ENTREVISTA: RAMON MELLO

ASSUNTO: RODRIGO DE SOUZA LEÃO, AUTOR DE ‘ME ROUBARAM UNS DIAS CONTADOS’

Por Dirceu Alves Jr

Como surgiu seu interesse pela obra do Rodrigo? Vocês se encontraram através de amigos, ou você o conheceu pelas publicações? E o que mais lhe chamou atenção? Quais são as maiores características de sua escrita?

Ramon Mello – Meu interesse pela obra de Rodrigo de Souza Leão surgiu ao ler seu primeiro romance Todos os cachorros são azuis (2008).  Não o conhecia, embora Rodrigo já publicasse bastante na internet, principalmente no blog Lowcura – onde estão alguns poemas seus. O que me despertou foi a sinceridade de sua narrativa, fragmentada, composta por personagens imaginários fascinantes. Uma das características mais marcantes de sua escrita é a modo como Rodrigo consegue misturar realidade e ficção, por vezes se inserindo na narrativa, extraindo daí vozes distintas que fogem do lugar comum.


Frases curtas, um ritmo frenético, ideias não lineares. A literatura do Rodrigo tem muito evidente as características da Internet e os tempos atuais. Esse ritmo - ou estilo, melhor dizendo – pode se tornar menos atraente para o leitor no papel? Ou literatura é literatura independente do modo que chega ao público?

Ramon Mello – Rodrigo sofria de esquizofrenia, de alguma forma sua produção literária reflete esse universo. No entanto, ele era um poeta acima de tudo. Quando entrevistei Rodrigo, apontei essa fragmentação da escrita. Ele me disse: “Nós vivemos em tempos esquizofrênicos. Muita gente tem depressão ou síndrome do pânico. É uma sociedade que está doente porque dá valor ao que não se deve: o dinheiro. O ser humano viveria muito mais se parasse com essa babaquice de querer dominar o outro.” E ele viveu com todas as possibilidades que a internet oferece, o ‘ritmo frenético’ também pode ser resultado dessa equação. A boa literatura, que é caso do Rodrigo, independe do suporte. Na web ou no livro impresso o texto de Rodrigo de Souza Leão permanece com força.


De que forma Rodrigo usou a esquizofrenia para criar um estilo literário ou quem sabe se encontrar um lado bom de fazer da doença uma inspiração para a arte?

Ramon Mello – A esquizofrenia não é uma opção, é uma doença. Rodrigo não ‘usou a esquizofrenia para criar um estilo’ ou para ‘fazer da doença inspiração da arte’.  Estamos falando uma pessoa em sofrimento psíquico: “Escrever foi o que me sobrou. De tudo que tive, foi o que me restou a fazer. Por que escrever?”, foi o que Rodrigo me respondeu quando perguntei por que ele escrevia. Rodrigo de Souza Leão é um escritor que mergulhou em seu inconsciente e traz à tona para trazer ao papel personagens ricos, que têm muito a dizer. 


Como podemos diferenciar a metalinguagem verificada pelo menos nesse livro especificamente da obra de outros autores? É sempre muito ambicioso e ousado, mas aqui funciona e até se torna um dos atrativos...

Ramon Mello – Penso que a diferença está no modo como o autor aciona elementos internos e externos para composição do texto. Seja com o autor ou com o personagem à frente da narrativa, ficamos instigados a ler toda a história. Acompanhar esse fluxo é um prazer.


Os autores dessa geração surgida junto com a internet muitas vezes aproveita-se de sua persona para contar histórias de seu mundo, criando personagens próximos de seus hábitos, de sua rotina. Rodrigo vai além. Ele interfere na história, redimensiona a trama, assume-se como o autor e senhor daquela situação. Será que esse já era um objetivo dele? Ele tinha essa consciência?

Ramon Mello – Rodrigo faz o caminho inverso desses autores, ele não utiliza persona. Ele aceita sua condição e escreve com uma sinceridade incômoda, sem perder o humor e a ironia. Penso que todo autor quando publica um livro tem - ou pelo menos deve ter - controle e consciência da própria narrativa. Rodrigo é um poeta e tinha consciência do que escrevia.


O quanto você acha que pode ter de autobiográfico? Pelo menos nesse livro...

Ramon Mello – A vida do Rodrigo servia de matéria-prima para sua produção literária. Mas o que interessa é o modo como ele faz isso, misturando gêneros diversos, desafiando os limites entre ficção e realidade. A escritora Suzana Vargas, que foi professora do Rodrigo, fez uma excelente resenha sobre o Me roubaram uns dias contados (Record, 2010), em que ela afirma: “São 335 páginas de um quase tratado ficcional de uma não-ficção no sentido mais literário que se possa dar ao termo. Personagens, não personagens, episódios múltiplos aparecem e somem através de um narrador, alter-ego do autor, que reflete sobre sua criação e criaturas, sobre seu mundo interno e externo.”  


Rodrigo está mais para um poeta fazendo prosa ou ele usa a prosa para ser uma ferramenta de sua poesia. Como você acha que ele dosava essas diferenças?

Ramon Mello – Rodrigo é um poeta. E na prosa ele mistura os gêneros, penso que fazia isso sem a preocupação de dosar essas diferenças, pelo contrário.


Existe um certo conservadorismo na literatura brasileira atual que pode estar sendo quebrada com essa publicação da obra do Rodrigo? Muita coisa vem a público, pode se escrever de tudo e levar aos olhos do público, mas muito pouca coisa realmente tem qualidade literária. Você acha que esse excesso da internet pode estar inibindo muitos autores?

Ramon Mello – Não. Rodrigo já publicava anteriormente, inclusive foi um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009 com o livro Todos os cachorros são azuis.

Não compreendi a segunda pergunta.


Qual é o seu maior cuidado ao assumir o papel de cuidar da publicação da obra de Rodrigo de Souza Leão? O que deve vir por aí depois de Me Roubaram uns Dias Contados e como esse material está chegando as suas mãos?

Ramon Mello – O meu maior cuidado é respeitar a vontade do autor, publicando somente o que ele gostaria que fosse publicado - avaliando o valor literário de cada texto. Para tanto, mantenho contato direto com a família e com amigos de Rodrigo que compartilharam de seu processo criação, como os poetas Leonardo Gandolfi (que escreveu a apresentação do Me roubaram uns dias contados) e Silvana Guimarães. A família me entregou arquivo pessoal de Rodrigo: disquetes, CDs e pendrives que contém material diverso, entre livros finalizados, textos soltos, arquivos de áudios e vídeos. A intenção é organizar o arquivo para doar a Fundação Casa de Rui Barbosa. As telas de Rodrigo também devem ser doadas. Após o Me roubaram..., a Record vai publicar outros títulos inéditos de Rodrigo: O Esquizóide e Carbono Pautado.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates