Crônicas

Íssimo Caio Fernando Abreu:
Alexandra Lucas Coelho  [Público -8 de setembro de 2013]

1. Abri as suas “Cartas” porque estavam em cima da mesa. Li uma ao acaso, enquanto esperava que o computador acordasse. Quando dei por isso tinha-me estendido a ler 100 páginas. O livro não era meu, liguei à amiga que o deixara ali, disse-lhe que perto destes anos 80 os textos de 2013 pareciam pálidos. Uma infusão de sangue na anemia geral. E ela, que já nasceu nos anos 80, disse:

— Cara, totalmente de acordo.

Há um “loop” nisto. No meu primeiro domingo de praia no Rio de Janeiro, em 2010, Ramon “Dylan Tupiniquim” Nunes Mello, falou-me no livro de poemas com que se estreara, “Vinis Mofados”, homenagem a um título mítico dos anos 80 no Brasil, “Morangos Mofados”, de Caio Fernando Abreu, autor que eu nunca lera.

2. Basta abrir para ver: uma palavra fica ALTA, uma vogal ecoooooooa, um nome fica inho, fica ão, funde-se com outros na palavra-em-extensão que mistura português, inglês, tupi (or not tupi, Oswald de Andrade). Então, assim vista, a coisa vibra, tipo esta frase em que você fala de uns poemas que leu e que tanto se aplica aos seus textos: “Wow! Ou uáu, para ser mais nacionalista. São muito fortes? vivos? bons? são fortes-vivos-bons, mas também são mais, têm um FERVOR que fazia tempo eu não sentia em nada escrito.” Nacionalista de ironia, dançando nas galáxias, você não escreveu uma frase chata, que eu tenha dado por isso, e escrevia frases como “o que acontece comigo é que tenho andado de braços fechados”.

3. No começo destas cartas, vem lá do sul, gaúcho chegando a São Paulo, e quando já tenho tanta pena de não o conhecer, de não o ver apaixonar-se de forma fulminante, de não o ouvir dizer “quero um livro novo seu tipo já e direto nas veias”, você ainda muda de Higienópolis para Santa Teresa, alterando o meu Rio de Janeiro tantos anos depois de morto.

4. Hotel Santa Teresa, o velho, onde os hóspedes não tinham dinheiro para mandar vir meninos das favelas com coca, e você era mais um teso pelos corredores coloniais. Então se eu lhe escrevesse uma carta destes meus três anos brasileiros tinha de lhe falar daquele dia em que o bonde de Santa Teresa chocou com um poste, e houve mortos e feridos, e desde então não houve bonde, só nas camisetas de quem espera o bonde futuro, só nas fotografias em que os bondes do Rio de Janeiro estão para sempre parados. Caio Fernando Abreu: abraçado à sua última paixão fulminante, você hoje subiria da Lapa a pé, já trepando pelo caminho; e quando, pouco antes de se atirar da janela, Ana Cristina César lhe fosse bater à porta MAAAAL, ela subiria também a pé; e quando, contra a opinião dela, você descesse para a sua próxima paixão fulminante, seria a pé que você desceria, com a antecipação de quem sempre chega antes, e antes avaliou as estrelas.

5. Você cruzava estrelas com orixás (muito distante para mim), trocou a análise pela dança (mais próximo), fumava maços por dia (próximo), morava sozinho com uma gata chamada Zelda Fitzgerald que gostava de gin (ao nível do mito). Eram os anos 80–90 no Brasil, aquele país em que um escritor como você se sentia convidado a desistir logo ao acordar, sem dinheiro para sequer enviar um correio. O Rio de então, descobre você, portava-se afinal como uma cidade careta, do ponto de vista de um gay activo. E se eu disser que tudo isso mudou, e nada disso mudou, as duas coisas são verdade, consoante o ponto de vista.

6. Mas saiba que em algum ponto do Brasil, por exemplo, no bairro do Bom Retiro, São Paulo, onde você não vai há mais de 30 anos por manifesta impossíbilidade técnica, uma tal Oficina Cultural Oswald de Andrade pode apresentar o espectáculo “Coração Dark Room” narrando “o universo do jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu”. E então os seus morangos mofados (“Um morango mofado — e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca?”) cruzam-se com a primeira árvore que os portugueses roubaram e Oswald de Andrade transformou em poesia moderna, o pau-brasil, que é pau-para-toda-a-obra, descido nas ruas do Brasil-agora, levantado por quem (como diria Mário Cesariny, que você bem gostaria de ter conhecido) diz “que te amo amo amo”. Escrevo-lhe do interior do Jardim Botânico, numa daquelas quartas-feiras de chuva no Rio de Janeiro, e eu tinha pensado nisso, procurar neste jardim os paus-brasis que se alguma vi nunca soube que estava a ver, mas entretanto ficou escuro. Fica para amanhã.

(Público, 8-9-2013)


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