Crônicas

 

no caos, virei mais uma esquina, em busca de diálogo. por um determinado período entrevistei escritores, muitos deles publicando o primeiro livro. após a leitura dos títulos, eu marcava o encontro com o autor e gravava a entrevista num gravador de fita. era o ano de dois mil e seis e estávamos engatinhando do analógico para o digital. tenho guardado em caixas de all star conversas sobre planetas inventados com bruna beber, alice sant’anna, vivine mosé, joão paulo cuenca, cecilia giannetti, michel melamed, rodrigo de souza leão... e muitos outros pares. depois passei a registrar a conversa em vídeo para largar as imagens no calçadão virtual. em cada conversa, na minha curiosidade de neófito, sempre perguntava sobre o processo de criação: como nasce um livro? motivado pela gestação do meu primeiro livro de poemas na ocasião, os encontros multiplicaram-se: num café, num bar, num teatro ou numa livraria. as respostas eram as mais variadas, cada um em busca do seu caminho, do compasso e de liberdade na escrita. a conclusão, um tanto óbvia: a criação é um processo de construção de vida inteira. como cada um vai fazer isso é que são elas. recém-publicado meu terceiro livro de poemas (“há um mar no fundo de cada sonho”) percebo o quanto foi diferente a criação dele em comparação com o primeiro livro (vinis mofados) e com o segundo (poemas tirados de notícias de jornal). não teria como ser igual, mudamos a todo instante, e esses processos mudam conosco a cada página escrita, a cada poema libertado para o mundo. embora o silêncio esteja presente em tudo que escrevo, tenho consciência de que neste último livro a relação foi potencializada. um mergulho profundo nas cicatrizes diárias, no silêncio apaziguador da meditação e nos encantamentos dos encontros. fiquei num jejum de cinco anos entre o segundo e o terceiro livro, mas não sem escrever poemas. com frequência fazia anotações de versos e ideias em pedaços de papel e guardanapos de café, até passar para o computador e trabalhar o poema à exaustão, falar em voz alta, ouvi-lo. nesse tempo estava tratando de viver bem e lidar com todas as surpresas que me ocorreram, que mudaram não somente minha relação com a vida, mas principalmente com minha escrita. eu me sentiria um impostor se tivesse de omitir em minha literatura algum assunto pelo tabu, ou receio de preconceito. a vida, e principalmente a poesia, é o lugar da liberdade. entonces, fiz um mergulho profundo e silencioso. acredito na escrita que se faz através da leitura, da intertextualidade, e também através da contaminação com o que ocorre com o outro. o poeta deve virar a esquina. hoje, em dois mil e dezesseis, prefiro uma esquina que me leve à mata, ao rio, à cachoeira, ao encontro com os povos originários do xingu – que recentemente tive a licença e alegria de conhecer. estou em conexão com o pensamento do poeta roberto piva que acreditava na “poesia como uma forma de reenergizar o planeta”, como relembrou danilo monteiro em sua leitura. acredito no poder da escrita, da palavra. talvez isso me distancie da novíssima produção de poesia contemporânea, com seu pensamento de uma escrita criativa, verborrágica e hermética, feita para iniciados. me aproximo mais das rezas dos pajés, dos cantos xamãs, dos gritos dos indígenas tão violentados no brasil. atento aos povos originários que cultivam o selvagem e o sagrado, com sua “poesia xamânica bioalquímica”: krenak, huni kuin, fulni ô, kuikuro, kalapalo e tantos outras etnias que ainda resistem cheias de beleza,em que o tempo é arte. prefiro essa relação mitológica com o tempo, a metafísica das folhas e raízes. quero a poesia defendida nas ideias pivianas como uma solução, uma vacina, que “impede que as pessoas parem de sonhar”. ainda é possível acreditar na poesia como chave do sonho? sim: há (sempre) um mar no fundo de cada sonho. se não for desse jeito, qual o sentido na criação? a poesia apesar de. apesar dos golpistas, dos corruptos, dos preconceituosos, dos racistas, dos homofóbicos. apesar de tudo, fico com a poesia, a linguagem e a criação. a poesia como reconstrução da vida, tão (des)necessária e fundamental.

