Bruno Albertim, do Jornal do Commercio, de Pernambuco

1. Você diz que o livro surgiu ao perceber o desejo de Ney de olhar para a própria trajetória. Como e quando percebeu esse desejo? E como decidiram que ele seria escrito em primeira pessoa?

 

Ramon Nunes Mello – Minha percepção sobre o desejo de Ney olhar a própria trajetória tornou-se evidente a medida que nos tornamos amigos e conversávamos. Ao conhecer Ney, em 2011, imediatamente nos tornamos amigos. A cada conversa a amizade amadurecia e, consequentemente, a confiança de se conversar sobre todo e qualquer assunto. Até que tomei a decisão de convidá-lo a fazer um livro em parceria, a ideia desde o princípio foi escrever um livro com a colaboração dele, como foi realizado. A intenção inicial era fazer um livro com pesquisas, com registros das matérias mais importantes sobre sua trajetória artística. Entretanto, a medida em que pesquisava, eu percebia que mais interessante do que a percepção de alguém sobre Ney Matogrosso era o seu olhar sobre a sua própria história. Assim, conversamos e propus que o livro pudesse ser um longo depoimento, memórias em primeira pessoa composto por entrevista e pesquisa. Dessa forma chegamos ao “Ney Matogrosso – Vira-Lata de Raça”, onde cada capítulo foi pensado em conjunto a partir das proposições narrativas que eu apresentava.

 

2. Quando escrevemos, há sempre, mesmo que inconsciente, a necessidade de impor recursos de estilo para que o texto seja mais plausível ou de maior magnetismo. Como foi a negociação entre você, escritor, e o Ney, personagem, para que sua dicção fosse o mais integramente preservada? Você transcreve literalmente a oralidade de Ney?

 

RNM – Tive toda liberdade possível para escrever o livro, Ney não proibiu absolutamente nenhum assunto. Optei em aproximar ao máximo a dicção do Ney no texto, em cada palavra. Quando Ney não se reconhecia em alguma palavra ou expressão, ele era muito sincero: “Eu não falo desse jeito. Vamos colocar de outra maneira...” O diálogo com Ney durante todo o processo de escrita do livro favoreceu para que a dicção dele fosse preservada. Além disso, uma preocupação constante era com a estrutura da narrativa, o desenrolar dos fatos que estavam sendo relatados.

 

3. Comente melhor, por favor, como o conceito de biografema de Rolland Barthes ajudou você a construir as memórias de Ney?

 

RNM – A opção por definir a escrita a partir do prisma do biografema e não da biografia, trata-se de delimitar a livre-produção textual na medida em que não deriva de significados cronológicos e amplos (como a biografia pressupõe), o biografema enfatiza imagens, cenas, gestos, fragmentos textuais, pulsões e a partir disso opera significâncias. Escrever sobre uma vida não é uma tarefa simples, e tratar da vida de um artista de trajetória tão vasta de fazeres e de longa trajetória de tempo não seria algo que me interessava no sentido de tratar dos temas mais óbvios e comuns e elenca-los de modo sucessivos. A noção de biografema, proposta por Roland Barthes, foi uma escolha metodológica potente que atendia meu propósito de construir uma narrativa de detalhes e simbologias, aberta à criação de novas possibilidades de se dizer, acompanhando desse modo uma mudança na abordagem em relação a própria vida biografada. Trata de uma outra postura de leitura, de seleção e de valorização dos significados da vida, pois ao invés de percorrer as grandes linhas narrativas da biografia, a prática biografemática volta-se para o detalhe, para a potência daquilo que é íntimo numa vida. Por tratar-se de um livro de depoimentos e não propriamente uma biografia, encontrei nessa escolha uma maneira válida do próprio sujeito escrito tornar-se também um criador, um fabulador da sua realidade.

4. Gilberto Freyre, por exemplo, inaugurou um tipo de sociologia no Brasil, hoje comum, que diz que os fatos comezinhos e cotidianos têm tanta ou mais importância para a construção das narrativas histórico-sociais que os fatos oficializados. Como foi sua equação? O que lhe movia mais, como investigador: o detalhe, a subjetividade, ou os grandes capítulos da trajetória oficial de Ney?

 

RNM –O que sempre me moveu na tentativa de criar uma identidade dialógica com o Ney foi de buscar para além da persona Ney Matogrosso, quem era Ney de Sousa Pereira partindo de sua narrativa sobre temas, detalhes e memórias de fatos do cotidiano de sua longa carreira, desse modo tanto a subjetividade como os detalhes de retalhos de memórias auxiliaram na escolha dos temas elencado para estruturar o livro em capítulos, que para além da trajetória oficial e cronológica contam sobre seu cotidiano simbólico, seu imaginário e sua identidade híbrida.

 

5. O tempo inteiro, Ney afirma ter sido guiado pela coerência com suas verdades. Em algum momento, ele deixou de ser coerente com seu pensamento? 

 

RNM – Com toda certeza, posso afirmar que o pensamento do Ney Matogrosso é coerente, continua tendo a liberdade como guia de suas ações. Acredito que essa coerência é o que lhe traz o sentido de vida. Se alguém analisar suas declarações públicas, poderá comprovar o que digo, a coerência do pensamento de Ney é constante no decorrer de sua vida pública.

 

6. A História, lato senso, seria uma grande ficção de adesão social - a narrativa oficial seria construída por atores sociais com capacidade de gerar unidade e hegemonia com a conciliação das contradições. Digo isso para lembrar que, de alguma forma, memória também é ficção. Editamos e analisamos internamente os fatos vividos para depois reproduzi-los como memória - mesmo de forma inconsciente. Em algum momento da construção do livro, foi preciso contrapor o relato de Ney com a objetividade dos fatos? Contradizê-lo?

 

RNM – Durante o processo de elaboração do livro, fui apurando as histórias nas pesquisas, batendo as versões. Mas não teve um episódio de precisar contradizer Ney, pelo contrário, muitas vezes ele corrigia os fatos que estavam distorcidos em alguma declaração. O que me impressionou foi o Ney ter uma memória bastante viva de contava, inclusive os detalhes.

 

7. Ney continua ainda uma pessoa muito tímida? Isso, de alguma forma, travou em algum momento as entrevistas?

 

RNM – Não penso que Ney seja tímido, ele é reservado no que diz respeito a sua intimidade. Em relação a sua trajetória, às entrevistas, ele sempre agiu de forma aberta ao diálogo, com verdade e generosidade. Em nossos encontros, as conversas sempre foram fluidas e profundas, acredito que a confiança conquistada na amizade facilitou o trabalho de criação do livro.

 

8. Por fim, gostaria que comentasse sobre as pesquisas e seleção de imagens? De onde vieram? Do arquivo do próprio? Ele tem esse zelo em manter peças objetivas de sua trajetória como fotografias? 

 

RNM – Eu realizei a pesquisa de imagens no decorrer do processo de pesquisa de suas declarações. Na medida que escolhia os assuntos que iriam compor o livro, pesquisava as imagens de forma mais objetivas. O Ney também colaborou na pesquisa das imagens, assim como a editora Isa Pessoa, quando o livro estava mais próximo para ser finalizado. E também posso dizer que tivemos a sorte de contar com o acervo do fotógrafo Ary Brandi que acompanhou a trajetória do Secos & Molhados, por exemplo, então tivemos acesso a um registro raro e inédito.

por Arthur Nunes

 

Entrevista concedida para a dissertação de Mestrado de Arthur Vinicius Anorozo Nunes, mestrando matriculado no programa de pós-graduação em Linguística da UFSC, sob a supervisão do orientador Dr. Atilo Butturi Junior, no dia 14 de janeiro de 2018.

Perguntas:

1-    Mariana Ianelli, quando comenta sobre seu há um mar no fundo de cada sonho, fala sobre uma “claridade, frugalidade e uma vida simples e lúcida em estado de oração” (IANELLI, 2016)  presentes em seus poemas, como percebemos na relação que você estabelece com a natureza e na exaltação de rituais religiosos ligados ao uso da ayahuasca, por exemplo. Assim, Ianelli dirá que decorrente dessa “expansão da consciência pela escrita, há uma busca da beleza, do êxtase e do amor” (IANELLI, 2016), uma “espécie de necessidade vital” (IANELLI, 2016). Tal ideia também se faz presente na epígrafe de abertura do seu texto, por meio dos versos da poetisa portuguesa Sophia Andresen, que dizem “ Dai-me a claridade daquilo que é exatamente necessário./ Que a vida seja limpa de todo luxo e de todo lixo” (ANDRESEN apud MELLO, 2016, p. 9). Essas características dialogam com a ideia de finitude da vida – tema muito presente em seus poemas – mas reforçando mais o ato de viver do que de morrer.

Trazendo essa discussão para o contexto atual do hiv e da aids, onde assiste-se a uma perspectiva de cronicidade, de um “viver com o vírus” e uma consequente ressignificação do discurso da finitude depois de quase duas décadas de uma aproximação do hiv/ aids com a temática de morte, você acredita que esses discursos no seu texto são possíveis graças a esse novo cenário que se vislumbra na vida dos portadores de hiv? E de que modo você acredita que essas características da sua literatura contribuem para novos discursos sobre hiv/aids?

Ramon Nunes Mello - Esse novo cenário do "viver com o vírus" é consequência de uma série de fatores: a melhoria da qualidade de vida através das novas medicações e do pensar sobre a experiência - trabalho sensível de pesquisadores, médicos, ativistas... Sobre minha literatura, posso lhe dizer que a revelação da minha sorologia positiva, a ciência do vírus no meu organismo, me fez rever minha vida, no sentido de buscar a simplicidade. Tento levar essa busca para os meus poemas. A forma como consigo acessar o que é essencial em minha vida através do contato com a poesia, em diálogo com o sagrado para mim: a alegria dos cantos indígenas, a prática do silêncio e da meditação que aprendo com o yoga, e o êxtase através do uso ritual da ayahuasca. Interessa-me mais a expansão do que a alteração da consciência, no sentido de ampliar a percepção da realidade através da presença. Acredito que tudo isso, me faz repensar a relação com a própria palavra, e consequentemente com a linguagem. Quando digo que a linguagem é o verdadeiro vírus, estou afirmando que acredito no poder transformador da palavra que pode ser na forma como abordo a experiência com o HIV e/ou no modo que escrevo meus versos. Minhas inquietações sobre as questões que surgem sobre o viver com o HIV e a linguagem são motivações para continuar escrevendo e pesquisando... Por isso, resolvi criar uma antologia de poemas (ainda inédita) chamada “tente entender o que tento dizer”, tendo o HIV/AIDS como temática, em que convido centenas de poetas de diferentes sorologias, gêneros e gerações para escrever sobre a experiência com o vírus. Penso que, três décadas após o surgimento da epidemia, podemos aprofundar a questão do HIV/AIDS na literatura brasileira, especificamente na poesia. Como é essa “literatura pós-coquetel” produzida no Brasil? Nesta era “pós-coquetel”, em que a resposta brasileira à epidemia de HIV/ AIDS, antes exemplo mundial, tem se enfraquecido diante do retrocesso conservador e persistência do preconceito, estigma e moralismo, como a literatura, sobretudo poética, tem registrado as formas de apreensão da infecção? A temática do HIV/AIDS no campo das artes pode ser considerada como estratégia política de atuação e visibilidade? A poesia pode ser vista como forma de reação ao diagnóstico? Nesse sentido, é possível uma literatura de HIV/AIDS? Essas são algumas perguntas que me faço quando penso na poesia, na linguagem, e o vírus.

