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Poeta de Copacabana faz do factual poesia pura

por LEANDRO LIMA - O GLOBO - 05/07/2012

RIO — É com versos como “Não copie e cole/ se aproprie e recrie a realidade” que Ramon Mello, morador de Copacabana, dá o tom ao seu segundo livro, “Poemas tirados de notícias de jornal”, recém-lançado pela Móbile Editorial. Contemplada pelo Edital Novos Autores Fluminenses 2010/2011, do governo estadual, a obra é feita de poemas criados a partir de descontextualização de notícias de jornal publicadas de 1984 (ano em que nasceu) até 2010, e é repleto de referências a obras de outros autores. Tal apropriação já aparece no nome do livro, inspirado no “Poema tirado de uma notícia de jornal”, de Manuel Bandeira.

O escritor, com formação em artes cênicas e jornalismo, explica que buscou investigar a relação escritor/jornalista explorada no passado por autores como João do Rio e Nelson Rodrigues:

— Fui em busca da minha voz própria, de uma dicção na poesia, mesmo em cima de uma técnica que não é nova, que é a da apropriação da escrita de outros autores.

Para Mello, “Poemas tirados...” é uma reflexão do que é fazer literatura contemporânea numa era em que somos seduzidos por uma série de recursos visuais e na qual nos relacionamos por mídias sociais que “banalizam as palavras”. O morador de Copacabana diz que foi atrás de um entendimento do passado para buscar um caminho atual que não sabe qual é:

— Vivemos num período de grandes mudanças. Tem a questão autoral em tempos de compartilhamento de dados na internet, tem a fragmentação do texto nas mídias novas. Estamos num caldeirão de técnicas e ideologias utilizadas todas ao mesmo tempo. Esse caminho ainda não pode ser definido.

Mello parte hoje para Londres, como convidado do Rio Artists Occupation London 2012, residência onde artistas brasileiros farão trabalhos individuais e coletivos.

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Ode poética a Maria Bethânia proibida pelo regime militar ganha nova edição, 43 anos depois, com dois shows-recitais da cantora

Luiz Felipe Reis [O Globo – Segundo Caderno – 4 de outubro de 2011]

 Às duas horas da manhã, Maria Bethânia foi surpreendida com 20 homens à porta de casa. Era dezembro de 1968. O AI-5 fora decretado havia poucos dias, e, sem qualquer explicação, a cantora foi levada a um quartel da Zona Norte do Rio. O interrogatório atravessou a madrugada.

Em São Paulo, Caetano Veloso e Gilberto Gil já haviam sido presos. Os militares queriam informações sobre Geraldo Vandré. Mas não só. Insistiam em perguntas sobre um livro que o poeta Reynaldo Jardim havia escrito em homenagem à cantora. O título. Maria Bethânia Guerreira Guerrilha, havia feito soar o alerta vermelho nos órgãos de repressão sobre a cantora que, três anos antes, causou impacto no show Opinião, em que entoava, substituindo Nara Leão, uma inflamada versão de Carcará, de João do Vale e José Candido.

“Foi um período terrível… Fui presa no Rio de Janeiro, dentro da minha casa (…) Queriam saber por que eu causei esse livro, por que esses cara escreveu esse livro para mim… É um poema lindo do Reynaldo, uma coisa de amor que ele fez (…) Eles mostraram o depoimento dele e batia com o que dizia: “Eu sou uma mulher de palco, ele assistiu ao meu espetáculo. É um intelectual, um poeta, e queria escrever um poema, que deu num lindo livro que foi publicado e logo proibido”, lembrou a cantora numa entrevista a Marília Gabriela, no programa “Cara a Cara”, em 1992.

Impactado pela estreia de Bethânia em solo carioca, ao lado de Zé Keti e João do Vale, em 1965, Jardim passou três anos burilando um pequeno poema que, aos poucos, transformou-se no tal livro. Lançado no dia 28 de novembro de 1968, com mil cópias, a obra circularia por apenas 15 dias. Considerada subversiva e pornográfica, Maria Bethânia Guerreira Guerrilha foi retirada das livrarias e seus exemplares foram queimados – inclusive o que foi entregue à cantora. Agora, oito meses após a morte do autor e 43 anos depois de sua primeira e única impressão, a obra será publicada pela editora Móbile. O lançamento será acompanhado de duas edições especiais do show-recital Bethânia e as palavras, que a cantora realiza nos dias 18 e 19 no teatro SESC Ginástico.

Responsáveis pelo resgate histórico-literário, o produtor Marcio Debellian e o poeta e pesquisador Ramon Mello encaram o projeto como um triplo acerto de contas com a ditadura: retirar um livro-poema do calabouço, resgatar um poeta do ostracismo e homenagear uma artista que iluminou o cenário musical brasileiro mesmo tendo surgido em meio ao mais tenebroso e obscuro momento político da História do país.

- O livro nunca chegou de fato ao público, pouquíssimas cópias restaram – conta Debellian. – A republicação é uma homenagem aos dois. Para quem é de uma geração que tem formação musical, poética e afetiva que passa pelo encanto de ouvir Maria Bethânia declamar poetas como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moares, parecia incoerente e injusto que uma ode poética em sua homenagem permanecesse sob o cálice da ditadura.

Ramon Mello define a republicação como “um ato político”.

- O livro é uma declaração de amor em versos num crítico momento da política brasileira. É a palavra como arma – diz. – Acho que muitos textos, canções e até filmes já poderiam ter sido feitos sob a influência desse trabalho do Reynaldo, que era um poeta incrível.

Admirado por Ferreira Gullar, Hélio Pellegrino e Ana Arruda Callado – todos com depoimentos na contracapa – Reynaldo começou a carreira no “Correio da Manhã”, criou o Suplemento Dominical do “Jornal do Brasil, dirigiu o lendário e combativo jornal “O Sol” e esteve no centro da poética disputa de poder e influência entre os concretistas paulistas e os neoconcretistas cariocas – seara em que militava.

- Muitos poetas e escritores escreveram sobre Maria Bethânia, Ferreira Gullar, Vinicius de Moraes, Caio Fernando Abreu, Fauzi Arap, Clarice Lispector… Os textos são lindos, sem dúvida. No entanto, o mais belo retrato foi pintado com as palavras do Reynaldo – diz Ramon.

Depois de vasculhar – sem sucesso – o acervo de sebos espalhados pelo país, Debellian e Ramon resolveram, no começo do ano, entrar em contato com a família do escritor e comprar os direitos do livro.

Trabalhada desde abril, a nova edição segue à risca o projeto gráfico original idealizado pelo poeta. A capa estampada em suas grandes e pouco convencionais medidas (36 cm de altura por 18 cm) será mantida, assim como a tipologia que se vale de uma variada gama de fontes e tamanhos.

- Não fazia sentido pensar em mudanças em relação à primeira edição – diz Debellian. – Ele dizia que existia uma ditadura de tipologias na época, então decidiu usar todas as que tinham à disposição naquele momento.

Guerreira Guerrilha é um poema polifônico para ser interpretado a três vozes – a mudança tipográfica assinala cada alteração. O autor, que se referia à obra como uma “uma ode heróica”, alertava que o poema era “muito mais para ser ouvido do que para ser lido”.

- Em alguns momentos, o texto atinge um frenesi tamanho que remete a um estado de guerra, um tiroteio sobre nossas cabeças – diz Debellian.

E o professor e pesquisador Júlio Diniz, do Departamento de Letras da PUC – Rio, que assina o prefácio da nova edição, dá seu parecer:

- O poema é um soco, um gesto potente e rebelião contra o silêncio imposto e o controle da criatividade e invenção artísticas. É um poema polifônico, amplo, plural, compartilhado, democrático, unindo vozes, gestos e perfis distintos.

Inovadora e revolucionária

Considerada uma peça inovadora e revolucionária por sua estrutura atípica, Maria Bethânia Guerreira Guerrilha constrói, em 43 páginas de poesia (no original; a segunda edição atual, com prefácio e outros textos, tem 93 páginas) versos que enfatizam os opostos que formam a cantora: combativa e amorosa, rebelde e delicada…

“A unidade do poema está na sua inspiração: Bethânia, um ser múltiplo. Completo e inacabado ao mesmo tempo”, disse Reynaldo Jardim, numa entrevista ao “Jornal do Brasil” na época do lançamento.

Para Ramon Mello, autor de Vinis Mofados, “o livro captura o leitor pela força do verbo”

- Reynaldo mistura diferentes vozes para mostrar a força e o talento de uma cantora que aos 18 anos mostrou a que veio. Cantar a sua língua, suas raízes.

E o produtor Marcio Debellian encerra a batalha reafirmando e redimensionando a porção guerreira da musa inspiradora do poeta Reynaldo Jardim:

- É inegável que Bethânia tem a alma de guerreira. É filha de Iansã, demonstra isso em sua postura artística. Mas tem algo da guerreira que se adoçou ao longo do tempo. Ela continua dizendo coisas fortes e revolucionárias, só que revestidas de beleza, e não com um “fuzil na voz” como o contexto da época queria impor.

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por Sílvia Jardim

Sábado, primeiro de agosto de 2009, abri o jornal O Globo, separei o caderno Ela, o Prosa e Verso e o Segundo Caderno, como sempre. Vi primeiro a moda, para relaxar. Mas ao pegar o Prosa e Verso, antes de partir direto para a coluna do José Castello, fui tragada pela foto de primeira página: um rapaz sentado de pernas cruzadas no canto de um sofá de inusitadas grandes flores azuis. Chamada da foto: “Rodrigo de Souza Leão: morto mês passado aos 43 anos. Autor deixou romance inédito e ainda concorre ao Prêmio Portugal Telecom”. Li, então, de um fôlego só a matéria de Ramon Mello, poeta e jornalista, autor de Vinis Mofados (Língua Geral), esta poesia rápida que eu só viria a conhecer dois anos mais tarde:“encontros podem/ser mais do/que estratégias/acasos carências/dominicais” ("Mosaicos", p. 49).

Fiquei encantada com os trechos de um dos romances deixados por Souza Leão e que ocupavam os cantos da página dois do caderno: “Faz frio sempre em mim. Sou um cara sem amor. Sem carinho. Sem afeto. Acumulei desafetos nos empregos. Fui corretor como Kafka. Devedor como Balzac. Isso não me fez um bom escritor. Estou dando voltas. Círculos que me prendem em círculos. Vou andando em uma poesia visual. Vou cuspindo reticências. Escarrando sangue de vírgulas. Não uso vírgulas. As vírgulas parecem ouvidos. Elas só querem escutar algo: alguma palavra doce”.

Logo uma notícia na matéria me atraiu: Rodrigo de Souza Leão havia deixado o romance Todos os cachorros são azuis publicado pela 7Letras. Havia dois anos eu vinha trabalhando com literatura em aulas práticas para alunos de graduação da Faculdade de Psicologia da UFRJ quando estes passam pela disciplina de Psicopatologiano Instituto de Psiquiatria (IPUB) da mesma universidade. Nos dois primeiros semestres dessa experiência tinha trabalhado com A redoma de vidro, de Sylvia Plath. Depois Diário de Hospício e Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto. Naquele momento estava me preparando para trabalhar com O Alienista, de Machado de Assis com a próxima turma. Naquela manhã de sábado, a ideia “ano que vem vou tentar trabalhar com este autor” não mais me saiu da cabeça.