 

LINK DA PÁGINA: http://www.suplementopernambuco.com.br/edicao-impressa/67-bastidores/1606-a-cria%C3%A7%C3%A3o%2c-processo-de-vida-inteira.html

Crônicas

Alexandra Lucas [Público. 1 de julho de 2012]

 

1. Eu achava que eles iam falar sobre o Rio, mas do Recife ao Oriente rolaram poemas, peças, trailers, trilhas, histórias de pé-na-bunda, como a do homem que não amou Clarice Lispector. Então ao fim de três horas achei que sim, tinham falado do Rio, cidade que não vai à montanha porque a montanha vai a ela, onde um poeta de camiseta pop diz que não lê poesia, depois lê o que escreve e desarma a europeia. Ah, velho mundo, mau sangue, habituado à tradução: pé-na-bunda foi o que levou Soror Mariana e camiseta é t-shirt com outra métrica.

 

2. O convite dizia “De modo geral: revista ao vivo do comportamento brasileiro”, fechando uma semana de encontros na Casa da Gávea a propósito da Rio+20. Quase nada do que se segue tem a ver com a Rio+20, fora a parte em que a quadrilha de colunistas fala dos índios, do trânsito e do Rio estar uma merda. Seja como for não parem de ler: ao menos por uma noite eles são os últimos dos duros, no sentido do faroeste e de não ganharem um tostão.

Invenção de Paulo Scott, escritor gaúcho radicado no Rio, esta revista ao vivo estreou em 2008 num bar de Botafogo que depois fechou e em 2010 mudou-se para a Casa da Gávea, a convite do director Paulo Betti. Entre um espaço e outro, como nunca houve orçamento, táxis de convidados, comes, bebes, até sistema de som, saíam do bolso de Scott. Era parte de uma lógica militante, diz ele, ter um debate no Rio com carácter político, independente das políticas culturais. Um carácter que é possível reconhecer em “Habitante Irreal”, seu último livro, actual finalista do Prémio PT, e o romance brasileiro que mais me impressionou desde “Pornopopéia”.

 

3. Como a Casa da Gávea fica na grande concentração de copos da Zona Sul, o convite dizia 20h30 para a plateia chegar às 21h, e às 21h Scott andava cá fora a caçar os colunistas da quadrilha: João Paulo Cuenca (veterano), Ramon Mello e Fred Coelho (novos reforços). Três cariocas capitaneados por um gaúcho não será detalhe. Ainda que troque Porto Alegre pelo Rio, gaúcho é o forasteiro que pode dizer aos poetas cariocas como eles não dialogam com os paulistas nem entre si, à excepção desse ícone em livre trânsito desde os anos 70 que é Chacal.

A plateia lota o balcão. O fundo de cena é um ecrã gigante. A um canto do palco, com som e computador online, Scott apresenta os primeiros convidados, o paulista Marcelo Montenegro e a “musa punk de Porto Alegre” Ariela Boaventura. Ela abre um livro escrito entre o fim de um casamento e o início de outro, nada contra o casamento, só contra a monogamia.

— De repente com três pessoas, quatro…

Montenegro não traz livro, sabe de cor.

Para onde vai tudo o que fazem?, pergunta Scott, porquê tudo isso?

Então Ariela diz como Rilke diria, se falasse gaúcho:

— É uma doença que tu tem. Tu faz porque tu precisa fazer.

 

4. Cá vem a quadrilha, Cuenca a abrir, armado com garrafa de vinho:

— Quero louvar a força de Paulo Scott, um homem com uma barba que mais parece um líder comunista, que vem desse outro país que é Porto Alegre e já funda uma tradição cultural no deserto que é o Rio de Janeiro — começa, antes de passar à revista dos últimos acontecimentos, nomeadamente trauma-e-superação da perda do seu telemóvel inteligente numa viagem a Barcelona. E a propósito de viagens, põe Scott a pescar no Youtube um vídeo da série oriental “Nada Tenho de Meu”, de que é co-autor com Miguel Gonçalves Mendes e Tatiana Salem Levy (ver PÚBLICO online).

