Matérias

Por Júnior de Paula

 

Amanhã Renato Russo faria 50 anos e as homenagens vão ser incessantes. Merecidamente. Uma das mais bacanas veio pelas mãos de uma nova geração de escritores reunidos na antologia Como se não houvesse amanhã, da Editora Record. Trata-se de um livro de contos organizado por Henrique Rodrigues com 20 histórias inspiradas em músicas da Legião Urbana. Ramon Mello optou por transformar em prosa os versos de Sereníssima. “Quando adolescente, eu achava que ia ser o Renato Russo. Passava as tardes ouvindo os discos da Legião Urbana, que herdei de um tio, em uma vitrola velha”, relembra. Olhando para o futuro, Ramon trabalha na adaptação teatral do romance Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo de Souza Leão, morto em julho de 2009, e organiza o último romance escrito por Souza Leão, Me roubaram uns dias contados.

[Heloisa Tolipan - Jornal do Brasil - 26/03/10]

Críticas e Resenhas Vinis Mofados

PublishNews - 24/11/2009 - Fernando Alves *

Sobre Vinis mofados, de Ramon Mello

A leitura de Vinis mofados (Língua Geral, 96 pp., R$ 25), de Ramon Mello, poliu em mim uma ideia que trago cristalizada: a ideia de que existe um todo poético reservado a uns poucos que o tateiam com o cérebro e que detêm a forma certeira de o verter em versos. Em pedacinhos selecionados com cuidado.

Não se trata de uma tentativa de tornar esse todo poético acessível a qualquer leitor, mas de aliviar de si mesmo o peso-prazer de o suportar. Sem nenhum sentimento de superioridade ou arrogância. Nem lá nem cá. A nobreza da certeza ou a simplicidade da transparência dão o tom à poesia que absorvi.

Inspiração também não é, não. É suor mesmo. É o tal peso-prazer. Ramon sua bastante, e se despe, e se projeta. É um virtuoso numa arte que pode parecer fácil aos olhos do leitor qualquer, mas que, definitivamente, não é.

Ele implode-explode em poesia que fala de poesia, em erotismo e sensualidade, imaginando sempre mais fotográfica do que pictoricamente. Os pedacinhos que escolhe são dificílimos de lidar. E Ramon lida bem com eles... Ah, lida! Quem escreve “soletra os passos / para encontrar / caminhos” inscreve-se na primeira linha da poesia.

A ausência de pontuação dá ao leitor qualquer a liberdade da leitura, do ritmo – o verso é apenas um fio condutor, um elemento lúdico para a língua de quem o lê brincar à vontade. E, com isso, o leitor qualquer vai deixando sua qualificação qualquer para tornar-se o leitor único, singular, e fundir-se à poesia que Ramon edifica.

Esse leitor viaja no tempo, sabedor de que o ano de 2009 dos vinis mofados do poeta pode ser 1973 ou 1981. De verdade, retroaviaja, como eu, já saudoso do que acontece bem debaixo de meus olhos: “lembrar dá vontade de ser ilha voar”.

Aos vinis dessa antiguidade atual, desse passado presente, soma-se o mofo. E como nada nessa obra de Ramon Mello é vem de graça, a segunda palavra do título, mofados, é de botar no bolso e levar consigo na leitura dos poemas. Ou de botar atrás da orelha se as roupas já não marcarem presença.

Antigos e guardados são esses vinis mofados. E o mofo é precioso – ele permanece, verde-branco, sobre os sulcos da bolacha preta do vinil. O sulco percorrido pelos olhos-agulhas de quem então já é o leitor, o singular leitor privilegiado de Ramon.

ViniS mofadoS. Reduzo a marcha na pluralice titular: um conjunto, um mesmo grupo, um todo... eco daquele todo poético lá do primeiro parágrafo, que volta aqui para fechar essa resenha-recomendação: devolva-se a Ramon, lendo-o! “o que / de mim / deixei / em você / devolva / me”.

