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Os escritores Ramon Mello e André Capilé participam do 'Ave, palavra' hoje

POR MARISA LOURES - 20 de outubro de 2012 – Tribuna de Minas

O encontro com a poesia não foi planejado pelo poeta. Contudo, é por meio dela que ele conseguiu, sem barreiras, conversar com o homem do seu tempo. A minha relação com a literatura nunca foi de berço, pois meus pais não liam, mas sempre fui leitor. Não foi de forma pensada que comecei a trabalhar isso em mim e, sim, por uma necessidade de escrever revela Ramon Mello. Eu me alimento de autores que vou lendo desde que passei a me interessar pelas artes literárias, conta. O escritor fluminense, natural de Araruama, participa, neste sábado, ao lado do também poeta André Capilé, às 15h, do ‘Ave, palavra – Encontros de literatura contemporânea’, realizado na livraria A Terceira Margem.

Formado em artes cênicas e jornalismo, Mello acredita em uma escrita que passe pela interdisciplinaridade, sem barreiras e com a liberdade de transitar entre linguagens e formas diferentes. Eu entendo que a literatura é um diálogo com a tradição e ao mesmo tempo uma busca de transformar essa linguagem em experiência de vida. Criada a partir de referências a Manuel Bandeira e outros autores, sua mais recente obra Poemas tirados de notícias de jornal, editada pela Mobile, é construída a partir da descontextualização de matérias publicadas de 1984 até 2010. A realidade é tão mais fantasiosa que a ficção, e o jornalismo é tão bombardeado de informações que retirar essa notícia do jornal e colocá-la num livro, tirá-la do contexto, chamando atenção para o excesso de banalidade, com um olhar diferenciado, era o meu objetivo, afirma.

O escritor ainda contabiliza, entre outros trabalhos, a idealização do espetáculo Todos os cachorros são azuis- adaptação do livro de Rodrigo de Souza Leão – a curadoria, com Mara Mestre, da exposição póstuma de Souza Leão Tudo vai ficar da cor que você quiser, e a publicação, em 2009, de Vinis mofados, pela Língua Geral. Vinis é um livro de estreia e conta com todas as ansiedades características desse momento, mas tem a potência da primeira obra. É uma conversa com Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu. É escrito em versos e faz referência à música brasileira. A última obra já foi mais pensada. Fiz várias pesquisas em internet e li autores que trabalharam como jornalista e que também utilizaram a técnica dessa profissão.

É cada vez mais necessário se posicionar no mundo, colocar-se diante dele, frente a ele e enfrentá-lo. No entanto, só posso me pôr nesse mundo como linguagem, e na linguagem desse tempo presente, e isso só é possível por meio da irritação. Com essas palavras, o escritor André Capilé define a sua escrita centrada em sarcasmos, acidez e causticidade, chegando mesmo a ser movida por um certo desconforto em relação à sociedade.Esse lugar fraco e sem tesão é praticamente desinteressante, destaca o autor, que procura gracejar com a metrificação de seus textos. Usando seus próprios termos, perturbar a cadência natural dos versos é a sua intenção. Meu interesse não é o que o poema fala, mas como ele fala. Procuro brincar, de maneira crítica, justifica.

Assim como a maioria dos poetas de sua geração, não segue convenções. Procuro repensar o repertório das modernidades e suas variantes como via de entendimento já na própria condição de contemporaneidade, diz. O motivo de tanto desconforto? Existe um incômodo com a tendência a pensar a linguagem como um lugar inefável, intangível, indizível, quando, na verdade, isso me parece mero escapismo. Enfático em suas crenças, também credita o atual desarranjo do mundo ao método ineficaz do ensino literário. Não existe mais escaninho geracional. Por isso, não tem como colocar tudo numa gaveta genérica. Parnasianismo, simbolismo, concretismo e outros estilos ficaram completamente diluídos. O repertório é muito maior. Acho que não é necessário assumir posição. Busco ocupar meu espaço com um discurso não alienado.

Capilé é de Barra Mansa, Rio de Janeiro, e residiu em Juiz de Fora na última década – período em que se graduou em filosofia pela UFJF. Atualmente cursa doutorado em literatura brasileira pela PUC-Rio. Dentre seus trabalhos, destaca-se a idealização do Eco-Performances Poéticas e a publicação, em 2008, de Dois (Não pares), em parceria com Carolina Barreto, pela Funalfa Edições/Anomes Livros. Rapace – vocábulo que, segundo o autor, poderia ser traduzido por corruptela para ave de rapina, figura furtiva para ladrão e corruptela para rapaz – é o título da obra que está em fase de produção e com previsão de lançamento em Juiz de Fora no mês de dezembro. Esse sou eu. Está dentro da minha língua, está na rua e dentro da tradição. É uma espécie de apoteose da língua no sentido mais forte, conclui.

