por Arthur Nunes

 

Entrevista concedida para a dissertação de Mestrado de Arthur Vinicius Anorozo Nunes, mestrando matriculado no programa de pós-graduação em Linguística da UFSC, sob a supervisão do orientador Dr. Atilo Butturi Junior, no dia 14 de janeiro de 2018.

Perguntas:

1-    Mariana Ianelli, quando comenta sobre seu há um mar no fundo de cada sonho, fala sobre uma “claridade, frugalidade e uma vida simples e lúcida em estado de oração” (IANELLI, 2016)  presentes em seus poemas, como percebemos na relação que você estabelece com a natureza e na exaltação de rituais religiosos ligados ao uso da ayahuasca, por exemplo. Assim, Ianelli dirá que decorrente dessa “expansão da consciência pela escrita, há uma busca da beleza, do êxtase e do amor” (IANELLI, 2016), uma “espécie de necessidade vital” (IANELLI, 2016). Tal ideia também se faz presente na epígrafe de abertura do seu texto, por meio dos versos da poetisa portuguesa Sophia Andresen, que dizem “ Dai-me a claridade daquilo que é exatamente necessário./ Que a vida seja limpa de todo luxo e de todo lixo” (ANDRESEN apud MELLO, 2016, p. 9). Essas características dialogam com a ideia de finitude da vida – tema muito presente em seus poemas – mas reforçando mais o ato de viver do que de morrer.

Trazendo essa discussão para o contexto atual do hiv e da aids, onde assiste-se a uma perspectiva de cronicidade, de um “viver com o vírus” e uma consequente ressignificação do discurso da finitude depois de quase duas décadas de uma aproximação do hiv/ aids com a temática de morte, você acredita que esses discursos no seu texto são possíveis graças a esse novo cenário que se vislumbra na vida dos portadores de hiv? E de que modo você acredita que essas características da sua literatura contribuem para novos discursos sobre hiv/aids?

Ramon Nunes Mello - Esse novo cenário do "viver com o vírus" é consequência de uma série de fatores: a melhoria da qualidade de vida através das novas medicações e do pensar sobre a experiência - trabalho sensível de pesquisadores, médicos, ativistas... Sobre minha literatura, posso lhe dizer que a revelação da minha sorologia positiva, a ciência do vírus no meu organismo, me fez rever minha vida, no sentido de buscar a simplicidade. Tento levar essa busca para os meus poemas. A forma como consigo acessar o que é essencial em minha vida através do contato com a poesia, em diálogo com o sagrado para mim: a alegria dos cantos indígenas, a prática do silêncio e da meditação que aprendo com o yoga, e o êxtase através do uso ritual da ayahuasca. Interessa-me mais a expansão do que a alteração da consciência, no sentido de ampliar a percepção da realidade através da presença. Acredito que tudo isso, me faz repensar a relação com a própria palavra, e consequentemente com a linguagem. Quando digo que a linguagem é o verdadeiro vírus, estou afirmando que acredito no poder transformador da palavra que pode ser na forma como abordo a experiência com o HIV e/ou no modo que escrevo meus versos. Minhas inquietações sobre as questões que surgem sobre o viver com o HIV e a linguagem são motivações para continuar escrevendo e pesquisando... Por isso, resolvi criar uma antologia de poemas (ainda inédita) chamada “tente entender o que tento dizer”, tendo o HIV/AIDS como temática, em que convido centenas de poetas de diferentes sorologias, gêneros e gerações para escrever sobre a experiência com o vírus. Penso que, três décadas após o surgimento da epidemia, podemos aprofundar a questão do HIV/AIDS na literatura brasileira, especificamente na poesia. Como é essa “literatura pós-coquetel” produzida no Brasil? Nesta era “pós-coquetel”, em que a resposta brasileira à epidemia de HIV/ AIDS, antes exemplo mundial, tem se enfraquecido diante do retrocesso conservador e persistência do preconceito, estigma e moralismo, como a literatura, sobretudo poética, tem registrado as formas de apreensão da infecção? A temática do HIV/AIDS no campo das artes pode ser considerada como estratégia política de atuação e visibilidade? A poesia pode ser vista como forma de reação ao diagnóstico? Nesse sentido, é possível uma literatura de HIV/AIDS? Essas são algumas perguntas que me faço quando penso na poesia, na linguagem, e o vírus.

2-    José Castello, em texto que faz referência a há um mar no fundo de cada sonho, comenta sobre o poema “A mudança”, apontando que “mudar [...] não é transformar-se em outra coisa, mas chegar àquilo que já se é” (CASTELLO, 2016). O poema trata, segundo ele, de um “chegar a si, livrando-se de todos os adornos, automatismos, máscaras, disfarces que o mundo de hoje nos obriga a vestir para sobreviver” (CASTELLO, 2016).

