BRUNA BEBER

DEMÔNIO DE PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

Conheci os versos de Bruna Beber por acaso, folheando páginas de jornal. Além da qualidade dos poemas, irônicos, o que mais me chamou a atenção foi título de seu livro: A fila sem fim dos demônios descontentes.

“O título é uma frase que vi pichada no Viaduto da Perimetral (não no viaduto do Caju, saiu errado no livro!), e resumia o meu livro. A frase era maior, era ’A fila sem fim dos demônios descontentes no amor‘, mas resolvi tirar o ‘amor’. Até então, a frase era anônima, até sair uma matéria no O Globo e o autor apareceu. Mas foi ótimo, ficamos amigos. Ele é um artista plástico de 24 anos, chama-se Gustavo Speridião, faz parte duma turma de street art, pessoal da UFRJ.” explica a poeta.

Tentei o contato, primeiro por e-mail, depois por telefone, mas senti um tomblasé e quase desisti. Depois que li o livro, decidi recorrer à editora 7 Letras para marcar um encontro. Finalmente nos conhecemos na livraria Letras e Expressões, do Leblon. Antes de iniciarmos o papo, Bruna desfez toda a falsa impressão que eu tive. Além de uma sensível escritora, é uma mulher simples e aos 22 anos é totalmente consciente do seu ofício.

“Sou ’filha única-poeta-e-boêmia’, isso é péssimo! Mas, apesar de tudo, tive incentivo, sim. Duas pessoas foram importantes nesse aspecto: minha mãe e minha tia, que eu chamo de ’Traça’, dado seu amor pelos livros. Elas só me davam livros de presente. Hoje em dia, meus pais acham o máximo. Eles veem que pode dar certo, que a filhinha está dando entrevista, aparecendo, e valorizam. Mas arte é sempre conflito na família, né?”

Bruna é uma poetisa viciada em café (durante o papo de uma hora, ela tomou cinco expressos!) e ”internerder”, como gosta de dizer. Fornece conteúdo para alguns espaços na rede: tem o Bife Sujo – em que escreve sobre tudo; o Cutelaria & Chapelaria – que escreve só poesia; é uma das colaboradores do blog Paralelose já está escrevendo um livro novo.

“Não sei por que escrevo, mas me divirto muito escrevendo. Nada de ficar no quarto sofrendo e escrevendo o romance do século. Claro que não escrevo soltando pipa, mas escrevo sem esse tal sofrimento. Não escrevo para ser estudada na Universidade!”

Ela também é publicitária ”mas isso não dá alegria”, e, por isso, prefere brincar entre as palavras.

Qual foi o seu primeiro contato com as palavras?

Bruna Beber – Ah, acho que desde pequena. Sempre gostei de escrever. Participei de concursos de poesia, saraus, essas coisas todas. Mas, dos 10 aos 16 anos, parei de escrever poesia. Depois, aos 17, volteie comecei a publicar na Internet. Gosto de “soltar” o poema; acho que ele tem que andar!

Seus pais a incentivaram?

BB – Sou “filha única-poeta-e-boêmia”, isso é péssimo! Mas, apesar de tudo, tive incentivo, sim. Duas pessoas foram importantes nesse aspecto: minha mãe e minha tia, que eu chamo de “Traça”, dado seu amor pelos livros. Elas só me davam livros de presente. Hoje em dia, meus pais acham o máximo. Eles veem que pode dar certo, que a filhinha está dando entrevista, aparecendo, e valorizam. Mas arte é sempre conflito na família, né?

Alguém da sua família escreve?

BB – Tinha um parente do meu avó. Primo, de não sei que grau, o Jorge de Lima. Escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles Invenção de Orfeu. É dele o poema que deu origem ao O Grande Circo Místico, do Chico Buarque e Ruy Guerra. O poema chama-se “O Grande Acidente Aéreo de Ontem”.

E quais são suas maiores influências?

BB – Quando criança, lia muito Monteiro Lobato e Ziraldo, de O Joelho Juvenala O Menino Maluquinho. Li também um monte de livros que minha avó tinha em casa, até uns caderninhos que vinham de brinde no Biotônico Fontoura. Cresci ouvindo muita música; MPB, samba de raiz e música brega. Outro dia fiz uma lista com as minhas principais influências, aqui vão algumas:

Beatles, Roberto Carlos, Tim Maia, Jorge Ben, Bob Dylan, Neil Young, Harry Nilsson, Nick Drake, Tom Waits,Otis Redding, Joni Mitchell, Nina Simone, John Coltrane, João Gilberto, Nara Leão, Caetano, Gal, Bethânia…

Quais são as escritoras que você mais admira?

BB – Ih, quase não li as mulheres. Tenho certo problema em começar a ler Clarice, por causa dessa idolatria que existe. Hoje em dia toda escritora quer ser Clarice. Não dá, não precisa. Lá em casa há todos os livros dela, mas estou aguardando o momento para começar. Não tenho essa coisa que coloca o escritor como ele se fosse de outro mundo. De outro mundo por quê? Só pode ser porque somos bizarros. Mas, vamos lá, gosto muito da poeta Ledusha e da Elizabeth Bishop…

E, dos autores da sua geração, de quem você gosta?

BB – Não leio muito os contemporâneos de prosa, mas gosto do Joca Terron e da Cecilia Giannetti. De poesia gosto da Angélica Freitas, da Alice Sant’anna, do Sérgio Mello, do Marcelo Montenegro, do Ricardo Domeneck…

Por que o título A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes?

BB – É uma frase que vi pichada no Viaduto da Perimetral (não no viaduto do Caju, saiu errado no livro!), e resumia o meu livro. A frase era maior, era “A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes no Amor”, mas resolvi tirar o “Amor”. Até então, a frase era anônima, até sair uma matéria no O Globo e o autor apareceu. Mas foi ótimo, ficamos amigos. Ele é um artista plástico de 24 anos, chama-se Gustavo Speridião, faz parte duma turma de street art, pessoal da UFRJ. Já estamos pensando em algumas frases para fazer outras intervenções urbanas.

Por que você escreve?

BB – Não sei por que escrevo, mas me divirto muito escrevendo. Nada de ficar no quarto sofrendo e escrevendo o romance do século. Claro que não escrevo soltando pipa, mas escrevo sem esse tal sofrimento. Não escrevo para ser estudada na Universidade! Tenho um poema que fala sobre isso. Chama-se “A Novíssima Literatura”. Mas acho que caí no próprio feitiço, pois fiquei sabendo que um professor da UFRJ está me investigando.

Você sentiu algum preconceito por morar na Baixada Fluminense?

BB – Não, em momento algum. Não rola nenhum preconceito. Sempre circulo por todos os lugares, tenho amigos na Zona Sul e na Zona Norte.

O que você falaria para a galera que deseja se aventurar na carreira literária?

BB – Acho que a Internet é um bom caminho e o boca a boca também. O escritor tem que colocar a “bunda na janela”! A Internet é um bom lugar para conhecer pessoas afins. Não que isso seja uma verdade absoluta, mas acredito nisso.

BRUNO CATTONI

POETADEMASIADO HUMANO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

Em novembro de 2007, recebi um e-mail da poeta Priscila Andrade sobre uma manifestação no Dia Mundial Contra a Aids. Na troca de correspondências virtuais, surgiu o interesse de conhecer o fundador do Grupo Pela Vidda, Bruno Cattoni, que luta para promover a poesia e os direitos humanos na sociedade.

Bruno Cattoni é jornalista e poeta, com seis livros publicados – Figuras; Conspiração e Inconfidências de Um Caçador de Meninas Gerais; Ah!; Kalusha; Osso Na Cabeceira das Avalanches e Silêncio dos Girassóis – e soropositivo militante, desde 1989.

“Desde que me entendo por gente acredito que a poesia pode ser uma bússola para mim. Viver é mais importante. E a poesia dá condições para prosseguir nesse caos que é a vida”.

Ao meio-dia, num café do Jardim Botânico, ocorreu o encontro. Cheguei mais cedo que o poeta e sentei a sua espera, enquanto relia algumas perguntas. Em seguida, Bruno chegou e pediu café, que quase derrubei todo em cima dele. Mas durante a entrevista pedi mais duas xícaras do expresso, enquanto ele fumava seu cachimbo. Com uma voz grave e olhar distante, Bruno Cattoni contou sobre a importância da sua militância e sobre a relação com a poesia.

“Se eu tenho uma doença que chama tanta atenção pelos seus aspectos metafóricos, como a Aids, é importante que eu chame mais atenção. Não por ego, nem para compensar o fato de ter uma sentença correndo em meu sangue. A importância de atrair atenção, a importância política, serve para lutar pelo que é mais humano”, afirma o fundador do Grupo Pela Vida.

E no fim do encontro: “Gostaria de mudar da noite para o dia e escrever prosa, escrever como Clarice Lispector. Gosto de ler a Clarice Lispector. Eu gostaria de ser a Clarice Lispector”, confessa aos risos

Uma entrevista especial, palavras de ser humano sensível e humanista. Leitura obrigatória.

Como iniciou seu interesse pela poesia?

Bruno Cattoni – Há vários graus e níveis de compreensão do mundo. A compreensão poética, desde que o ser humano pensou em arte, não demanda instrução ou construção acadêmica. Mas compreender requer muita reflexão, que não exige nada além da vida e da convivência. Através da poesia, todos podem ter uma aproximação crítica sobre a vida. Os poetas podem contagiar, com essa visão de mundo, cientistas e acadêmicos. A poesia dá uma habilidade maior para compreender os caminhos. Desde que me entendo por gente acredito que a poesia pode ser uma bússola para mim. Viver é mais importante. E a poesia dá condições para prosseguir nesse caos que é a vida.

Existiu algum fato específico?

BC – Minha resposta será muito poética. Tive uma infância muito feliz, em contato com a natureza e os animais. Os animais me ensinaram muita poesia. A natureza – os rios, as montanhas, as árvores – me ensinaram a viver. Mas se não houvesse ninguém para prestar atenção a essa aprendizagem, talvez eu não tivesse desenvolvido a minha poesia. Tive um pai muito sensível!

Seu pai era poeta?

BC – Ele era arquiteto e fazia letra de música, um homem muito sensível. Quando eu tinha nove anos, ele percebeu meu gosto apurado pelas coisas bonitas da vida. E me disse: “Você não escreve, mas vou mostrar a poesia que há dentro de você.” Apertou o botão do gravador e me fez algumas perguntas. Eu achava que poesia era coisa de lunático. Ele colocou as minhas repostas no papel e disse: “Isso que você falou é poesia.” Depois deu nome à poesia, a contração do meu nome com minha idade: BruNove. Quando vi, comecei a acreditar que era possível. E ganhei uma máquina de escrever, a mesma com a qual meu pai havia passado a poesia para o papel (risos). Ele era arquiteto, fazia letra de música…

(Bruno fica bastante emocionado neste momento, mas é uma emoção alegre, próxima ao riso.)

