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LEMBRANÇAS DO MUNDO AZUL

Por Ramon Mello [Prosa & Verso – O Globo – 2009]

 

 

O mundo ficou mais triste com a morte do escritor e poeta Rodrigo Souza Leão. Soube da notícia durante a última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, através da homenagem realizada pelo poeta Carlito Azevedo no painel “Evocação de um poeta”. Fiquei chocado. Rodrigo foi uma das maiores surpresas que tive na vida, seu delírio e lucidez me fascinavam – poesia pura, a mesma matéria-prima dos textos de  Stela do Patrocínio, Maura Lopes Cançado, Lima BarretoSamuel Beckett e Antonin Artaud.

Em 2008 recebi um exemplar do romance Todos os cachorros são azuis (7Letras) para realizar uma entrevista com o autor para o site  Portal Literal. Peguei o pequeno livro, fui para um café e mergulhei no universo lírico, irônico e melancólico de  Rodrigo Souza Leão : a trajetória (autobiográfica) de um homem internado no hospício.

No mesmo dia liguei para Rodrigo e combinei um encontro. Ele só fez uma ressalva: “A entrevista tem de ser aqui em casa.” Topei. Em seguida, justificou: “Sou esquizofrênico e faz alguns anos que não saio de casa.” Fiquei receoso, talvez por medo de que o encontro com um esquizofrênico me revelasse que, afinal, não éramos assim tão diferentes. Mas não desisti, fui até Rodrigo. A entrevista aconteceu numa quinta-feira, no Rio de Janeiro.

Paixão por Rimbaud e horror ao hospício

Quando cheguei ao apartamento, a porta da sala estava aberta, e o autor me esperava sentado num sofá florido, acariciando um cachorro. Foi ele quem fez a primeira pergunta: “Gostou do livro?” Depois levantou, apertou minha mão e disse: “Não repara, minhas mãos estão tremendo por causa dos remédios. É uma merda: engorda, enfraquece os dentes e deixa mão amarelada. Só não deixa brocha. Mas eu fico calminho”, disse com um riso irônico.

Começamos a falar sobre o título do seu livro: “Na minha primeira infância eu tive um cachorro de pelúcia azul. Depois esse cachorro sumiu e nunca mais eu vi. É forte lembrança desse tempo. (…) Mas nenhum cachorro é azul, é bom deixar claro. Só os cachorros de pelúcia são azuis.”

Por duas horas, Rodrigo falou sobre a paixão pela poesia de Rimbaud, o sofrimento em lidar com a esquizofrenia, a admiração por Nise da Silveira e o horror ao tratamento concedido aos loucos no hospício: “São lugares tão bonitos que lembram cemitérios.” Seu irmão, Bruno, acompanhou o encontro e tornou a conversa mais engraçada ao revelar curiosidades sobre o poeta, como o hábito de assistir o programa da Igreja Universal do Reino de Deus, embora gostasse de ler Nietzsche e não tivesse muita crença: “Nem sei se Deus existe. Eu sou meio revoltado com Deus. Por que eu fui nascer esquizofrênico?”

Próximo do final da entrevista, perguntei o que era mais importante em sua vida, e Rodrigo respondeu: “O mais importante, no momento, é eu não saber o que é a coisa mais importante na minha vida. É saber colocar importâncias variadas. É importante que eu continue estável e consiga viver o máximo de tempo possível”

E, por fim: “Você quer viver muito?”

“Não. Eu espero viver pouco. Se eu conseguir viver até 50 anos ficarei contente. Porque viver muito é para quem não tem problemas. Quando a pessoa tem muito problema é até melhor morrer cedo porque se livra um pouco dos traumas e angústias. Sou uma pessoa muito traumatizada. Mas feliz! Eu sou feliz. Posso dizer que sou muito feliz, mais feliz que a grande maioria das pessoas. Eu sou feliz. Eu não estou realizado porque ainda estou no meu primeiro livro. Estou na batalha para publicar um livro há muito tempo, desde os 27 anos.”

Depois desse encontro, Rodrigo passou a me ligar todas as quintas-feiras por volta das 15 horas. Com o decorrer da amizade, criei coragem e pedi autorização para adaptar Todos os cachorros são azuis para o teatro. Para minha surpresa, Rodrigo me enviou a autorização por escrito, junto com um CD da sua banda Krâneo e seus neurônios – uma produção experimental em parceria com Gizza Negri. Depois de inúmeras consultas por telefone e trocas de e-mails, finalizei a adaptação. Mas, infelizmente, não tive tempo de lhe mostrar o trabalho. Resta, agora, homenageá-lo no palco.

Sua obra merece ser republicada e reavaliada

Rodrigo Souza Leão  não precisa de sentimentos de piedade, o que está muito claro na carta de despedida deixada por ele: “Nunca tenham pena de mim. Nunca deixem que tenham pena de mim. Lutei. Luto sempre.” Não tenham pena de Rodrigo, apenas cuidem de sua obra. “Os loucos têm seu céu particular”, ele afirmou.

Mas, afinal, o que é a morte?

“Eu torço para que exista algo além. Gostaria de ver o que as pessoas acham de mim quando eu estivesse morto. Sabe? Para saber se meu melhor amigo iria chorar, se alguma namorada ia lembrar de mim, se meu livro ia vender depois de morto… Porque depois que morre todo escritor vende”, profetizou Rodrigo.