Na segunda-feira seguinte, levei para a reunião com as monitoras a matéria do Prosa e Verso. Mostrei-a a Rita Isadora Pessoa e Carolina Cibella. Rita disse: “Conheço o Ramon. Posso falar com ele”. “Fala, por favor”, foi a minha resposta.

Saí em campo para ler Todos os cachorros são azuis enquanto lia Machado de Assis. Não foi difícil de achar. Li Souza Leão nas férias, mas aquele título para mim já era uma poesia, uma frase poética fulgurante como o sofá da casa de Rodrigo de flores azuis, na foto da matéria assinada por Ramon.

Março de 2010 chegou e com ele a nova turma para as aulas práticas. As monitoras e eu havíamos lido Todos os cachorros... e decidido: “É isso aí! É muito bom. Vamos lá. O que será que os alunos vão achar?”.

Rita havia falado com Ramon que tinha se disposto a vir ao IPUB falar conosco, conversar sobre a obra do Rodrigo, seu encontro com ele e a curadoria do espólio artístico de Souza Leão. Ramon chegou um pouco atrasado para o nosso encontro, mas o bom foi que nossa conversa não parava e a aula tinha que começar. Ramon entrou na sala de aula, que nesse dia foi a nossa conversa diante dos alunos que tinham lidoTodos os cachorros são azuis, e nos encontrávamos naquele momento no anfiteatro Henrique Roxo, nome de um dos psiquiatras de quem Lima Barreto fala em Diário de Hospício. Ramon leu poemas de Rodrigo e prestou depoimentos tão lúcidos quanto encantados com a obra do escritor assumidamente esquizofrênico. Contou também que havia obtido ainda em vida de Rodrigo a autorização para adaptar Todos os cachorros... para o teatro pois Ramon também é teatrólogo e ator. Nessa mesma ocasião fez a mim o convite para participar do laboratório da peça. Apesar da minha inexperiência absoluta no assunto, aceitei. A possibilidade de levar esse texto para um palco me fisgou de primeira pelo desafio que imaginei seria. Além disso, se estava encantada com a escrita de Souza Leão não fiquei menos com o entusiasmo, a sensibilidade e a capacidade de trabalho de Ramon Mello.

A recepção dos alunos ao texto de Souza Leão era espetacular: ganhou de Sylvia Plath, Lima Barreto e Machado de Assis. Foi unânime a preferência pela contemporaneidade da estrutura literária, da musicalidade e da poesia em prosa de Rodrigo apoiada no bom e no melhor da tradição, Rimbaud e Baudelaire dentre outros.

Faz parte do exercício da aula prática que cada aluno escreva um comentário sobre o texto literário que está sendo trabalhado. Surgiram muitos escritos elogiosos, mas especialmente sensíveis ao incômodo que a literatura de Rodrigo causa. Incômodo que ao invés de afastar o leitor, o conduz a recônditos da alma humana que não são propriamente escondidos, mas podem ser encontrados em qualquer esquina. Além disso, ao trazer de modo poético para a luz do dia a experiência psiquiátrica da loucura, da medicação e da internação da doença mental, aproxima-nos desse campo sem negá-lo, sem dramatizá-lo, sem vitimização, com a coragem de artista que se desnuda não para se mostrar, mas para recriar a realidade. Costumo dizer nas aulas práticas que há um duplo trabalho na obra de Souza Leão: o do delírio (como disse Freud) e a do texto literário que compõe com esses fragmentos de suas vivências.

Quais foram os delírios e as alucinações de Rodrigo? Jamais o saberemos. Sempre poderemos sentir junto os delírios e as alucinações que criou para seus personagens intermináveis em narração poética em múltiplas vozes. Assim somos testemunhas de sua lucidez e de seu sofrimento. Como testemunhas, nos irmanamos. Como leitores, as alucinações, os delírios, a lucidez e a angústia são nossos, quando conseguimos lê-lo até o fim: “É verdade que as alucinações são coisas negativas. Mas bem que poderiam ser doutrinadas para ser positivas” (p. 47). Souza Leão faz aqui um trocadilho com a fenomenologia contemporânea que classifica os sintomas da psicose em positivos e negativos. No lastro de Machado de Assis, Lima Barreto e Plath, dentre muitos outros, mas esses especificamente, não deixa a ciência de fora, enfrenta-a em seus próprios termos.

Mas Rodrigo por Ramon ainda não tinha concluído todas as retribuições ao meu encantamento com ambos. O ano de 2011 chegou e com ele a prometida montagem da peça Todos os cachorros são azuis. Como prometido também chegou já via produção, o convite para participar do ensaio aberto da peça teatral, cuja direção estava entregue a Michel Bercovitch. Assistir esse jovem conjunto de atores e diretores em um ensaio aberto foi uma experiência comovente. Foram preciso cinco atores, cinco presenças, cinco vozes para compor o narrador de Todos os cachorros são azuis: as de Bruna Renha, Camila Rhodi, Gabriel Pardal, Natasha Corbelino e Ramon Mello. E um assistente de direção para o Michel, o Flávio Pardal. Uma experiência comovente por me levar do campo sagrado da minha prática como psiquiatra, aprendiz de professora de psicopatologia para o terreno sagrado de um palco de teatro. Comovente, porque o trabalho que tinham feito até ali já prenunciava o que viria/veríamos depois no palco do Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea, de 10 de julho a 04 de setembro de 2011. As soluções de cenário e composição encontradas e exploradas para a narrativa de Souza Leão, assim como a entrega emocional da direção e dos atores, era contagiante.

Tinha levado comigo o melhor comentário escrito por uma aluna da turma do primeiro semestre de 2010, a Jessica da Silva David. Era o resumo mais sensível e mais bem escrito que conhecia do livro e queria compartilhá-lo com aquela outra turma, “Os Azuis”. Eu o li em voz alta no palco onde na ocasião o grupo, então, me assistia. Todos adoraram. Jessica foi aprovada como critica literária em público depois de se graduar em Psicologia. “Os Azuis” também decidiram com o consentimento dela publicar a resenha de Jessica no belo programa da peça. Fiquei muito orgulhosa. Mérito todo dela.

Assistir da plateia a peça toda pronta no segundo fim de semana de atuação foi mais uma novíssima experiência. Estava quase mais ansiosa que o grupo com as críticas. Duvidava do que eu mesma sentia: está bom demais; eles fizeram um grande trabalho; está lindo. Temos Rodrigo de Souza Leão no palco: força poética, som, movimento e alguma doçura.

Mas e daí? Sou psiquiatra, não entendo nada de teatro. Talvez seja um pouco poeta como todo o mundo e saiba só sentir. Mas aí veio a última frase, o encerramento do último ato e estávamos todos de pé batendo palmas e havia mágica no ar.

E como se não bastasse, veio a Bárbara Heliodora e disse tudo aquilo no Segundo Caderno de domingo, 24 de agosto de 2011.

Parabéns e obrigada, meu querido Ramones e demais "Azuis".

Sílvia Jardim. Psiquiatra/IPUB-UFRJ e professora.

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Jovens autores brasileiros falam de suas experiências literárias na escola

Publicado em 23/07/2011 | LUÍS HENRIQUE PELLANDA, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

Aprender é uma mutilação. A frase é do escritor Paulo Mendes Campos (1922–1991), de sua crônica “Primeiras Leituras”. O autor se referia aos primórdios da sua alfabetização, mas também à literatura que, por intermédio da escola, inaugurou sua carreira de leitor. No texto, Mendes Campos conta que uma frase de Machado de Assis o aborreceu logo de cara: “Lobriguei luz por baixo da porta”. O verbo “lobrigar” lembrava lombriga, e lombriga lembrava vermífugo, coisa que o cronista, ainda menino, detestava. Assim, como são pessoais as relações de cada leitor com o que lê, serão sempre imprevisíveis as reações de cada um a um mesmo livro. A antipatia de Mendes Campos, no entanto, não o desviou nem da leitura, nem da escrita profissional. Seria essa uma experiência comum a outros escritores? O G Ideias perguntou a 18 jovens autores brasileiros quais foram suas excursões literárias escolares mais marcantes. As impressões variam; de certo, sabe-se apenas que, mesmo os que viveram situações negativas, não abandonaram a vida entre livros.

Ana Paula Maia, autora de Carvão Animal

Capitães de Areia, de Jorge Amado. Eu tinha dez anos e estava na quinta série. A leitura era obrigatória, pois cairia numa prova. Senti nojo, vergonha e medo do que li. Principalmente da cena do estupro de uma garotinha. Afinal, eu era uma garotinha também. Odiei Jorge Amado desde então.

André de Leones, autor de Como Desaparecer Completamente

Eu tinha um professor de língua portuguesa muito querido, Edmar Camilo Cotrim. Às vezes, eu ia vê-lo e aproveitava para pegar uns livros emprestados. Em uma dessas vezes, saí com Bestiário, de Julio Cortázar. Foi a primeira vez que tive uma relação epidérmica com um livro, uma identificação imediata e, por mais paradoxal que possa parecer, que prescinde de palavras.

Antonio Prata, autor de Meio Intelectual, Meio de Esquerda

Algo que me apresentou a diversos autores foi um concurso de poesia que havia na minha escola, Oswald de Andrade. Todo ano escolhíamos um poema e o interpretávamos. Não era uma coisa careta, de impostação de voz. Era uma brincadeira divertida, para cujo final toda a escola se reunia, com professores, pais e alunos. Assim descobri Drummond, Bandeira, Pessoa e tantos outros.

Antônio Xerxenesky, autor de A Página Assombrada por Fantasmas

Nunca vou esquecer de quando minha professora de português recomendou a leitura de A Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói. Eu estava na oitava série e a professora nos fez entender um livro que não é nada fácil para garotos dessa idade (e que, aparentemente, não interessaria a um adolescente).

Carlos Henrique Schroeder, autor de As Certezas e as Palavras

Eu cursava a sexta ou sétima série, e o professor indicou Robinson Crusoe, do Daniel Defoe, livro que na época me mostrou o poder da leitura: fiquei absolutamente febril com o enredo. Foi a primeira vez que fui seduzido pela leitura e pude sentir a respiração de um personagem. Depois, passei a ser o rato da biblioteca da escola.

Carlos Machado, autor de Balada de uma Retina Sul-americana

Eu me tornei escritor porque antes de tudo sou um leitor, e devo isso, em parte, a meus professores de literatura. A coisa pegou mesmo quando tivemos que ler Trapo, do Cristovão Tezza. Fazia parte das aulas da segunda série do Médio. Estudamos o livro e ainda vimos a peça.

Carola Saavedra, autora de Paisagem com Dromedário

Nunca tive essa sorte. Se dependesse das leituras indicadas na época do colégio, teria desistido de ser escritora antes mesmo de chegar ao vestibular.