Já Fred Coelho, o segundo colunista, mostra num minuto como o mundo de repente parece velho, incluindo “impeachment” na América Latina, e da Rio+20 fica a imagem dos seguranças de um banco a fugirem de um índio com arco-e-flecha; a pobreza do alojamento no Sambódromo; a cidade engarrafada até à Copa, às Olimpíadas.

— Queremos essa sucessão?

Foi Fred, ensaísta DJ, cabeça de mil antenas, que num texto co-escrito há anos inspirou o “Poema atravessado pelo manifesto sampler”, de Ramon Mello, colunista seguinte:

a verdadeira história da literatura
uma história de ladrões

Para o ler na íntegra, Ramon abre o seu livro “Poemas Tirados de Notícias de Jornais”, acabado de publicar.

 

5. No écrã sucedem-se agora imagens da peça “Os Mamutes”, de Jô Bilac, dramaturgo-cometa na cena carioca. Ele não está, mas encenadora e protagonista descem ao palco para falar. Depois vem o trailer de “A Febre do Rato”, de Cláudio Assis, filme que acaba de estrear e a polícia tentou impedir na rodagem, tão real era a acção, lá no Recife. Tudo o que dele se diz parece confirmar que Pernambuco existe para assombrar o Brasil.

 

6. O poeta de camiseta pop chama-se Botika, o livro que ele traz chama-se “Búfalo” e está publicado em Portugal. Não sei como é que um poeta que diz que não lê poesia escreve algo tão firme, mas talvez nada seja tanto a cara do Rio de Janeiro como isso, incluindo a camiseta, pop na cor mas com a cara de um querido amigo morto. Nada é tão carioca como fazer a dor dançar sem mostrar que custa. O primeiro livro de Botika, aliás, nasceu de um pé-na-bunda.

 

7. — O que não faz um pé-na-bunda na vida de um homem — comenta Cuenca, aproveitando para informar que não só o vinho acabou como já não há cerveja. Para compensar tem duas sacadas (em Portugal, desarrincanços), primeiro quanto à dificuldade que é, para quem escreve, contrariar o lirismo da língua portuguesa, depois quanto à homogeneização da Zona Sul:

— O Rio está uma merda, vamos embora.

E investe contra o prefeito Eduardo Paes e o milionário Eike Baptista que estão a expulsar os negros e os pobres do centro, e a favela do Vidival que vai virar uma Santorini com pousadas francesas, quando a coisa melhor dessa cidade é o ruído entre o branco e o negro.

— Vão acabar com o Rio de Janeiro.

Ramon revira os olhos mas o capitão apita, sobe o som para calar a quadrilha, ainda tem gente a chamar.

 

8. Não tendo eu tanto espaço, cabe dizer que, já a caminho da meia-noite, a editora Valéria Lamego abriu um oásis para Lúcio Cardoso, romancista, contista e cronista “gay” que foi a grande paixão não-consumada de Clarice Lispector. Quase incógnito em Portugal, também não é centro dos acontecimentos no Brasil, onde muitos textos seus nunca sairam em livro, é nisso que Valéria trabalha. Mas restam sobreviventes na plateia quando Scott fecha com um poema de Paulo Henriques Britto. Não era exactamente este, fica para a troca:

Venham, que a noite é sólida e solícita,

E aguarda apenas o momento exacto

Crônicas

Inveja dos Anjos
Alexandra Lucas Coelho [Público – 17 de dezembro de 2010]

1. Dylan Thomas apareceu na praia. Chamaram-me, voltei a cabeça, e era a cara dele à minha frente, com aquele topete de caracóis e sem álcool. Dylan Thomas aos 20 anos.

— Você é o Dylan Thomas — disse eu.

— Eu sou?! — ele ficou feliz.

— Cara, e ele é poeta! — rematou a amiga que me chamara, ajustando a alcinha do biquini.

Todo o biquini será recompensado em São Sebastião do Rio de Janeiro, num domingo de Dezembro. Um sol de 40 graus e a perna do vizinho terminava na minha. Milhares de biquinis e de sungas no espaço vital de um Cristo abrindo os braços. Sunga é o contrário do calção até ao joelho. Cariocas usam sunga e não trazem toalha, ensinou a minha amiga. Praia no Rio tem um protocolo, Dylan Thomas inclusive, pele branca, sunga preta.