2-    José Castello, em texto que faz referência a há um mar no fundo de cada sonho, comenta sobre o poema “A mudança”, apontando que “mudar [...] não é transformar-se em outra coisa, mas chegar àquilo que já se é” (CASTELLO, 2016). O poema trata, segundo ele, de um “chegar a si, livrando-se de todos os adornos, automatismos, máscaras, disfarces que o mundo de hoje nos obriga a vestir para sobreviver” (CASTELLO, 2016).

Essa afirmação me faz lembrar de um texto de Foucault, em que o filósofo também recorre a metáfora da máscara para falar da formação de nossa identidade, de onde extraí a citação que gostaria de apresentar agora a você:

Pois esta identidade, bastante fraca contudo, que nós tentamos assegurar e reunir sob uma máscara, é apenas uma paródia: o plural a habita, almas inumeráveis nela disputam; os sistemas se entrecruzam e se dominam uns aos outros. Quando estudamos a história nos sentimos felizes, ao contrário dos metafísicos, de abrigar em si não uma alma imortal mas muitas almas mortais. [...] O primeiro resultado é que nós compreendemos nossos semelhantes como sistemas inteiramente determinados e como representantes de culturas diversas. [...] A história, genealogicamente dirigida, não tem por fim reencontrar as raízes de nossa identidade, mas ao contrário, se obstina em dissipá−la; ela não pretende demarcar o território único de onde nós viemos [...], ela pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam.[...] Se a genealogia coloca, por sua vez, a questão do solo que nos viu nascer, da língua que falamos ou das leis que nos regem, é para clarificar os sistemas heterogêneos que, sob a máscara de nosso eu, nos proíbem toda identidade. (FOUCAULT, 2007, p. 22)

Se nas décadas de 80 e 90, a identidade do sujeito soropositivo era marcada por uma série de estigmas e preconceito – principalmente aqueles relacionados a uma homossexualidade e uma promiscuidade – amplificada, inclusive, pelo caráter folhetinesco e sensacionalista da mídia em geral, atualmente, pode-se dizer que há todo um movimento que visa não apenas desconstruir o caráter de culpa atribuído a certos “grupos de risco” –  que nada mais são do que categorias discursivamente criadas em tempos-espaços específicos – mas também de dessubjetivar essa figura do “sujeito aidético” que víamos nos início da epidemia e que ainda se faz tão presente em nossa memória discursiva – como os discursos que aparecem na grande mídia.
Para você, Ramon, essa “força de prevalecer no ser” (MELLO, 2016, p. 51), de “ancorar a presença no corpo” (MELLO, 2016, p. 51) , resulta de uma resistência em se deixar agenciar por essas múltiplas máscaras que tentam codificar o sujeito dentro de subjetividades específicas? Em outras palavras, a relação que se estabelece entre poesia e existência em seus textos contribui para uma identidade mais livre das imposições discursivas a que os sujeitos estão submetidos? Há a busca de uma singularidade existencial em sua poesia? Como sua existência é formulada por meio da escrita?

Ramon Nunes Mello - Difícil responder sua pergunta, Arthur. Poderia tentar lhe responder com versos do meu "Poema atravessado pelo manifesto sampler" (Poemas tirados de notícias de jornal, Móbile, 2011): "se aproprie dos rótulos / para destruí-los". É o que tento praticar. A escrita, a poesia, me permite transitar/vivenciar essa multiplicidade de identidades, a construção/desconstrução de uma subjetividade livre. Penso que em toda escrita é importante a busca pela singularidade, que podemos chamar de voz ou de linguagem. A existência é atravessada e construída por histórias simultaneamente se alimentam, creio que a minha não seja diferente. A questão é que eu tento fazer de algumas dessas experiências (e criar) literatura: poesia. Nem sempre consigo.

“Poema atravessado pelo manifesto sampler”:

 

 

3-    Você poderia falar um pouco sobre aquilo que pode ser entendido tanto como “literatura da aids” ou como “literatura pós-coquetel” e que se refere basicamente a toda literatura que se inspira ou trata da temática do hiv e da aids no Brasil? Você acha que essa literatura ajuda e ajudou a ressignificar os discursos sobre hiv e aids no país? No que a literatura das décadas de oitenta e noventa do século XX difere, substancialmente, da atual, quando se trata dos discursos sobre o hiv e a soropositividade?

Ramon Nunes Mello – A “literatura da Aids” é composta não somente por ficção e poesia, mas principalmente por artigos acadêmicos, relatórios, entrevistas, artigos, ensaios e livros de depoimentos – esses últimos, ao meu ver, estão sendo aos poucos substituídos pelos canais de youtubers especializados no tema.  O que me interessa mais é a literatura que pensa a questão da linguagem, pesquisas específicas sobre o tema, e a criação literária de ficção e poesia que é feita tendo o HIV/AIDS como temática. E não precisa ser necessariamente uma literatura produzida por quem está soropositivo, me interessa muito mais as diferentes abordagens feitas por escritores/poetas estejam eles soropositivos ou não. Digo “estar” soropositivo e não “ser” pois creio que ninguém é a própria doença. No Brasil, abordagem do HIV/AIDS na literatura foi melhor representada por Caio Fernando Abreu, a partir da visão dos anos 80: pânico e morte. O pesquisador Marcelo Secron Bessa fez um excelente levantamento, falando da abordagem do HIV/AIDS não só na obra de Caio F. como também na obra de Silviano Santiago, Herbert Daniel, João Silvério Trevisan, Bernardo Carvalho.... Mas na literatura contemporânea, digo dos anos 90 até o momento presente, a produção é escassa, há muito mais livros de depoimentos. É aqui que entra a “literatura pós-coquetel”, conceito cunhado pelo pesquisador Alexandre Nunes Sousa (UFBA), que aborda a literatura produzida após a introdução do TARV, exercendo assim uma outra perspectiva sobre o tema que não o sinônimo de morte. É o que estou investigando ao elaborar a antologia de poemas, “Tente entender o que tento dizer” , o que noto é uma abordagem mais voltada para a linguagem, o tempo, o amor, e, principalmente, o corpo. Percebo algo que acredito: corpo é texto. De forma lenta e gradativa, penso que essa literatura colaborou/colabora para ressignificar os discursos sobre HIV/AIDS no Brasil. A ressignificação de um discurso tão forte é modifica através de diversos fatores: políticas públicas amplas, atuação de ongs e ativistas, estudos de pesquisadores e cientistas, aperfeiçoamento do trabalho dos jornalistas, etc... A literatura é uma peça nessa engrenagem cheia de contradições e especificidades que é a história do HIV/AIDS.

No texto de Danilo Melo e João Penna, intitulado Literatura e hiv/aids: reflexões da era pós-coquetel, os autores apontam para o fato de que “a partir do surgimento da TARV as discussões públicas sobre a aids começam a diminuir [...] pondo fim à espetacularização das histórias dos soropositivos iniciada nos anos 1980” (MELO; PENNA, ?, p. ?). Além disso, os autores também problematizam as políticas de cunho conservador e o fundamentalismo religioso cada vez mais comuns no espaço público brasileiro, que impedem ainda mais a disseminação e ocorrência dessas discussões. Mas comentam também sobre aquilo que chamam de “literatura pós-coquetel”, incluindo aí o rico e vasto material hoje produzido na cultura digital, como em blogs e no Youtube, por exemplo. Assim, os autores destacam alguns temas comuns dessa literatura: confrontação com os discursos da aids nas décadas de 80 e 90, a partir de um aspecto de cronicidade possibilitado aos portadores de hiv por meio da TARV, a relação que se estabelece entre esses sujeitos e os medicamentos e terapias que utilizam, a superação de diferentes formas de estigma e preconceito, os relacionamentos sorodiscordantes, a autodescoberta da espiritualidade, entre outros. No que diz respeito a sua literatura de modo geral – e aqui faço referência não apenas a sua obra poética, mas também aos outros textos que você escreve –  em sua relação com a experiência de discursivização do hiv, quais são os temas que te interessam? Em outras palavras, do que trata sua literatura de forma geral no que diz respeito ao hiv e a aids?

Ramon Nunes Mello - Os temas relacionados ao HIV que me interessam dizem respeito a vida, no sentido de como lidar com vírus e ressignificar a existência, através da nova dinâmica que se estabelece com o corpo, a mente e o espírito. De uma forma geral, penso que em relação a minha literatura e o HIV está a o desejo de liberdade, de se falar do que tenho vontade, da minha vivência com a poesia, ou da ayahuasca, ou do sexo, ou do corpo.

Muito Obrigado!

Eu que agradeço o diálogo, Arthur.

REFERÊNCIAS

CASTELLO, José. A queda em si: a sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade. 2016. Disponível em: <http://rascunho.com.br/a-queda-em-si/ >. Acesso em: 08 jan. de 2018,

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 24.ed. São Paulo: Edições Graal, 2007.

IANELLI, Mariana. Ramon Nunes de Mello mostra relação mais íntima com a palavra em seu terceiro livro, Estadão, São Paulo, 2016. Disponível em: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,ramon-nunes-mello-mostra-relacao-mais-intima-com-a-palavra-em-seu-terceiro-livro,10000059189. Acesso em: 08 jan. de 2018.

MELO, Danilo Rodrigues; PENNA, João Camillo. Literatura e HIV/ AIDS: reflexões da era pós-coquetel. Revista Z Cultural.Disponível em: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/literatura-e-hivaids-reflexoes-sobre-a-era-pos-coquetel/. Acesso em:

MELLO, Ramon Nunes. Há uma mar no fundo de cada sonho. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2016.

A espiritualidade, o silêncio e a íntima relação com a natureza estão no centro da poesia de Ramon Nunes Mello

 

por Márwio Câmara

 

Ramon Nunes Mello, autor de Há um mar no fundo de cada sonho

A palavra como forma de meditação, buscando por meio do verso não apenas um exercício de cunho restritivamente estético, mas a materialização dos processos introspectivos que tangenciam sobre a própria consciência do artista. É nessa ponte entre vida e obra que se encontra o novo trabalho do poeta e jornalista Ramon Nunes Mello — Há um mar no fundo de cada sonho. Antes, publicou Vinis mofados Poemas tirados de notícias de jornal.

O novo livro é resultado de uma profunda e difícil experiência do poeta após se descobrir soropositivo. Não é a toa que a espiritualidade, o silêncio e sua íntima relação com a natureza ganham explícita dimensão em seus novos poemas, que também evidenciam a força e a esperança do poeta ante a uma nova realidade em que o caos da forma é modificado pela sublimidade do verso.

Na entrevista a seguir, o poeta fala sobre a sua nova poética, o encontro com o teatro, a paixão pela literatura, a atuação como jornalista literário, a formação política, seu interesse nos últimos anos pela cultura indígena, o trabalho de curadoria da obra de Adalgisa Nery e a percepção da vida hoje.