Não tenho dúvidas de que o mundo azul de Rodrigo Souza Leão nos oferece um caminho infinito. Os poemas do blog Lowcura devem ser reunidos. Carbono PautadoHá flores na pele e Todos os cachorros são azuis  merecem edições novas, acompanhadas de textos críticos. E Tripolar tem de sair da gaveta logo. Sua produção literária merece ser republicada, relida e reavaliada.

Ficamos com a lembrança do seu mundo azul. Paz, meu amigo.

Críticas e Resenhas Vinis Mofados

Ramon Mello desenvolve, como jornalista, um trabalho de cartografia de sua geração: entrevistas escritas e gravadas registram o que pensam os novíssimos autores da literatura brasileira. Trata-se de um trabalho que representará, no futuro, um importante documento, que permitirá uma leitura mais ampla sobre a literatura do início do século XXI. Ao lado das obras propriamente ditas, as entrevistas sempre foram um instrumento revelador das tendências que os artistas seguem, dos seus interesses e objetivos.

Fruto também de sua experiência como jornalista, Ramon Mello agora publica “Vinis Mofados”, seu primeiro livro de poemas. O título revela o diálogo com uma das obras mais estimadas por seus contemporâneos, Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu, que, entre outros aspectos, deixou como legado, desde os anos 1990, o amor pela música popular brasileira. Legado que foi muito bem absorvido por poetas como Augusto Guimaraens Cavalcanti, Bruna Beber e, agora, Ramon Mello. Em Vinis mofados encontramos uma série de características típicas da Geração 00, a que pertence Ramon, embora estejam desenvolvidas sob uma linguagem própria, que toma da música popular o sentimentalismo das relações amorosas, mas encoberto de humor e ironia.

Com versos preponderantemente curtos, que “fotografam” cenas do cotidiano afetivo, Vinis mofados trabalha o humor e a ironia como vias de acesso à profundidade dos sentimentos, distanciando-se, contudo, de qualquer possibilidade de abraçar o “peso” como quem abraça o sustentáculo de sua poesia. Ao contrário, Ramon Mello explora o verso simples, mas não fácil. E a simplicidade reúne-se muito bem ao flerte com a música popular brasileira e ao registro do cotidiano afetivo e urbano de seu livro de estreia.

Eduardo Coelho

Críticas e Resenhas Vinis Mofados

Ler Vinis Mofados de Ramon Mello é acompanhar uma busca. E isso é sempre um momento de delicadeza. Foi assim que me senti ao ler os originais de Ramon. Amor declarado ao seu mestre Caio Fernando Abreu, citações necessárias a Caetano e Waly Salomão, o poeta sai à procura de alguma coisa que não pode e não deve ser guardada. Não há grande certeza se esta é a busca da poesia ou a busca mais pesada da própria palavra.

Entretanto, para se compreender o universo deste livro, é importante não perder de vista que a ansiedade o desejo forte de procura da palavra poética é movida à música. Aqui a palavra dita, a palavra sentida, a palavra silenciada, a palavra excessiva vem, de maneira muito explícita, articulada à palavra cantada. O que importa é a palavra e sua quase intangível definição.

Vinis Mofados, assim como os Morangos de Caio F., fala de passados recentes, ainda quente de referências musicais. O Vinil ainda úmido, palavras guardadas, que não conseguiram ser ditas, poesia-presa procurando transformar-se em poema e livro. O resultado material é um livro-álbum.

No LADO A, a tentativa quase obsessiva, de encontrar os sentidos concretos da palavra e suas práticas. São quase verbetes que cercam o dizer por todos os lados. A palavra como alimento em “Cesta básica”, palavra que foge em “Dicionário”, a palavra-lágrima em “Argueiro” e, não satisfeito, continua, insistente, buscando a palavra de bar, o poema-expresso, a palavra forjada numa overdose de blues. A tentativa prossegue, experimentando vários formatos de anúncios, cartazes, notícias, E prossegue ainda, revisitando mestres como Chacal, Cacaso, Viviane Mosé.

A primeira parte do livro fecha rendendo-se abertamente à música como em “Libido Tropicalista”, “Cartilha Remix” e “Phono – 00”, uma espécie de capitulação diante da evidência poética da palavra cantada, encantada. Chegamos perto da extensão de sentidos que a procura de Vinis Mofados empreende com determinação e uma certa aflição.

Já o LADO B, começa com uma aparente nova intenção. O primeiro poema, “Lado B”, pede um tempo para a música e, a partir deste ponto, a poesia de Ramon suspende um pouco a procura de sua dicção e mergulha sem hesitação num universo de “palavras empoeiradas”, lembranças, fotos, dores de cotovelo inesquecíveis.

Trata-se de uma poesia ágil, contemporânea, com marcas “internerds”, mas na qual o amor sonhado e perdido, o amor romântico au grand complet dá o tom e ganha a cena. Uma poesia de palavras musicadas em Vinil e experimentada em MP4.

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2009.

Heloisa Buarque de Hollanda

Ensaísta e pesquisadora, formada em Letras Clássicas pela PUC-RJ, com doutorado em Literatura Brasileira na UFRJ e pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Columbia, em Nova York, Heloisa Buarque de Hollanda publicou livros considerados essenciais na crítica literária brasileira. Entre eles, “26 poetas Hoje” (1976), “Macunaíma da Literatura ao Cinema” (1979) e “Esses poetas: uma antologia dos anos 90? (1998).

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