O Rio não é o País de Gales. Este hemisfério não é a Europa. Aliás, será que a Europa ainda existe? O Rio de Janeiro pensa na Europa como vôvô e vóvó, álbum de família. A gente vai lá, sopra o pó, diz “puxa vida!”, se comove.

Depois volta ao vivo, à praia.

— Vamos na praia? — perguntara a minha amiga de manhã.

E antes que a minha boca europeia se abrisse:

— Domingo na praia é experiência antropológica.

Quase trabalho, para tirar a minha culpa.

2. Então fui de ônibus, desci a duas quadras do mar, comprei o “Globo”. Tinha uma matéria sobre as novas festas infantis de limusine, Primavera-Verão 2010–2011: a limusine apanha aniversariante e amiguinhos e passeia-os pelo Rio com doces e sucos servidos em “flute”. Não tinha nenhuma matéria sobre a pujança financeira do próprio jornal, mas 2010 vai ser o melhor ano de sempre do “Globo”. Não é o mesmo hemisfério que a Europa e será o mesmo planeta? Paguei um euro e meio pelo meu café de pé no Talho Capixaba, mercearia “gourmet”. O preço é daqui para cima em toda a Zona Sul.

Quando cheguei ao calçadão, a favela do Vidigal descia até ao mar, logo do meu lado direito. Do outro lado do morro, era dia de mercado na Rocinha. Somando todos os morros do Rio, dá mil favelas.

3. Na véspera eu vira um anjo suar.

Febre de sábado à tarde no centro no Rio de Janeiro. Vagabundos, corpos em papelão, um cheiro de queimado. E num primeiro andar sobre tudo isto, uma galeria acolhia um lançamento de poetas lendo poetas. Conheci louras musas sem idade que continuam a nem olhar nos olhos. O mito Chacal, com quem me sentei há 15 anos num chão da Gávea, ainda morava na Gávea e disse de cor Hélio Oiticica, esse amigo de vagabundos que também escrevia.

Janelas totalmente abertas, todo o mundo debruçado.

Todo o anjo é terrível, diz Rilke, mas anjos do calor, já conheceram?

O meu anjo suava com uma camisa de xadrez por cima de uma t-shirt. Foi o último a ler, num biguebangue que era o mundo mudando de hemisfério no século  XXI. Suava e tremia, 15 minutos para sempre. Um anjo não tem limite.

4. E isso foi antes da coisa toda começar.

Domingo, depois da praia, a minha amiga levou-me ao teatro. Centro Cultural do Banco do Brasil, um colosso no centro da cidade. Cá em baixo, Livaria da Travessa, exposição sobre Arte Islâmica, ciclo de cinema Tsai Ming-liang. Lá em cima, um corredorzinho de espectadores à porta de uma sala-estúdio. Olhei para o programa: “Antes da Coisa Toda Começar”, Armazém Companhia de Teatro, direcção de Paulo de Moraes. A imagem de uma caveira. Seria um “Hamlet”?

E quando as luzes se apagaram, foi Hamlet, Tempestade e Tragédia Grega, Lou Reed e Piaf, Grotowski e Deep Purple. O texto era uma energia omnívora. Eles atacavam o baixo e a bateria, cantavam, morriam, ressuscitavam. Os bastidores vinham para a frente, os espelhos partiam-se perante a Europa.

De repente, olhei para trás e um dos actores estava por cima de nós como um anjo. Nunca o vira antes mas tive a certeza de que já o tinha visto. Era um árabe de nome grego, no centro do Rio de Janeiro.

5. O melhor teatro do Brasil, dizem sempre os críticos, está em São Paulo. Mas a companhia Armazém está no Rio mesmo, nos Arcos da Lapa. Já fez Shakespeare e Tragédia Grega, e uma Alice no País das Maravilhas. Além de tudo o mais, eles próprios desenham os cenários e escrevem, são eles que escrevem. A minha amiga, que também escreve, saiu a chorar da peça antes desta, “Inveja dos Anjos”.

Quando cheguei a casa abri o livro sobre favelas que estou a ler e li: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos / sem amor nada seria.” Coríntios, versão Legião Urbana. Depois Caetano começou a cantar na minha cabeça “Anjos sobre Berlim…”, como um anjo do calor.