* Fernando Alves é produtor editorial e poeta e resenhou Vinis mofados especialmente para o PublishNews

Críticas e Resenhas Vinis Mofados

Com título que cita Morangos Mofados, uma obra-prima do escritor Caio Fernando Abreu (1948 - 1996), o poeta Ramon Mello extrai poesia do mundo do disco em Vinis Mofados, seu primeiro livro de poemas, recém-lançado pela editora Língua Geral. A ideia foi passar o sentimentalismo das relações amorosas - matéria-prima da música popular - pelo filtro do humor e da ironia. Sempre com referências a jargões do meio fonográfico, alguns da época dos LPs. Não por acaso, o livro está dividido em Lado A e Lado B. Entre os 70 poemas, alguns evocam o universo do disco já nos títulos (Faixa 4, Bônus Tracks, Phono - 00, Faixa Arranhada, Hidden Tracks, Single, MP4 Player). Vinis Mofados oferece poesia urbana como a música que inspira o autor em seus 25 anos.

Mauro Ferreira

Blog Notas Musicais

Críticas e Resenhas Vinis Mofados

Livro de estreia do poeta carioca reúne influências musicais diversas.

Zema Ribeiro [Tribuna do Nordeste]

Não estranhem o mofo do título, caros leitores: referência explícita a Caio Fernando Abreu. O conteúdo é poesia vivíssima, ágil, certeira, like a rolling stone. Se pedras que rolam não criam limo, poesia também. O primeiro poema do livro é dedicado a Waly Salomão, desde sempre apaixonado por livros e literatura (Cesta básica, o poema, ligeiro, fala justo dessa paixão), o que mostra o bom acompanhamento do poeta que ao longo de sua estreia presta ainda outros tributos.

Vinis mofados [2009, 94p., Língua Geral, coleção Língua Real, R$ 25,00 no site da editora], de Ramon Mello é, como entrega o título, um livro cheio de referências musicais. Inclusive dividido em lado a e lado b. O autor, nascido em Araruama em 1984, já é da geração do moribundo CD (e mp3, mp4, download etc.), mas traz, neste belo livro-álbum, uma interessante coleção de um pouco de tudo, matéria-prima de sua boa poesia, não confundir simplicidade com facilidade.

“resolvi organizar/ a bagunça na estante:// palavras empoeiradas/ fotografias letras de/ música vinis mofados// e uma coleção de/ romances fracassados”, o poema-título (Vinis mofados, p. 68). Na homenagem a cidade natal, um dos poucos poemas sem explícita referência musical, ele escreve: “bebedouro de araras e/ (alguns) políticos corruptos” (Araruama, p. 25). Não fossem as aves, o poeta poderia ter nascido em qualquer lugar e ainda assim parido este poema.

Aproveitem a promoção: “baratos da ribeiro/ promoção do dia:// elis regina richard/ strauss (zaratustra)/ beatles gal fa – tal// tudo por cinco real” (Sebo, p. 38). Sua poesia, observações (o autor é jornalista), é feita de sentimentos. Uns doem: “toca discos com/ agulha quebrada/ livros encaixotados// gato persa deprimido/ vomitando mudanças/ saudades e bolas de// pelo piano de parede/ mudo chorando/ ausência dos seus// dedos firmes viris/ enquanto escrevo/ versos inúteis” (Partitura, p. 74).

Do alto de sua juventude o que Ramon Mello faz é tirar a poeira e o mofo de seus vinis-poemas, colocando-os na vitrola-olhos-mentes-corações-dos-leitores para tocá-los.

Matérias

FRANCISCO QUINTEIRO PIRES - O ESTADAO DE S.PAULO - 20 Outubro 2009

Ramon Mello, de 25 anos, renova o time de poetas do País ao lançar o ótimo Vinis Mofados, com autógrafos hoje no Rio

Ramon Mello divide um conjugado em Copacabana com Borges, nome dado a seu gato em homenagem ao escritor argentino. Além de confidente, o felino é um símbolo vivo da entrega de Ramon à ficção. Aos 25 anos, ele está lançando o primeiro livro de poemas, em que investiga os sentidos concretos da palavra e mostra uma relação crítica com o Rio. Quem se interessar encontra a sua essência poética em dois lugares. No apartamento que divide com Borges, onde abriga uma coleção de cerca de 200 discos de vinis. Ou no título do livro de estreia, Vinis Mofados (Língua Geral, 96 págs., R$ 25), onde fala de "literatura e sentimento".