• Em Há um mar no fundo de cada sonho podemos destacar uma nova fase apresentada no seu trabalho. Como foi chegar ao conjunto de poemas deste livro?
Para responder, preciso voltar aos meus trabalhos anteriores. Comecei com o Vinis mofados e depois com o Poemas tirados de notícias de jornal, que são dois livros bem distintos um do outro. O primeiro é de 2009, foi minha estreia, e mostra minha relação com a música popular brasileira, os cantos e também com a literatura do próprio Caio Fernando Abreu, sobre essa coisa das relações afetivas. O segundo traz a relação da poesia com as notícias de jornal, como o próprio título já diz, e sobre como lidar com essa quantidade de informações. O que é poesia e o que não é poesia. Há uma reflexão, um questionamento em torno disso tudo. Já o terceiro livro se aprofunda na minha relação com o silêncio, com a palavra, que já existia nos meus livros anteriores, mas que se tornou mais fundamental no meu trabalho. Comecei a escrever Há um mar no fundo de cada sonho em 2012. Em 2011, comecei a rabiscar alguns versos, mas foi em 2012 que efetivamente comecei a me dedicar aos poemas. É muito difícil falar sobre o processo de criação na poesia, porque não tenho o hábito de escrever poemas todos os dias. Vou rabiscando os versos e aos poucos guardando para depois serem retrabalhados. Esse livro em específico me coloquei num lugar diferente dos outros, de mais reflexão, de mais silêncio, de tentar ouvir o que essa voz interior tinha a dizer, mesclado com todas as leituras que eu vinha tendo ao longo do processo de escrita, não só desse livro, mas dos anteriores. Fui tentando buscar uma dicção que fosse mais própria do que eu acreditava. E no meio desse processo de escrita fui atravessado por inúmeros acontecimentos fortes na minha vida. Um deles foi o mais forte — o diagnóstico soropositivo. Isso me fez ter uma reflexão mais profunda da vida. Por consequência, não sei se por consequência, uma busca mais espiritual com a existência. Então, é um livro que traz uma poética mais metafísica, mais reflexiva. Fui investigando poetas que traziam isso em sua literatura. Fui ao Murilo Mendes, à Cecília Meireles, ao Fauzi Arap, que é um autor de teatro, falecido recentemente; Néstor Perlongher, um autor argentino que morou em São Paulo; Al Berto, poeta português; Roberto Piva, que tem uma relação xamânica com a poesia, que é uma relação que me interessa profundamente. A relação com a natureza. E essa conexão que encontrei com a natureza também foi importante para eu entender o meu processo de criação, de entendimento dessa poética que estava desenvolvendo.

• Seu primeiro envolvimento com o universo artístico foi no teatro. Como se deu esse encontro do poeta com a dramaturgia e, aliado a isso, de que forma a literatura passou a fazer parte também da sua rotina como artista?
Sim, foi o teatro que chegou primeiro na minha vida. De todas as artes foi a que se fez presente, de maneira bastante intensa. Eu me lembro em Araruama [RJ], com os meus pais, e a vontade que eu tinha de ser ator, de estudar teatro. Cheguei a participar de grupos teatrais na cidade. Quando terminei o ensino médio, vim para o Rio com o propósito de ser ator e fui estudar na Escola Estadual de Teatro Martins Pena, que é uma das escolas mais antigas de teatro da América Latina, uma instituição pública que até hoje existe e forma pessoas fundamentais na cultura brasileira. O teatro foi uma presença muito forte. Sempre gostei de escrever, mas era de uma maneira tímida. Sempre fui muito de ler, adorava literatura. Tive o estímulo não dos meus pais propriamente, mas dos professores da escola. Meus professores de português me davam livros e eu ia lia. Maria vai com as outras, da Sylvia Orthof; ou Pedro Bandeira. Lendo aqueles livros, ia me instigando o interesse de querer escrever, mas ao mesmo tempo sem saber como que se escreve. Era algo que estava ali, mas que, em primeiro lugar, o ator falava mais alto. Quando fui para o teatro, passei a ter acesso a uma biblioteca de literatura dramática da Escola Martins Pena, e comecei a ler muitos textos teatrais: Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Leilah Assunção… E também encontrei textos teatrais do Caio Fernando Abreu. E quando li os textos do Caio, fiquei muito impressionado. E aí fui procurar os romances, os contos. Comecei a me encantar muito por aquele universo. Descobri a Clarice e outros autores. Um autor foi levando a outro. Descobri os poetas. Foi uma cadeia.

• E com relação ao teatro?
Eu fugi do teatro. (risos)

• Mas e o ator, ainda existe? Pergunto isso porque o seu trabalho literário também já esteve ligado ao próprio uso da performance. Quero dizer, a palavra também se contaminando com o visual, com essa coisa do corpo, da encenação.
Na verdade, não fugi do teatro. Acho que fiquei mais apaixonado pela literatura, pela poesia. Eu não seria o que sou como ser humano se o teatro não tivesse aparecido na minha vida, porque a minha formação literária, afetiva, intelectual e política passa pelo teatro. As pessoas que me ensinaram, que me deram aula de teatro, os alunos que estudaram comigo, os meus colegas formaram a minha personalidade. Na troca, na convivência, nos debates, nos encontros e tal. Então, eu tenho uma profunda gratidão ao teatro, porque se estou hoje na literatura, na poesia, é por causa do teatro. Geralmente, não coloco na minha biografia que sou ator. Porque para ser ator se exige uma profunda dedicação, assim como na poesia. Embora tenha formação no teatro, eu não tenho talvez a vocação do ator, de ensaio e dedicação. Então me considero mais um ator bissexto. Se tiver vontade de fazer um determinado projeto, eu vou lá e enceno. Como encenei em 2011 Todos os cachorros são azuis, em que fui para o palco como ator, além de fazer a dramaturgia junto com a Manoela Sawitzki.

• Voltando ao seu recente livro, questões como a espiritualidade, a comunhão com a natureza, o amor e o silêncio, como já foram ressaltadas por ti, tornaram-se essenciais em sua poética. É possível dissociar a vida do poeta com a própria obra quando executada? Em qual momento essa voz que se materializa em poesia se nutre da vida do artista enquanto homem comum?
Acredito que a literatura e a vida estejam profundamente ligadas, embora elas não sejam a mesma coisa. O que me nutre a escrever poemas é a minha própria experiência de vida, as minhas leituras, a minha relação com a existência. Então, não consigo dissociar no momento da criação. Porém, a literatura exige um processo de reflexão, de criação, de busca da palavra, da linguagem, da expressão, que extrapola a biografia. Aí entram a criação, a vontade de querer se expressar através dos versos, da palavra, misturando ficção com realidade e poesia, tudo isso. Acho que tudo é uma grande encenação, até a própria vida. Vamos escrevendo a nossa história com as escolhas que fazemos.

• Nunca entendi essa coisa das pessoas diferenciarem a ficção da realidade. Porque acredito que ficção e realidade sejam quase a mesma coisa. O tempo todo nós ficcionalizamos a vida…
E por vezes a realidade é mais absurda do que a própria ficção. Tudo é uma construção. Mas acho que com a literatura há a consciência dessa construção. A consciência de que estória quer ser contada, de que palavra ou de que verso deve estar naquele poema. Tudo é a intenção, porque na vida você não fica o tempo todo pensando: ah, eu vou fazer isso porque… Não tem como. Senão você não vive. Então as escolhas são mais livres. Na literatura não, é como se você tivesse uma total consciência das escolhas. E também do brincar com essas escolhas. Brincar e dialogar com quem veio anteriormente, que é o lugar das leituras que a gente faz. Tem um verso no Poemas tirados de notícias de jornal que fala: porque está tudo no passado, o futuro se tropeça com ele. Porque realmente está tudo no passado, né? Tudo foi feito, e é refeito. E toda vez que é refeito, é de forma diferente. Nada é novo. Não tem novidade. Tem recriação, apropriação. A gente mastiga e degusta tudo isso para poder fazer uma outra coisa que é diferente. Acho que o meu processo de criação passa muito por esse lugar de contaminação com as coisas, com a vida. De permitir que as relações afetivas, de trabalho, amorosas, com os livros e com a literatura me afetem para que eu possa transformar isso em linguagem, em poesia, de estar aberto e conectado a tentar expressar da maneira que considero mais coerente com o meu processo de vida e criação.

“Eu acredito que a literatura e a vida estejam profundamente ligadas, embora elas não sejam a mesma coisa. O que me nutre a escrever poemas é a minha própria experiência de vida, as minhas leituras, a minha relação com a existência”.

• Além de poeta, você é jornalista, analista de literatura, pesquisador acadêmico e produtor cultural. Como é conciliar essas múltiplas personas com a vida pessoal?
Eu não sei como concilio. Acho que a vida exige. Então a gente acaba tendo que fazer determinadas coisas para sobreviver, pagar as contas. Não que faça isso somente para pagar as contas, mas acho que todas essas atividades que você listou estão relacionadas com a palavra. Então, tento de certa forma direcionar essas minhas atividades profissionais para áreas que me interessam, e que se relacionam à literatura, às artes, à leitura, ao pensamento. Como conciliar, eu não sei, porque a vida própria vai ensinando. Talvez eu tenha aprendido nesse tempo todo tentar manter a serenidade e se manter no presente, no aqui, agora, para fazer uma coisa de cada vez. Cada coisa no seu tempo. E também entendendo que uma atividade não anula a outra. A gente é um ser múltiplo. Não vai anular o fato de eu estar trabalhando como jornalista ou curador ou analista de literatura, o fato de eu ser poeta. Ao contrário, todas essas atividades se complementam e me dão alimento para poder escrever. Não me sinto dividido, entende? Embora sejam muitas coisas, são partes minhas que acolhi e aceito todas elas. Se pudesse escolher, ficaria somente lendo e escrevendo poesia. Mas como essa não é a minha realidade, então que eu possa viver a realidade que existe da melhor forma possível.

• Você chegou a dizer em uma determinada entrevista que não faria o menor sentido publicar Há um mar no fundo de cada sonho sem que o público soubesse de sua atual condição de saúde. Como foi chegar a essa percepção de que as pessoas deveriam saber sobre o poeta ser portador do vírus HIV?
A literatura pra mim é o lugar da liberdade, é o lugar onde posso fazer o que eu quiser, dentro das regras que existem para mim, na minha criação. Não me sentiria honesto comigo, se tivesse que escrever um livro em que sentisse vergonha de um determinado poema que abordasse a temática do vírus HIV. Eu me sentiria um impostor se tivesse que omitir determinado assunto porque vão pensar isso ou aquilo. A minha necessidade de criação, a minha necessidade de expressão falou muito mais alto, e fez, de certa forma, me expor em relação a minha vida pessoal, que é um assunto que não diz respeito a ninguém. Mas que, por outro lado, é um assunto considerado um tabu, mas considero que todas as pessoas que se colocam com a questão da visibilidade em relação ao vírus HIV contribuem para a diminuição do estigma e do preconceito. Então, por outro lado, acho que também esse ato, para além de ser uma necessidade literária, de criação e de liberdade, traz um lugar de um ato político de falar: sim, eu estou soropositivo e podemos conversar sobre isso. Porque são 700 mil pessoas no Brasil que convivem com o vírus HIV. Tem uma frase do Betinho que sempre repito e amo, em que ele fala que a Aids tem que ser tratada de forma política. E tem de ser. Porque estamos falando de saúde pública, de existência e de humanidade. E não há nada mais humano do que a poesia. Então, não poderia omitir algo que para mim é humano. É uma necessidade humana de se falar sobre coisas. A humanidade evolui e a gente tem que evoluir junto com ela.

