Ronaldo Bressane – Brasil Econômico

1 - Qual foi seu trabalho na organização do livro? Rodrigo o deixou na
ordem que está? Era um arquivo só, vários arquivos que você reuniu,
como foi esse processo? Como teve acesso aos inéditos?

Ramon Mello – Tive acesso aos textos inéditos de Rodrigo de Souza Leão, quando Antonio Leão, pai de Rodrigo, me convidou fazer a organização. O trabalho consiste ler os livros que Rodrigo deixou, além de consultar o material que ele enviou por e-mail para alguns amigos que acompanhavam seu processo de criação, como Leonardo Gandolfi e Silvana Guimaraes. Ele escrevia obsessivamente no computador, a maior parte do arquivo é composta por CDs e disquetes. Há pouco texto manuscrito, só alguns rascunhos. Me roubaram uns dias contados estava gravado num CD, foi assim que recebi. Rodrigo chegou a enviar esse livro para revisão, antes de inscrever na Bolsa de Criação Literária da Petrobrás 2009. Inicialmente o livro foi intitulado de Tripolar porque se tratavam apenas de três capítulos, chamados de “livros”. Depois ele escreveu um quarto capítulo e mudou o nome para Me roubaram uns dias contados, como Gandolfi explica na apresentação. Na editora Record, o livro foi enviado para uma nova revisão, onde procuramos padronizar a grafia de algumas palavras que se repetiam de forma distinta ao longo do texto, por exemplo: TV e tevê. Optou-se pela grafia que mais freqüência. Não mexi nas frases, nem alterei a estrutura do texto.


2 - Há muitas repetições, sobretudo no Livro 2, o que, a meu ver,
tornam o livro irregular. Em algum momento foi tentado a editá-las?

Ramon Mello – O objetivo de Rodrigo era escrever um livro 600 páginas, talvez por isso a repetição.  Não pensei em editar em nenhum momento porque optei em respeitar o trabalho realizado pelo autor, que considerava o livro pronto. Me roubaram uns dias contados foi escrito a partir de colagens de outros textos, Rodrigo juntava o texto inédito com trechos de poemas e contos, ou frases alheias. Essa foi a maneira que ele criou esse livro.


3 - Acha que a morte e a condição de esquizofrênico de RSL podem
colocar sua obra no nível do fetiche literário?

Ramon Mello – Essa é a minha maior preocupação. A imprensa em geral comenta muito sobre o aspecto biográfico do autor, mas o que interessa é sua produção literária. Rodrigo sofria de esquizofrenia, de alguma forma sua produção reflete esse universo. No entanto, ele era um poeta acima de tudo. Ele já escrevia seus textos antes do primeiro surto. Rodrigo de Souza Leão é um escritor que mergulhou em seu inconsciente para trazer para ao papel personagens ricos, que têm muito a dizer.  Espero que a crítica literária possa olhar para seus livros sem esse fetiche.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates