi que não tinha, definitivamente, nascido para aquilo, que não tinha a mesma paixão por tocar meu instrumento do que por escrever. Então me propus escrever um romance inteiro e tentar publicá-lo; foi quando surgiu Os Fios da Memória , que a Rocco decidiu publicar.

Como foi esse processo de procurar uma editora?

AL  – Mandei os originais para quatro editoras. Não conhecia ninguém no meio literário. Uma das editoras não me respondeu até hoje. (Risos.) Outras duas recusaram, e a Rocco resolveu bancar. Mas essas recusas são curiosas, e hoje me entendo muito bem com todas elas… As duas que recusaram os originais de Os Fios da Memória foram a Nova Fronteira, para a qual estou fazendo traduções e que recentemente me convidou a um projeto que não pude aceitar, e a Cia das Letras, que lançará o romance do Amores Expressos. Então, está tudo ótimo.

Você esperava tanta receptividade ao seu trabalho?

AL  – No começo, achei que publicar o meu primeiro livro já era a glória, o final da carreira, sabe? Depois me dei conta de que mal podia ser considerado o começo. Tenho muita sorte de ter encontrado uma editora que apostou em mim, na minha carreira, e que foi caminhando junto comigo, acompanhando meus passos. Ainda não sei muito bem qual a receptividade do meu trabalho, te confesso que não consigo olhar de fora e ter a dimensão disso. Para mim ainda sou aquela autora de dez anos atrás, cada livro é um novo desafio. Embora eu tenha segurança diante do que escrevo, nunca sei se da noite para o dia vou deixar de ter.

Sua família influenciou a escolha pela literatura?

AL  – Minha família é absolutamente maravilhosa; sempre me apoiou em tudo o que eu quisesse fazer – fosse literatura, balé ou sei lá o quê. E sempre bancaram isso, nunca me negaram dinheiro para cursos de música ou comprar livros. Não há escritores nela, ainda que haja algumas pessoas ligadas a arte – principalmente música, e um pouco de artes plásticas –, com literatura acho que sou a primeira.

O que seu filho acha da mãe dele ser escritora?

AL  – Senti grande emoção com o fato de o Língua de trapos  ter sido o primeiro livro que ele leu sozinho… Mas acho que meu filho considera essa atividade como outra qualquer, afinal ele já nasceu me vendo escrever e publicar. Hoje em dia, ele está querendo ser colaborador e ganhar por isso – juro! – – com pesquisas e afins. A filha do meu namorado, Giulia, de 13 anos, me ajudou com umas pesquisas para essa minha novela juvenil que a Publifolha lança agora, e eu dei 10% do meu adiantamento; agora todo mundo quer!

Você já foi casada com um escritor. De que maneira isso influenciava no seu trabalho?

AL  – Bem, para mim foi um período muito bacana e muito importante; nós conversávamos muito sobre literatura. Temos estilos diferentes, mas até hoje, de tempos em tempos, trocamos ideias (e originais, em busca de opinião). O Flávio [Carneiro] é uma pessoa cuja visão sobre literatura eu respeito muito.

Você é graduada em música pela UNIRIO e é flautista. Como se estabelece para você a relação entre a música e a literatura?

AL  – Faz anos que não toco, mas a música faz parte da minha vida. Creio que a sonoridade do meu texto é muito importante. Às vezes escolho palavras pelo som que produzem na frase. Escrevo com os ouvidos também… O que acho que é válido para quem escreve poemas – e, embora hoje não escreva mais poesia, leio muita.

No seu livro Beijo de Colombina, você faz uma grande homenagem ao Manuel Bandeira. E, nos outros livros, é perceptível a forte a presença da poesia na narrativa. Como você lida com a poesia? Você tem vontade de lançar um livro só com seus poemas? Quais são os poetas que admira?

AL  – Tantos! Tenho lido atualmente o Paul Celan em traduções esmeradas da Raquel Abi-Sâmara, mas entre os brasileiros de hoje posso citar, de cara, Paulo Henriques Britto, Claudia Roquette-Pinto, Eucanaã Ferraz, Heitor Ferraz Mello, Celina Portocarrero, Dora Ferreira da Silva, Carlito Azevedo… (são muitos!) Acho que leio mais o pessoal da poesia do que da prosa, no Brasil atual. Nossos poetas são fantásticos, um time de primeira linha. Mas não escrevo poesia – ou, antes, só escrevo poesia em prosa. Abandonei o verso porque… Não sei por quê.

O que você costuma ler de prosa? Você lê os seus contemporâneos?

AL  – Tento, mas não tenho muito critério; não leio por obrigação, mas sim por curiosidade. Este ano eu estava lendo dois livros ainda inéditos na minha lista,Rayuela  do Cortázar e On the Road do Kerouac. Li também o novo livro do Bernardo Carvalho porque é sobre o Japão. E tenho agora lido algumas coisas relacionadas ao deserto, porque é o tema que está me interessando – aí rola de tudo, de Saint-Exupéry a Edward Abbey.

Quais são suas influências?

