Entrevista: Ramon Mello
Assunto: Rodrigo de Souza Leão

Por Giuseppe Zani

Qual foi a primeira vez que você teve conhecimento do Rodrigo de Souza Leão? Quando foi que encontrou com ele pela primeira vez?

Ramon Mello – Conheci Rodrigo de Souza Leão através do seu primeiro romance, Todos os cachorros são azuis (2008), que ele escreveu a partir da Bolsa de Patrocínio da Petrobrás.  Embora Rodrigo já publicasse bastante na internet, principalmente no blog Lowcura, eu não o conhecia. Meu encontro com Rodrigo ocorreu numa entrevista que realizei para o Portal Literal, onde trabalhei como repórter. Me interessei pela sinceridade de sua escrita, fragmentada, composta por personagens imaginários fascinantes.

Rodrigo ficou realmente feliz com a divulgação e a repercussão. Por outro lado, ele era um sujeito muito apegado, lembro que comigo ele ligava toda a semana. Como foi com você? Ele continuou em contato? Ele te ligava? Vocês chegaram a conversar sobre adaptação do Todos os cachorros são azuis para teatro? Houve algum pedido da parte dele?

Ramon Mello – Entrevistei o Rodrigo numa quinta-feira às três da tarde, desde então ele passou a me ligar todas as quintas no mesmo horário. Ele ligava para o celular e ficávamos conversando sobre literatura, principalmente dos livros dele. Nessa época, eu tinha interesse de levar Todos os cachorros são azuis para o palco. Então, conversamos e ele liberou os direitos, me enviou uma carta de autorização. Ele falava que seria legal chamar o Selton Mello para fazer a montagem porque, segundo ele, o Selton já estava acostumado a fazer personagens malucos. [risos] E também pedia para incluir poemas dele na adaptação.

O livro Todos os cachorros são azuis tinha uma projeção biográfica do autor muito forte. Pelo que li, imagino que com o Me roubaram uns dias contados também vá por aí. Há alguma ideia de registro biográfico do Rodrigo de Souza Leão?

Ramon Mello – Sim, há uma ideia. Mas, por enquanto, estou preocupado em organizar os livros que ele deixou. E também fazer com que as pessoas conheçam o trabalho dele. É tudo muito recente, temos que ir devagar.

Você está organizando a obra do Rodrigo de Souza Leão. O que ele deixou? (entre publicados e inéditos, as telas, etc.) quais são os projetos para esse material? O material que ele deixou, são tudo arquivos eletrônicos ou ele escrevia a mão? Alguma correspondência além da carta aos pais antes da morte? Me roubaram uns dias contados estava pronto ou foi preciso trabalho de organização?

Ramon Mello - A família Souza Leão me convidou para organizar a obra quando soube da minha existência através da matéria que escrevi para Prosa & Verso, após o falecimento de Rodrigo em 2009. Ele deixou um material vasto, entre livros em prosa e poemas (em sua maioria publicada na web). Além disso, há livro infantil e arquivos de áudio e vídeo. Ele escrevia obsessivamente no computador, a maior parte do arquivo é composta por CDs e disquetes. Há pouco texto manuscrito, só alguns rascunhos. Não há correspondências. Me roubaram uns dias contados foi o último livro escrito por Rodrigo de Souza Leão. Ele chegou a inscrever esse romance na Bolsa de Criação Literária 2009 da Petrobrás, havia a esperança de ser contemplado novamente. O livro estava pronto, fizemos apenas uma nova revisão mais atenciosa. Além disso, o nome do livro, antes divulgado como Tripolar, ficou Me roubaram uns dias contados. Segundo o poeta Leonardo Gandolfi, que acompanhou o Rodrigo na produção desse livro, ele mudou o título depois de enviar para o edital. Recebo a colaboração de Gandolfi e da poeta Silvana Guimarães na organização da obra do Rodrigo.

Como vai ser o lançamento póstumo de Me roubaram uns dias contados? Todos os cachorros também vai ser reeditado?

Ramon Mello – Me roubaram uns dias contados será lançado pela editora Record no dia 2 de julho, às 19h, na Livraria do Museu da República. Essa data marca um ano de morte de Rodrigo. Haverá uma mesa de debate com os poetas Franklin Alves Dassie, Leonardo Gandolfi e Suzana Vargas – todos amigos pessoais de Rodrigo. Farei a mediação do encontro. E também haverá leitura do trecho do livro realizada pelos atores que estão no projeto da peça. A Record vai publicar toda a obra inédita do Rodrigo de Souza Leão. Inicialmente, vamos publicar Me roubaram uns dias contados, Carbono Pautado e O Esquizóide. E a editora 7 Letras fará a reedição de Todos os cachorros são azuis, que ganhará uma nova capa assinada por Filipe Carvalho.

Como foi a transposição do Todos os cachorros são azuis para o texto cênico. Que opções foram feitas, que recorte? Ainda em captação?

Ramon Mello - Depois que Rodrigo faleceu me comprometi em realizar esse projeto.  Estou produzindo com Elvira Rocha e Roberto Jerônimo, fomos contemplados num edital que permitirá realizar a montagem. Mas estamos tentando captar o restante para realizar o projeto completo. Convidei o ator Flavio Sousa para assinar a direção junto comigo, ele foi meu professor de interpretação na Escola de Teatro Martins Pena. A adaptação será realizada a partir do processo de ensaio, pretendemos utilizar elementos biográficos – poemas, cartas, fotografias e trechos de livros – como matéria-prima para construção dos personagens. O elenco é composto por cinco atores: Camila Rhodi, Thiago Mendonça, Bruna Renha, Fabrício Belsof e Natasha Corbelino. Espero começar a ensaiar ainda este ano.


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