Cariocas não trazem toalha, trazem canga, que é um pano de praia, ensinou a minha amiga lá na praia, quando me apresentou os amigos.

Sim, Dylan Thomas está vivo, usa sunga, mora em Copacabana, vai à praia junto à bandeira verde e rosa da Mangueira, ainda não começou a perder o pé, e olha só, conheci-o chegando da água. Estupidamente perguntei-lhe se sabia como Dylan Thomas tinha morrido. Estavam 40 graus e ele estava sentado na minha canga. Não era pergunta que se fizesse.

É como a pergunta de Rilke aos anjos: “Quem se eu gritar / me ouvirá?” No Rio, Dylan Thomas vai dizer: “Grita que eu vou.”



(Público, 17-12-2010)

Crônicas

Íssimo Caio Fernando Abreu:
Alexandra Lucas Coelho  [Público -8 de setembro de 2013]

1. Abri as suas “Cartas” porque estavam em cima da mesa. Li uma ao acaso, enquanto esperava que o computador acordasse. Quando dei por isso tinha-me estendido a ler 100 páginas. O livro não era meu, liguei à amiga que o deixara ali, disse-lhe que perto destes anos 80 os textos de 2013 pareciam pálidos. Uma infusão de sangue na anemia geral. E ela, que já nasceu nos anos 80, disse:

— Cara, totalmente de acordo.

Há um “loop” nisto. No meu primeiro domingo de praia no Rio de Janeiro, em 2010, Ramon “Dylan Tupiniquim” Nunes Mello, falou-me no livro de poemas com que se estreara, “Vinis Mofados”, homenagem a um título mítico dos anos 80 no Brasil, “Morangos Mofados”, de Caio Fernando Abreu, autor que eu nunca lera.

2. Basta abrir para ver: uma palavra fica ALTA, uma vogal ecoooooooa, um nome fica inho, fica ão, funde-se com outros na palavra-em-extensão que mistura português, inglês, tupi (or not tupi, Oswald de Andrade). Então, assim vista, a coisa vibra, tipo esta frase em que você fala de uns poemas que leu e que tanto se aplica aos seus textos: “Wow! Ou uáu, para ser mais nacionalista. São muito fortes? vivos? bons? são fortes-vivos-bons, mas também são mais, têm um FERVOR que fazia tempo eu não sentia em nada escrito.” Nacionalista de ironia, dançando nas galáxias, você não escreveu uma frase chata, que eu tenha dado por isso, e escrevia frases como “o que acontece comigo é que tenho andado de braços fechados”.

3. No começo destas cartas, vem lá do sul, gaúcho chegando a São Paulo, e quando já tenho tanta pena de não o conhecer, de não o ver apaixonar-se de forma fulminante, de não o ouvir dizer “quero um livro novo seu tipo já e direto nas veias”, você ainda muda de Higienópolis para Santa Teresa, alterando o meu Rio de Janeiro tantos anos depois de morto.

4. Hotel Santa Teresa, o velho, onde os hóspedes não tinham dinheiro para mandar vir meninos das favelas com coca, e você era mais um teso pelos corredores coloniais. Então se eu lhe escrevesse uma carta destes meus três anos brasileiros tinha de lhe falar daquele dia em que o bonde de Santa Teresa chocou com um poste, e houve mortos e feridos, e desde então não houve bonde, só nas camisetas de quem espera o bonde futuro, só nas fotografias em que os bondes do Rio de Janeiro estão para sempre parados. Caio Fernando Abreu: abraçado à sua última paixão fulminante, você hoje subiria da Lapa a pé, já trepando pelo caminho; e quando, pouco antes de se atirar da janela, Ana Cristina César lhe fosse bater à porta MAAAAL, ela subiria também a pé; e quando, contra a opinião dela, você descesse para a sua próxima paixão fulminante, seria a pé que você desceria, com a antecipação de quem sempre chega antes, e antes avaliou as estrelas.

