Poema Atravessado Pelo Manifesto Sampler

Na apresentação, o poema é lido pelo poeta Ramon Mello e simultaneamente sampleado pelo artista sonoro Siri.

Festival Sesc de Inverno 2013

 

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POEMA ATRAVESSADO PELO MANIFESTO SAMPLER

para Fred Coelho e Mauro Gaspar

I

invadir o corpo do mundo

aceitar

o

caos

atuar no esvaziamento das certezas

não copie e cole

se aproprie e recrie a realidade

use seu imaginário

carta de alforria para um primeiro

ato

nem todo início é um prólogo

II

acredite

você não é original

certo

apenas a pureza de um

mito

a pressão não

é

simples

pratique

sequestro saque captura

de palavras

não comunique aos pais

toda palavra é

órfã

não

existem palavras

finais

toda palavra

é

começo

pirata capitão buquineiro

promessa de geração

00

remix de ideias

souvenirs

alô wally

ah se você ainda estivesse por aqui

não escrever sobre

não descrever ou reproduzir

o mestre

produzir escrever produzir

eu

estou menino

em suas palavras

não chame meu nome em vão

salte a pedra

no caminho

III

seja atravessado pelos poetas que lê

aniquile as referências

um coletivo de enumerações

faça

literatura sem agradecer a raduan

ou adalgisa

faça

você seu retrato

enquanto jovem

encontre suas ideias

a partir de

apesar de

(lembra dela?)

apesar

de

invasor

ao combate

quais os limites

do texto?

autores originais

não mais

viva de uma forma política

crie assim

invada a cidade

invente

coloque tudo para dentro

para depois respirar

sentir e notar

você

eu estou colocando

pra dentro

o chocolate

de tanto olhar

ler

IV

propriedade coletiva

eu sou vocês

sou eu nos

reconhecemos nas palavras

lidas e não ditas e não lidas

também

percebe

posse-criação

os mentirosos

são dignos

do amor

deus

em latim é fingidor

da via

criação

escreva tudo

com essa mão nervosa

escreva escreva

as vozes que habitam

em ti

no papel

selvagem caótico

esse texto não é

seu nem meu

esse texto pertence

apenas

ataque

perigo ritmo

sem receio da autocrítica

se aproprie dos rótulos

para destruí-los

plagiador sabotador

coroe sua intimidade

perturbe

seus pares

não os deixem

presos

no século passado

o aprendizado

as vanguardas e a tradição

modos de usar

sua língua

esqueça os ismos

a divisão didática

atravesse

seja tático

V

cale

a boca de quem

não se posiciona

no espaço

torne seu o que é

do outro

provoque todas

as encenações institucionais

modo de fazer

aprender fazendo

seu trabalho

diário

manipule a história

alheia escreva a nossa

invente

seja autor inventor

o leitor

deve reconhecer seus passos

caminho percorrido

está

tudo no passado

o futuro se tropeça

com ele

a poesia se esfrega nas coisas

percebe?

ao acordar veja as coisas

como

as coisas todas

espalhadas livros jornais

mesquinhez de sua relação

amorosa

você pode abrir sulcos na escrita

fluxos

corpo é texto

é corpo

emancipe sua escrita

deixem falar mal

amanhã

estão todos lambendo seu rabo

discuta apenas sua

existência

na palavra

leia

escreva

como quem atravessa

o leitor

subverta

transforme o meio com a palavra

transtextual

células trans

transexual

exu contemporâneo se aloja no outro

passado tomando o presente

de cavalo

VI

ultrapasse

a si mesmo

não trapaceie é fatal

amadureça

a experiência

seja através

dos outros

a verdadeira história da literatura

uma história de ladrões

experiência

número infinito

o homem forte vive

lembre dos outros

entenda

as relações de força

você ouviu de um artista de plástico

vale tudo só não vale

qualquer

coisa

as coisas negras são

tão bonitas

menos o cavalo

beba

ice tea light

com limão e gelo

lipton com muita cafeína

no cafeína

não imite

escreva a partir

de

dobre a linha da folha

dobre-se

você sabe que o papel

só pode ser dobrado

sete vezes

hum

modo de

de experimentar

os espaços

nascemos com os mortos

sempre

o fim é o meio

novo desvio

novidade sem novidade

caminho literário cercado de música

ouça

não é preciso citar

não é

faça

teses para corrompê-las

o texto tem sentidos

não

sentido

fazer ao ler

a linguagem não indica sentido

mas possibilidades

as palavras

penetram em você

ou não

use todos os guardanapos

do café

com leite e biscoito de maisena

(compensando os 10% de mal atendimento)

ganhar força com as ideias

pense no tempo

em nosso tempo

tempo

tempo

tempo

tempo

silêncios

incorporados na escrita

esquecimento como aprendizado da escritura

invasão pela leitura

esse poema não tem

fim

é o meio


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