• E como a sua família e os seus amigos reagiram com essa atitude de vir a tornar pública esta questão?
Antes de me preocupar com a minha família, eu me preocupei comigo. De como eu reagiria em relação ao vírus HIV. Foi um processo dolorido, mas de muito amadurecimento. Porque me trouxe uma visão mais humana da vida, um entendimento do sagrado, da minha espiritualidade, da valorização dos direitos humanos. Então me trouxe um despertar importante. A partir do momento que compreendi isso, aí me preocupei em conversar com os meus pais, porque eu tinha a intenção de abrir isso publicamente. E, além de conversar com os meus pais, conversei também com o meu parceiro na ocasião de que iria abrir publicamente. E graças aos Deuses, e acredito em Deuses, eu sou cercado de pessoas amorosas, muito afetivas. Então, desde o início da descoberta do vírus HIV na minha vida, tive um amparo de pessoas muito amigas e muito solidárias, que me deram um suporte para eu tomar essa decisão que tomei, e para chegar a esse momento aqui de conseguir conversar sem nenhum constrangimento, sem nenhum medo, sem nenhuma necessidade de me sentir inferior por conta disso. Porque o imaginário que existe em torno do vírus HIV é muito profundo e muito cruel. Infelizmente, a sociedade ainda enxerga com uma lente dos anos 80, como se as pessoas que convivem com o vírus HIV tivessem uma cara ou pertencessem a um grupo social, quando isso é uma mentira, uma bobagem. É um vírus que está aí e todo mundo está sujeito a entrar em contato, infelizmente. Tive esse amparo que me trouxe um afeto, um entendimento, uma necessidade de me olhar e de querer entender o que estava acontecendo comigo. E também de solidariedade. Acho que é uma palavra que chegou junto com o diagnóstico. Desde o início, tive o entendimento que eu queria abrir a questão para que eu pudesse de alguma forma, mesmo que pequena, contribuir para uma reflexão. Quando decidi abrir, resolvi conversar com os meus pais. Não é uma notícia que a família espera: pai, sou gay, estou soropositivo. Eles sempre souberam da minha sexualidade, mas nunca se meteram ou julgaram a minha decisão, pelo contrário, sempre foram muito amorosos. Obviamente quando eu trouxe a notícia do diagnóstico eles ficaram tristes e preocupados, mas eu estava fortalecido suficiente para dizer a eles: não se preocupem, estou bem. Não vai acontecer nada. Então, foi um processo de amadurecimento que a minha família tem acompanhado, e acho que será para a vida toda.

 

“A minha aproximação com a cultura indígena se deu a partir do Xamanismo, do contato com a natureza e do entendimento da sabedoria dos povos indígenas. O que está acontecendo no Brasil é um genocídio”.

• Em trecho do poema silêncio, você diz: “me diga o que é essa estranha serenidade cultivada no desespero da desordem”. E eu te pergunto, o que é essa estranha serenidade cultivada no desespero da desordem?
Essa serenidade se chama fé. Fé na vida, fé na existência, fé na humanidade. Essa serenidade vem desse lugar, dessa conexão com a natureza, com as minhas crenças e mitologias pessoais. A serenidade é isso.

• Você esteve no Xingu e em algumas aldeias indígenas nos últimos anos. Como surgiu o interesse pelos povos indígenas e o envolvimento também com os direitos humanos?
A minha formação política começou muito cedo. Meu pai é uma pessoa muito envolvida com a questão política. Ele me trouxe valores muito importantes em relação à questão política. E depois a minha passagem pela Escola Estadual de Teatro Martins Pena também. A minha formação política se fortaleceu ali. Fui presidente do grêmio da escola durante uns anos. E a gente tinha brigas homéricas com o governo do Estado do Rio de Janeiro, na época com a Rosinha e o Garotinho, por lutas como o passe livre para os estudantes de Artes ou pelo próprio pagamento de salário dos professores. Então, essas questões políticas sempre foram muito pungentes na minha vida. Essa vontade de querer que as coisas fossem mais justas. A minha aproximação com a cultura indígena se deu a partir do Xamanismo, do contato com a natureza e do entendimento da sabedoria dos povos indígenas. O que está acontecendo no Brasil é um genocídio. Estive recentemente no Xingu, na aldeia Afukuri, da etnia Kuikuro, que fica no alto Xingu, que é distante de Belo Monte. Mas você vê o impacto de uma usina hidrelétrica dentro de uma área de preservação ambiental. Fazendeiros esbarrando ou ultrapassando o limite do parque para poder fazer fazendas de soja, aquele deserto de soja. Então, tudo isso é triste e absurdo. Fora todos os desrespeitos com os direitos humanos dos povos indígenas brasileiros, porque são os povos originários desse país. Com o tempo, fui ficando cada vez mais próximo dessa cultura e solidário a esses povos, porque entendo que a sabedoria e o conhecimento deles são muito grandes, está além da cultura letrada, da academia, está na força da energia da floresta, do rio, das montanhas, do entendimento da natureza mesmo. Então é por aí que passa a minha formação política.

• Com a revolução no mundo digital, novas formas de publicação e estratégias de divulgação têm sido adotadas entre os mais diferentes escritores, além de permitir uma troca mais direta entre o autor e o leitor. Como você enxerga essa questão?
A internet é um paradigma na sociedade como um todo. E como a gente lida muito com a imagem e a palavra, mudou profundamente a nossa forma de se relacionar com a literatura, além de ter permitido acesso dos leitores de uma forma mais próxima aos escritores, e dos próprios escritores a expor seus textos, porque antes ficavam muito à espera de um jornal ou de uma editora para publicar. Vejo uma força positiva dentro disso. Talvez o lado não tão positivo seja a enorme quantidade de informação que nos bombardeia o tempo todo. Isso acaba cansando um pouco.

• E o que você tem lido ultimamente?
Tenho lido muito o Roberto Piva, que é um poeta que me instiga muito; o Al Berto; a Sophia de Mello Breyner Andressen; Néstor Perlongher… Gosto muito de poesia portuguesa. Dos brasileiros, sempre releio o Drummond. Aprendo muito com a releitura do Drummond. Fico também atento a ler a poesia contemporânea, os poetas que são os meus pares, do meu tempo. Tenho um apreço muito grande pela poesia da Bruna Beber. Há dois poetas que não têm livro publicado, mas que gosto muito: Tainá Rei e Vinicius Varela. Estou lendo, por conta do mestrado, muito a Adalgisa Nery. Então, estou nessa relação de amor e ódio.

• Inclusive, você faz um trabalho de curadoria da obra da escritora e poeta Adalgisa Nery. Como você chegou à obra da escritora e o que instigou levá-la para a academia?
Acho que não encontrei a Adalgisa, fui encontrado por ela. Uma vez o escritor Bernardo Carneiro Horta escreveu uma biografia da Nise da Silveira, eu estava desempregado, e ele me sugeriu que eu fizesse uma matéria para o jornal sobre três mulheres que ele considerava fortes: a Yolanda Penteado, a Maria Martins e a Adalgisa Nery. Eu li a biografia das três, e iria fazer o perfil de cada uma, mas na época a matéria caiu. Então, sugeri fazer a matéria da poeta Adalgisa Nery, com a qual mais me identifiquei. Fiquei muito impressionado com a poesia dela, a literatura e a sua biografia também, porque era uma mulher que foi escritora, jornalista e deputada durante três mandatos da Guanabara, no Rio de Janeiro. Teve uma vida turbulenta e muita intensa ao mesmo tempo. Isso foi o primeiro momento que me instigou a escrever. Na época, eu fiz um perfil da Adalgisa para o Prosa e Verso [O Globo], levando em conta os 30 anos de sua morte. E, cinco anos depois, consegui finalmente reunir os herdeiros da escritora, que são todos os seus netos, graças a Nathalie Nery, que é a neta que tenho mais proximidade, para gente ter uma autorização e correr atrás da republicação da obra dela. E fui até a José Olympio Editora, responsável por publicar a obra dela a vida inteira. A Adalgisa estava até o ano passado 35 anos fora de catálogo, por conta de questões que eu aponto, como o fato dela ter sido casada com o Lourival Fontes, que foi o diretor da DIP, do Getúlio Vargas. Acho que isso foi uma das coisas que fizeram com que ela caísse no esquecimento no meio intelectual. Mais do que um esquecimento, a deixaram no limbo. Embora a sua obra fosse elogiada por Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Jorge Amado e Gaston Bachelard. Para mim é uma grande honra mesmo resgatar o trabalho da Adalgisa, não só por estar estudando na universidade, mas realmente por poder trazer a obra de um autor que estava fora das estantes. É um motivo de muita alegria, de muita comemoração mesmo. O que me encanta na poesia da Adalgisa em específico é a relação com o cosmos e com a natureza.

• Em termos de literatura brasileira contemporânea, qual a sua opinião sobre o que tem sido produzido?
Sempre li muito a literatura contemporânea. Desde 2004 ou 2005 tenho lido com muita atenção. Gosto muito do que tem sido produzido. E o meu trabalho no Sesc Rio me exige também estar atento a essa produção. Sou um entusiasta dela. Tem poetas incríveis produzindo. Outro dia, fiz uma disciplina sobre Poesia Contemporânea Brasileira, na UFRJ, com o Eduardo Coelho, e a gente leu a Ana Martins Marques, que eu adoro; a Bruna Beber, Victor Heringer, Ismar Tirelli Neto, Angélica Freitas, Sylvio Fraga Neto… Só estou falando de poetas. Que é o que mais eu leio, mais do que a prosa. Eu já li muito prosa, mas hoje em dia leio mais poesia. Paulo Scott, que escreve tanto prosa quanto poesia, gosto muito do que ele escreve; o João Paulo Cuenca… Tem muitos autores que admiro e acompanho. Marilia Garcia, Marcos Siscar.

• Para mim o mais interessante é essa pluralidade de estilos. Os escritores não estão mais presos às escolas. Cada um está seguindo o seu próprio rumo.
Há uma característica na poesia brasileira contemporânea que é uma literatura mais verborrágica, quase prosaica, que não é muito o que eu faço. Meus versos são mais concisos. Mas consigo admirar e reconhecer essa produção, gosto muito. São autores que estão se investigando, estão lendo, dialogando. Leonardo Gandolfi é outro. E até os mais velhos. Eu amo a poesia do Ferreira Gullar, e é poesia brasileira contemporânea. Armando Freitas Filho, que é um grande poeta. Eu estava falando dos mais novos, mas há também os mais velhos: Eucanaã Ferraz, Antonio Cícero, André Vallias, a potência da poesia do André Vallias, que também é um grande tradutor; e o Paulo Henriques Britto. Na prosa, tem o Leonardo Villa-Forte, que é um autor de que gosto bastante; e além dele tem para mim o maior autor de ficção brasileira vivo, que é o João Gilberto Noll. Ele é grande, muito grande.

