Entrevista com Ramon Mello

por Diana de Hollanda

    

crédito: Tomás Rangel

Diana de Hollanda - Vamos começar do começo; o Click(In)Versos foi o começo?
Ramon Mello - Escrevo minhas histórias desde os 12/13 anos, usando cadernos e mais cadernos, rabiscando. Quando tomei conhecimento da existência dos blogs, fiquei fascinado com a possibilidade de experimentação e divulgação da escrita. Os blogs têm 10 anos no Brasil, mas só criei um em 2004: Sorriso do Gato de Alice. Lá publico meus rascunhos; é um bloco de notas. Em 2006, quando trabalhei no portal Click21, resolvi criar um blog de entrevistas com escritores para me aproximar da produção contemporânea: o Blog Click(In)Versos. Fiquei tão interessado pela produção nos blogs que resolvi concluir meu curso de jornalismo com uma monografia sobre o tema: Blografias. Analisei – sob a orientação da professora Joelle Rouchou – a produção de alguns escritores e jornalistas, pontuando as frequentes mudanças na blogosfera. Através dos meus blogs, conheci o cineasta Murilo Salles – que me convidou para um debate sobre literatura e blogs, após uma sessão do filme Nome Próprio. Na plateia estava presente a crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda, assim a conheci. Em seguida, Heloisa me convidou para integrar a equipe do Portal Literal, então passei a colaborar com alguns projetos. ENTER – Antologia Digital é resultado de um encontro.

D - Você co-organizou a antologia digital Enter; o que se buscava foi alcançado? O que se buscava? O que foi alcançado?
R - A ideia do ENTER é reunir autores que tem relação com a palavra na web, sejam eles poetas, músicos, escritores, atores, quadrinistas, cordelistas... Pesquisei mais de 300 nomes e apresentei à Heloisa Buarque, que me solicitou mais. Conversamos sobre cada um deles em reuniões infinitas, até que Heloisa deu a palavra final dos escolhidos. Buscávamos fazer um recorte: reunir os autores numsoftbook e levá-los a público sob o olhar de uma crítica. Foi alcançado? Sim. Há nomes representativos da produção contemporânea: Carol Bensimon, Fábio Lyra, Omar Salomão, Índigo... Mas, como em toda antologia, há sempre autores excelentes que ficam de fora.

D - Dessa parceria, entre você e Heloisa, nasceu o Escolhas? Como pensou a organização do livro?
R - Exatamente. Heloisa é muito generosa. Descobri, através do escritor Bernardo Carneiro Horta, que Heloisa tinha um texto biográfico, realizado para um trabalho acadêmico. Li o texto e fiquei impressionado com a quantidade atividades que ela exerceu (e ainda exerce). Pensei que o material merecia ser divulgado, então conversei com Eduardo Coelho, na época meu editor na Língua Geral. Juntos, pensamos que o livro poderia ser uma bela homenagem aos 70 anos de uma professora que se dedica profundamente a entender o mundo contemporâneo. Heloisa vive o tempo de hoje, com olhar à frente. A ideia foi registrar esse olhar; o livro foi dividido em duas partes: a primeira sobre sua atuação no passado, composta pelo texto do memorial acadêmico; e a segunda um texto atual escrito por ela, a partir de uma série de entrevistas que fiz durante mais dois meses. Conversamos muito para conceber o livro, Heloisa tem muitas histórias interessantes, mas tivemos que buscar temas recorrentes na pesquisa dela: antologias, cultura digital, periferia...

D - Os seus blogs são uma ferramenta importante para a divulgação profissional? Que retorno eles já te deram?
- Não estaria respondendo a suas perguntas se não tivesse começado a escrever o Click(In)Versos e o Sorriso do Gato de Alice. Quando realizo algum trabalho na área de mídias digitais, lembro sempre dos meus blogs. Fui trabalhar no SaraivaConteúdo porque os editores conheciam a produção do Click(IN)Versos, por exemplo. Acredito que o reconhecimento de um trabalho está ligado diretamente com a relação de seriedade, que independe do veículo ou ferramenta. As pessoas ainda subestimam o poder dos blogs e sites, mas está na hora de perceber as mudanças. Tenho 26 anos, sou de uma geração que migrou do analógico para o digital. E a geração que só conhece o digital? Será que eles sabem o que é um vinil, uma vitrola? Talvez não. Mas eles entendem o poder da internet, por exemplo.