Carol Bensimon, autora de Sinuca embaixo d’Água

O Último Mamífero do Martinelli, do Marcos Rey, na sétima série. No ano seguinte, também tive leituras marcantes, como O Apanhador no Campo de Centeio [J. D. Salinger] e Revolução dos Bichos [George Orwell], mas esse livro do Marcos Rey foi uma espécie de divisor de águas entre a literatura infantojuvenil e a adulta. Aquele clima do edifício abandonado, e o protagonista retraçando histórias a partir de objetos deixados para trás, me pegou de jeito.

Cezar Tridapalli, autor de Pequena Biografia de Desejos

Coisas que me levaram a fazer Letras no Ensino Médio: a Semana de Arte Moderna e vários escritores de 1922 em diante, tanto poetas quanto prosadores (muita gente é contra o livro didático, mas foi um livro didático bem normalzinho que me fez descobrir esses autores).

Eric Novello, autor de Neon Azul

Estava na escola técnica de biotecnologia e a professora indicou o Blecaute, do Marcelo Rubens Paiva, para dar uma quebrada na leitura de clássicos. Gosto de dizer que foi o livro que me deu vontade de ser escritor. Foi um sucesso total. Fim do mundo, solidão, sexo e gente pelada. Certeiro para a galerinha de 15 anos.

Luiz Felipe Leprevost, autor de Barras Antipânico e Barrinhas de Cereal

Foi uma antologia de poesia portuguesa chamada De Camões a Pessoa. Eu estava na sétima série. Certamente já vinha lidando, até de modo criativo, com questões emocionais, mas foi a leitura insistente dessa obra que, sem que eu soubesse, fundava em mim o gosto estético. Não se passa ileso por sonetos de Camões, pela rigorosa ironia de um Bocage, pela eloquência de um Camilo Pessanha.

Manoela Sawitzki, autora de Suíte Dama da Noite

Me marcou muito a primeira vez que vi uma foto e li o conto “Felicidade Clandestina”, da Clarice Lispector, no meu livro de literatura, acho que no primeiro ano do segundo grau. O livro da escola me levou aos livros da Clarice. O engraçado foi que, depois disso, passei a levar os livros dela para ler durante as aulas de literatura, numa espécie de provocação.

Marcelo Moutinho, autor de Somos Todos Iguais nesta Noite

Uma leitura que me marcou muito foi Antes Que o Sol Apareça, que minha professora de português recomendou à turma na sétima série. O romance, de Lucília Junqueira de Almeida Prado, trata da realidade dos boias-frias, e acho que me tocou tanto porque, na época, eu começava a me ligar nas questões político-sociais.

Marcio Renato dos Santos, autor de Minda-Au

Na década de 1980, uma professora de ciências me recomendou Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva. Pela primeira vez, li uma prosa que dizia respeito ao meu mundo. Passei, inclusive, a entender com mais clareza as obras de Machado de Assis e Lima Barreto, leituras obrigatórias, mas que, a exemplo da do Paiva, reinventaram os seus próprios contextos.

Michel Laub, autor de Diário da Queda

Não lembro de nada indicado por professores, pelo contrário. A maioria se limitava ao currículo escolar, que na época me interessava pouco.

Ramon Mello, autor de Vinis Mofados

Em Araruama (RJ), tive uma professora de português chamada Norma que, além de ensinar, incentivava a leitura com prazer. Ela modificou minha relação com a leitura ao me apresentar a poesia do Manuel Bandeira. Também teve uma professora de alfabetização, Tia Naia, que mudou minha vida ao me presentear com Maria Vai com as Outras, de Sylvia Orthof.

Santiago Nazarian, autor de Pornofantasma

Enquanto os professores batiam na tecla de Machado de Assis como “o maior autor brasileiro”, eu descobria Oscar Wilde e Caio Fernando Abreu pelas indicações de uma namorada. Muitas das recomendações de leitura na escola são precoces para a fase em que o adolescente vive, não geram identificação e paixão pela leitura. De todo modo, Uma Noite na Taverna, do Álvares de Azevedo, e O Centauro no Jardim, do Moacyr Scliar, foram leituras escolares prazerosas e perturbadoras.

Simone Campos, autora de Owned — Um Novo Jogador

Tive uma professora na quarta série, a tia Solange, que fez cada aluno comprar um livro diferente no começo do ano. Tudo paradidático: coleção Veredas, Vagalume etc. Depois que lemos e fizemos um trabalho sobre o nosso livro, ela mandou cada aluno trocar seu livro com o de outro, até que cada um leu cinco livros. Um deles me marcou muito: O Planeta do Amor Eterno, de Maria de Regino, que era a história de A Bela e a Fera recontada em forma de ficção científica, meio Solaris.

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por Mariana Filgueiras

Parece difícil rimar contas do mês com

poesia, mas não para todo mundo: há quem viva de livros, sites, oficinas literárias e até eventos para empresas

A polêmica sobre o valor autorizado pelo Ministério da Cultura para captação de recursos para o blog de poesias da cantora Maria Bethânia — R$ 1,3 milhão — deu novo fôlego a um debate há muito esquecido: o valor da poesia. E, principalmente, o valor de quem a promove. Se o montante pedido para o projeto “O mundo precisa de poesia” é muito ou pouco, talvez nem os 72 heterônimos de Fernando Pessoa saibam dizer. Mas fato é que muita gente, com muito (muito) menos, consegue não somente divulgar, mas até viver de poesia. De autores laureados a vendedores de rua — aqueles do desconcertante “Você gosta de poesia?” — fomos atrás das histórias de quem encara os versos como ofício.

Nos anos 70, quando integrava o grupo de poetas Nuvem Cigana, Ricardo Gomes, o Chacal, chegou a trocar o próprio relógio de pulso por um jegue. O animal seria muito mais útil para quem pretendia viver de poesia num sítio no Sul Fluminense. Em outra ocasião, decidiu passar um tempo em Londres, mimeografou cem cópias do livro “Preço da passagem” e vendeu no Baixo Gávea. Hoje em dia, avalia, o poeta tem uma realidade muito mais favorável.