· E o trabalho do poeta como prosador é algo ainda a ser pensado no futuro? Você já participou de algumas antologias de contos…
Geralmente, escrevo esses contos a partir de encomenda. Tenho sim uma vontade de escrever um romance. Mas hoje venho priorizando mais a poesia e outros trabalhos. E escrever romance exige uma disciplina diferente da escrita da poesia. E talvez eu não esteja preparado, e tenho a maior humildade de responder isso, porque acho que a literatura exige verdade. Mas quando eu sentir que estou preparado para escrever realmente um romance, farei com toda a dedicação.

• No poema a mudança, o poeta diz: “a mudança está na força de prevalecer no ser, ancorar a presença no corpo”. Qual é a sua percepção da vida hoje?
A minha percepção da vida hoje é justamente essa: o presente. De viver mais plenamente o presente, com consciência dos atos, do que falo e de como vivo. A percepção da importância de estar presente, sem pensar ou ficar muito preocupado com o que vai acontecer no futuro, ou ficar preso ao passado. Acho que isso muda tudo. Isso faz com que a gente se coloque e encare a vida de outra forma.

• Uma lembrança emblemática ligada à literatura.
Acho que uma lembrança emblemática ligada à literatura foi quando conheci o escritor Rodrigo de Souza Leão. Foi muito emblemático, muito forte. Primeiro, porque fiquei muito impactado com a literatura dele. É uma literatura que trata do tema da loucura sem pudor e com um trabalho na linguagem de forma dedicada. Depois pelo fato de ele ter falecido e eu estar cuidando da obra dele, uma coisa que eu nunca esperava, e que acabou se tornando importante na minha vida. Conseguir republicar os livros dele, conseguir fazer uma exposição, doar o acervo para a Casa de Rui Barbosa, doar as telas para o Museu da Imagem do Inconsciente. Acho isso um fato importante. Eu tive um único encontro com o Rodrigo, durante uma entrevista, assim como você está me entrevistando. Depois disso, só por telefone. Isso para mim é impactante. Como um encontro pode gerar tantas outras coisas, ocupar lugares em nossa vida.

“A minha percepção da vida hoje é justamente essa: o presente. De viver mais plenamente o presente, com consciência dos atos, do que eu falo e de como eu vivo.”

• Em um dos poemas de seu novo livro, lemos: “aprender a ser grato por tudo que dói”. Pode falar sobre isso?
Escrevi esse verso muito baseado na descoberta do diagnóstico do HIV. Então, na verdade, o que esse verso me traz é de que está tudo certo. Mesmo as coisas que aparentam estar difíceis, elas fazem parte de um grande aprendizado na vida. Por mais dolorido e difícil que seja naquele momento, eu aprendi a agradecer, porque tenho aprendido a lidar de outra maneira com a vida. Então é um pouco isso, de agradecer a essência, de poder estar vivo, de poder estar produzindo, de poder estar conhecendo pessoas interessantes, por estar amando, por tudo isso. Então é esse o lugar.

• Existe alguma rotina durante o seu processo criativo?
Existe uma disciplina de leitura. Quando estou escrevendo um livro de poemas, tenho uma disciplina maior de leitura. Fico lendo determinados livros em algum determinado tempo, para me inspirar, para me instigar. Geralmente, leio mais prosa quando estou escrevendo poesia. Com a escrita da poesia em específico, vou rabiscando os versos aos poucos. Trabalho muito de madrugada. Depois que o livro toma um determinado corpo, aí sim tiro um determinado tempo do dia para me dedicar ao livro e repensar e retrabalhar a linguagem. Mas isso é um longo tempo até chegar. Existe uma indisciplina diária.

• Quais são os seus planos para o futuro?
Estar presente.

• O que é a vida para Ramon Nunes Mello?
A vida é um grito mudo e constante.

• Por que a poesia?
Porque é o lugar da liberdade. A poesia é vida.

• Uma frase para finalizar esta entrevista.
“Agora, enfim, sinto-me livre para fracassar”, do Georges Bataille.

Depois de São Paulo, o poeta Ramon Nunes Mello lança na próxima segunda-feira a partir das 19h no Rio, na Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572) seu terceiro livro, Há um mar no fundo de cada sonho (Aniki/ Verso Brasil). O evento terá leitura de poemas por Ney Matogrosso, Alberto Pucheu e Manoela Sawitski. Ao contrário dos temas urbanos de seus livros anteriores, dessa vez os mundos natural e sobrenatural ganham espaço, compactuando entre si, valorizando outras temporalidades e um culto às coisas que não estão submetidas ao fácil descarte. Aqui, Ramon fala sobre os livros que marcaram sua vida.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

RNM – A lembrança mais presente de uma “primeira” leitura? O livro Maria vai com as outras, de Sylvia Orthof. Em resumo, a história de uma ovelha chamada Maria que um dia descobre que cada um pode ter o seu próprio caminho.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

RNM – Os livros de poemas do Drummond foram definitivos em minha vida, especialmente a leitura de A rosa do povo, onde está o poema ‘A Flor e Náusea’.

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

SM – O que você está lendo agora?

RNM – Neste momento estou lendo os poemas de Adalgisa Nery, cuja obra estou organizando a republicação pela José Olympio Editora, além de estudar no mestrado em literatura brasileira na UFRJ.

 

LINK DA ENTREVISTA: https://oblogdasimonemagno.wordpress.com/2016/04/14/os-livros-da-vida-de-ramon-nunes-mello/

Schneider Carpeggiani, do Jornal do Commercio de Pernambuco

 

1 - Há a famosa frase de que "depois que se morre, todo mundo vira Ana Cristina César". Até que ponto isso pode ou está acontecendo com o Rodrigo?

Ramon Mello – Essa frase é polêmica, pois parece não reconhecer o valor da obra da poeta Ana Cristina Cesar. Rodrigo quis dizer que o autor só ganha reconhecimento quando morre de uma tragédia. Não concordo totalmente com essa frase, até porque Rodrigo foi publicado em vida, bem recebido pela crítica, inclusive indicado ao Prêmio Portugal Telecom 2009 com o romance de estréia, Todos os cachorros são azuis (7 Letras, 2008). Por outro lado, a mídia passou a se interessar mais pelo texto de Rodrigo de Souza Leão quando soube de sua história pessoal. O que Rodrigo pode nos oferecer de mais interessante é sua produção intelectual, seus livros. A vida do Rodrigo servia de matéria-prima para sua produção literária. Mas o que interessa é o modo como ele escreve, misturando gêneros diversos, desafiando os limites entre ficção e realidade. A escritora Suzana Vargas, que foi professora do Rodrigo, fez uma excelente resenha sobre o Me roubaram uns dias contados (Record, 2010), em que ela afirma: “São 335 páginas de um quase tratado ficcional de uma não-ficção no sentido mais literário que se possa dar ao termo. Personagens, não personagens, episódios múltiplos aparecem e somem através de um narrador, alter-ego do autor, que reflete sobre sua criação e criaturas, sobre seu mundo interno e externo.” 

 

2 - O que lhe despertou na obra dele, a ponto de organizar esse trabalho com a Record?

Ramon Mello - O que me despertou foi a sinceridade de sua narrativa, fragmentada, composta por personagens imaginários fascinantes. Uma das características mais marcantes de sua escrita é a modo como Rodrigo consegue misturar realidade e ficção, por vezes se inserindo na narrativa, extraindo daí vozes distintas que fogem do lugar comum. Tive acesso aos textos inéditos de Rodrigo, quando Antonio Leão, pai de Rodrigo, me convidou fazer a organização. O trabalho consiste ler os livros que Rodrigo deixou, além de consultar o material que ele enviou por e-mail para alguns amigos que acompanhavam seu processo de criação, como os poetas Leonardo Gandolfi (que escreveu a apresentação do Me roubaram uns dias contados) e Silvana Guimarães. Ele escrevia obsessivamente no computador, a maior parte do arquivo é composta por CDs e disquetes. A intenção é organizar o arquivo para doar a Fundação Casa de Rui Barbosa. As telas de Rodrigo também devem ser doadas.

 

3 - Você percebe alguma conexão da ficção dele com os quadros que ele pintava? Ou a ficção dele era uma obra isolada?

Ramon Mello – Percebo uma conexão das telas com a escrita dele, não o contrário. Algumas telas foram batizadas com nomes relacionados à literatura, por exemplo, a tela que ilustra a capa do livro Me roubaram uns dias contados chama-se ‘A Morte do Saci’. Mas não sou um estudioso de artes plásticas para analisar o assunto. Posso dizer é que as telas de Rodrigo foram produzidas de maneira intensa, durante os três meses que freqüentou as aulas de João Magalhães na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Não entendo a ficção de Rodrigo como uma obra isolada, penso que dialoga com sua própria vida. “Escrever foi o que me sobrou. De tudo que tive, foi o que me restou a fazer. Por que escrever?”, foi o que Rodrigo me respondeu quando perguntei por que ele escrevia. Rodrigo de Souza Leão é um escritor que mergulhou em seu rico inconsciente para apresentar personagens que têm muito a dizer. 

4 - Você chegou a conhecê-lo, se sim como foi o contato?

Ramon Mello – Meu interesse pela obra de Rodrigo de Souza Leão surgiu ao ler seu primeiro romance Todos os cachorros são azuis.  Não o conhecia, embora Rodrigo já publicasse bastante na internet, principalmente no blog Lowcura – onde estão alguns poemas seus. Tive apenas um encontro pessoal com Rodrigo, durante uma entrevista que realizei para o Portal Literal, onde trabalhei como repórter. Entrevistei o Rodrigo numa quinta-feira às três da tarde, desde então ele passou a me ligar todas as quintas no mesmo horário. Ele ligava para o celular e ficávamos conversando sobre literatura, principalmente dos livros dele. Nessa época, eu tinha interesse de levar Todos os cachorros são azuis para o palco. Então, conversamos e ele liberou os direitos, me enviou uma carta de autorização.

 

5 - Como você classificaria o romance Me roubaram uns dias contados? Que outras obras dele vão fazer parte dessa coleção?


Ramon Mello –
Não classificaria para não aprisioná-lo. Diria que se trata um texto ficcional escrito por um poeta.Rodrigo não utiliza persona para escrever. Ele aceita sua condição e escreve com sinceridade, sem perder o humor e a ironia. Rodrigo aciona elementos internos e externos para composição do texto. Me roubaram uns dias contados foi escrito a partir de colagens de outros textos, Rodrigo juntava o texto inédito com trechos de poemas e contos, ou frases alheias. Rodrigo sofria de esquizofrenia, de alguma forma sua produção literária reflete esse universo. No entanto, ele era um poeta acima de tudo. Após o Me roubaram uns dias contados, a editora Record vai publicar outros títulos inéditos de Rodrigo, um por ano: O Esquizóide e Carbono Pautado. E, ainda em julho deste ano, a editora 7Letras vai publicar a segunda edição do livro Todos os cachorros são azuis.