Percebo que sua poesia está extremamente ligada aos direitos humanos…

BC – No ano passado, na ONG Movimento Humanos Direitos – a mesma da Dira Paes, Marcos Winter, Bete Mendes e Letícia Sabatella – nós utilizamos o evento Poesia Voa para promover os direitos humanos, em parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos, a fim de que as pessoas pudessem se sensibilizar através da emoção, entendessem os absurdos que as elites, os governos, o mercado financeiro e o pensamento neoliberal fazem ao desprezar aqueles que sofrem. Não é possível limitar a vida à riqueza.

Qual a intenção da ONG Movimento Humanos Direitos?

BC – A ONG Movimento Humanos Direitos tem como principal bandeira a erradicação do trabalho escravo; o acompanhamento dos casos de abuso e exploração de crianças e adolescentes; das questões indígenas, dos povos Quilombolas, no Brasil. Consegui ampliar esse ativismo, que esteve restrito, de 1989 a 2003, ao discurso de cidadania com a Aids. Os Direitos Humanos têm de reunir bandeiras de vários segmentos sociais. Não é possível se separar a sociedade em segmentos para se lutar por uma coisa ou outra. Precisamos lutar debaixo de um só guarda-chuva, pela instalação da dignidade humana.

O que mudou em sua vida depois que você se tornou um ativista?

BC – Ser soropositivo é muito bom quando se tem um pensamento voltado para o próximo, para a alteridade. Assim se tem um gancho para promover o que você acredita ser direito de todas as pessoas. Se eu tenho uma doença que chama tanta atenção pelos seus aspectos metafóricos, como a Aids, é importante que eu chame mais atenção. Não por ego, nem para compensar o fato de ter uma sentença correndo em meu sangue. A importância de atrair atenção, a importância política, serve para lutar pelo que é mais humano.

Como foi o processo desde que você se descobriu soropositivo até você se tornar um ativista político?

BC – Sempre que sou entrevistado, as perguntas são: “como contraí” e “se sou discriminado”. Não acho que essas perguntas devam ser respondidas hoje em dia, do contrário perde-se tempo e a atenção acaba sendo voltada para o comportamento pessoal. Não acredito que a Aids seja um problema psicológico ou comportamental da humanidade. É um problema de saúde pública, político e de cidadania.

Você é fundador do Grupo Pela Vidda. Qual a intenção deste grupo?

BC – A intenção primordial do Grupo é implantar políticas públicas e mostrar que só quem sofre da doença pode falar o que deve ser feito. Se não se pode ouvir quem está sofrendo, porque a situação clínica não permite, é necessário que os médicos tenham uma aproximação maior com a sociedade. As políticas públicas que nós reclamamos foram implantadas. As campanhas que vieram se foram. Mas ao menos sabemos que o Estado pode produzir informação. Nós mostramos que é possível viver sem ser clandestino! Passamos a reclamar as posições de cidadão, como o direito de trabalhar, de poder transitar em qualquer lugar, de amar e de ter direitos humanos.

Quando vai acontecer o Festival Poesia Direitos Humanos?

BC – Este ano esse festival se transformou no Rio ComVida, uma proposta do movimento Humanos Direitos ao Fórum Social Mundial para que celebremos os seres humanos através da cultura. A poesia foi uma espoleta. Mas hoje eu penso que toda a cultura é deflagradora de consciência. Nas comunidades do Rio, há 650 favelas, existem muitos trabalhos de autogestão, as pessoas estão deixando de lado as dores para tomar com as próprias mãos o rumo da vida. O ativismo e a poesia não devem buscar heróis. A vida não precisa de heróis, precisa de seres humanos.

Você produz uma coluna, com Edney Silvestre, no RJTV…

BC – Sim, criamos uma coluna em que entrevistamos exemplos de vida. Procuramos pessoas simples, que mantêm um trabalho silencioso, mas promovem os direitos humanos na comunidade. É preciso mostrar que não é necessário ser herói, com espírito de colaboração, muitos seres humanos podem resolver situações complicadas. Não é possível existir egoísmo num mundo em que há tanta gente com necessidade de amor e atenção. É uma forma de compartilhar a vida.

O que é a vida?

BC – Uma vez, uma mulher minha foi a um centro espírita para saber se eu morreria de Aids. Lá baixaram muitos espíritos que deram uma mensagem fantástica: “A moça não precisa se preocupar. Ele está preocupado com isso porque a vida, para ele, é a coisa mais importante no mundo. Não existe o menor risco de ele perder esse amor, mesmo que ele venha a morrer de Aids. É preciso deixar de se preocupar com a antinomia da vida, que é a morte. Para ele não existe a morte.” E para encerrar: A vida é bela!

(Bruno se levanta, emocionado, e vai até o banheiro.)

Seu último livro, Silêncio de Girassóis, é uma aventura solidária no lixão Morro do Céu. Fale sobre esse trabalho…

BC – Foi com o quadro do RJTV, através de uma estagiária que conheci em Niterói, dona Edith, que trabalha com crianças que vivem no lixão. No meio desse lixão, de todo esse sofrimento, nascem girassóis. Fiquei tão emocionado com dona Edith que comecei a escrever Silêncio de Girassóis. Nessa época, escrevi um e-mail para uma amiga, que estava muito recolhida: “Se não está na hora de você dizer algo, me manda seu silêncio de girassóis.” Ela gostou e falou para eu escrever poemas. Nessa época, eu estava lendo um filósofo lituano que viveu na França, chamado Emmanuel Levinas, que escreve sobre o outro. Ele dizia que temos de nos posicionar para o outro. Levinas percorre todas as áreas da minha vida.