5. Você cruzava estrelas com orixás (muito distante para mim), trocou a análise pela dança (mais próximo), fumava maços por dia (próximo), morava sozinho com uma gata chamada Zelda Fitzgerald que gostava de gin (ao nível do mito). Eram os anos 80–90 no Brasil, aquele país em que um escritor como você se sentia convidado a desistir logo ao acordar, sem dinheiro para sequer enviar um correio. O Rio de então, descobre você, portava-se afinal como uma cidade careta, do ponto de vista de um gay activo. E se eu disser que tudo isso mudou, e nada disso mudou, as duas coisas são verdade, consoante o ponto de vista.

6. Mas saiba que em algum ponto do Brasil, por exemplo, no bairro do Bom Retiro, São Paulo, onde você não vai há mais de 30 anos por manifesta impossíbilidade técnica, uma tal Oficina Cultural Oswald de Andrade pode apresentar o espectáculo “Coração Dark Room” narrando “o universo do jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu”. E então os seus morangos mofados (“Um morango mofado — e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca?”) cruzam-se com a primeira árvore que os portugueses roubaram e Oswald de Andrade transformou em poesia moderna, o pau-brasil, que é pau-para-toda-a-obra, descido nas ruas do Brasil-agora, levantado por quem (como diria Mário Cesariny, que você bem gostaria de ter conhecido) diz “que te amo amo amo”. Escrevo-lhe do interior do Jardim Botânico, numa daquelas quartas-feiras de chuva no Rio de Janeiro, e eu tinha pensado nisso, procurar neste jardim os paus-brasis que se alguma vi nunca soube que estava a ver, mas entretanto ficou escuro. Fica para amanhã.

(Público, 8-9-2013)

Crônicas

Coisas de amor que eles fizeram

Alexandra Lucas Coelho [ Público - 8 de outubro de 2011]

 

1. No dia 13 de Fevereiro de 1965 uma adolescente de 18 anos parou a história do Brasil. Aconteceu num palco do Rio de Janeiro, durante o “show” “Opinião”, encenado por Augusto Boal. Poderoso musical contra a ditadura, o “Opinião” juntava em cena o nordestino João do Vale, o negro Zé Keti e a musa carioca Nara Leão. Problemas de voz levaram Nara a ser substituída por Susana de Moraes, filha de Vinicius, e ao fim de duas semanas Boal convidou uma desconhecida para continuar a substituir Nara.

Os espectadores dessa noite de Verão viram então aparecer uma estranha adolescente, delgada como uma planta, cabelo negro preso na nuca, perfil de águia. Quando ela, inabalável, abriu a boca e bradou “Carcaráááááá!”, a música popular não foi mais a mesma. De onde vinha aquela voz? Do centro da terra? Do começo do mundo? “Carcará!/ Pega, mata e come/ Carcará!/ Num vai morrer de fome/ Carcará!/ Mais coragem do que homem/ Carcará!”

E olhos nos olhos da plateia, ela recitava, varrendo o espaço: “Em 1950 mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí. 15% da Bahia…”

Era da Bahia que ela vinha. Chamava-se Maria Bethânia.

2. Na plateia estava o poeta Reynaldo Jardim e o abalo nele foi tão forte que gerou um poema contínuo durante os três anos seguintes. O livro saiu em 1968 com o título “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”. Os militares declararam-no subversivo e pornográfico, queimaram os cinco mil exemplares da edição e interrogaram Bethânia sobre o assunto, em Dezembro, quando a prenderam. “Queriam saber porque eu causei esse livro, porque esse cara escreveu esse livro para mim… É um poema lindo do Reynaldo, uma coisa de amor que ele fez”, contou Bethânia numa entrevista a Marília Gabriela.

3. Ramon Mello e Marcio Debellian nasceram muitos anos depois do livro ser queimado. Mas Ramon, jornalista, poeta e admirador da obra de Reynaldo, estava a tentar marcar uma entrevista com ele quando ele morreu, em Fevereiro passado, aos 82 anos. E Marcio, idealizador e produtor por exemplo do filme “Palavra (En)cantada” sobre a relação entre poesia e música no Brasil, ficara a saber do livro ao ver um extra de um DVD de Bethânia.

Juntos, decidiram arranjar forma de reeditar “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”. Uma edição original achada na Internet custava 2500 euros. A solução foi falar com a viúva de Reynaldo, Eliana Daher. Ela não só lhes cedeu um exemplar sobrevivente como recortes da altura. Compraram os direitos, prepararam um volume acrescentado de vários textos sobre o caso, mas mantendo o grafismo original, e propuseram a Bethânia dois “shows” para coincidir com o lançamento. Vão acontecer dia 18 e 19, no Rio de Janeiro.