Ronaldo Bressane – Brasil Econômico

1 - Qual foi seu trabalho na organização do livro? Rodrigo o deixou na
ordem que está? Era um arquivo só, vários arquivos que você reuniu,
como foi esse processo? Como teve acesso aos inéditos?

Ramon Mello – Tive acesso aos textos inéditos de Rodrigo de Souza Leão, quando Antonio Leão, pai de Rodrigo, me convidou fazer a organização. O trabalho consiste ler os livros que Rodrigo deixou, além de consultar o material que ele enviou por e-mail para alguns amigos que acompanhavam seu processo de criação, como Leonardo Gandolfi e Silvana Guimaraes. Ele escrevia obsessivamente no computador, a maior parte do arquivo é composta por CDs e disquetes. Há pouco texto manuscrito, só alguns rascunhos. Me roubaram uns dias contados estava gravado num CD, foi assim que recebi. Rodrigo chegou a enviar esse livro para revisão, antes de inscrever na Bolsa de Criação Literária da Petrobrás 2009. Inicialmente o livro foi intitulado de Tripolar porque se tratavam apenas de três capítulos, chamados de “livros”. Depois ele escreveu um quarto capítulo e mudou o nome para Me roubaram uns dias contados, como Gandolfi explica na apresentação. Na editora Record, o livro foi enviado para uma nova revisão, onde procuramos padronizar a grafia de algumas palavras que se repetiam de forma distinta ao longo do texto, por exemplo: TV e tevê. Optou-se pela grafia que mais freqüência. Não mexi nas frases, nem alterei a estrutura do texto.


2 - Há muitas repetições, sobretudo no Livro 2, o que, a meu ver,
tornam o livro irregular. Em algum momento foi tentado a editá-las?

Ramon Mello – O objetivo de Rodrigo era escrever um livro 600 páginas, talvez por isso a repetição.  Não pensei em editar em nenhum momento porque optei em respeitar o trabalho realizado pelo autor, que considerava o livro pronto. Me roubaram uns dias contados foi escrito a partir de colagens de outros textos, Rodrigo juntava o texto inédito com trechos de poemas e contos, ou frases alheias. Essa foi a maneira que ele criou esse livro.


3 - Acha que a morte e a condição de esquizofrênico de RSL podem
colocar sua obra no nível do fetiche literário?

Ramon Mello – Essa é a minha maior preocupação. A imprensa em geral comenta muito sobre o aspecto biográfico do autor, mas o que interessa é sua produção literária. Rodrigo sofria de esquizofrenia, de alguma forma sua produção reflete esse universo. No entanto, ele era um poeta acima de tudo. Ele já escrevia seus textos antes do primeiro surto. Rodrigo de Souza Leão é um escritor que mergulhou em seu inconsciente para trazer para ao papel personagens ricos, que têm muito a dizer.  Espero que a crítica literária possa olhar para seus livros sem esse fetiche.

Entrevista com Ramon Mello

por Diana de Hollanda

    

crédito: Tomás Rangel

Diana de Hollanda - Vamos começar do começo; o Click(In)Versos foi o começo?
Ramon Mello - Escrevo minhas histórias desde os 12/13 anos, usando cadernos e mais cadernos, rabiscando. Quando tomei conhecimento da existência dos blogs, fiquei fascinado com a possibilidade de experimentação e divulgação da escrita. Os blogs têm 10 anos no Brasil, mas só criei um em 2004: Sorriso do Gato de Alice. Lá publico meus rascunhos; é um bloco de notas. Em 2006, quando trabalhei no portal Click21, resolvi criar um blog de entrevistas com escritores para me aproximar da produção contemporânea: o Blog Click(In)Versos. Fiquei tão interessado pela produção nos blogs que resolvi concluir meu curso de jornalismo com uma monografia sobre o tema: Blografias. Analisei – sob a orientação da professora Joelle Rouchou – a produção de alguns escritores e jornalistas, pontuando as frequentes mudanças na blogosfera. Através dos meus blogs, conheci o cineasta Murilo Salles – que me convidou para um debate sobre literatura e blogs, após uma sessão do filme Nome Próprio. Na plateia estava presente a crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda, assim a conheci. Em seguida, Heloisa me convidou para integrar a equipe do Portal Literal, então passei a colaborar com alguns projetos. ENTER – Antologia Digital é resultado de um encontro.

D - Você co-organizou a antologia digital Enter; o que se buscava foi alcançado? O que se buscava? O que foi alcançado?
R - A ideia do ENTER é reunir autores que tem relação com a palavra na web, sejam eles poetas, músicos, escritores, atores, quadrinistas, cordelistas... Pesquisei mais de 300 nomes e apresentei à Heloisa Buarque, que me solicitou mais. Conversamos sobre cada um deles em reuniões infinitas, até que Heloisa deu a palavra final dos escolhidos. Buscávamos fazer um recorte: reunir os autores numsoftbook e levá-los a público sob o olhar de uma crítica. Foi alcançado? Sim. Há nomes representativos da produção contemporânea: Carol Bensimon, Fábio Lyra, Omar Salomão, Índigo... Mas, como em toda antologia, há sempre autores excelentes que ficam de fora.

D - Dessa parceria, entre você e Heloisa, nasceu o Escolhas? Como pensou a organização do livro?
R - Exatamente. Heloisa é muito generosa. Descobri, através do escritor Bernardo Carneiro Horta, que Heloisa tinha um texto biográfico, realizado para um trabalho acadêmico. Li o texto e fiquei impressionado com a quantidade atividades que ela exerceu (e ainda exerce). Pensei que o material merecia ser divulgado, então conversei com Eduardo Coelho, na época meu editor na Língua Geral. Juntos, pensamos que o livro poderia ser uma bela homenagem aos 70 anos de uma professora que se dedica profundamente a entender o mundo contemporâneo. Heloisa vive o tempo de hoje, com olhar à frente. A ideia foi registrar esse olhar; o livro foi dividido em duas partes: a primeira sobre sua atuação no passado, composta pelo texto do memorial acadêmico; e a segunda um texto atual escrito por ela, a partir de uma série de entrevistas que fiz durante mais dois meses. Conversamos muito para conceber o livro, Heloisa tem muitas histórias interessantes, mas tivemos que buscar temas recorrentes na pesquisa dela: antologias, cultura digital, periferia...

D - Os seus blogs são uma ferramenta importante para a divulgação profissional? Que retorno eles já te deram?
- Não estaria respondendo a suas perguntas se não tivesse começado a escrever o Click(In)Versos e o Sorriso do Gato de Alice. Quando realizo algum trabalho na área de mídias digitais, lembro sempre dos meus blogs. Fui trabalhar no SaraivaConteúdo porque os editores conheciam a produção do Click(IN)Versos, por exemplo. Acredito que o reconhecimento de um trabalho está ligado diretamente com a relação de seriedade, que independe do veículo ou ferramenta. As pessoas ainda subestimam o poder dos blogs e sites, mas está na hora de perceber as mudanças. Tenho 26 anos, sou de uma geração que migrou do analógico para o digital. E a geração que só conhece o digital? Será que eles sabem o que é um vinil, uma vitrola? Talvez não. Mas eles entendem o poder da internet, por exemplo.

D - No SaraivaConteúdo você mantém um blog de Letras e escreve para o portal. Você tem liberdade de escolha sobre os temas?
R - Fui convidado por Marcio Debellian para fazer parte da equipe do SaraivaConteúdo quando o projeto ainda era apenas uma ideia embrionária, um desejo. O que me permitiu e permite pensar o conteúdo com mais liberdade, sem perder a visão do trabalho institucional. A proposta é produzir um conteúdo de qualidade, mapeando a produção de novos artistas e apontando tendências de mercado, utilizando as possibilidades de convergência de mídias que a internet oferece. Há liberdade de escolha, mas temos frequentes reuniões de pauta para pensar o caminho dessa produção. A reunião inclui todos: o conselho editorial, a equipe técnica e os jornalistas/blogueiros. As ideias são lançadas, discutidas e, então, executadas. O que é o trabalho do Mauro Ferreira? É um dos melhores críticos de música que conheço, ele assina o blog de Música. E também tem o Eduardo Simões, que assina o blog de Cinema. Há entrevistas antológicas com Sophie Calle, Caetano Veloso, Nélida Piñon, Ziraldo, Marcelo Taz, Marcus Vinicius Faustini, Hermeto Pascoal, Cristóvão Tezza, António Lobo Antunes, Milton Hattoum, Yoani Sanchez, Fausto Fawcett, Francisco Bosco... Sem dúvidas, o portal SaraivaConteúdo será uma referência, principalmente em literatura contemporânea.

D - Gosta da ideia de ser um entrevistador? Entre os atuais, cita algum que admire?
R - Me interessa o encontro, a troca com o entrevistado. Esse é o grande barato, mas só fui ter consciência desse pensamento quando entrevistei o Michel Melamed na comemoração de 1 ano do Click(In)versos. Entre as pessoas que promovem essa troca, Melamed é um exemplo. Poderia citar também alguns jornalistas de Cultura que admiro: Juliana Krapp, Luis Felipe Reis, Daniel Piza, Ubiratan Brasil e Geneton Moraes Neto. O encontro, a entrevista, é uma das partes do jornalismo. Imagina, me pagam para conversar sobre cultura. Não poderia ser melhor.

D - Você tem catalogado entrevistas com jovens escritores. O que pretende com esse arquivo? O que descobriu de mais marcante?
R - Conversei com mais de 80 escritores, a ideia é fazer uma seleção e publicar um livro de entrevistas, um recorte. Sabe o que descobri com esses encontros? Grande parte dos autores publica na web, mas ninguém abre mão do objeto físico, o livro. É a tal da relação afetiva, status e tudo mais. A maior descoberta que tive foi conhecer o poeta Rodrigo de Souza Leão, que faleceu em julho. Sem dúvidas, o escritor mais original, tanto na prosa como na poesia. A pedido da família, estou organizando a obra de Rodrigo de Souza Leão. No dia 2 de julho, data que marca um ano de falecimento do autor, será lançado o último romance escrito por Rodrigo: Me roubaram uns dias contados – título que marca a publicação dos livros pela editora Record. Para finalizar esse trabalho, recebi a colaboração dos poetas Leonardo Gandolfi e Silvana Guimarães, que acompanharam o processo de criação de Rodrigo.

D - De que maneira as incursões como entrevistador no mundo literário abriram caminhos para o pontapé na carreira de escritor?
R - Sempre que estou diante de um entrevistado pergunto: O que você diria para um jovem que deseja ser escritor? A maioria responde “leia!”. Não tenho dúvidas que essas entrevistas me fizeram um melhor leitor, logo minha escrita se modifica – espero que para melhor. Além dessa questão, esses encontros me permitiram entrar em contato com o mercado editorial. Me aproximei do editor do Vinis Mofados, Eduardo Coelho, por causa do Click(In)Versos, que ele acompanhava. Essa incursão acabou colaborando para o contato com o mercado editorial, mas esse não foi o objetivo.