Você lê prosa?

BC – Hoje em dia não leio muita prosa, mas quando tinha a sua idade, eu li muito, pois achava que, quando fosse mais velho, teria pouquíssimo tempo para ler. Hoje, com o tempo que tenho, leio filosofia para embasar minha luta. Li muito Machado de Assis, Dostoiévski, José de Alencar… Gostei muito da literatura russa. Também li quase a obra inteira do Sartre.

E você lê poesia?

BC – Já li muito Goethe e sempre gostei muito do João Cabral de Melo Neto. Fiz até um manifesto para o Cabral, nos anos 80, chamado Construtivismo Romântico. Eu pensava que a poesia tinha de ser materialista e utilitária. Me aproximei de Affonso Romano de Sant’Anna, Reinaldo Jardim e Thiago de Mello – esse último me levou para o Partido Comunista, acompanhou-me como um pai. Thiago de Mello abriu minha cabeça para a humanidade, me fez ver que poesia pode ser muito mais do que encantar; a poesia pode transformar. Só senti algo parecido quando li Neruda. Para ambos, viver e amar eram atos políticos. E isso me ajudou muito com a Aids, pois ela fala de sexo, contato humano, solidão. Eu usei a Aids a fim de chamar atenção para esses aspectos da vida.

FigurasConspiração e Inconfidências de Um Caçador de Meninas GeraisAh!KalushaOsso – Na Cabeceira das Avalanches eSilêncio de Girassóis: qual o seu predileto?

BC – Gosto muito do primeiro livro, que refletiu minha convivência com os comunistas. São poemas da juventude, de tendência surrealista. Mas era um livro muito influenciado, eu ainda buscava minha voz. O mais importante é buscar uma linguagem própria, uma maneira própria de enxergar o mundo. Temos de escutar nossa voz interior, todos têm uma voz diferente – é isso que nos enriquece

Como você vê a relação entre o movimento poético atual e o mercado editorial?

BC – Não me importo com pessoas que reclamam da qualidade da poesia. É tão importante uma pessoa sentir-se poeta. Que coisa mais chata cobrar qualidade do poeta. “Calem esse poeta! Calem esse poeta sem qualidade! Calem esse poeta!” Eu não compartilho desse controle de poesia. Todos podem escrever poesia.

O que você diria para os jovens que desejam se tornar poetas?

BC – Viva!

(Bruno pede para que eu ligue o gravador, ele quer acrescentar mais algumas palavras.)

BC – Gostaria de mudar da noite para o dia e escrever prosa, escrever como Clarice Lispector. Gosto de ler a Clarice Lispector. Eu gostaria de ser a Clarice Lispector. Se eu não fosse (risos), se eu não fosse Bruno Cattoni, eu gostaria de ser a Clarice Lispector (risos).

CARLA FAOUR

TESÃO DE ESCUTAR (E LER)

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 

“Tenho prazer com a palavra, tenho tesão de escutar como as pessoas constroem as frases, como dão forma aos pensamentos, os cacoetes da fala de cada um. Palavra é sonoridade, ritmo, significante, significado… Por isso que eu adoro poesia. Gosto de juntar sonoridades, palavra é para juntar, mexer, pisar… É uma relação de artesã, afetiva.” Essa declaração não explica o sucesso da peça A arte de escutar, de Carla Faour, que acaba de ser publicada como ficção pela editora Agir, mas faz compreender que para escrever bem é necessário — antes de tudo — saber ouvir.

O livro é um caso raro: nasceu de uma peça teatral quando o comum é o teatro adaptar textos literários. A peça A arte de escutar foi a estreia de Carla Faour como dramaturga, que, até então, vinha desempenhando os ofícios de atriz e diretora. O espetáculo, sucesso de crítica e público, indicado ao Prêmio Shell 2008, na categoria Melhor Texto, levou ao convite para transformar o texto teatral em ficção. Desafio superado através de uma escrita bem elaborada e precisa, um trabalho de artífice da palavra.

No romance (e na peça), diferentemente da autora, a personagem que possui o dom de escutar é anônima. E ela nem mesmo pode ser classificada como protagonista, já que, em cada história que relata, o foco está naqueles que falam, que contam suas histórias. Esses são os personagens principais. Ela limita-se a ouvir os desabafos, as confidências de pessoas encontradas por acaso. Na fila do banco, uma ex-hippie lembra seus tempos de sexo, drogas e rock‘n’roll ao mesmo tempo em que se revolta contra o desejo da filha de enquadrá-la. Na academia de ginástica, outra mulher a escolhe como ouvinte de suas aventuras extraconjugais. No metrô, ouve história de um homem atormentado. Escuta em silêncio, mas sempre atenta.

Nascida no Rio de Janeiro, integrante do grupo teatral Quem são esses caras?, Carla Faour não acredita na “crise da dramaturgia”, como tentam apontar alguns críticos. “Tem muita gente boa escrevendo. No próprio grupo de que participo tem o Henrique Tavares — que foi a primeira pessoa a me incentivar a escrever. Ele escreveu peças ótimas: Barbara não lhe adoraCidade Vampira… Tem também o Pedro Brício, Daniela Pereira de Carvalho, Eduardo Rieche e muitos outros… Não acredito nessa crise de dramaturgia brasileira. O que há é uma dificuldade de o dramaturgo levar o texto à cena. Se ele não tem os meios de produção, fica muito difícil. Não há incentivos para dramaturgos, o que é lamentável”, defende a escritora e dramaturga que já adaptou para o teatro textos de Janete Clair e Nélida Piñon.