AL  – Honestamente, não sei. Sempre digo que acho muito pretensioso elencar influências “vip”. Eu poderia dizer que admiro Cortázar, Guimarães Rosa, Machado, Bandeira, João Cabral… Mas será que eles são influências? Na verdade acho que tudo nos transpassa de algum modo e fica em nós, de um jeito ou de outro – tudo aquilo que admiramos, tudo aquilo que nos modifica de alguma maneira. Comigo, podem ser os Beatles, Keith Jarrett, Bashô, Bandeira, João Gilberto, Henry Moore… (escrevi um conto sobre as esculturas dele).

Você ganhou o prêmio José Saramago. O que muda quando um escritor ganha um prêmio?

AL  – Esse prêmio, especificamente, mudou muita coisa. Comecei a ser publicada fora do Brasil, estive na FLIP, e isso alavancou muita coisa dentro e fora do Brasil. A coisa toda funciona meio como efeito dominó. E os prêmios, além de ajudarem a pagar as contas – o que não faz mal a ninguém –, trazem visibilidade. Não se trata de ego, de jeito nenhum, mas, se escrevemos, é para leitores, e estes precisam saber que existimos!

Você é Doutora em Literatura Comparada, mestre em Literatura Brasileira e graduada em Música. Você acredita que o meio acadêmico pode bloquear o processo criativo?

AL  – Bloquear não. Ele pode se intrometer no texto, mas, como não sou nem nunca fui professora, estou um pouco mais protegida. Acho que as discussões que tive na universidade foram muito produtivas e tiveram consequências muito positivas no que escrevo.

Você acredita na existência de uma “literatura feminina”?

AL  – NÃO! Sou totalmente avessa a essa categoria. Não vejo sentido nela. Os argumentos são milhares… Acredito, isso sim, no masculino e no feminino como arquétipos que podem se manifestar aqui e ali, em textos de homens e mulheres indiscriminadamente.

Você tem um blog chamado Caquis Caídos. Como você vê a influência da Internet na literatura? Existe “literatura de Internet”?

AL  – Eu nunca tinha mantido um blog, nunca tinha me interessado, até o Amores Expressos, que colocou isso como uma exigência. ADOREI e depois criei o meu. Mas não se confunde, para mim, com escrever… É mais um arquivo para compartilhar coisas do dia-a-dia, principalmente porque estou longe de muita gente que amo, meus pais e irmãos no Brasil, amigos em Paris e Tóquio e Lisboa e Teresópolis. E o blog é uma forma de compartilhar minha vida um pouco mais. Para mim, pessoalmente, literatura e internet continuam não se misturando.

O que você diria para quem quer ser escritor?

AL  – O que costumo dizer é que é preciso coragem para ouvir sua própria voz e não cair em maneirismos. E também que é preciso humildade de saber que sempre se está aprendendo, descobrindo ao longo dos dias e das décadas, sempre. Um escritor nunca está pronto. No dia em que estiver pronto, ele acabou. Porque nesse dia terão acabado suas perguntas. E, para terminar, acho que a literatura se faz de curiosidade, de perguntas, de dúvidas.

ADRIANA LISBOA

SIMPLICIDADE E DISCIPLINA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009 ]

 

 

 

 

“Pensar em ser escritora era como pensar em ser astronauta, uma coisa assim, um pouco fora da realidade. Eu não sabia que era uma profissão viável, possível. Fui fazer uma outra coisa também não muito viável, que é trabalhar com música. Eu acabei fazendo faculdade de música, me graduei em flauta.” Assim pensava Adriana Lisboa antes de se dedicar integralmente ao ofício da escrita.

Hoje escritora, Adriana Lisboa acaba de lançar o segundo livro infantil: A sereia e o caçador de borboletas  (Rocco) — o primeiro livro chama-se Língua de trapos(2005). A experiência de 10 anos de carreira soma títulos conhecidos, como Fios da memória (1999), Sinfonia em branco (2001), ganhador do Prêmio José Saramago, Um beijo de colombina (2003), Caligrafias (2004), O coração às vezes pára de bater (2005) e Rakushisha (2006).

Adriana ainda prepara a publicação do novo romance, Como escrever uma história de amor em Paris , escrito na França para o projeto Amores Expressos. No entanto, o livro sairá pela editora Rocco, sem o selo da coleção. A romancista brasileira, atualmente radicada nos EUA, já morou no Rio de Janeiro, Petrópolis, Brasília, França e Japão. Tantas mudanças ensinaram a lidar com a vida de uma forma mais tranquila, encarando melhor as perdas (e os ganhos).

A escritora tem livros publicados na Itália, França, Portugal, Suécia, e é uma das poucas brasileiras traduzidas nos EUA. Qual a sensação de ser publicada em outros países? “Sem querer ser demagógica nem nada, acho legal saber que têm países se interessando pela literatura brasileira, em primeiro lugar. E para mim, é óbvio, tem uma satisfação em ver os livros por aí a fora.”