D - Você ganhou um edital de teatro para montar Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo Souza Leão. Soube que optou por não atuar, mas sim dirigir. Como encenador, o que busca ao transpor para o palco um livro como esse?
R - O projeto Todos os cachorros são azuis é amplo, abrange uma montagem teatral, um ciclo de debates e uma exposição. E só é possível realizar essa ideia graças ao empenho dos produtores Elvira Rocha e Roberto Jerônimo. Fomos contemplados num edital que permitirá realizar a montagem. Mas estamos tentando captar o restante para realizar o projeto completo. Rodrigo Souza Leão deixou mais de 30 telas belíssimas, que foram feitas a partir de aulas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Sobre a peça, optei por ficar nos bastidores porque estou muito envolvido com a idealização e produção do projeto, não conseguiria me dedicar o necessário para o trabalho de ator. Flavio Sousa, que foi meu professor de interpretação na Escola de Teatro Martins Pena, vai assinar a direção comigo. Além do texto do livro, pretendemos utilizar elementos biográficos – poemas, cartas, fotografias e trechos de livros – como matéria-prima para construção dos personagens. Convidei Camila Rhodi, Thiago Mendonça, Bruna Renha e Natasha Corbelino para compor o elenco. São eles que nos ajudarão a levar a voz de Rodrigo para o palco. Todos os Cachorros são Azuis é um mergulho na condição humana, em especial, na maneira como indivíduos em sofrimento psíquico levam o dia a dia.

D - Sobre seu livro de poemas: em Vinis Mofados quanto há de Caio F. de Abreu?
R - Caio F. é uma grande referência que se encaixou no conceito do livro, em cada um dos poemas. O Vinis Mofados faz um diálogo com o Morangos de Caio, há uma ligação forte com a música popular brasileira. Mas não se trata de um releitura lírica do Morangos. De certa forma, acaba sendo uma homenagem ao mestre gaúcho. Vinis Mofados também é o nome de um dos poemas do livro, um dos primeiros que escrevi. Além disso, dá unidade ao livro, que está dividido em dois capítulos: Lado A e Lado B.

D - Fora o Caio, inúmeras outras referências são evocadas; como pensa a função delas no livro? 
R - Foi o modo que encontrei de dialogar com a tradição: poetas, músicos, cineastas que pensam a linguagem de forma criativa. Trago essas referências de forma explícita no livro porque só crio a partir do outro, do que já foi feito. O outro é que me desperta, que me constrói. E, consequentemente, o livro.

D - O que muda do Lado A pro Lado B?
R - No Lado B estamos mais despidos, as palavras estão nuas. A intimidade está exposta na própria linguagem.

D - Há algum poema "preferido" dos leitores? E seu? 
R - Em geral, comentam muito o poema “LADO B”: desculpa / mas essa música / não quero mais / ouvir // sua voz arranhada / já não convence / vira o lado do disco // aproveita e dorme . Gosto muito de “HAVAIANAS”: anunciei no jornal / perguntei pra todo mundo / mas ninguém tem notícias suas // enquanto isso as havaianas / continuam a descansar na área / de serviço atrás da porta entre o / rodo e o pano de chão // desde aquela noite só / ando descalço / é o meu protesto

D - Você tem um romance em processo. All Star bom é All Star sujo. Pode contar sobre ele?
R - O All Star bom é All Star sujo foi escrito antes do Vinis Mofados. Mas, depois de conversar com Eduardo Coelho, resolvi publicar primeiro o livro de poemas. Guardei o romance na gaveta, deixei descansá-lo para reescrevê-lo. Pretendo voltar a ele depois da montagem de Todos os Cachorros são Azuis, quando terei tempo suficiente para o mergulho. Conta a história de Otto, pretenso escritor, que vive trancado num conjugado no Bairro Peixoto. Ele faz uma autoanálise de sua vida para tentar transformar o sofrimento em palavras.

D - Há previsão de lançamento?
R - Quero trabalhar o romance sem pressa. Não tenho data marcada, mas pretendo finalizá-lo até o próximo ano.

D - Como se deu o processo de criação do conto "Sereníssima", no livro Como se não houvesse amanhã
R - Fui um dos últimos autores a ser convidado para a antologia. Quando o Henrique Rodrigues me chamou faltava pouco tempo para entregar o livro à editora. Então, tentei lembrar uma música do Legião de que eu realmente gostasse. Fiz uma lista, "Sereníssima" ganhou. Pesquisei a história do Renato Russo, li a biografia feita por Dapieve e li diversas entrevistas para trazer elementos da vida do Renato para a narrativa. Por exemplo, a bebida alcoólica em copo de maionese, detalhes. Busquei escrever uma história de amor entre dois homens, que podem ser dois desconhecidos ou o Renato e o Scott - um namorado americano, problemático, do cantor.

D - E o seu método de criação, há método?
R - Não tenho um método específico. Estou aprendendo a criar disciplina, ter um tempo para a escrita e a leitura, sem perder a intuição. Escrevo prosa a partir de uma ideia e vou desenvolvendo, encontrando o tom do personagem, daí sigo direto para o computador. Releio, corto, reescrevo muito. Já os poemas, rabisco em cadernos, faço milhões de anotações. Um poema nunca está pronto.

D - Atualmente, você participa de uma revista ao vivo (De modo geral). O que mais envolve esse evento? E você, como se envolve com o evento?
R - O De Modo Geral é um projeto do escritor Paulo Scott, o "cabeça" do evento, que é um grande agregador de pessoas. A ideia é reunir profissionais de cultura que estão realizando trabalhos interessantes para uma conversa coletiva – uma revista ao vivo. Sou um dos integrantes da trupe, com Anna Dantes, Allan Sieber, Flu, João Paulo Cuenca e Rodrigo Penna. É, além de tudo, divertido.

D - Poeta, ator, diretor, jornalista, reticências. Pensa em investir prioritariamente em algum desses? O que é necessário para o investimento?
R - Me identifico com pessoas múltiplas. No entanto, gosto de pensar na dedicação a uma atividade. Pretendo priorizar o meu tempo para a palavra, especialmente para a literatura. Então, vou me alimentar da disciplina do ator e do jornalista. É necessário disciplina para escrever, para levar qualquer trabalho com seriedade.

Entrevista: Ramon Mello
Assunto: Rodrigo de Souza Leão

Por Giuseppe Zani

Qual foi a primeira vez que você teve conhecimento do Rodrigo de Souza Leão? Quando foi que encontrou com ele pela primeira vez?

Ramon Mello – Conheci Rodrigo de Souza Leão através do seu primeiro romance, Todos os cachorros são azuis (2008), que ele escreveu a partir da Bolsa de Patrocínio da Petrobrás.  Embora Rodrigo já publicasse bastante na internet, principalmente no blog Lowcura, eu não o conhecia. Meu encontro com Rodrigo ocorreu numa entrevista que realizei para o Portal Literal, onde trabalhei como repórter. Me interessei pela sinceridade de sua escrita, fragmentada, composta por personagens imaginários fascinantes.

Rodrigo ficou realmente feliz com a divulgação e a repercussão. Por outro lado, ele era um sujeito muito apegado, lembro que comigo ele ligava toda a semana. Como foi com você? Ele continuou em contato? Ele te ligava? Vocês chegaram a conversar sobre adaptação do Todos os cachorros são azuis para teatro? Houve algum pedido da parte dele?

Ramon Mello – Entrevistei o Rodrigo numa quinta-feira às três da tarde, desde então ele passou a me ligar todas as quintas no mesmo horário. Ele ligava para o celular e ficávamos conversando sobre literatura, principalmente dos livros dele. Nessa época, eu tinha interesse de levar Todos os cachorros são azuis para o palco. Então, conversamos e ele liberou os direitos, me enviou uma carta de autorização. Ele falava que seria legal chamar o Selton Mello para fazer a montagem porque, segundo ele, o Selton já estava acostumado a fazer personagens malucos. [risos] E também pedia para incluir poemas dele na adaptação.

O livro Todos os cachorros são azuis tinha uma projeção biográfica do autor muito forte. Pelo que li, imagino que com o Me roubaram uns dias contados também vá por aí. Há alguma ideia de registro biográfico do Rodrigo de Souza Leão?

Ramon Mello – Sim, há uma ideia. Mas, por enquanto, estou preocupado em organizar os livros que ele deixou. E também fazer com que as pessoas conheçam o trabalho dele. É tudo muito recente, temos que ir devagar.

Você está organizando a obra do Rodrigo de Souza Leão. O que ele deixou? (entre publicados e inéditos, as telas, etc.) quais são os projetos para esse material? O material que ele deixou, são tudo arquivos eletrônicos ou ele escrevia a mão? Alguma correspondência além da carta aos pais antes da morte? Me roubaram uns dias contados estava pronto ou foi preciso trabalho de organização?

Ramon Mello - A família Souza Leão me convidou para organizar a obra quando soube da minha existência através da matéria que escrevi para Prosa & Verso, após o falecimento de Rodrigo em 2009. Ele deixou um material vasto, entre livros em prosa e poemas (em sua maioria publicada na web). Além disso, há livro infantil e arquivos de áudio e vídeo. Ele escrevia obsessivamente no computador, a maior parte do arquivo é composta por CDs e disquetes. Há pouco texto manuscrito, só alguns rascunhos. Não há correspondências. Me roubaram uns dias contados foi o último livro escrito por Rodrigo de Souza Leão. Ele chegou a inscrever esse romance na Bolsa de Criação Literária 2009 da Petrobrás, havia a esperança de ser contemplado novamente. O livro estava pronto, fizemos apenas uma nova revisão mais atenciosa. Além disso, o nome do livro, antes divulgado como Tripolar, ficou Me roubaram uns dias contados. Segundo o poeta Leonardo Gandolfi, que acompanhou o Rodrigo na produção desse livro, ele mudou o título depois de enviar para o edital. Recebo a colaboração de Gandolfi e da poeta Silvana Guimarães na organização da obra do Rodrigo.

Como vai ser o lançamento póstumo de Me roubaram uns dias contados? Todos os cachorros também vai ser reeditado?

Ramon Mello – Me roubaram uns dias contados será lançado pela editora Record no dia 2 de julho, às 19h, na Livraria do Museu da República. Essa data marca um ano de morte de Rodrigo. Haverá uma mesa de debate com os poetas Franklin Alves Dassie, Leonardo Gandolfi e Suzana Vargas – todos amigos pessoais de Rodrigo. Farei a mediação do encontro. E também haverá leitura do trecho do livro realizada pelos atores que estão no projeto da peça. A Record vai publicar toda a obra inédita do Rodrigo de Souza Leão. Inicialmente, vamos publicar Me roubaram uns dias contados, Carbono Pautado e O Esquizóide. E a editora 7 Letras fará a reedição de Todos os cachorros são azuis, que ganhará uma nova capa assinada por Filipe Carvalho.

Como foi a transposição do Todos os cachorros são azuis para o texto cênico. Que opções foram feitas, que recorte? Ainda em captação?