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AE - AGÊNCIA ESTADO - 27 Junho 2012 | 10h 28

Ramon Mello lança nesta quarta-feira, às 19 h, seu novo livro, "Poemas Tirados de Notícias de Jornal" (Móbile Editorial), na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915). Em seu segundo livro de poesia, o autor usa como fonte notícias publicadas em jornais entre 1984 (ano em que nasceu) e 2010. Ele descontextualiza a notícia e a recria com linguagem e sensibilidade poéticas. O título é inspirado no "Poema Tirado de Uma Notícia de Jornal", de Manuel Bandeira (de "Libertinagem", 1930). Em julho, Ramon vai a Londres como único escritor convidado do Rio Artists Occupation London, evento que prevê instalações e intervenções de artistas brasileiros na capital britânica.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Leandra Lima - O Globo 05/07/12

RIO — É com versos como “Não copie e cole/ se aproprie e recrie a realidade” que Ramon Mello, morador de Copacabana, dá o tom ao seu segundo livro, “Poemas tirados de notícias de jornal”, recém-lançado pela Móbile Editorial. Contemplada pelo Edital Novos Autores Fluminenses 2010/2011, do governo estadual, a obra é feita de poemas criados a partir de descontextualização de notícias de jornal publicadas de 1984 (ano em que nasceu) até 2010, e é repleto de referências a obras de outros autores. Tal apropriação já aparece no nome do livro, inspirado no “Poema tirado de uma notícia de jornal”, de Manuel Bandeira.

O escritor, com formação em artes cênicas e jornalismo, explica que buscou investigar a relação escritor/jornalista explorada no passado por autores como João do Rio e Nelson Rodrigues:

— Fui em busca da minha voz própria, de uma dicção na poesia, mesmo em cima de uma técnica que não é nova, que é a da apropriação da escrita de outros autores.

Para Mello, “Poemas tirados...” é uma reflexão do que é fazer literatura contemporânea numa era em que somos seduzidos por uma série de recursos visuais e na qual nos relacionamos por mídias sociais que “banalizam as palavras”. O morador de Copacabana diz que foi atrás de um entendimento do passado para buscar um caminho atual que não sabe qual é:

— Vivemos num período de grandes mudanças. Tem a questão autoral em tempos de compartilhamento de dados na internet, tem a fragmentação do texto nas mídias novas. Estamos num caldeirão de técnicas e ideologias utilizadas todas ao mesmo tempo. Esse caminho ainda não pode ser definido.

Mello parte hoje para Londres, como convidado do Rio Artists Occupation London 2012, residência onde artistas brasileiros farão trabalhos individuais e coletivos.

Críticas e Resenhas Poemas Tirados de Notícias de Jornal

Pós-escrito para Poemas tirados de notícias de jornal, de Ramon Mello

“pense no tempo/ em nosso tempo/ tempo/ tempo/ tempo/ tempo” insiste o poeta na abertura do livro (Poema atravessado pelo manifesto sampler). Os versos resumem o primeiro princípio da poética de Ramon Mello. Ele propõe a adesão do poema ao que se passa no mundo, quer que o poeta invada o corpo do mundo e aceite seu caos. Pouco adiante, em outro registro, a ideia é retomada: “a poesia se esfrega nas coisas / percebe”

A partir desta conclamação, toda uma série de corolários se organiza. A própria ideia de basear os poemas em notícias de jornal é um deles. Uma aproximação do poeta e do jornalista é afirmada, pois “ambos devem preservar / usar muito bem a língua” (Códigos de ética). A própria formação do poeta/jornalista Ramon Mello guarda relação com isso. Uma tomada de posição anti-lírica atravessa o conjunto dos poemas. A originalidade - algo muito pessoal - cede lugar à autenticidade, isto é, ao compromisso com os fatos. Esta é reivindicada desde a epígrafe de Jim Jarmusch, citando Godard: “Não é de onde você tira as coisas que conta, mas onde você as põe.” Uma espécie de desromantização, já explorada pelas vanguardas do início do século XX, também está p resente. Ela é acompanhada da exigência da liquidação do ego do poeta, da valorização da criação coletiva e da referência à deglutição da Antropofagia oswaldiana: “propriedade coletiva/ eu sou vocês/ sou eu”.

Este primeiro princípio – “realista”- não apresenta nenhuma ingenuidade. Ramon não acredita que a verdade das coisas possa ser documentada, que o dito do jornalista seja mais real. Ele sabe muito bem que também “as notícias são vidas inventadas” (Em off) e que os “fatos são narrados como se fossem novelas” (Jornalismo policial).

A poesia de Ramon Mello é só aparentemente despretensiosa. Ela contém inclusive um jogo cifrado de rica intertextualidade, que revela a leitura cuidadosa da nossa melhor tradição. Uma passagem do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, é reproduzida como uma das epígrafes. A lição oswaldiana é, em muitos aspectos, acolhida. Aparece no endosso das teses do manifesto de 1928, na adoção do estilo "telegráfico" de vários poemas, no recurso ao poema-piada e na própria estrutura formal de muitas passagens. Já o clássico Poema tirado de uma notícia de jornal, de Manuel Bandeira, inspira o título e o espírito do volume. Drummond também é uma importante referência. Não o Drummond maduro, mais meditativo, tão prestigiado hoje em dia, mas o modernista de Alguma poesia. Essa mão nervosa que tudo escreve, mencionada no poema de abertura, é a mesma presente em Poema do jornal, do livro de 1930. O contato com a poesia brasileira dos anos vinte e trinta foi muito mais decisivo para a elaboração deste livro do que o declarado amor do poeta pela música popular (Folha crítica), a qual geralmente é lírica e raramente é documental.

Em Bandeira, em Drummond, em Oswald de Andrade encontram-se os elementos constitutivos do segundo princípio da poética de Ramon Mello. Já apontei que o primeiro princípio da poesia do “jovem autor” (Folha Crítica) é o compromisso com a dicção documental, que justifica a proximidade com a notícia de jornal. Já o segundo princípio prende-se e não se prende ao primeiro. Certamente, a dimensão poética alcançada nestes versos não é prescrita por qualquer princípio documental. Ao mesmo tempo, ela não o contradiz. As vozes do poeta e do jornalista são muito diversas, mas não se chocam entre si. Nos seus melhores momentos, este livro não transcende o documental, mas o explora e aprofunda. Salvo em pouquíssimos casos, Ramon não perde o foco da notícia, mas, ao contrário, concentra nela a atenção.

O resultado desta operação, movida quase sempre pela ironia, é que estas cenas da vida cotidiana, vistas pelo poeta, nos surpreendem. Aspectos insuspeitos são revelados. Um detalhe destacado em um verso mobiliza de forma nova o olhar. Um traço desconcertante sublinhado poeticamente em alguma cena banal provoca a reação do leitor: de crítica, de repúdio, de pena ou de simpatia.

O segundo princípio da poética de Ramon Mello tem a ver com o fato de que toda boa poesia tem o poder de criar novos sentidos da realidade. Esta noção é referida em passagens como: “toda palavra / é / começo”, do poema de abertura, que destaca a dimensão inaugural da experiência poética. Comparece de outro modo em Inexistência, com a importante afirmação de que “em toda palavra / o risco”, que reconhece a imprevisibilidade de todo gesto de iniciar. Ou, ainda, está presente em Comprovação, ao declarar que o “belo debaixo das palavras” não depende de nada que exista além delas, ou seja, de algum deus.

A razão de os Poemas tirados de notícias de jornal serem tão bem sucedidos consiste em que neles se sustentam, sem nunca se anularem um ao outro, dois princípios ou duas éticas: a documental e a poética. Há entre eles, ao mesmo tempo, afinidade e crispação. Nisto reside a força da poesia de Ramon Mello.

 

Eduardo Jardim

Eduardo Jardim é escritor e professor do Departamento de Filosofia e do Departamento de Letras da PUC-Rio.

