Schneider Carpeggiani, do Jornal do Commercio de Pernambuco

 

1 - Há a famosa frase de que "depois que se morre, todo mundo vira Ana Cristina César". Até que ponto isso pode ou está acontecendo com o Rodrigo?

Ramon Mello – Essa frase é polêmica, pois parece não reconhecer o valor da obra da poeta Ana Cristina Cesar. Rodrigo quis dizer que o autor só ganha reconhecimento quando morre de uma tragédia. Não concordo totalmente com essa frase, até porque Rodrigo foi publicado em vida, bem recebido pela crítica, inclusive indicado ao Prêmio Portugal Telecom 2009 com o romance de estréia, Todos os cachorros são azuis (7 Letras, 2008). Por outro lado, a mídia passou a se interessar mais pelo texto de Rodrigo de Souza Leão quando soube de sua história pessoal. O que Rodrigo pode nos oferecer de mais interessante é sua produção intelectual, seus livros. A vida do Rodrigo servia de matéria-prima para sua produção literária. Mas o que interessa é o modo como ele escreve, misturando gêneros diversos, desafiando os limites entre ficção e realidade. A escritora Suzana Vargas, que foi professora do Rodrigo, fez uma excelente resenha sobre o Me roubaram uns dias contados (Record, 2010), em que ela afirma: “São 335 páginas de um quase tratado ficcional de uma não-ficção no sentido mais literário que se possa dar ao termo. Personagens, não personagens, episódios múltiplos aparecem e somem através de um narrador, alter-ego do autor, que reflete sobre sua criação e criaturas, sobre seu mundo interno e externo.” 

 

2 - O que lhe despertou na obra dele, a ponto de organizar esse trabalho com a Record?

Ramon Mello - O que me despertou foi a sinceridade de sua narrativa, fragmentada, composta por personagens imaginários fascinantes. Uma das características mais marcantes de sua escrita é a modo como Rodrigo consegue misturar realidade e ficção, por vezes se inserindo na narrativa, extraindo daí vozes distintas que fogem do lugar comum. Tive acesso aos textos inéditos de Rodrigo, quando Antonio Leão, pai de Rodrigo, me convidou fazer a organização. O trabalho consiste ler os livros que Rodrigo deixou, além de consultar o material que ele enviou por e-mail para alguns amigos que acompanhavam seu processo de criação, como os poetas Leonardo Gandolfi (que escreveu a apresentação do Me roubaram uns dias contados) e Silvana Guimarães. Ele escrevia obsessivamente no computador, a maior parte do arquivo é composta por CDs e disquetes. A intenção é organizar o arquivo para doar a Fundação Casa de Rui Barbosa. As telas de Rodrigo também devem ser doadas.

 

3 - Você percebe alguma conexão da ficção dele com os quadros que ele pintava? Ou a ficção dele era uma obra isolada?

Ramon Mello – Percebo uma conexão das telas com a escrita dele, não o contrário. Algumas telas foram batizadas com nomes relacionados à literatura, por exemplo, a tela que ilustra a capa do livro Me roubaram uns dias contados chama-se ‘A Morte do Saci’. Mas não sou um estudioso de artes plásticas para analisar o assunto. Posso dizer é que as telas de Rodrigo foram produzidas de maneira intensa, durante os três meses que freqüentou as aulas de João Magalhães na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Não entendo a ficção de Rodrigo como uma obra isolada, penso que dialoga com sua própria vida. “Escrever foi o que me sobrou. De tudo que tive, foi o que me restou a fazer. Por que escrever?”, foi o que Rodrigo me respondeu quando perguntei por que ele escrevia. Rodrigo de Souza Leão é um escritor que mergulhou em seu rico inconsciente para apresentar personagens que têm muito a dizer. 

4 - Você chegou a conhecê-lo, se sim como foi o contato?

Ramon Mello – Meu interesse pela obra de Rodrigo de Souza Leão surgiu ao ler seu primeiro romance Todos os cachorros são azuis.  Não o conhecia, embora Rodrigo já publicasse bastante na internet, principalmente no blog Lowcura – onde estão alguns poemas seus. Tive apenas um encontro pessoal com Rodrigo, durante uma entrevista que realizei para o Portal Literal, onde trabalhei como repórter. Entrevistei o Rodrigo numa quinta-feira às três da tarde, desde então ele passou a me ligar todas as quintas no mesmo horário. Ele ligava para o celular e ficávamos conversando sobre literatura, principalmente dos livros dele. Nessa época, eu tinha interesse de levar Todos os cachorros são azuis para o palco. Então, conversamos e ele liberou os direitos, me enviou uma carta de autorização.

 

5 - Como você classificaria o romance Me roubaram uns dias contados? Que outras obras dele vão fazer parte dessa coleção?


Ramon Mello –
Não classificaria para não aprisioná-lo. Diria que se trata um texto ficcional escrito por um poeta.Rodrigo não utiliza persona para escrever. Ele aceita sua condição e escreve com sinceridade, sem perder o humor e a ironia. Rodrigo aciona elementos internos e externos para composição do texto. Me roubaram uns dias contados foi escrito a partir de colagens de outros textos, Rodrigo juntava o texto inédito com trechos de poemas e contos, ou frases alheias. Rodrigo sofria de esquizofrenia, de alguma forma sua produção literária reflete esse universo. No entanto, ele era um poeta acima de tudo. Após o Me roubaram uns dias contados, a editora Record vai publicar outros títulos inéditos de Rodrigo, um por ano: O Esquizóide e Carbono Pautado. E, ainda em julho deste ano, a editora 7Letras vai publicar a segunda edição do livro Todos os cachorros são azuis.


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