— Eu vivo de poesia há 40 anos e posso dizer: as coisas mudaram muito — atesta Chacal, aos 60 anos, enquanto prepara a primeira oficina (remunerada) do g r u p o d e p o e s i a C E P 20.000, fundado por ele há 21 anos. — Hoje, há oficinas, editais, rodas de leitura, eventos pagos. Ainda não é uma situação ideal, muitos grupos precisam de apoio. A poesia corrige o analfabetismo funcional, melhora o uso da língua, malha os neurônios. Hoje, o governo compra poesia e distribui nas escolas, coisa impensável anos atrás. Não sei se aumentou o número de leitores. Mas a circulação e a remuneração, com certeza.

O poeta Ramon Mello, aos 27 anos, é um exemplo de uma novíssima geração que já experimentou esta boa fase. Ramon deixou a pequena Araruama, na Região dos Lagos, aos 16 anos, para estudar teatro no Rio. Como sempre gostou de ler e escrever poesia, criou um blog em que entrevistava autores iniciantes. Ex-editor da Língua Geral, Eduardo Coelho visitou o site e depois perguntou se Ramon tinha algum livro pronto.

Nascia assim “Vinis mofados”, lançado em outubro de 2009, com excelente recepção.

O blog deu origem a um site mais estruturado, onde Ramon já entrevistou mais de 80 escritores. Uma coisa puxou outra: numa das entrevistas, conheceu o escritor Rodrigo de Souza Leão, morto há dois anos. A convite da família, tornou-se curador da obra dele. Em pouco tempo, passou a cuidar também da obra de Dinah Silveira da Queiroz e organiza a antologia de poemas de Adalgisa Nery. Novas poesias vêm em ideias anotadas no celular, o blog segue online e o próximo livro já está quase pronto.

Em janeiro, Ramon organizou, com Chacal e Heloisa Buarque de Hollanda, o festival de poesia “A palavra toda”, e passou a dar oficinas para jovens poetas. Numa delas, no Sesc Tijuca, “adotou” o menino Thiago Levy, de 16 anos, exvendedor de balas que se inscreveu por indicação da professora de Português do colégio público.

— Ele entrou todo marrentinho, e achei que estava ali por engano. Mas ele soltou:

“Ué, aprendi na escola que o Machado de Assis vendia bala, que nem eu”. Como quem diz: “Eu quero ser poeta, como faz?”, ou algo assim. Passei num sebo, catei alguns livros, fiz um “kit-poeta” e dei a ele. Acho que primeiro você vive para a poesia, depois aprende a viver de poesia — ensina Ramon, de malas prontas para Recife, onde ministraria as oficinas no Festival de Literatura Digital, seguindo depois para a Festa Literária de Porto Alegre.

Quando decidiu ser poeta, o niteroiense Paulo Betto Meirelles, de 23 anos, também deu seu jeito: largou a faculdade de Direito, para desespero dos pais, publicou o primeiro livro (“Tabuleiro de egos”) e levou para Niterói o sarau noturno Corujão da Poesia, evento semanal que já frequentava numa livraria do Leblon desde os 19 anos. Criado pelo poeta João Luiz de Souza há cinco anos, o Corujão funciona como uma vigília literária: toda terça-feira de madrugada, o microfone está aberto para leitura de poesias. Quem está sempre lá é o músico Jorge Ben Jor, padrinho afetivo do evento.

— Propus ao João fazer o Corujão em Niterói, ele topou, e hoje a curadoria virou meu trabalho. Meus pais foram ver uma vez, acho que estão se acostumando com a ideia de que poeta também pode ser uma profissão — conta Paulo, que ainda é compositor e músico da banda Pelicano Negro. Foi no Corujão da Poesia que João descobriu uma maneirade remunerar os poetas mais “entregues”:

— Eu vi que gente importante entrava na livraria por acaso, enquanto estávamos botando fogo no Corujão, e olhava interessada. Então eu pensei em apresentar os poetas a esses empresários, oferecendo pequenos saraus para empresas. Deu certo, com o lema “torne o seu evento mais inspirador e emocionante, inclua poesia na programação”. Hoje, instituições como Tribunal de Justiça do Rio, Senac, Firjan e empresas contratam poetas, sempre pagando cachês dignos — reforça João, que já “exporta” seus poetas para eventos no país todo.

Uma delas é a atriz e poeta Betina Kopp, 27 anos, que se formou em Educação Física mas nunca quis exercer a profissão. No Corujão, Betina recita poesias próprias, mas especializou-se nas alheias. Já gravou audiolivros e criou performances poéticas — numa delas, oferece um menu de poesias para degustação, em que declama o “poeta-prato” escolhido pelo espectador — e apresenta-se em festivais de poesia em todo Brasil.

— A poesia me trouxe muito mais do que o teatro. Já conheci 11 estados do Brasil,já me apresentei no Canecão e no presídio Bangu 1, mostrei poesias a gente que nunca tinha lido um livro e ainda recebo por isso — diz Betina, que para a foto posou com as colheres-adereço que usa em suas performances.

Após dez anos trabalhando com poesia na editora 7Letras e na revista eletrônica “Modo de Usar & Co” (que publica em parceria com os poetas Ricardo Domeneck, Fabiano Calixto e Angélica Freitas), a poeta Marília Garcia, de 32 anos, decidiu dar aulas de teoria da poesia em universidades. Às vésperas dos concursos públicos para professor de faculdades de Letras, pode ser encontrada submersa nos livros na biblioteca da PUC.

— Ao longo desses anos na editora, acompanhei de perto o aumento do interesse pela poesia. Isso se reflete em mais possibilidades para o poeta, como a criação de um edital especialmente para a criação literária, que já dura dois anos (ela se refere ao Programa Petrobras Cultural), e na expansão dos grupos de poesia. No Rio, há eventos de poesia todos os dias — comemora Marília, lembrando que no último em que esteve como convidada, no Sesc de Jacarepaguá, surpreendeu-se com a quantidade de jovens na plateia. Depois desta entrevista, Marília aproveitou o tema e publicou em sua revista-site um poema de Bénédicte Houart que começa com os seguintes versos: “Com os direitos de autor/ do meu primeiro livro de poesia/ comprei um m&m amarelo/ duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas/ com tanto alarido.”

— A relação tão forte com a poesia, no meu caso, vai além do trabalho com os versos, é um modo de ver o mundo, entender as coisas — diz Armando Freitas Filho é uma espécie de “Rilke coroa”, como ele mesmo define. Poeta há quase 50 anos, com 15 livros publicados e muitos prêmios para apoiá-los na estante, é a ele que recorrem jovens poetas ansiosos por orientação. Exatamente como fazia o jovem Franz Kappus com o poeta alemão Rainer Maria Rilke, no início do século passado — e que poeta iniciante, brasileiro ou alemão, não tem a correspondência trocada entreos dois, as famosas “Cartas a um jovem poeta”, no fundo da mochila?

A diferença é que Armando, aos 71 anos, faz tudo por email. Da ânsia dos jovens poetas, ele garimpa os textos mais bem escritos e indica para publicação. É assim que Armando vive de poesia: além de escrevêlas, trabalha atualmente como consultor das editoras. Foi ele quem descobriu as jovens Alice Sant’Anna, de 22 anos, e Laura Liuzi, de 24, que tiveram os primeiros livros (“Dobradura” e “Calcanhar”, respectivamente) muito bem recebidos no meio literário. A próxima aposta de Armando é Silvio Fraga Neto, de 24 anos. Seu primeiro livro vai inaugurar o selo de poesia da editora Bem-te-vi, no próximo mês de junho.

— Fico feliz em apresentar uma novíssima geração. É preciso conhecer poetas novos, senão ficamos com Fernando Pessoa a vida inteira — provoca Armando. — E o melhor é que o trabalho deles é completamentediferente. A Alice roça na poesia de Ana Cristina César; a Laura tem uma escrita mais subjetiva, com mais sombras; o Silvio tem o perfume da brilhantina de João Cabral — elogia o poeta, que teve como um Rilke particular ninguém menos do que Manuel Bandeira.

Quando foi convidado a dar a primeira palestra, no início dos anos 70, Armando percebeu que não estava fazendo um favor, mas um serviço: e que para isso precisava cobrar, oras, afinal não se vive de brisa. Juntou-se ao poeta e amigo Cacaso e juntos montaram uma tabela de preços que usariam a partir de então.

— Não deu muito certo, e eu só fui ser bem pago quando os poemas foram incluídos em livros didáticos — lembra Armando. — Ano passado, meu filho mais novo fez vestibular e trouxe a prova para casa: não é que estava lá um poema que escrevi aos 20 anos? Das três questões relacionadas a eles, acertei duas. E o mais curioso é que o gabarito das três era “C/D/A”, as iniciais de Carlos Drummond de Andrade. Concluí que Drummond é sempre a resposta certa. Da sua casa, na Ilha da Gigóia, o poeta Mano Melo, de 65 anos, concorda. Aos 16, ainda em Fortaleza, descobriu a poesia com Drummond e não sossegou mais. Veio morar no Rio, onde fez parte da “geração mimeógrafo” e de grupos de poesia renomados, como o Ver o Verso, com Claufe Rodrigues e Pedro Bial. Publicou oito livros e hoje conta mais de 40 anos pagando as contas com poesia. E com um pouco de sorte...

— Já passei muito aperto, os deuses da poesia te cobram muito, estão sempre testando sua determinação. Mas sempre que fico pendurado aparece um trabalho muito legal para fazer — conta. — Foi assim quando cheguei ao Rio, nos anos 70, e é assim até hoje. Foi vendendo livros de poesia mimeografados do Leme ao Leblon que juntei dinheiro para passar um tempo na Índia. Quando voltei, tive a ideia de fazer recitais nos auditórios das escolas particulares. Que professor de português recusaria? — recorda Mano, que teve entre os compradores de livro a escritora Clarice Lispector. Mano escreve todos os dias, das 15h às 2h. Acabou de concluir o novo livro, “Poemas do amor eterno”, que será lançado em maio. Mano também faz poesias sob encomenda, muitas para publicidade. Com forte sotaque cearense, gosta de repetir uma história que ouviu em Cuba, durante um evento literário para o qual foi convidado: um dos participantes contou que o filho fizera um pedido ao governo para trocar a profissão de enfermeiro pela de poeta, mas mantendo o salário.

— Ele me mostrou a respostado governo, aceitando a reivindicação, mas exigindo que o rapaz entregasse um livro por ano. Inacreditável, não? — espanta-se Melo, que vez por outra complementa a renda fazendo pontas em novelas.

Se o leitor reconhecer sua fisionomia em algum papel de porteiro, pode ter certeza: ali está um poeta despercebido num uniforme.

Assim como passam batidos os jovens do grupo Geração Delírio, que batem ponto todos os dias, depois do almoço, no “escritório”: as escadas da Biblioteca Nacional. De domingo a domingo, Paulo Alves Filho, Nelson Neto, Thiago Oliveira e Thiago Carvalho atravessam o caminho dos passantes para oferecer zines de poesia com a mal-recebida pergunta “Você gosta de poesia?”.