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POR LUIZ FELIPE REIS - O GLOBO

RIO - Heloísa Buarque de Hollanda não esperou o sol esquentar para sair de casa. Às 8h, ela já estava na rua para uma reunião. Às 9h, seguiu para outra. E às 10h voltou para casa, para uma terceira. Mas esta última era diferente. Tratava de uma causa inédita. Afinal, nestas segunda e terça-feira, o Espaço Sesc, em Copacabana, serve de palco para "A palavra toda", o primeiro festival de poesia da cidade. Quem afirma é ela - acadêmica respeitada por sua contribuição à palavra - e o poeta Chacal, seu parceiro na empreitada ao lado do jovem poeta Ramon Mello. De pé, na sala de seu apartamento, no Leblon, Heloísa quase não se contém ao ter que esperar a chegada dos dois.Confira a programação do festival

Ela suspira, a campainha toca, Chacal e Ramon chegam e a palavra ganha forma para explicar o evento. Chacal diz que o Rio estava com saudade dele mesmo, que a cidade não pode viver incompleta, e que a poesia tem esse papel unificador. Heloísa afirma que nunca se produziu e se veiculou tanta poesia como hoje, por diversas plataformas, e que um evento para celebrar a plavra era mais do que necessário. Enquanto Ramon ressalta a liberdade para transitar entre diferentes linguagens artísticas através da poesia. Juntando as ideias do trio, armam-se os pilares que sustentam "A palavra toda".

- É um momento parecido com a época da antologia ("26 poetas hoje", de 1976), aquela vontade de juntar todo mundo - recorda Chacal. - Mas a antologia era mais a praia marginal, fruto de um período meio seccionado, cheio de panelas, antagonismos... Hoje vivemos um período de convergência, fusões acontecendo entre a academia e o que seria a poesia marginal, além da periferia.

Heloísa joga luz na quebra de barreiras entre as mais variadas formas do fazer poético:

- A grande diferença hoje é a de circulação, a liberdade que temos para experimentar... Todo jovem poeta que eu conheço tem banda, trabalha com teatro, literatura... A poesia se espraiou, não é mais apenas a poesia em si.

E Ramon Melo concorda:

- Hoje você pode estar longe do centro, acessar o blog de um escritor, se comunicar com ele... Isso nos aproxima, desmitifica a posição do autor. Além disso, a facilidade que temos para publicar não se compara com o que acontecia no passado. Muitos poetas ganham seus primeiros leitores nos blogs. Antes tinham que manufaturar seus mimeógrafos, ir para a rua.

Nos dois dias, há atrações das 18h às 22h. Entre os destaques desta segunda-feira, "A palavra em cena", com Paulo José e Ana Kutner, às 18h30m; "Agora é hora", com Alice Sant'Anna, Mariano Marovatto e Gregorio Duvivier, entre outros, às 19h30m; "Noves fora tudo", com Viviane Mosé e Carlito Azevedo, entre outros, às 20h30m; "Às margens plácidas", com Antonio Cicero e outros, às 21h30m; e "A palavra cantada", com Letuce, às 22h. Na terça, prometem "Agora é hora", com Ramon Mello, Omar Salomão, Vitor Paiva e Ericson Pires, entre outros, às 19h30m; "Às margens plácidas", com Geraldinho Carneiro, Chacal, Pedro Lage, Salgado Maranhão e Armando Freitas Filho, às 21h30m; e "A palavra cantada", com Fausto Fawcett, às 22h.

Chacal frisa que o Rio sempre esteve próximo à palavra, viva, em constante transformação, seja através dos bailes funk, das rodas de samba ou das batalhas de improviso do rap. E é mesclando poesia teatro e música que eles chegaram à essência que rege o encontro.

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- Fui convidada pelo Sesc para fazer um evento de poesia e não pensei duas vezes antes de chamar o Chacal - conta Heloísa. - Ele é uma peça fundamental. É o único que continua militando fielmente, e representa o começo da minha paixão pela poesia. A gente está ficando mais velho, então acho que é a hora de ficarmos juntos, botar para quebrar.

A intenção do trio é que o evento se torne anual, sempre no verão, que é quando a cidade vai para as ruas. Aos olhos dos três, é nesse cruzamento que a poesia tem de estar inserida.

- O Rio passou por um longo período de baixa autoestima - diz Chacal. - Então, essa união da cidade partida precisa ser celebrada. Nos anos 60 e 70, a poesia era ligada à cidade, aos movimentos políticos, ao carnaval, ao calor do verão... Depois a coisa migrou para a academia e para os guetos. Agora vejo que ela tem de retomar seu lugar, a cidade ficou carente de poesia e de pensamento. Temos que nos reunir através da poesia para pensar a cidade.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/festival-palavra-toda-reune-diversos-artistas-no-espaco-sesc-2833385#ixzz3r8fXL71i
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