A relação com a escrita é construída diariamente, com disciplina, onde o que importa é o trabalho, as histórias, os livros: “Eu procuro, já percebi que um pouco demais, quebrar essa visão mitificada do escritor. Acho que aquilo que a gente faz… O que fazemos é um trabalho importante no mundo como qualquer outro. Por acaso a gente escreve. Poderia estar aí sendo mergulhadora, astronauta, musicista, ou, seja lá o que for. São trabalhos viáveis, possíveis, eu sei disso. Para mim é uma coisa simples, ser escritora porque eu gosto em primeiro lugar. É um cotidiano muito simples.”

Você está com 10 anos de carreira e tem quatro romances publicados, um livro de contos, dois livros infantis — o segundo, A sereia e o caçador de borboletas (Rocco), acaba de sair pela editora Rocco. Há diferença ao escrever em diferentes gêneros?

Adriana Lisboa  – Não vejo muita distinção entre gêneros, não. Nem em termos de faixa etária, escrever para adulto ou para criança, quanto ao formato: crônica, conto, romance. É claro que cada um tem sua linguagem específica, obviamente você não pode escrever para criança do mesmo modo que escreveria para um adulto. Mas o que a gente não pode perder de vista que é tudo literatura. E que existe um certo compromisso com a qualidade do ficcional, com seu envolvimento com o ficcional, seja qual for o formato, seja qual for a faixa etária para a qual você está querendo se dirigir. Isso é algo que, para mim, cimenta essas coisas todas juntas. E me dá uma certa desenvoltura, pelo menos no meu desejo – o resultado é uma outra coisa –, no meu impulso de transitar pelos formatos diferentes.

Você é formada em música e literatura. Como foi essa transição para as letras?

AL  – Eu nunca fui para a literatura porque nunca saí dela, na verdade (risos). Eu tenho uma ligação muito antiga com a literatura.

Você começou a escrever aos nove anos…

AL  – Muito nova. Quando eu aprendi a escrever, eu comecei a escrever. Tive um espaço na escola, de professores incentivando que a gente lesse poesia, escrevesse poesia, faziam concursos. Então sempre foi uma coisa que sempre curti fazer e fazia informalmente.

Existia o desejo de ser escritora?

AL  – Existia. Mas era como se eu não levasse aquilo a sério. Pensar em ser escritora era como pensar em ser astronauta, uma coisa assim, um pouco fora da realidade. Eu não sabia que era uma profissão viável, possível. Fui fazer uma outra coisa também não muito viável, que é trabalhar com música. Eu acabei fazendo faculdade de música, me graduei em flauta. Trabalhei como flautista, como professora de música, durante um tempo, mas a música tem muito de sacerdócio, tem que ter uma dedicação ao instrumento.

E a literatura, não?

AL  – Mas a música, ainda mais quando você opta por se dedicar a um instrumento, se você não tiver uma relação diária — quase como de atleta, atleta treinando — com a manutenção do seu domínio, daquele instrumento, a qualidade decai muito. Então chegou um momento que eu tinha que dedicar muito tempo da minha vida para a música e sobrava pouco tempo para fazer aquilo de que eu realmente gostava: escrever nas horas vagas. Eu tinha muito poucas horas vagas, a verdade é essa. Eu decidi tentar escrever um primeiro romance. Primeiro, se dava conta de escrever, eu nunca tinha tentado, ver se conseguia publicar… E, conseguindo, se eu poderia inaugurar uma carreira de escritora. Mas, para isso, para fazer daquilo que me dava prazer a atividade central da minha vida. Nada mais do que isso.

Em geral, as pessoas mitificam muito a figura do escritor. Como é o seu dia a dia como escritora?

AL  – Eu procuro, já percebi que um pouco demais, quebrar essa visão mitificada do escritor. Acho que aquilo que a gente faz… O que fazemos é um trabalho importante no mundo como qualquer outro trabalho importante no mundo. Por acaso, a gente escreve. Poderia estar aí sendo mergulhadora, astronauta, musicista, ou, seja lá o que for. São trabalhos viáveis, possíveis, eu sei disso. E que essa coisa, essa aura em torno da atividade do escritor ou do artista, de um modo geral, é algo que a gente precisa colaborar para diminuir um pouco. Porque isso gera egos inflados demais. Na verdade, o que é importante não somos nós, é o nosso trabalho, aquilo que a gente faz, são os nossos livros — são muito mais importantes do que nós, escritores, artistas, sei lá. Para mim é uma coisa simples ser escritora, porque eu gosto, em primeiro lugar. É um cotidiano muito simples, não preciso beber, não preciso me drogar, não preciso fazer nada. É uma atividade que eu faço. Eu sou mãe, entende? Moro num país que não tenho ninguém para ajudar, eu faço absolutamente tudo: sou mãe, faxineira, cozinheira, todas as coisas que são necessárias de ser dentro de casa, e escrevo também. Nos momentos em que eu escrevo, é claro, são momentos de profunda introspecção, de profunda solidão, silêncio… Uma viagem para dentro de mim mesma, para dentro dos meus pensamentos e tudo mais. Mas também uma forma de contato muito intensa com o mundo.