Ramon Mello - Depois que Rodrigo faleceu me comprometi em realizar esse projeto.  Estou produzindo com Elvira Rocha e Roberto Jerônimo, fomos contemplados num edital que permitirá realizar a montagem. Mas estamos tentando captar o restante para realizar o projeto completo. Convidei o ator Flavio Sousa para assinar a direção junto comigo, ele foi meu professor de interpretação na Escola de Teatro Martins Pena. A adaptação será realizada a partir do processo de ensaio, pretendemos utilizar elementos biográficos – poemas, cartas, fotografias e trechos de livros – como matéria-prima para construção dos personagens. O elenco é composto por cinco atores: Camila Rhodi, Thiago Mendonça, Bruna Renha, Fabrício Belsof e Natasha Corbelino. Espero começar a ensaiar ainda este ano.

RAMON MELLO: AGENDA CULTURAL

Dias contados... para o trabalho de Rodrigo de Souza Leão vir à luz

 

O número atual da revista Ficções se encerra com trechos do romance Me roubaram uns dias contados, de Rodrigo de Souza Leão, a sair pela Record em julho. A beleza e a tristeza andam juntos nos textos desse escritor, que sofria de esquizofrenia e morreu prematuramente ano passado. Shahid conversou com o responsável pela organização da obra do autor, o poeta e jornalista Ramon Mello. Ele também trabalha na adaptação de um dos livros de Rodrigo para o teatro.

Você está trabalhando na adaptação teatral do romance Todos os cachorros são azuis. Como será o espetáculo?

Ramon Mello – O projeto, adaptação do livro homônimo de Rodrigo de Souza Leão, foi contemplado por um edital de teatro, o que permitirá a montagem do espetáculo. Mas estou batalhando, junto aos produtores Elvira Rocha e Roberto Jerônimo, em outros editais para que possamos realizar a ideia em sua completude. A adaptação será realizada em processo com os atores Bruna Renha, Thiago Mendonça, Natasha Corbelino e Camila Rhodi. A previsão é iniciarmos os ensaios no segundo semestre. Vou dirigir o espetáculo junto com Flavio Souza, meu parceiro nesta viagem.

Qual foi sua impressão do Rodrigo no primeiro encontro que tiveram?

Ramon Mello – Conheci Rodrigo através de seu trabalho, ao ler Todos os cachorros são azuis. Fiquei fascinado com a literatura de Rodrigo, com vontade de conhecê-lo pessoalmente. Então, marquei um encontro para entrevistá-lo para o Portal Literal. De imediato fiquei com receio, pois nunca tinha tido contato com um esquizofrênico. Ainda bem que enfrentei minha ignorância, Rodrigo foi uma das melhores pessoas que conheci na vida. Apesar dos delírios, ele tinha grande lucidez da vida, um olhar atento ao outro. A impressão era de estar diante de uma pessoa que não cabia em si, sofrido.

Você também ficou responsável pela organização da obra do autor. Como é esse trabalho?

Ramon Mello – A família Souza Leão, os pais de Rodrigo, me convidaram para organizar sua obra. Estou lendo os textos que ele deixou; alguns livros de prosa e outros de poesia. A editora Record publicará sua obra inédita, o primeiro livro a ser lançado será Me roubaram uns dias contados — o último romance de Rodrigo. Na organização deste trabalho recebi a colaboração importantíssima dos poetas Leonardo Gandolfi e Silvana Guimarães, amigos de Rodrigo. A ideia é lançar o livro no dia 2 de julho, data de seu falecimento.

Você lançou o livro de poemas Vinis Mofados (Língua Geral) — elogiado pela crítica — no fim de 2009. Quais são seus planos para um próximo livro?

Ramon Mello – Antes de publicar Vinis Mofados, eu escrevi um romance chamado All Star bom é All Star sujo. Quero voltar a esse livro para finalizá-lo, mas só pretendo fazer isso após a adaptação do livro de Rodrigo de Souza Leão. Literatura requer tempo, então uma coisa de cada vez. Agora é o momento do Rodrigo, sem dúvida. Enquanto isso, anoto meus poemas num bloco de notas, sem pressa.

Que escritores você tem lido?

Ramon Mello – Leio muito os autores contemporâneos devido ao meu trabalho como jornalista. Carola Saavedra é uma escritora que me desperta muito interesse, leio com prazer. E ando apaixonado pela Adalgisa Nery, uma poeta que está esquecida. A história de vida e a poesia de Adalgisa é fascinante — o livro A Imaginária é uma obra-prima.

[Entrevista realizada por Valéria Martins, em 2010, para o

Shahid Produções Culturaiswww.shahid.com.br]

ENTREVISTA: RAMON MELLO

ASSUNTO: RODRIGO DE SOUZA LEÃO, AUTOR DE ‘ME ROUBARAM UNS DIAS CONTADOS’

Por Dirceu Alves Jr

Como surgiu seu interesse pela obra do Rodrigo? Vocês se encontraram através de amigos, ou você o conheceu pelas publicações? E o que mais lhe chamou atenção? Quais são as maiores características de sua escrita?

Ramon Mello – Meu interesse pela obra de Rodrigo de Souza Leão surgiu ao ler seu primeiro romance Todos os cachorros são azuis (2008).  Não o conhecia, embora Rodrigo já publicasse bastante na internet, principalmente no blog Lowcura – onde estão alguns poemas seus. O que me despertou foi a sinceridade de sua narrativa, fragmentada, composta por personagens imaginários fascinantes. Uma das características mais marcantes de sua escrita é a modo como Rodrigo consegue misturar realidade e ficção, por vezes se inserindo na narrativa, extraindo daí vozes distintas que fogem do lugar comum.


Frases curtas, um ritmo frenético, ideias não lineares. A literatura do Rodrigo tem muito evidente as características da Internet e os tempos atuais. Esse ritmo - ou estilo, melhor dizendo – pode se tornar menos atraente para o leitor no papel? Ou literatura é literatura independente do modo que chega ao público?

Ramon Mello – Rodrigo sofria de esquizofrenia, de alguma forma sua produção literária reflete esse universo. No entanto, ele era um poeta acima de tudo. Quando entrevistei Rodrigo, apontei essa fragmentação da escrita. Ele me disse: “Nós vivemos em tempos esquizofrênicos. Muita gente tem depressão ou síndrome do pânico. É uma sociedade que está doente porque dá valor ao que não se deve: o dinheiro. O ser humano viveria muito mais se parasse com essa babaquice de querer dominar o outro.” E ele viveu com todas as possibilidades que a internet oferece, o ‘ritmo frenético’ também pode ser resultado dessa equação. A boa literatura, que é caso do Rodrigo, independe do suporte. Na web ou no livro impresso o texto de Rodrigo de Souza Leão permanece com força.


De que forma Rodrigo usou a esquizofrenia para criar um estilo literário ou quem sabe se encontrar um lado bom de fazer da doença uma inspiração para a arte?

Ramon Mello – A esquizofrenia não é uma opção, é uma doença. Rodrigo não ‘usou a esquizofrenia para criar um estilo’ ou para ‘fazer da doença inspiração da arte’.  Estamos falando uma pessoa em sofrimento psíquico: “Escrever foi o que me sobrou. De tudo que tive, foi o que me restou a fazer. Por que escrever?”, foi o que Rodrigo me respondeu quando perguntei por que ele escrevia. Rodrigo de Souza Leão é um escritor que mergulhou em seu inconsciente e traz à tona para trazer ao papel personagens ricos, que têm muito a dizer. 


Como podemos diferenciar a metalinguagem verificada pelo menos nesse livro especificamente da obra de outros autores? É sempre muito ambicioso e ousado, mas aqui funciona e até se torna um dos atrativos...

Ramon Mello – Penso que a diferença está no modo como o autor aciona elementos internos e externos para composição do texto. Seja com o autor ou com o personagem à frente da narrativa, ficamos instigados a ler toda a história. Acompanhar esse fluxo é um prazer.


Os autores dessa geração surgida junto com a internet muitas vezes aproveita-se de sua persona para contar histórias de seu mundo, criando personagens próximos de seus hábitos, de sua rotina. Rodrigo vai além. Ele interfere na história, redimensiona a trama, assume-se como o autor e senhor daquela situação. Será que esse já era um objetivo dele? Ele tinha essa consciência?

Ramon Mello – Rodrigo faz o caminho inverso desses autores, ele não utiliza persona. Ele aceita sua condição e escreve com uma sinceridade incômoda, sem perder o humor e a ironia. Penso que todo autor quando publica um livro tem - ou pelo menos deve ter - controle e consciência da própria narrativa. Rodrigo é um poeta e tinha consciência do que escrevia.


O quanto você acha que pode ter de autobiográfico? Pelo menos nesse livro...

Ramon Mello – A vida do Rodrigo servia de matéria-prima para sua produção literária. Mas o que interessa é o modo como ele faz isso, misturando gêneros diversos, desafiando os limites entre ficção e realidade. A escritora Suzana Vargas, que foi professora do Rodrigo, fez uma excelente resenha sobre o Me roubaram uns dias contados (Record, 2010), em que ela afirma: “São 335 páginas de um quase tratado ficcional de uma não-ficção no sentido mais literário que se possa dar ao termo. Personagens, não personagens, episódios múltiplos aparecem e somem através de um narrador, alter-ego do autor, que reflete sobre sua criação e criaturas, sobre seu mundo interno e externo.”  


Rodrigo está mais para um poeta fazendo prosa ou ele usa a prosa para ser uma ferramenta de sua poesia. Como você acha que ele dosava essas diferenças?

Ramon Mello – Rodrigo é um poeta. E na prosa ele mistura os gêneros, penso que fazia isso sem a preocupação de dosar essas diferenças, pelo contrário.


Existe um certo conservadorismo na literatura brasileira atual que pode estar sendo quebrada com essa publicação da obra do Rodrigo? Muita coisa vem a público, pode se escrever de tudo e levar aos olhos do público, mas muito pouca coisa realmente tem qualidade literária. Você acha que esse excesso da internet pode estar inibindo muitos autores?

Ramon Mello – Não. Rodrigo já publicava anteriormente, inclusive foi um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009 com o livro Todos os cachorros são azuis.

Não compreendi a segunda pergunta.


Qual é o seu maior cuidado ao assumir o papel de cuidar da publicação da obra de Rodrigo de Souza Leão? O que deve vir por aí depois de Me Roubaram uns Dias Contados e como esse material está chegando as suas mãos?

Ramon Mello – O meu maior cuidado é respeitar a vontade do autor, publicando somente o que ele gostaria que fosse publicado - avaliando o valor literário de cada texto. Para tanto, mantenho contato direto com a família e com amigos de Rodrigo que compartilharam de seu processo criação, como os poetas Leonardo Gandolfi (que escreveu a apresentação do Me roubaram uns dias contados) e Silvana Guimarães. A família me entregou arquivo pessoal de Rodrigo: disquetes, CDs e pendrives que contém material diverso, entre livros finalizados, textos soltos, arquivos de áudios e vídeos. A intenção é organizar o arquivo para doar a Fundação Casa de Rui Barbosa. As telas de Rodrigo também devem ser doadas. Após o Me roubaram..., a Record vai publicar outros títulos inéditos de Rodrigo: O Esquizóide e Carbono Pautado.

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