Essa afirmação me faz lembrar de um texto de Foucault, em que o filósofo também recorre a metáfora da máscara para falar da formação de nossa identidade, de onde extraí a citação que gostaria de apresentar agora a você:

Pois esta identidade, bastante fraca contudo, que nós tentamos assegurar e reunir sob uma máscara, é apenas uma paródia: o plural a habita, almas inumeráveis nela disputam; os sistemas se entrecruzam e se dominam uns aos outros. Quando estudamos a história nos sentimos felizes, ao contrário dos metafísicos, de abrigar em si não uma alma imortal mas muitas almas mortais. [...] O primeiro resultado é que nós compreendemos nossos semelhantes como sistemas inteiramente determinados e como representantes de culturas diversas. [...] A história, genealogicamente dirigida, não tem por fim reencontrar as raízes de nossa identidade, mas ao contrário, se obstina em dissipá−la; ela não pretende demarcar o território único de onde nós viemos [...], ela pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam.[...] Se a genealogia coloca, por sua vez, a questão do solo que nos viu nascer, da língua que falamos ou das leis que nos regem, é para clarificar os sistemas heterogêneos que, sob a máscara de nosso eu, nos proíbem toda identidade. (FOUCAULT, 2007, p. 22)

Se nas décadas de 80 e 90, a identidade do sujeito soropositivo era marcada por uma série de estigmas e preconceito – principalmente aqueles relacionados a uma homossexualidade e uma promiscuidade – amplificada, inclusive, pelo caráter folhetinesco e sensacionalista da mídia em geral, atualmente, pode-se dizer que há todo um movimento que visa não apenas desconstruir o caráter de culpa atribuído a certos “grupos de risco” –  que nada mais são do que categorias discursivamente criadas em tempos-espaços específicos – mas também de dessubjetivar essa figura do “sujeito aidético” que víamos nos início da epidemia e que ainda se faz tão presente em nossa memória discursiva – como os discursos que aparecem na grande mídia.
Para você, Ramon, essa “força de prevalecer no ser” (MELLO, 2016, p. 51), de “ancorar a presença no corpo” (MELLO, 2016, p. 51) , resulta de uma resistência em se deixar agenciar por essas múltiplas máscaras que tentam codificar o sujeito dentro de subjetividades específicas? Em outras palavras, a relação que se estabelece entre poesia e existência em seus textos contribui para uma identidade mais livre das imposições discursivas a que os sujeitos estão submetidos? Há a busca de uma singularidade existencial em sua poesia? Como sua existência é formulada por meio da escrita?

Ramon Nunes Mello - Difícil responder sua pergunta, Arthur. Poderia tentar lhe responder com versos do meu "Poema atravessado pelo manifesto sampler" (Poemas tirados de notícias de jornal, Móbile, 2011): "se aproprie dos rótulos / para destruí-los". É o que tento praticar. A escrita, a poesia, me permite transitar/vivenciar essa multiplicidade de identidades, a construção/desconstrução de uma subjetividade livre. Penso que em toda escrita é importante a busca pela singularidade, que podemos chamar de voz ou de linguagem. A existência é atravessada e construída por histórias simultaneamente se alimentam, creio que a minha não seja diferente. A questão é que eu tento fazer de algumas dessas experiências (e criar) literatura: poesia. Nem sempre consigo.

“Poema atravessado pelo manifesto sampler”:

 

 

3-    Você poderia falar um pouco sobre aquilo que pode ser entendido tanto como “literatura da aids” ou como “literatura pós-coquetel” e que se refere basicamente a toda literatura que se inspira ou trata da temática do hiv e da aids no Brasil? Você acha que essa literatura ajuda e ajudou a ressignificar os discursos sobre hiv e aids no país? No que a literatura das décadas de oitenta e noventa do século XX difere, substancialmente, da atual, quando se trata dos discursos sobre o hiv e a soropositividade?