Você já morou no Rio de Janeiro, Petrópolis, Brasília, França, Japão e, agora, EUA. Por que tantas mudanças?

AL  – Eu gosto de estar fora. Eu gosto de me mudar, em primeiro lugar. Eu curto bastante essa ideia de mobilidade. Acho que, cada vez que eu me mudo, eu faço uma reavaliação daquilo que materialmente é essencial para mim. Essa reavaliação é sempre muito boa porque sempre percebo que preciso de menos coisas que eu achava que precisava. E mudar de país tem um ganho a mais, a gente não pode levar tudo. Quando muda de uma cidade para outra dentro do país, você pega e reboca as coisas todas. Na minha mudança — me mudei para os EUA há quase três anos — eu levei muito pouco; dos meus livros eu levei 10%, se tanto. Nesses momentos você se pergunta: O que eu preciso? Se você tiver que escolher 15 livros da sua biblioteca, o que você vai levar? São exercícios interessantes. E uma coisa que acho bacana… Continuo escrevendo em português, continuo escrevendo sobre o Brasil, sobre minhas experiências aqui no Brasil. Mas acho legal o olhar de fora. Acho que quando você sai e volta, sai e volta, isso te permite um olhar um pouco distanciado. Às vezes, quando você está muito dentro, muito dentro, muito dentro, isso te obscurece um pouco.

Você é uma das poucas escritoras brasileiras traduzidas nos EUA. Como é a experiência de ser publicada fora do país?

AL  – É uma relação que não é simples. Três por cento do que é publicado nos EUA é de literatura em tradução. Dentro desses três por cento não sei qual o percentual que é de literatura portuguesa ou literatura brasileira, mas imagino que não seja muito. O fato de eu estar lá foi fundamental para que essas traduções acontecessem. Mas mesmo assim é uma figura de desapego. Recentemente tem-se falado muito na figura do editor, não o cara que publica o livro, mas o que edita o livro e mexe no texto. Isso pela primeira vez aconteceu comigo, foi a primeira vez que pegaram o meu livro e falaram: “Isso sai, esse parágrafo pode sair, isso aqui fica melhor aqui, esse ponto vira vírgula, essa vírgula vira ponto…” Trabalho de edição mesmo, de mexer na estrutura do texto. Para mim foi uma coisa um pouco,…Não vou dizer dolorosa, eu me senti um pouco insegura,com isso.sem saber se estou traindo a mim mesma. Se um leitor bilíngue, por exemplo, pegar o Sinfonia em branco (Rocco), que está sendo traduzido, a versão original em português e pegar a tradução… A tradução tem cerca de 15% a menos de texto do que a versão original,para você ter uma ideia. Mas é um consenso. Isso precisa ser feito, inclusive pela natureza da língua portuguesa com relação à língua inglesa. O leitor americano, o que ele está a fim de ler, o que não está… Tem esse ajuste com o mercado. É a primeira vez que estou me deparando com essa história.

Como é a relação com o público estrangeiro?

AL  – Essa relação, nos EUA especificamente, eu não tive ainda porque esse meu livro que está traduzido ainda nem está no mercado.

Mas você tem livros publicados em outros países.

AL  – Sim. Eu já publiquei em Portugal, uma relação sensacional. Tenho uma relação muito boa com os leitores em Portugal. Publiquei recentemente, pela primeira vez, na França e fiquei surpresa com a receptividade. Teve uma acolhida do público, o livro em dois meses foi para a segunda edição. Foi um negócio muito surpreendente. Na Itália também, fui publicada na Suécia…

Qual a sensação de ser publicada em outros países?

AL  – Sem querer ser demagógica nem nada, acho legal saber que têm países se interessando pela literatura brasileira em primeiro lugar. Acho isso bacana. O fato de um jornal como o Le Monde ou uma editora como Alfaguara México, por exemplo, estarem interessados por aquilo que se faz aqui no Brasil. E dispostos a ler em Língua Portuguesa, em traduzir a Língua Portuguesa. E para mim, é óbvio, tem uma satisfação em ver os livros por aí afora. Quase como ver um filho seu fazendo coisas por aí e você: “Poxa, que legal” (risos).

Você foi à França, através do projeto Amores Expressos, e escreveu um novo romance. E agora o seu livro está fora do projeto, será publicado por outra editora. Por quê?

AL  – Acho que algumas coisas no projeto estão sendo revistas pelos próprios autores que participaram, a principal é a questão dos prazos. A verdade é que o prazo original, que os autores tinham para escrever seus romances, ninguém cumpriu. Sérgio Sant’Anna está aí ainda, falando que nem sabe se vai publicar o livro dele ou não. O que é uma pena porque eu adoraria ler. Mas o fato é que o meu livro foi escrito em, mais ou menos, seis meses. Foram seis meses durante os quais eu me dediquei exclusivamente ao projeto depois que voltei de Paris. A resposta da Companhia das Letras foi de que esse texto para ser publicado precisava ser modificado. Eu até fiz um texto no meu blog falando sobre isso, dizendo… Isso não me assusta, já recebi várias sugestões sobre os meus textos, com outras editoras, e sem problema nenhum. Com essa experiência de tradução nos EUA eu tenho menos pudor ainda de mexer naquilo que faço. Só que não podia ser feito naquele momento porque não era o meu momento, eu não estava a fim de pegar naquele texto de novo naquela hora. E uma resposta precisava ser dada. Então, diante dessa urgência, eu acabei — de comum acordo com todo mundo, com a Companhia (das Letras) e com o projeto — levando o meu texto para a editora Rocco, que assinou um contrato de publicação comigo. Quer dizer, quando sair, se sair, vai sair sem o selo da coleção, que era exclusivo da Companhia (das Letras).