A arte de escutar é, principalmente, uma redefinição de caminho. Confirmou que tenho um caminho aberto para escrever, quero investir”, diz Carla. E o veterano ator Sérgio Britto, em declaração na contracapa do livro, aprova: “O livro que acontece depois do prefácio é caminho novo para essa moça tão talentosa, e, antes de tudo, para sempre uma escritora.”

Você é boa ouvinte?

Carla Faour – Sim. Acho que sou.

Faz análise?

CF – (risos) Já fiz, mas por seis ou sete meses. Não tive muita paciência para continuar. Sou boa ouvinte, mas falo muito (risos). Sempre que uma pessoa para e me conta uma história, eu escuto com atenção.

Eu poderia dizer que a palavra costura suas personas: atriz, dramaturga, escritora…

CF – Sim. A palavra.

Como lidar com as palavras?

CF – Como autora, eu sofro pela palavra. Principalmente se eu estiver em cena como atriz. Sou uma atriz que sempre teve muito cuidado com o texto. Sou uma autora que escreve e reescreve incessantemente, meu texto deve ter umas 50 versões. Então, quando um ator troca uma palavra eu sofro. Porque se um autor colocou aquela palavra no papel é porque ele queria dizer uma determinada coisa. Tenho prazer com a palavra, tenho tesão de escutar como as pessoas constroem as frases, como dão forma aos pensamentos, os cacoetes da fala de cada um. Palavra é sonoridade, ritmo, significante, significado… Por isso que eu adoro poesia. Gosto de juntar sonoridades, palavra é para juntar, mexer, pisar… É uma relação de artesã, afetiva.

Você conhece o livro Rumores imprecisos de conversas alheias, do escritor e ator Thiago Picchi? Fala sobre essa arte de ouvir.

CF – Não, não conheço.

É um romance que dialoga muito com a sua peça. Como é o processo de criação da autora?

CF – A arte de escutar escrevi de uma forma absolutamente intuitiva. Como atriz e autora do espetáculo, tenho o prazer de completar o ciclo da obra; escrever, participar de todo o processo de ensaios, produção… E depois, durante a temporada, ouvir a resposta do público. É maravilhoso. O público procura e pergunta: “Você leu fulano? Leu sicrano? Conhece psicologia?” Eu não sei como, de alguma forma, toquei em vários conceitos de psicanálise, filosofia, antropologia… Mas tudo aconteceu de uma forma intuitiva, poética. O texto, ao mesmo tempo em que é poético, tem também uma coloquialidade na fala das personagens. Eu não quis ler sobre o assunto para escrever o livro, é uma observação do cotidiano. Como foi a peça. As pessoas falam muito de si e escutam pouco. Hoje em dia todo mundo tem blog, Orkut, fotolog… São ferramentas voltadas para a fala, para o externo, para se fazer notar pelo maior número de pessoas possível. Escutar é o contrário. É uma forma de voltar a si.

Você tem uma companhia de teatro há mais de 10 anos. E recentemente teve o reconhecimento na TV…

CF – Eu nunca tive muita ansiedade, porque senão eu já teria desistido. Adoro fazer televisão, sempre que me convidam eu vou com prazer. Mas é o teatro a minha realização. Tenho um trabalho de mais de 10 anos com uma companhia. O sucesso, em grande escala, pode vir agora ou daqui a cinco anos, não busco isso com ansiedade.

O que muda?

CF – Nada de importante. Muda o momento, coisas pequenas. Na verdade, os outros é que mudam. Quem não te conhece passa a te conhecer, a ser íntimo. É claro que aparecem mais oportunidades de trabalho. Eu não saio do eixo.

Seu trabalho foi elogiado pela crítica Barbara Heliodora, indicado ao Prêmio Shell de Melhor Texto…

CF – Isso foi ótimo porque começamos de uma forma muito despretensiosa, no porão da Casa de Cultura Laura Alvim e aos poucos a peça foi ganhando uma projeção maior e teve uma série de desdobramentos. Fui convidada para escrever esse livro, baseado no texto da peça, que sai agora pela Editora Agir, do grupo Ediouro. A peça foi traduzida para o inglês e estreou no Canadá, em julho. E ainda estamos viajando com o espetáculo pelo Brasil. Espero que ainda venha mais coisa por aí. Mas A arte de escutar é, principalmente, uma redefinição de caminho. Confirmou que tenho um caminho aberto para escrever, quero investir.

Como você avalia a produção dos dramaturgos brasileiros?

CF – Tem muita gente boa escrevendo. No próprio grupo que participo tem o Henrique Tavares – que foi a primeira pessoa a me incentivar a escrever. Ele escreveu peças ótimas: Barbara não lhe adora, Cidade Vampira… Tem também o Pedro Brício, Daniela Pereira de Carvalho, Eduardo Rieche e muitos outros… Não acredito nessa crise de dramaturgia brasileira. E acho muito louca essa coisa de safra. O que há é uma dificuldade do dramaturgo levar o texto à cena. Se ele não tem os meios de produção, fica muito difícil. Não há incentivos para dramaturgos, o que é lamentável. O teatro é uma arte efêmera, o que fica dele é o texto. Há pouco, li uma matéria sobre o Alcione Araújo, ele diz que está com vários textos na gaveta. O lugar do texto de teatro é no palco. Deveria ter um projeto, através do poder público, de apoio à dramaturgia brasileira.