Ramon Nunes Mello – A “literatura da Aids” é composta não somente por ficção e poesia, mas principalmente por artigos acadêmicos, relatórios, entrevistas, artigos, ensaios e livros de depoimentos – esses últimos, ao meu ver, estão sendo aos poucos substituídos pelos canais de youtubers especializados no tema.  O que me interessa mais é a literatura que pensa a questão da linguagem, pesquisas específicas sobre o tema, e a criação literária de ficção e poesia que é feita tendo o HIV/AIDS como temática. E não precisa ser necessariamente uma literatura produzida por quem está soropositivo, me interessa muito mais as diferentes abordagens feitas por escritores/poetas estejam eles soropositivos ou não. Digo “estar” soropositivo e não “ser” pois creio que ninguém é a própria doença. No Brasil, abordagem do HIV/AIDS na literatura foi melhor representada por Caio Fernando Abreu, a partir da visão dos anos 80: pânico e morte. O pesquisador Marcelo Secron Bessa fez um excelente levantamento, falando da abordagem do HIV/AIDS não só na obra de Caio F. como também na obra de Silviano Santiago, Herbert Daniel, João Silvério Trevisan, Bernardo Carvalho.... Mas na literatura contemporânea, digo dos anos 90 até o momento presente, a produção é escassa, há muito mais livros de depoimentos. É aqui que entra a “literatura pós-coquetel”, conceito cunhado pelo pesquisador Alexandre Nunes Sousa (UFBA), que aborda a literatura produzida após a introdução do TARV, exercendo assim uma outra perspectiva sobre o tema que não o sinônimo de morte. É o que estou investigando ao elaborar a antologia de poemas, “Tente entender o que tento dizer” , o que noto é uma abordagem mais voltada para a linguagem, o tempo, o amor, e, principalmente, o corpo. Percebo algo que acredito: corpo é texto. De forma lenta e gradativa, penso que essa literatura colaborou/colabora para ressignificar os discursos sobre HIV/AIDS no Brasil. A ressignificação de um discurso tão forte é modifica através de diversos fatores: políticas públicas amplas, atuação de ongs e ativistas, estudos de pesquisadores e cientistas, aperfeiçoamento do trabalho dos jornalistas, etc... A literatura é uma peça nessa engrenagem cheia de contradições e especificidades que é a história do HIV/AIDS.

No texto de Danilo Melo e João Penna, intitulado Literatura e hiv/aids: reflexões da era pós-coquetel, os autores apontam para o fato de que “a partir do surgimento da TARV as discussões públicas sobre a aids começam a diminuir [...] pondo fim à espetacularização das histórias dos soropositivos iniciada nos anos 1980” (MELO; PENNA, ?, p. ?). Além disso, os autores também problematizam as políticas de cunho conservador e o fundamentalismo religioso cada vez mais comuns no espaço público brasileiro, que impedem ainda mais a disseminação e ocorrência dessas discussões. Mas comentam também sobre aquilo que chamam de “literatura pós-coquetel”, incluindo aí o rico e vasto material hoje produzido na cultura digital, como em blogs e no Youtube, por exemplo. Assim, os autores destacam alguns temas comuns dessa literatura: confrontação com os discursos da aids nas décadas de 80 e 90, a partir de um aspecto de cronicidade possibilitado aos portadores de hiv por meio da TARV, a relação que se estabelece entre esses sujeitos e os medicamentos e terapias que utilizam, a superação de diferentes formas de estigma e preconceito, os relacionamentos sorodiscordantes, a autodescoberta da espiritualidade, entre outros. No que diz respeito a sua literatura de modo geral – e aqui faço referência não apenas a sua obra poética, mas também aos outros textos que você escreve –  em sua relação com a experiência de discursivização do hiv, quais são os temas que te interessam? Em outras palavras, do que trata sua literatura de forma geral no que diz respeito ao hiv e a aids?

Ramon Nunes Mello - Os temas relacionados ao HIV que me interessam dizem respeito a vida, no sentido de como lidar com vírus e ressignificar a existência, através da nova dinâmica que se estabelece com o corpo, a mente e o espírito. De uma forma geral, penso que em relação a minha literatura e o HIV está a o desejo de liberdade, de se falar do que tenho vontade, da minha vivência com a poesia, ou da ayahuasca, ou do sexo, ou do corpo.

Muito Obrigado!

Eu que agradeço o diálogo, Arthur.

REFERÊNCIAS

CASTELLO, José. A queda em si: a sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade. 2016. Disponível em: <http://rascunho.com.br/a-queda-em-si/ >. Acesso em: 08 jan. de 2018,

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 24.ed. São Paulo: Edições Graal, 2007.

IANELLI, Mariana. Ramon Nunes de Mello mostra relação mais íntima com a palavra em seu terceiro livro, Estadão, São Paulo, 2016. Disponível em: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,ramon-nunes-mello-mostra-relacao-mais-intima-com-a-palavra-em-seu-terceiro-livro,10000059189. Acesso em: 08 jan. de 2018.

MELO, Danilo Rodrigues; PENNA, João Camillo. Literatura e HIV/ AIDS: reflexões da era pós-coquetel. Revista Z Cultural.Disponível em: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/literatura-e-hivaids-reflexoes-sobre-a-era-pos-coquetel/. Acesso em:

MELLO, Ramon Nunes. Há uma mar no fundo de cada sonho. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2016.


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