O livro já tem nome, não é?

AL  – O livro originalmente se chama Como escrever uma história de amor em Paris .

Como escrever uma história de amor em Paris ?

AL  – Porque…

Não. Como?

AL  – (risos ) Escrevendo.

É difícil escrever por encomenda?

AL  – Não, eu não tenho problema em escrever por encomenda. Eu até gosto, acho que dá um norte, sabe? Às vezes, você fica um pouco por aí, perdido… Um dos meus livros de que mais gosto, o único livro meu que não saiu pela Rocco, é uma novelinha juvenil chamada O coração às vezes pára de bater , foi uma encomenda da Publifolha. O Arthur Nestrovski me chamou e falou: “A gente está fazendo uma coleção chamada Cidades Visíveis, são novelas para um público juvenil ambientadas em capitais do Brasil. Queríamos que você escrevesse alguma coisa sobre o Rio.” A única diretriz que eu tinha era essa, que fosse sobre o Rio e para um público juvenil, adolescente. Eu adorei fazer porque me dei a liberdade de escrever sobre um skatista, talvez eu nunca fosse me dar essa chance. Sou fascinada por skate, acho o máximo. Então, foi ótimo, entrei no ambiente dos skatistas e fiz uma novela que eu curto pra caramba. Está até sendo traduzida na Suíça e virou um curta-metragem. As encomendas têm isso, elas te levam. Às vezes, você está com o foco criativo numa coisa “x” e, de repente, elas te levam para outro ambiente, para uma outra ideia.

O livro infantil A sereia e o caçador de borboletas (Rocco, 2009) também foi uma encomenda?

AL  – Não. Esse livro foi um projeto meu.

Por que escrever para crianças?

AL  – Eu comecei a escrever para criança por uma razão um pouco óbvia: comecei a ler para meu filho quando ele era um pouco menor. Ele agora está com 11 anos, lê sozinho os calhamaços dele.

Seu filho lê seus livros?

AL  – Acompanha. Mas ele tem um gosto próprio, o gosto dele, acho que é 99,9% do gosto das crianças da idade dele, que são as séries de livros de fantasia. É uma coisa que eu não faço. “Mas você devia fazer uma série, cinco, seis, sete volumes” “Poxa, Gabriel” (risos). Por enquanto, não me encomendaram. Quem sabe… (risos) Eu gosto de escrever para crianças um pouco menores. Os dois livros infantis que eu tenho são de uma faixa etária assim de sete a 10 anos, para crianças bem pequenas mesmo. Eu lia para ele quando era menor, tinha o hábito de ir com ele em livraria para escolher livro. A gente estava sempre com os livros ao redor. E você acaba se envolvendo de tal modo, que dá o pulo. E dá vontade de fazer também…

Em A sereia e o caçador de borboletas você continuou com a parceria com o ilustrador Rui de Oliveira, que trabalhou no primeiro livro infantil. Fale sobre o trabalho do Rui.

AL  – Rui, seguramente, é um dos maiores ilustradores brasileiros vivos — se não for o maior. O Rui tem mais tempo de carreira do que eu tenho de vida, já ilustrou mais de cem livros. É uma fera, o cara é uma sumidade mesmo. Foi um grande privilégio ter ele me acompanhando no Língua de trapos  (Rocco), primeiro infantil que publiquei em 2005. Foi muito bacana a editora ter concordado em convidar o Rui para fazer esse trabalho junto comigo. E, quando apresentei para a editora o segundo texto, eles disseram, quase que automaticamente: “Vamos chamar o Rui. Deu super certo no primeiro trabalho, vamos repetir a parceria.” O que é bacana do Rui, embora ele seja um artista com um traço bastante reconhecível, ao mesmo tempo ele se renova de livro para livro. Ele tem essa curiosidade criativa de fazer pesquisas para cada trabalho, faz uma pesquisa extensíssima, inclusive de linguagens. Meu primeiro trabalho infantil era poesia, então ele fez uma ilustração muito mais solta, grafismos, poucos elementos figurativos. Nesse caso que é uma historinha de começo, meio e fim, ele fez um trabalho bastante figurativo. É um artista gigante, o maior privilégio trabalhar com ele.

Você não tem vontade de escrever um livro de poemas?