Por que adaptar Nélida Piñon e Janete Clair para o teatro?

CF – Obedeço meu gosto pessoal. A Nélida Piñon é uma autora incrível, uma das mais importantes da língua portuguesa. O livro que adaptei, A força do destino, é extremamente teatral, usa metalinguagem e fala, justamente, da criação. Do ato de escrever. Da Janete, adaptei o único livro dela, Nenê Bonet, um folhetim que se passa no Rio de Janeiro, na década de 1920, e conta a história de uma moça de família tradicional que sai em busca de sua liberdade, seus direitos, numa época em que a sociedade era dominada pelo homem. Eu gosto muito de autores mais antigos, acabei de ler Eça de Queiroz. Nelson Rodrigues é sempre uma referência. Poesia, também: (T.S.) Eliot, (Fernando) Pessoa, Florbela Espanca, (Mário) Quintana, Manuel Bandeira e Cecília Meireles, que sou apaixonada.

Sobre o que você escreve?

CF – Sobre o que vejo e o que está a minha volta. Não sei…(risos) Tanta coisa. Cada dia escrevo sobre alguma coisa diferente, de uma forma diferente. Escrevo sobre o que sinto.

Sobre a relação com a Internet…

CF – A Internet é um suporte bacana para publicar textos. Não tenho blog. Mas estou com vontade de ter um. O blog é um lugar legal para postar textos, experimentar formatos, ideias, escrever sem ter o compromisso imediato de acertar. Mostrar textos que ficariam no fundo da gaveta. Além de poder ter contato direto com o leitor, saber o que pensam do seu texto, interagir com pessoas de outros lugares e tudo isso de uma forma rápida e direta.

O que você espera em 10 anos?

CF – Espero dar continuidade a esse trabalho: escrever, atuar, produzir… Mas, principalmente, avançar como escritora. Quem sabe, experimentar outros meios como o cinema, a TV…

O que diria para algum jovem que deseja trabalhar com a palavra?

CF – Leia muito. E seja uma antena das coisas que estão acontecendo. Leia os contemporâneos e os clássicos. E se arrisque, tenha coragem para vencer o desafio da página em branco. E não tenha preconceitos.

CAROLA SAAVEDRA

 

"A LÍNGUA PORTUGUESA É MINHA CASA"

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

A escritora e tradutora Carola Saavedra nasceu no Chile, mas mora no Rio de Janeiro desde os três anos de idade. Escolheu a língua portuguesa como pátria, fazendo dela instrumento de transformação. A delicadeza das palavras de Carola emite o eco de autoras como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. A incomunicabilidade das relações afetivas costura as histórias de três de seus romances: Toda terça (2007), Flores azuis(2008) e Paisagem com dromedário (2010), ponto final dessa trilogia, todos editados pela Companhia das Letras. Mas o início dessa busca se iniciou com a publicação do livro de contos Do lado de fora (7Letras, 2005), metáfora para o “olhar estrangeiro” herdado dos pais, que marca sua escrita. Uma trajetória literária construída com a precisão de quem está disposta a vivenciar cada passo, devagar e sem medo.

Você nasceu no Chile e vive no Brasil desde os três anos de idade. De que forma essa relação com os dois países interfere na sua produção literária?

Carola Saavedra – Costumo sempre enfatizar que sou uma escritora brasileira, não sou uma escritora chilena que escreve em português. Nasci no Chile, meus pais são chilenos, mas fui voltar lá com 17 anos… Eu tinha a “ilha Chile”, que era a casa dos meus pais, com a música, a comida, a literatura. Me lembro que tive um choque muito grande ao perceber que havia diferença entre o “Chile, casa dos meus pais” e o “Chile, país”. Foi um choque cultural, emocional, existencial… Eu tinha uma ideia, quase que uma ilusão, que havia sido passada pelos meus pais. Percebi que aquilo tudo tinha pouco a ver comigo. Na casa dos meus pais ficou um país congelado no tempo. Eu tenho uma herança, claro, mas não me identifico. Andava por Santiago e diziam: “Mas você é uma típica brasileira!” Eu achava curioso porque até aquele momento não estava muito claro o que era ser uma “típica brasileira”, ou ser uma “típica carioca”. Aliás, não acho que eu seja tão “típica” assim, em nenhuma das duas hipóteses. Muita gente me pergunta: “Por que você não escreve em espanhol?” Nunca passou pela minha cabeça escrever em espanhol. Talvez porque a minha formação intelectual tenha sido no Brasil, fui alfabetizada em português. Em casa eu tinha outro mundo. Por exemplo, comecei a ler literatura hispano-americana ainda muito nova. Eu era uma “típica adolescente carioca”, mas lia (Juan Carlos) Onetti, (Julio) Cortázar, (Jorge Luis) Borges… Era pouco comum. Eu tinha referências do Brasil e do Chile, que eram de casa: música e literatura. Junta-se a tudo isso a Alemanha. Eu estudei em colégio alemão, e desde os oito anos de idade esse idioma faz parte do meu dia a dia.

Você foi estudar na Alemanha?

CS – Quando me formei em Comunicação Social, Jornalismo, eu fui fazer mestrado na Alemanha. E fiquei dez anos morando na Europa. A Alemanha foi muito importante também. Às vezes, não sei dizer o que foi mais importante: Chile ou Alemanha. Eu não escreveria se não tivesse passado por essas experiências. O título do meu livro de contos, Do lado de fora, traduz um pouco como eu me via como escritora. Esse olhar de quem está de fora, de quem não pertence totalmente. É um sentimento de sempre ser estrangeiro. Por estar olhando de fora, observando, talvez seja capaz de perceber alguma coisa que quem está “dentro” não perceba. Talvez essa seja uma marca da minha literatura, a experiência do estrangeiro.