D - No SaraivaConteúdo você mantém um blog de Letras e escreve para o portal. Você tem liberdade de escolha sobre os temas?
R - Fui convidado por Marcio Debellian para fazer parte da equipe do SaraivaConteúdo quando o projeto ainda era apenas uma ideia embrionária, um desejo. O que me permitiu e permite pensar o conteúdo com mais liberdade, sem perder a visão do trabalho institucional. A proposta é produzir um conteúdo de qualidade, mapeando a produção de novos artistas e apontando tendências de mercado, utilizando as possibilidades de convergência de mídias que a internet oferece. Há liberdade de escolha, mas temos frequentes reuniões de pauta para pensar o caminho dessa produção. A reunião inclui todos: o conselho editorial, a equipe técnica e os jornalistas/blogueiros. As ideias são lançadas, discutidas e, então, executadas. O que é o trabalho do Mauro Ferreira? É um dos melhores críticos de música que conheço, ele assina o blog de Música. E também tem o Eduardo Simões, que assina o blog de Cinema. Há entrevistas antológicas com Sophie Calle, Caetano Veloso, Nélida Piñon, Ziraldo, Marcelo Taz, Marcus Vinicius Faustini, Hermeto Pascoal, Cristóvão Tezza, António Lobo Antunes, Milton Hattoum, Yoani Sanchez, Fausto Fawcett, Francisco Bosco... Sem dúvidas, o portal SaraivaConteúdo será uma referência, principalmente em literatura contemporânea.

D - Gosta da ideia de ser um entrevistador? Entre os atuais, cita algum que admire?
R - Me interessa o encontro, a troca com o entrevistado. Esse é o grande barato, mas só fui ter consciência desse pensamento quando entrevistei o Michel Melamed na comemoração de 1 ano do Click(In)versos. Entre as pessoas que promovem essa troca, Melamed é um exemplo. Poderia citar também alguns jornalistas de Cultura que admiro: Juliana Krapp, Luis Felipe Reis, Daniel Piza, Ubiratan Brasil e Geneton Moraes Neto. O encontro, a entrevista, é uma das partes do jornalismo. Imagina, me pagam para conversar sobre cultura. Não poderia ser melhor.

D - Você tem catalogado entrevistas com jovens escritores. O que pretende com esse arquivo? O que descobriu de mais marcante?
R - Conversei com mais de 80 escritores, a ideia é fazer uma seleção e publicar um livro de entrevistas, um recorte. Sabe o que descobri com esses encontros? Grande parte dos autores publica na web, mas ninguém abre mão do objeto físico, o livro. É a tal da relação afetiva, status e tudo mais. A maior descoberta que tive foi conhecer o poeta Rodrigo de Souza Leão, que faleceu em julho. Sem dúvidas, o escritor mais original, tanto na prosa como na poesia. A pedido da família, estou organizando a obra de Rodrigo de Souza Leão. No dia 2 de julho, data que marca um ano de falecimento do autor, será lançado o último romance escrito por Rodrigo: Me roubaram uns dias contados – título que marca a publicação dos livros pela editora Record. Para finalizar esse trabalho, recebi a colaboração dos poetas Leonardo Gandolfi e Silvana Guimarães, que acompanharam o processo de criação de Rodrigo.

D - De que maneira as incursões como entrevistador no mundo literário abriram caminhos para o pontapé na carreira de escritor?
R - Sempre que estou diante de um entrevistado pergunto: O que você diria para um jovem que deseja ser escritor? A maioria responde “leia!”. Não tenho dúvidas que essas entrevistas me fizeram um melhor leitor, logo minha escrita se modifica – espero que para melhor. Além dessa questão, esses encontros me permitiram entrar em contato com o mercado editorial. Me aproximei do editor do Vinis Mofados, Eduardo Coelho, por causa do Click(In)Versos, que ele acompanhava. Essa incursão acabou colaborando para o contato com o mercado editorial, mas esse não foi o objetivo.

D - Você ganhou um edital de teatro para montar Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo Souza Leão. Soube que optou por não atuar, mas sim dirigir. Como encenador, o que busca ao transpor para o palco um livro como esse?
R - O projeto Todos os cachorros são azuis é amplo, abrange uma montagem teatral, um ciclo de debates e uma exposição. E só é possível realizar essa ideia graças ao empenho dos produtores Elvira Rocha e Roberto Jerônimo. Fomos contemplados num edital que permitirá realizar a montagem. Mas estamos tentando captar o restante para realizar o projeto completo. Rodrigo Souza Leão deixou mais de 30 telas belíssimas, que foram feitas a partir de aulas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Sobre a peça, optei por ficar nos bastidores porque estou muito envolvido com a idealização e produção do projeto, não conseguiria me dedicar o necessário para o trabalho de ator. Flavio Sousa, que foi meu professor de interpretação na Escola de Teatro Martins Pena, vai assinar a direção comigo. Além do texto do livro, pretendemos utilizar elementos biográficos – poemas, cartas, fotografias e trechos de livros – como matéria-prima para construção dos personagens. Convidei Camila Rhodi, Thiago Mendonça, Bruna Renha e Natasha Corbelino para compor o elenco. São eles que nos ajudarão a levar a voz de Rodrigo para o palco. Todos os Cachorros são Azuis é um mergulho na condição humana, em especial, na maneira como indivíduos em sofrimento psíquico levam o dia a dia.