4. Declaração de interesses: sou amiga de Ramon e Marcio. Ramon é o Dylan Tupiniquim Thomas do começo destas crónicas. Conheci-o na praia desde logo a falar de poesia. Marcio apareceu bem depois, mas também desde logo a falar de poesia.

A primeira vez que soube do livro de Reynaldo sobre Bethânia foi há semanas, na minha casa do Cosme Velho, numa noite de quase Primavera em que Ramon, Marcio, e não apenas eles, leram em voz alta, e em volta, “O Amor Em Visita”, de Herberto Helder.

O livro de Bethânia era só uma das várias coisas que eles estavam a fazer. Por exemplo, Ramon ainda nem sabia se ia conseguir montar a exposição “Tudo vai ficar da cor que você quiser”, uma retrospectiva da pintura de Rodrigo de Souza Leão.

4. Criador esquizofrénico e prolífico, Rodrigo de Souza Leão nasceu no Rio em 1965 e morreu numa clínica psiquiátrica em 2009, deixando todo um espólio de textos e pinturas. A pedido da família, Ramon ficou como curador da obra, contou-me tudo isto numa tarde em que ia justamente a casa dos pais de Rodrigo e perguntou se eu não iria com ele. Fui e vi as telas serem desenroladas no chão da sala, uma a uma, até não caberem mais. Nascia aí o projecto da exposição. O Museu de Arte Moderna [MAM] do Rio de Janeiro estava disponível para a receber, com a colaboração da portuguesa Marta Mestre, curadora assistente, mas não tinha dinheiro.

Então nos meses seguintes, entre a preparação do livro de Reynaldo-Bethânia, Ramon organizou um “crowdfunding”, ou seja uma colecta na Internet, para conseguir concretizar a exposição. E pelo meio ainda ia ensaiando uma adaptação a teatro de “Todos os Cachorros São Azuis”, livro de estreia de Rodrigo.

O espectáculo estreou em Julho, quando eu estava na Amazónia. Quando voltei, com 15 textos para escrever de seguida, a única noite em que saí de casa foi para o ver.

5. Em “Todos os Cachorros são Azuis”, Rodrigo está no hospital psiquiátrico, acha que lhe puseram um “chip”, sente choques eléctricos e os seus melhores amigos são alucinações, Rimbaud e Baudelaire.

Ele fala com os dois assim: “Rimbaud andava sobre o muro. Sai daí, seu filho-da-puta. Cuidado. Fui para o quarto para não ver minha adrenalina crescer. Rimbaud veio logo atrás de mim. Estou só. Este mundo é assim. Cadê o Baudelaire? Está jogando sinuca.”

Ou, convocando Pessoa para o trio eléctrico: “Não sou nada, Rimbaud. Quer um cigarro? Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os remédios do mundo. Rimbaud, serei sempre ‘o que não nasceu para isso’, serei sempre aquele que esperou que lhe abrissem a porta numa parede sem porta. Rimbaud, já estamos cansados dessa festa, não? Baudelaire fez até um poema. E nós, nada.”

Em “Me Roubaram Uns Dias Contados”, conto tornado romance, último romance de Rodrigo antes da morte, talvez autobiografia (mas romance pode não ser autobiografia?), todos os “personagens caminham na direcção de uma grande metamorfose”, escreve o poeta Leonardo Gandolfi na introdução. “Se essa metamorfose não se chamar apenas literatura será porque também a conhecemos pelo nome de amor.”

Por causa de Bethânia, Reynaldo fez um livro. Por causa de Bethânia e de Reynaldo, Ramon e Marcio vão fazer um livro e espectáculos. Por causa de Rodrigo, Ramon está a fazer livros e vai fazer uma exposição, incluindo catálogo com textos de Heloísa Buarque de Holanda e Paulo Sérgio Duarte, em que nenhuma das obras será para vender, todas serão para doar.

Abre daqui a um mês no MAM. Lá estaremos, Tupiniquim.

(Público, 8-10-2011)

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