Como fica seu afeto ao se deparar com a sensação de pairar sobre a vida?

CS – Já foi um problema bastante complicado na minha vida, por muitos anos, a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Eu sou muito flexível, me adapto rapidamente a muitos lugares. E, ao mesmo tempo, eu nunca me senti em casa em lugar nenhum. Tudo isso mudou quando comecei a escrever, a publicar. Estreei levando a literatura a sério, com o projeto de escrever todos os dias. Quando eu morava na Alemanha, era raro eu falar em português. Mas ficou claro que eu me sentia em casa com a língua portuguesa, não importava onde estivesse. Essa foi uma construção que fiz, criei uma identidade. E esse mundo que criei é em português, onde me encontro. Quando isso começou a ser construído, essa questão de não pertencimento deixou de ser um problema. A língua portuguesa é a minha casa.

Você trabalha como tradutora de alemão e espanhol. Como conciliar o ofício de escritora e tradutora?

CS – Depende muito do tipo de texto que se traduz. Mesmo quando se traduz literatura, depende do tipo de texto que o autor está usando. Quanto mais poética for a linguagem, mais o texto exige do tradutor. Há quem diga que o tradutor recria a obra. Eu penso que não, tento me manter a mais fiel possível ao autor. Há momentos que se manter fiel pode ser um risco, pode ser estragar o trabalho. Mas não me vejo como autora quando traduzo. Sou autora quando escrevo meus livros. E quando traduzo sou tradutora, e traidora (risos).

O que mudou desde sua estreia? Consegue analisar que transformações ocorrem até a publicação do romance Paisagem com dromedário?

CS – Eu consigo, infelizmente (risos). Não renego o primeiro livro. O início do que sou agora está no Do lado de fora. É claro que, com a experiência que tenho hoje, vejo defeitos nesse livro de estreia. Mas não renego. Com todos os problemas e defeitos, ele tem algo que me agrada. Vejo esse livro como algo necessário, o pontapé inicial.

Na sua literatura, os personagens estão sempre se desencontrando, buscando uma comunicação que não se estabelece por inteiro.

CS – Paisagem com dromedário se assemelha quase a uma performance, uma instalação. Há um gravador em cima de uma mesa, não tem quem fale ou ouça. O que esses livros têm em comum é a impossibilidade de comunicação, a mensagem que não chega. Essa imagem do gravador numa sala vazia no Paisagem com dromedário é a imagem da minha literatura. Assim como em Flores azuis temos a imagem da carta que chega para a pessoa errada. Temos sempre essa defasagem na comunicação, uma impossibilidade. Talvez esse seja o meu tema, que vejo como um ciclo que comecei com Toda terça e terminei com Paisagem com dromedário. Além dessa questão da impossibilidade da comunicação, são livros sobre o dizer. Como dizer alguma coisa? Em Toda terça, cada personagem monta sua versão e o leitor é aquele que monta o quebra-cabeça. A ideia do Toda terçaera dizer alguma coisa através do não dito. No Flores azuis, era trabalhar essa defasagem no dizer: uma mulher apaixonada que escreve cartas para o ex-amante tentando seduzi-lo, mas as palavras chegam para outra pessoa. É como vejo a questão do leitor e do escritor. Flores azuis funciona quase como um pequeno ensaio sobre a escrita e a leitura. Quando escrevo um livro, a ideia é seduzir o leitor. Mas quando seduzimos o leitor, normalmente, é pelos motivos errados. Os livros se separam do autor, adquirem vida própria. Já em Paisagem com dromedário, escolhi trabalhar com as gravações, quase como um radioteatro: há o barulho do mar, do liquidificador, das pessoas passando… Me interessa contar fugindo da palavra escrita, buscando a forma de dizer. Essas marcações pontuam o que a personagem está narrando. Os três livros são reflexões sobre como contar uma história.

A morte está muito presente em Paisagem com dromedário: “Gosto da ideia de que a escultura já está pronta, dentro da pedra, dentro do barro, e a gente apenas a encontra. Assim como a morte, também já está pronta, desde o início seu formato definitivo dentro do barro, e a gente apenas a encontra.” Como você lida com a morte?

CS – A morte, assim como o amor, é o tema. A personagem, Érika, vive o luto em todos os sentidos, não é só essa amiga dela que morreu. Quando ela vai para a ilha e começa a repensar a morte, tem a ver como penso. A morte não existe, não é palpável. A morte é um vazio, um buraco. O que existe é o contorno da morte. E através desse contorno conseguimos ver o formato, mas o que há ali dentro é o nada. Vivemos numa sociedade que tem medo de olhar para a morte. Quando não vivemos o luto, a pessoa não morre.

E a vida?

CS – A própria vida me encanta. Com todas as tragédias e dramas, o que me encanta na vida é a intensidade. Sou uma pessoa muito apaixonada, estou dentro da vida seja para sofrer ou ter grandes alegrias. Essa intensidade permite entender que há uma compensação. Na literatura é importante entender que um autor se constrói com o tempo. O talento vai se construindo, vamos andando e fazendo o caminho…

 


CECÍLIA GIANNETTI

 

FRAGMENTOS DE UMA (BEM HUMORADA) ESCRITORA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

Há dois ou três anos eu já ouvia falar que a carioca Cecilia Giannetti estava para lançar um romance. Ficava intrigado como comentavam tanto de um livro que ainda estava em produção. Finalmente, depois de ter ido ao seu lançamento, em Botafogo, no Rio de Janeiro, liLugares que não conheço, pessoas que nunca vi e entendi: a moça é uma talentosa escritora.