AL  – Eu escrevo muita poesia. Outro dia estava conversando com o Antonio Cicero, não consigo avaliar o que eu faço. Não consigo saber se a poesia que escrevo é boa ou ruim. Pode ser boa ou ruim, não consigo ter o menor discernimento. Ele respondeu: “Mas é assim mesmo. Eu também não consigo naquilo que faço. Acho que é normal para os poetas…” Isso foi uma coisa que me surpreendeu (risos). Um dos meus poetas preferidos, ainda por cima fazer essa confissão. Mas de todo modo, eu não sei, ainda não tive essa coragem. Recentemente, comecei a organizar um livro de poemas, até conversei com a Rocco sobre isso e eles falaram: “A gente publica e tal…” Mandei alguns, aí o livro devia ter uns 30 poemas. Cada vez que eu ia rever o livro eu tirava algum: 29, 28… Atualmente o livro deve ter uns cinco poemas mais ou menos (risos). É complicado para mim, largar, desapegar dos poemas (risos).

Novamente pergunto: O que você diria para um jovem que pretende ser escritor?

AL  – Não estou querendo fugir da raia da pergunta, não. Me ocorreu uma resposta que o (José) Saramago deu quando foi a algum evento. Até hoje foi a melhor resposta a essa pergunta, espero não citar errado. Foi algo assim: “Não ter pressa, mas não perder tempo.” É importante não querer que o texto fique pronto antes da hora. É importante você respeitar, que o próprio texto vai dizer que está minimamente, suficientemente pronto. Porque pronto acho que não fica nunca, um percentual grande de possibilidade de estar pronto. Mas ao mesmo tempo não perder tempo. Na verdade, eu acho, quem escreve tem uma certa tendência ao diletantismo, eu sou assim pelo menos, se interessa por vários assuntos e acaba não escrevendo direito. Então, é importante se centrar no trabalho, saber o que quer fazer. Por exemplo, um defeito que encontro no meu primeiro romance: querer abordar todos os temas. A impressão que eu tenho… Tenho a impressão que eu que queria falar de tudo, como se nunca mais fosse ter a oportunidade de escrever. É uma bobagem. Porque, às vezes, com um pequeno tema, um pequeno assunto, você pode dizer muito. Pode dizer muita coisa interessante. Acho importante esse foco, esse direcionamento, mas também uma falta de pressa. Uma capacidade de deixar o livro se levar.

AFONSO ROMANO DE SANT`ANNA

A CONSTRUÇÃO POÉTICA DE UMA TRAJETÓRIA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010 ]

 

  

 

Para o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, “a morte é uma construção que se faz em vida”. A sua produção poética e crítica — se encontram nos caminhos diversos de sua trajetória — fazem parte dessa tentativa de registrar as idiossincrasias da experiência humana.

“A literatura, por exemplo, a poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir aquele vazio. A impressão que o escritor tem — não sou só eu, qualquer escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem — quando produz uma coisa, ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor, só existe quando for transformada em palavras.”

Um dos intelectuais mais atuantes do Brasil, Romano de Sant’Anna se relaciona com o tempo buscando imprimir sua visão de mundo através de versos e textos ensaísticos, num constante estímulo ao pensamento crítico. Confessando que estava cansado de “ler de joelhos”, o poeta sai à procura de um diálogo, em pé, com autores que pensam a sociedade atual.

“Na universidade, se lê tudo de joelho, o tempo todo: Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que o professor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essas pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que ter uma redação própria”, afirma o autor de O enigma vazio (Rocco, 2008), entre outros títulos de ensaios, crônicas e poesias.

Diante de uma intensa relação com o tempo, Affonso Romano de Sant’Anna relembra o início de sua carreira, quando resolveu sair de Belo Horizonte, aos 17 anos, acompanhado do irmão mais velho, e levar alguns versos para avaliação do poeta Manuel Bandeira, no Rio de Janeiro.

“Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que não gostei até: “Olha, se eu não gostar eu digo, hein…”, relata o poeta que foi considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no que se refere ao desenvolvimento de uma “linhagem poética”.

A memória, cada vez mais presente em sua vida, nos faz compreender que “cair no tempo é parar de deslizar na superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noção de tempo”, como declara o poeta.

Quando jovem você reuniu seus versos e levou ao poeta Manuel Bandeira. Como foi essa história?

Affonso Romano de Sant’Anna  – Isso era muito aquela ansiedade do jovem escritor — ele precisa de um aval, precisa de contato com um grande escritor, que diga de alguma maneira, uma palavra sobre seus escritos. Então, naquela coisa provinciana, meio adolescente, até uma certa meiguice, eu saí de Juiz de Fora e fui ao Rio de Janeiro. Tive um encontro com Drummond também, que até fiz uma crônica sobre isso, na mesma ocasião. E com o Bandeira, foi uma coisa muito meiga ir ao apartamento dele, o “poetão” estava lá de robe, fazendo um café num canto, conversando com uma pessoa. Fui com meu irmão mais velho, que era uma espécie guardião…

Você tinha 17 anos?