D - Sobre seu livro de poemas: em Vinis Mofados quanto há de Caio F. de Abreu?
R - Caio F. é uma grande referência que se encaixou no conceito do livro, em cada um dos poemas. O Vinis Mofados faz um diálogo com o Morangos de Caio, há uma ligação forte com a música popular brasileira. Mas não se trata de um releitura lírica do Morangos. De certa forma, acaba sendo uma homenagem ao mestre gaúcho. Vinis Mofados também é o nome de um dos poemas do livro, um dos primeiros que escrevi. Além disso, dá unidade ao livro, que está dividido em dois capítulos: Lado A e Lado B.

D - Fora o Caio, inúmeras outras referências são evocadas; como pensa a função delas no livro? 
R - Foi o modo que encontrei de dialogar com a tradição: poetas, músicos, cineastas que pensam a linguagem de forma criativa. Trago essas referências de forma explícita no livro porque só crio a partir do outro, do que já foi feito. O outro é que me desperta, que me constrói. E, consequentemente, o livro.

D - O que muda do Lado A pro Lado B?
R - No Lado B estamos mais despidos, as palavras estão nuas. A intimidade está exposta na própria linguagem.

D - Há algum poema "preferido" dos leitores? E seu? 
R - Em geral, comentam muito o poema “LADO B”: desculpa / mas essa música / não quero mais / ouvir // sua voz arranhada / já não convence / vira o lado do disco // aproveita e dorme . Gosto muito de “HAVAIANAS”: anunciei no jornal / perguntei pra todo mundo / mas ninguém tem notícias suas // enquanto isso as havaianas / continuam a descansar na área / de serviço atrás da porta entre o / rodo e o pano de chão // desde aquela noite só / ando descalço / é o meu protesto

D - Você tem um romance em processo. All Star bom é All Star sujo. Pode contar sobre ele?
R - O All Star bom é All Star sujo foi escrito antes do Vinis Mofados. Mas, depois de conversar com Eduardo Coelho, resolvi publicar primeiro o livro de poemas. Guardei o romance na gaveta, deixei descansá-lo para reescrevê-lo. Pretendo voltar a ele depois da montagem de Todos os Cachorros são Azuis, quando terei tempo suficiente para o mergulho. Conta a história de Otto, pretenso escritor, que vive trancado num conjugado no Bairro Peixoto. Ele faz uma autoanálise de sua vida para tentar transformar o sofrimento em palavras.

D - Há previsão de lançamento?
R - Quero trabalhar o romance sem pressa. Não tenho data marcada, mas pretendo finalizá-lo até o próximo ano.

D - Como se deu o processo de criação do conto "Sereníssima", no livro Como se não houvesse amanhã
R - Fui um dos últimos autores a ser convidado para a antologia. Quando o Henrique Rodrigues me chamou faltava pouco tempo para entregar o livro à editora. Então, tentei lembrar uma música do Legião de que eu realmente gostasse. Fiz uma lista, "Sereníssima" ganhou. Pesquisei a história do Renato Russo, li a biografia feita por Dapieve e li diversas entrevistas para trazer elementos da vida do Renato para a narrativa. Por exemplo, a bebida alcoólica em copo de maionese, detalhes. Busquei escrever uma história de amor entre dois homens, que podem ser dois desconhecidos ou o Renato e o Scott - um namorado americano, problemático, do cantor.

D - E o seu método de criação, há método?
R - Não tenho um método específico. Estou aprendendo a criar disciplina, ter um tempo para a escrita e a leitura, sem perder a intuição. Escrevo prosa a partir de uma ideia e vou desenvolvendo, encontrando o tom do personagem, daí sigo direto para o computador. Releio, corto, reescrevo muito. Já os poemas, rabisco em cadernos, faço milhões de anotações. Um poema nunca está pronto.

D - Atualmente, você participa de uma revista ao vivo (De modo geral). O que mais envolve esse evento? E você, como se envolve com o evento?
R - O De Modo Geral é um projeto do escritor Paulo Scott, o "cabeça" do evento, que é um grande agregador de pessoas. A ideia é reunir profissionais de cultura que estão realizando trabalhos interessantes para uma conversa coletiva – uma revista ao vivo. Sou um dos integrantes da trupe, com Anna Dantes, Allan Sieber, Flu, João Paulo Cuenca e Rodrigo Penna. É, além de tudo, divertido.

D - Poeta, ator, diretor, jornalista, reticências. Pensa em investir prioritariamente em algum desses? O que é necessário para o investimento?
R - Me identifico com pessoas múltiplas. No entanto, gosto de pensar na dedicação a uma atividade. Pretendo priorizar o meu tempo para a palavra, especialmente para a literatura. Então, vou me alimentar da disciplina do ator e do jornalista. É necessário disciplina para escrever, para levar qualquer trabalho com seriedade.


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