“Eu já escrevia contos desde 1998, e tinha a ideia pro romance. Foi mais lento de desenvolver que um conto, por isso demorou tanto tempo para ser lançado. É difícil dividir qualquer emprego diário e uma rotina de ‘frilas’ intensa com literatura”, explica Giannetti, e completa:

“Eu preciso ficar quieta. Demoro muito a escrever. Em geral peço demissão do trabalho. O que não vou poder fazer a esta altura da vida. Tenho que encarar que é necessário manter um emprego e ter cabeça boa para a madrugada. Não dormir é uma opção. A farmacologia está muito adiantada no sentido de manter-nos acordados ou manter-nos apagados, pode auxiliar bastante nesse caso”, ironiza.

No seu primeiro romance ela encaminha o leitor a um emaranhado de ficção e realidade. Pessoas, fatos, lugares e casos são revelados numa escrita fragmentada e constroem a narrativa. A cada página lida, se tem a sensação de desconstrução das coisas que estão ao redor.

“Alguns recortes de notícias de jornal são utilizados na história, transformados – nomes de lugares são trocados propositalmente, por exemplo, para mostrar que a cidade na qual o livro começa não é a mesma conforme a loucura avança na narrativa”.

Tentei entrevistar Cecilia pessoalmente, mas os contratempos não deixaram. O que ela considera bom, pois costuma dizer que se faz entender melhor escrevendo do que falando. Então aqui está a conversa, que aconteceu por e-mail, com essa mulher que tem cara (e jeito) de menina.

E, além de jornalista e escritora, ela ainda canta.

Lugares que não conheço, Pessoas que nunca vi. Como surgiu esse livro?

Cecilia Giannetti – Eu já escrevia contos desde 1998, e tinha a ideia pro romance. Foi mais lento de desenvolver que um conto, por isso demorou tanto tempo para ser lançado. É difícil dividir qualquer emprego diário e uma rotina de “frilas” intensa com literatura.

Percebo muito a influência do jornalismo no seu livro. Por quê?

CG – Não há qualquer influência do jornalismo no meu romance. Alguns recortes de notícias de jornal são utilizados na história, transformados – nomes de lugares são trocados propositalmente, por exemplo, para mostrar que a cidade na qual o livro começa não é a mesma conforme a loucura avança na narrativa.

Por que um livro com ilustrações?

CG – Conheço o ilustrador desde criança, há 20 anos. Tivemos uma banda, somos músicos, estamos juntos desde sempre. Achei natural que o meu primeiro romance fosse dividido com ele.

Você tem um blog chamado Escreveescreve. Como é sua relação com a Internet?

CG – Quase não tenho tempo para escrever ou ler blogs. Posto agora somente divulgação dos trabalhos – como lançamentos e palestras – ou um alô mais diferenciado de vez em quando, beirando a crônica.

Você já teve uma banda de rock. Como se estabelece essa relação entre música e literatura? Sente falta de cantar?

CG – Não sinto falta de palco. Nunca mais escrevi uma letra de música e passei anos sem pegar no violão. Canto em casa e me dou por feliz. Se eu fizesse música hoje, seria hip hop ou dixieland.

Sobre o projeto Amores Expressos, já começou a escrever o novo livro? Como foi a experiência em Berlim?

CG – Já comecei a escrever o livro. A experiência em Berlim tem um pouco do seu dia-a-dia relatado no blogdaceciliagiannetti.blogspot.com, estilo crônica.

Como acontece o seu processo criativo?

CG – Eu preciso ficar quieta. Demoro muito a escrever. Em geral peço demissão do trabalho. O que não vou poder fazer a esta altura da vida. Tenho que encarar que é necessário manter um emprego e ter cabeça boa para a madrugada. Não dormir é uma opção. A farmacologia está muito adiantada no sentido de manter-nos acordados ou manter-nos apagados, pode auxiliar bastante nesse caso.

De onde surgiu o seu interesse por literatura? Teve incentivo da família?

CG – Minha família não lê ficção, romances, contos. Só jornal e, de vez em quando, um tio distante aparecia com Lobsang Rampa. Fucei tudo sozinha.

E o que você leu? Quais são as suas referências?

CG – Referências mudam. Hoje gosto do Salinger, Borges, Paul Auster, Dave Eggers… É injusto tentar fazer minha cabeça juntar todos os nomes agora, de estalo. Gosto de muitos autores bastante diferentes entre si e leio várias coisas ao mesmo tempo.

Como enxerga os escritores da sua “geração”? Lê os seus contemporâneos? Quem?

CG – Enxergo-os muito bem, quando estou com minhas lentes, e acho alguns até bem apanhados. Leio todos eles, principalmente os bonitos.

Por que você escreve?

CG – Não sei não escrever. Prefiro não ter que fazer outra coisa. Gosto muito de correr e nadar. Mas a minha produção é a escrita, e algumas notas musicais que, modéstia à parte, quando estou num período em que fumo e bebo pouco, atinjo maravilhosamente bem com a garganta limpa.

O que você diria para jovens que desejam ser escritores?

CG – Escrevam diariamente. Tenham senso de humor. Leiam diariamente. Assistam a bons comediantes. O humor poderá ou não refletir na sua literatura, mas certamente vai preparar a sua alma para receber as coisas pesadas com que vai lidar ao escrever.

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