ARS  – Tinha 17 anos, com a audácia dos 17 anos. Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que eu não gostei: “Olha, se eu não gostar eu digo, hein…” Eu pensei comigo, na minha vaidade de adolescente: “Claro que ele vai gostar, vai cair de quatro.” Na verdade, passados alguns dias, eu achei que ele tinha se esquecido de me responder. Daqui a pouco, chegou uma carta, uma letra bonitinha e bem feita, envelope de seda… Eu abri, levei para o quarto para ler aquela coisa, o nome dele como remetente. Papel de seda. Começava assim: “Achei muito ruins os teus versos” (risos). Foi muito engraçado porque ele dizia “gostei de uns poemas assim e tal”, e copiou com a mão uns versos que ele tinha gostado. Que era até de um poema que depois reaproveitei e publiquei mais tarde, um poema que tinha tudo a ver com a circunstância. Imagina. O poema se chamava “Poema aos poemas que ainda não foram escritos”. Aquela coisa, você com 17 anos, imaginando quando tiver 50, 60, 70 anos quando teria escrito… Naquele tempo, eu escrevia muito.

Qual foi a importância dessa crítica do Bandeira?

ARS  – Foi fundamental. Porque eu já era o maior poeta da minha casa. Eu já era o maior poeta da minha rua. Eu já era o maior poeta do meu bairro. Eu já era o jovem talento da minha cidade. Então, eu precisava que alguém me dissesse a verdade. Não bastava essa coisa afetiva ou familiar, dos amigos… E um poeta te dizer: “Olha você vai ter que aprender, rapaz. Algumas coisas têm que ser devagar. Tem talento e tal, mas vamos lá…” Eu gostei muito, não fiquei chateado, achei aquilo um grande estímulo.

Você sempre quis ser poeta?

ARS  – Eu comecei meio sem saber o que eu estava fazendo, escrevendo umas coisas… E como eu tive a coragem também de publicar meus textos em jornal, aos 16/17 anos, fui abrindo caminho…

Como você lida com a relação da memória em sua produção poética?

ARS  – A memória está se tornando mais presente de uns tempos para cá. Porque você quando se é jovem está envolvido com o presente e pelo futuro, o passado é uma aquisição, o passado é uma conquista. Eu costumo dizer, quem tem até 25 anos vive no espaço. Você começa a viver no tempo depois dos 30. Cair no tempo é parar de deslizar na superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noção de tempo. Enquanto o indivíduo não descobre que ele é um ser temporal, portanto sujeito à morte, e que as coisas são precárias, ele não está vivendo, está deslizando por aí. A literatura, no meu caso, é um aprofundamento dessa questão do tempo, uma bifurcação que eu me encontro com o amor e a morte.

Como lidar com o amor, a morte e o passar do tempo?

ARS  – É uma relação progressiva nos dois sentidos. Eu acho que você tem que construir a sua morte, não pode deixar para pensar na morte depois de morto. A morte é uma construção que se faz em vida, a morte faz parte da vida. A menos, que você morra num desastre, num acidente, com uma doença de repente… Mas mesmo assim é uma construção, no sentido que você está roubando a destruição com uma certa construção. A literatura, por exemplo, a poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir aquele vazio. A impressão que o escritor tem — não sou só eu, qualquer escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem — quando produz uma coisa ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor, só existe quando for transformada em palavras. O que você não registrou, existe imponderavelmente, egoisticamente, na sua cabeça, na sua memória. O que você registrou é a sua vida concreta e pública. E literatura é isso, sua expressão verbal tornada de utilidade pública.

Além da produção poética, sua produção crítica é bastante intensa. Há alguma divisão nesses trabalhos?

ARS  – É meio misturado, sabia? Na minha poesia, por exemplo, tem uma face muito crítica, ela é até ensaística. Eu me lembro de um livro que publiquei nos anos 60 para 70, um livro chamado Poesia sobre poesia , onde os poemas são ensaios, comentários sobre a produção patética da poesia do meu tempo. Então, essa vizinhança existe. Por exemplo, tenho ensaios sobre a interpretação da obra da Clarice onde eu usei uma estratégia, que acho muito sedutora e resultou muito bem, comecei a escrever usando a linguagem, parafraseando um dos contos dela. A maneira mais correta, digamos, de entrar na obra do autor, dentro da linguagem dele. Isso eu tenho feito de diversas maneiras no ensaio.

Com o Drummond, por exemplo…

ARS  – O Drummond tem muito disso, mas têm uns ensaios, sobre Jorge Amado e outros, em que adotei essa estratégia intencionalmente. E têm outros ensaios que são mais clássicos. Nesse último livro, O enigma vazio  (Rocco, 2008), que é um comentário crítico sobre o mal entendido da arte contemporânea, eu entrei nos textos de Octavio Paz, Roland Barthes, Jacques Derrida, Focault, Lacan… Habitar esses textos para ver as contradições desses textos. Eu sempre digo: Trata-se de não ler esses autores de joelho. Eu cansei de ler autores de joelho.

Você já leu muitos autores de joelho?

ARS  – Na universidade se lê tudo de joelho o tempo todo: (Walter) Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que o professor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essas pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que ter uma redação própria.

