Bruno Albertim, do Jornal do Commercio, de Pernambuco

1. Você diz que o livro surgiu ao perceber o desejo de Ney de olhar para a própria trajetória. Como e quando percebeu esse desejo? E como decidiram que ele seria escrito em primeira pessoa?

 

Ramon Nunes Mello – Minha percepção sobre o desejo de Ney olhar a própria trajetória tornou-se evidente a medida que nos tornamos amigos e conversávamos. Ao conhecer Ney, em 2011, imediatamente nos tornamos amigos. A cada conversa a amizade amadurecia e, consequentemente, a confiança de se conversar sobre todo e qualquer assunto. Até que tomei a decisão de convidá-lo a fazer um livro em parceria, a ideia desde o princípio foi escrever um livro com a colaboração dele, como foi realizado. A intenção inicial era fazer um livro com pesquisas, com registros das matérias mais importantes sobre sua trajetória artística. Entretanto, a medida em que pesquisava, eu percebia que mais interessante do que a percepção de alguém sobre Ney Matogrosso era o seu olhar sobre a sua própria história. Assim, conversamos e propus que o livro pudesse ser um longo depoimento, memórias em primeira pessoa composto por entrevista e pesquisa. Dessa forma chegamos ao “Ney Matogrosso – Vira-Lata de Raça”, onde cada capítulo foi pensado em conjunto a partir das proposições narrativas que eu apresentava.

 

2. Quando escrevemos, há sempre, mesmo que inconsciente, a necessidade de impor recursos de estilo para que o texto seja mais plausível ou de maior magnetismo. Como foi a negociação entre você, escritor, e o Ney, personagem, para que sua dicção fosse o mais integramente preservada? Você transcreve literalmente a oralidade de Ney?

 

RNM – Tive toda liberdade possível para escrever o livro, Ney não proibiu absolutamente nenhum assunto. Optei em aproximar ao máximo a dicção do Ney no texto, em cada palavra. Quando Ney não se reconhecia em alguma palavra ou expressão, ele era muito sincero: “Eu não falo desse jeito. Vamos colocar de outra maneira...” O diálogo com Ney durante todo o processo de escrita do livro favoreceu para que a dicção dele fosse preservada. Além disso, uma preocupação constante era com a estrutura da narrativa, o desenrolar dos fatos que estavam sendo relatados.

 

3. Comente melhor, por favor, como o conceito de biografema de Rolland Barthes ajudou você a construir as memórias de Ney?

 

RNM – A opção por definir a escrita a partir do prisma do biografema e não da biografia, trata-se de delimitar a livre-produção textual na medida em que não deriva de significados cronológicos e amplos (como a biografia pressupõe), o biografema enfatiza imagens, cenas, gestos, fragmentos textuais, pulsões e a partir disso opera significâncias. Escrever sobre uma vida não é uma tarefa simples, e tratar da vida de um artista de trajetória tão vasta de fazeres e de longa trajetória de tempo não seria algo que me interessava no sentido de tratar dos temas mais óbvios e comuns e elenca-los de modo sucessivos. A noção de biografema, proposta por Roland Barthes, foi uma escolha metodológica potente que atendia meu propósito de construir uma narrativa de detalhes e simbologias, aberta à criação de novas possibilidades de se dizer, acompanhando desse modo uma mudança na abordagem em relação a própria vida biografada. Trata de uma outra postura de leitura, de seleção e de valorização dos significados da vida, pois ao invés de percorrer as grandes linhas narrativas da biografia, a prática biografemática volta-se para o detalhe, para a potência daquilo que é íntimo numa vida. Por tratar-se de um livro de depoimentos e não propriamente uma biografia, encontrei nessa escolha uma maneira válida do próprio sujeito escrito tornar-se também um criador, um fabulador da sua realidade.

4. Gilberto Freyre, por exemplo, inaugurou um tipo de sociologia no Brasil, hoje comum, que diz que os fatos comezinhos e cotidianos têm tanta ou mais importância para a construção das narrativas histórico-sociais que os fatos oficializados. Como foi sua equação? O que lhe movia mais, como investigador: o detalhe, a subjetividade, ou os grandes capítulos da trajetória oficial de Ney?

 

RNM –O que sempre me moveu na tentativa de criar uma identidade dialógica com o Ney foi de buscar para além da persona Ney Matogrosso, quem era Ney de Sousa Pereira partindo de sua narrativa sobre temas, detalhes e memórias de fatos do cotidiano de sua longa carreira, desse modo tanto a subjetividade como os detalhes de retalhos de memórias auxiliaram na escolha dos temas elencado para estruturar o livro em capítulos, que para além da trajetória oficial e cronológica contam sobre seu cotidiano simbólico, seu imaginário e sua identidade híbrida.

 

5. O tempo inteiro, Ney afirma ter sido guiado pela coerência com suas verdades. Em algum momento, ele deixou de ser coerente com seu pensamento? 

 

RNM – Com toda certeza, posso afirmar que o pensamento do Ney Matogrosso é coerente, continua tendo a liberdade como guia de suas ações. Acredito que essa coerência é o que lhe traz o sentido de vida. Se alguém analisar suas declarações públicas, poderá comprovar o que digo, a coerência do pensamento de Ney é constante no decorrer de sua vida pública.

 

6. A História, lato senso, seria uma grande ficção de adesão social - a narrativa oficial seria construída por atores sociais com capacidade de gerar unidade e hegemonia com a conciliação das contradições. Digo isso para lembrar que, de alguma forma, memória também é ficção. Editamos e analisamos internamente os fatos vividos para depois reproduzi-los como memória - mesmo de forma inconsciente. Em algum momento da construção do livro, foi preciso contrapor o relato de Ney com a objetividade dos fatos? Contradizê-lo?

 

RNM – Durante o processo de elaboração do livro, fui apurando as histórias nas pesquisas, batendo as versões. Mas não teve um episódio de precisar contradizer Ney, pelo contrário, muitas vezes ele corrigia os fatos que estavam distorcidos em alguma declaração. O que me impressionou foi o Ney ter uma memória bastante viva de contava, inclusive os detalhes.

 

7. Ney continua ainda uma pessoa muito tímida? Isso, de alguma forma, travou em algum momento as entrevistas?

 

RNM – Não penso que Ney seja tímido, ele é reservado no que diz respeito a sua intimidade. Em relação a sua trajetória, às entrevistas, ele sempre agiu de forma aberta ao diálogo, com verdade e generosidade. Em nossos encontros, as conversas sempre foram fluidas e profundas, acredito que a confiança conquistada na amizade facilitou o trabalho de criação do livro.

 

8. Por fim, gostaria que comentasse sobre as pesquisas e seleção de imagens? De onde vieram? Do arquivo do próprio? Ele tem esse zelo em manter peças objetivas de sua trajetória como fotografias? 

 

RNM – Eu realizei a pesquisa de imagens no decorrer do processo de pesquisa de suas declarações. Na medida que escolhia os assuntos que iriam compor o livro, pesquisava as imagens de forma mais objetivas. O Ney também colaborou na pesquisa das imagens, assim como a editora Isa Pessoa, quando o livro estava mais próximo para ser finalizado. E também posso dizer que tivemos a sorte de contar com o acervo do fotógrafo Ary Brandi que acompanhou a trajetória do Secos & Molhados, por exemplo, então tivemos acesso a um registro raro e inédito.


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