— De cada cem pessoas, umas 20 compram. Mas só uma dá atenção, para, conversa, lê, estimula... — conta Nelson Neto, que se sustenta há seis anos com os cerca de R$ 700 que tira por mês vendendo poesia por aí nas ruas.

Parceiro das calçadas de Nelson todos esses anos, Paulo foi alfabetizado pela mãe, em casa. Empregada doméstica, ela levava gibis dados pela patroa ao filho, que começou a devorar as revistinhas de “Dylan Dog” e a buscar novas leituras, até trombar com Augusto dos Anjos, o poeta preferido.

Hoje, é Paulo quem ajuda a mãe, com o dinheiro das vendas de sua obra.

— A gente se vira, sobrevive, mas não adianta nada se não houver leitores — analisa o rapaz.

 

 

Matérias

Revista Ler, Portugal - 2010

Rodrigo de Sousa Leão nasceu em 1965, no Rio de Janeiro. Esquizofrênico, teve o primeiro surto aos 23 anos. Logo em seguida escreveu o romance Todos os cachorros são azuis, que narra o percurso de um personagem – da internação à saída do hospício, com a posterior criação de uma nova crença religiosa. Desde então foi considerado, por muitos, uma significativa revelação da literatura brasileira. Infelizmente, Sousa Leão faleceu no ano passado, com apenas 43 anos. Felizmente, o jornalista e poeta Ramon Mello – primeiro leitor a anunciar publicamente as qualidades da obra de Rodrigo – está cuidando de seu acervo. Entre mais de 5.000 propostas, o projeto de Ramon de adaptação de Todos os cavalos são azuis para o teatro acabou de ser contemplado pela empresa telefônica Oi. E a reedição dos livros está planejada para o segundo semestre pela Record, além da publicação do inédito Me roubaram uns dias contados. Ótimas notícias e grandes expectativas!

O site http://www.rodrigodesouzaleao.com.br:80/ permite conhecer um pouco de sua vida e de sua obra.

Matérias

Bolívar Torres, Jornal do Brasil - 06/07/2010

RIO DE JANEIRO - Exatamente duas décadas depois de sua morte (por complicações causadas pela Aids, no dia 8 de julho de 1990), Cazuza entra no time de figuras cultuadas pelas novas gerações de artistas brasileiros. Mas, pela habilidade com as palavras e a atitude rebelde e transgressora, o cantor e compositor carioca transcendeu definitivamente as esferas musicais, tornando-se uma influência decisiva também entre escritores. Assim como já acontecera com Jim Morrison, suas letras são elevadas ao status de poesia.

Eu escuto Cazuza com o mesmo respeito com que leio Carlos Drummond de Andrade explica o poeta Ramon Mello. Acho que suas letras sobrevivem fora da música. Ouço suas canções como se fossem poesia.

Em seu último livro, Vinis mofados (2009), Mello dialoga abertamente com a música popular brasileira, compondo uma coletânea assombrada pelo universo pop. A presença de Cazuza aparece de forma direta em pelo menos dois poemas, Conjugado e Overdose blues. Para o poeta, a influência se exerce em sua geração tanto pela questão literária/musical quanto pela comportamental.

Ele era um transgressor argumenta. E a sua atitude em relação à vida acaba inevitavelmente aparecendo no que ele escrevia e cantava.

Questão de atitude

A postura rebelde de Cazuza sensibiliza autores dessa geração, mesmo que eles não sejam diretamente influenciados pela estrutura do texto. É o caso do escritor e cantor carioca Bernardo Botkay, mais conhecido como Botika. Vocalista da banda Os Outros, é constantemente comparado a Cazuza por sua postura no palco e até pela semelhança física. Mas no que diz respeito ao trabalho literário, tudo muda. Seu romance Autobiografia de Lucas Frizzo talvez só beba no universo de Cazuza pelo lado escrachado e contundente.

Não param de me comparar a Cazuza, acho que por falta de opção brinca Botika. Há tão poucas pessoas autorais no rock que, quando aparece alguém, já chamam de Cazuza. Acho lindo, mas somos diferentes. O que me influenciou na escrita foi a falta de vergonha, uma certa atitude de se expressar. É essa coisa de colocar o pau na mesa.

Também sou Cazuza , escreveu o curitibano Luiz Felipe Leprevost em seu poema Balbúcio blues. Assumidamente devedor da herança poética do cantor, o autor de Ode mundana é fascinado por sua figura desde moleque.

Sempre me encantei pela sua postura transgressora, de bater de frente com a classe média, e sempre ouvi suas músicas como poesia lembra Leprevost. Ele foi o responsável por me fazer entender que letra de musica é, sim, poesia. Até porque era um dos poucos letristas brasileiros que faziam primeiro a letra para depois colocar a música. Se você escutar a letra de Todas as mães são felizes, vai ver que é puro Rimbaud.

O crítico, professor e poeta Ítalo Moriconi vê a presença de Cazuza hoje como um referencial em um caldeirão que junta indistintamente autores mais literatos e outros mais pops. O que já acontecia com as gerações anteriores, também influenciada por compositores populares. Na introdução de Caio Fernando Abreu: cartas, que organizou, o pesquisador afirma que Cazuza e Renato Russo seriam almas irmãs de Caio em matéria de destino e expressão artística .

É tudo poesia, palavra cantada, falada e escrita argumenta Moriconi. Mas cada uma tem sua especifidade. Sempre que atravessam as fronteiras, há perdas e ganhos. Aqui no Brasil, contudo, desde a escola primária se tem a ideia de que as três configuram uma cultura poética de igual para igual.

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