Há quem utilize a vida como resultado final de um livro, sem trabalhar a linguagem…

ARS  – Nós vemos isso na Flip. Para falar a verdade, essa coisa do Mário Bellatin, dessa outra Sophie Calle, e vários personagens que perambulam pela Flip, pertence a um gênero, que foi criado pela pós-modernidade, onde não se sabe mais o que é literatura e o que é espetáculo. É um gênero, se deve analisar isso, produto da época. É bom pensar criticamente sobre isso, se você tirar a parte biográfica, espetacular, fica o texto. Será que o texto resiste? Ele tem autonomia para resistir? Você pega o Bellatin, que estava com uma falsa mão: um gancho, um falo, ou um vibrador… Isso é a notícia. As pessoas vão assistir porque ele fez uma performance de tal ordem, a biografia. As pessoas vão atrás do supérfluo para chegar à literatura. Alguém hoje me perguntava: “Você acha que quando Fernando Pessoa escrevia plantava bananeiras, botava roupas, fazia muito barulho?” Não. Ele escrevia em silêncio. Drummond escrevia em silêncio. Quando eu digo que essas manifestações são uma questão de época, não estou censurando, não. Estou tentando colocar isso no devido lugar. Um dos problemas da chamada sociedade atual e contemporânea é que as pessoas não têm mais discernimento de estabelecer categorias. Não significa que as coisas tenham lugar fixo, mas as coisas pertencem a tempos e espaços diversos. As coisas não se equivalem: A não é igual a B, uma banana não é uma laranja… Há que estabelecer categorias para entender o sistema. Uma das coisas mais simbólicas da nossa época diz respeito à famosa Teoria do Caos. A física descobriu, nos anos 70, que o caos não era caótico, o caos tinha uma estrutura. Um cidadão determinado chegou a fazer uma equação do caos, o caos pode ser resumido a uma fórmula. Ao se perceber que o caos tem uma estrutura, um certo sentido, você começa a ver as coisas com mais clareza. O analista, o teórico, o artista é o indivíduo que tenta entender o caos. Alguns tentam ordenar o caos. O artista, eu enquanto poeta, ordeno o caos metaforicamente, através de metáforas. O cientista através de fórmulas. O analista através do texto e do contexto. O nosso desafio é enfrentar os enigmas, por isso eu fiz esse livro, O enigma vazio  (Rocco, 2008). Há enigmas que são cheios, o enigma de Édipo era um enigma cheio. Estava lá a Esfinge na entrada da cidade, o Édipo chegou, como chegaram outras pessoas, a Esfinge fazia uma pergunta. Quem sabia responder a Esfinge deixava passar, quem não sabia a Esfinge comia. Mas o enigma tinha um significado. Hoje, em nossa sociedade, têm uns enigmas que não significam nada. Ou seja, são falsos enigmas, pseudoenigmas.

Por exemplo?

ARS  – Por exemplo: a nossa sociedade cultua muito a aparência, a imagem. E a maioria das pessoas é conduzida pela aparência, pela imagem. O que seria “conteúdo”, interior, estrutura, passa a não ter nenhuma importância. Não significa que a aparência não tenha nenhuma importância. Mas, já diziam os filósofos, na esteira de Heidegger, por exemplo, que o princípio mínimo de sabedoria é você entender o jogo entre a aparência e essência. Todas as coisas que existem, aparentam, têm aparência. Mas as coisas são mais do que a simples aparência que elas têm. A sociedade que nós temos hoje está levando as pessoas a ficarem presas no aspecto, no sentido “aspectual” da coisa. Elas se sentem confusas, leem jornais e não entendem o que está acontecendo. É uma tempestade de informações. Ou seja, ler o mundo não é uma tarefa fácil, não.

O que você diria para um jovem de 17 anos que o procurasse com o original de um livro? O que precisa para ser um autor?

ARS  – Você sabe que isso até acontece? Volta e meia aparece um com alguma crônica que escrevi. “Olha eu li essa sua crônica…” Eles pensam que sou o Manuel Bandeira e tentam reproduzir o ritual (risos). Eu diria uma coisa muito simples: Primeiro, se você quer ser escritor, tem que ler. Se você não for leitor não pode ser escritor. A relação leitor/escritor é uma relação autoacumulativa. Borges é um exemplo disso: escritor/leitor. Machado era um escritor/leitor. Depois, o jovem tem que colocar na cabeça o seguinte: essa é uma relação em longo prazo. Nem todo mundo nasce pronto. Nem todo mundo é Rimbaud, faz o essencial. A corrida em longo prazo. Eu tive vários colegas que começaram comigo na literatura e tinham um talento incrível, mas não deram em nada. Entra outro problema: você tem que se estruturar também psicologicamente. O Allen Ginsberg tem aquele célebre poema: “Eu vi os melhores poetas da minha geração se perderem” (“Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”). É necessário até um certo discernimento entre esse negócio da aparência e da essência. A sociedade te chama para um brilho fácil. Se eu quiser tirar a roupa, em Paraty, vai fazer mais sucesso do que publicar um livro.

 

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