Ramon pertence a uma nova geração de poetas, como Bruna Beber (leia abaixo), que mantém forte diálogo com a música. O ritmo e a estrutura simples das obras do cancioneiro nacional impregnam Vinis Mofados, que será lançado hoje no Rio (Brechó de Salto Alto, Rua Siqueira Campos, 143, Copacabana, tel.: 2236-2589, às 19h30).

A orelha é assinada pela crítica Heloísa Buarque de Holanda, de quem Ramon prepara uma biografia. Cecília Meireles, Cacaso, Waly Salomão e Viviane Mosé são tão importantes para Ramon quanto Chico Buarque, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e Nelson Cavaquinho.

Existe um traço peculiar no seu contato com as melodias e letras. "Minha relação afetiva é com o suporte antigo, eu não baixo música pela internet", diz. "Identifico em mim um saudosismo, por que falo de vinil quando existe o iPod? ", se pergunta. O mofo dos seus vinis era uma metáfora perfeita para o jovem às voltas com a vida, o amor e sua complicada realização.

Vinis Mofados é uma referência a Morangos Mofados, livro do gaúcho Caio Fernando Abreu que mostrou, nos anos 1980, a desesperança de uma geração. Da produção de Caio F., Ramon descobriu as peças, primeiro. Ele estudou teatro em Araruama, sua cidade natal, a 108 km do Rio. Mudou-se para o Rio em 2001. "Quando cheguei, não tinha nenhuma referência literária, não sabia nem mesmo como se publicava um livro."

O pulo do gato veio com a criação de um blog, Clickinversos, em que Ramon publicou entrevistas com escritores iniciantes. Foi lá, por exemplo, a primeira entrevista de Tatiana Salem Levy, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura (2008), na categoria estreante, com o romance A Chave de Casa. Ele também pegou Daniel Galera e João Paulo Cuenca nos primeiros passos. O último projeto foi organizar o site ENTER - Antologia Digital, exposição do trabalho de autores que têm a palavra como suporte criativo e a web como ferramenta de divulgação. Hoje ele cuida do portal de cultura da Livraria Saraiva e organiza a obra de Rodrigo de Souza Leão, poeta carioca morto no ano passado, autor de Todos os Cachorros São Azuis.

Ramon se diz parte de uma juventude "sem ideologia, e vivendo uma grande transformação", provocada sobretudo pela internet. Em Vinis Mofados, mostra uma maturidade afetiva que não corresponde aos anos exibidos pelo R.G. É um jovem que deseja "dizer te/ amo sem/ neuroses", mesmo que esse desejo se manifeste na primeira noite de uma relação fugaz (versos de Allegro). Para evitar o romantismo infantil, ele se vale da ironia e do bom humor.

Em Lado A, primeira parte do livro, "aparece o cara que gosta de escrever". De modo impessoal, ele testa a percepção de que a escrita "tem uma importância": responsabilidade na expressão leva à transformação das coisas e dos indivíduos. Ele também flagra o cotidiano da capital, como nos versos de Bairro Peixoto, Playlist e Cutelaria. "É um olhar diferente, descobridor, do cara que transita entre a capital e Araruama."

Em franco diálogo com a música, Lado B expõe a sexualidade e as frustrações afetivas. "É mais visceral." Cai a máscara do poeta. O passado está quente, dá para ver subindo a fumaça da queimadura amorosa: Ramon só sabe escrever quando se distancia das experiências. Os romances fracassados resultam em dor dilacerante e cansativa. O mundo não gira em torno do umbigo, apenas na vitrola. Vem o impasse: "cansei de/ colecionar recortes/ do passado/ quero instantes/ raízes/ no presente (Faixa Arranhada)". Na estreia, Ramon Mello descobriu: é hora de o poeta tirar o mofo do coração arranhado.

Ramon Mello

DOIDA CANÇÃO

procuro

você em outros

corpos não

encontro

suores noturnos

vestígios de gozo

no lençol velho

nenhuma pista

ainda sinto

seu perfume

quando ouço

Caymmi

 

Críticas e Resenhas Enter - Antologia Digital

Aos 70 anos, Heloisa Buarque de Hollanda lança Antologia Digital, prepara biografia e foge dos chatos.

11 de agosto de 2009 - por Miguel Conde 
 

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Heloisa Buarque de Hollanda reúne em site 37 novos autores, incluindo prosa, poesia, quadrinhos, música e design.

 

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