Na obra, cantor fala sobre música, sexualidade, drogas e o Brasil de hoje

Por Nahima Maciel

Muitas das histórias contadas em Vira lata de raça não são novidades. Ney Matogrosso falou sobre elas em entrevistas ao longo dos quase 50 anos de carreira. No entanto, há um sabor diferente na leitura quando o texto está em primeira pessoa o que, em certos momentos, leva o artista a aprofundar e detalhar algumas passagens da própria vida.

Vira lata de raça, título emprestado de uma música de Rita e Beto Lee, não é uma autobiografia, mas um livro de memórias. Nasceu de uma sugestão do amigo e poeta Ramón Nunes Mello. Inicialmente, a ideia era publicar uma compilação de matérias, críticas e entrevistas publicadas ao longo dos anos. Das conversas entre os dois, ficou evidente que a voz narrativa de Ney tinha uma força, uma potência que está no livro.

Ficou decidido, então, que seria um livro de memórias. “Ele falou que tinha uma ideia já de livro, que ia fazer alguma coisa para além do que já tinha. Ele queria entender se as declarações dele ao longo do tempo eram coerentes, se tinham um sentido de concatenação, seja nas ações, ou no próprio discurso”, conta Nunes Mello, responsável pela organização do livro. Fotos de Ary Brandi, algumas inéditas, dos tempos do Secos & molhados, aparecem ao lado de outras mais conhecidas e fruto de pesquisa iconográfica detalhada. A biografia mesmo, prevista para 2019, está em fase de produção e será assinada por Júlio Maria, biógrafo de Elis Regina (Nada será como antes).

A relação com o pai e o olhar para o menino educado sob as rédeas de um militar estão entre as primeiras lembranças de Ney, filho de um oficial da aeronáutica que não queria prole artista. Foi quando saiu de casa, aos 17 anos, e se alistou na Aeronáutica, gesto simbólico, que o cantor começou a se sentir livre para ser ele mesmo. Sobre os anos no quartel, ele se lembra, especialmente, de perceber a possibilidade de carinho nas relações entre homens.

A opressão em casa fazia Ney reprimir os próprios sentimentos. No Rio de Janeiro, começou a perceber que a relação entre dois homens era uma coisa viável. “Eu conto a história com meu pai, porque acho importante, sei que muita gente passa pela mesma coisa. E tou querendo dizer para as pessoas que é possível sobreviver com decência a esses infortúnios da adolescência”, explica, em entrevista ao Correio. Momentos da carreira, a estreia ao lado do Secos & Molhados, os tempos de artesanato e da vida hippie, a descoberta em relação à beleza da própria voz e a passagem por Brasília estão no livro.

Na capital, para onde veio depois de sair da Aeronáutica, Ney trabalhou, primeiro, no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base, antes de se dedicar às crianças da ala pediátrica. Ali, o contato com a morte provocou uma transformação na maneira de encarar a finitude humana. Foi um momento importante, que veio acompanhado da experiência com o coral regido pelo maestro Levino de Alcântara, responsável por mostrar ao cantor o quão única era sua voz.

Também em Brasília, Ney viveu sua primeira relação homossexual, que acabou porque o namorado alimentou um sentimento de posse que o cantor, aos 21 anos, não gostou. “Ao chegar em Brasília também passei a ter consciência da minha sexualidade, escolher com quem gostaria de dividi-la, sem a culpa cristã. Eu era muito travado, sexualmente falando, só fui me liberar para o sexo a partir dos 30 anos – dos 33 aos 38 anos eu realmente exercitei minha liberdade sexual, passei a me comportar como um bicho no cio, cheio de instinto e tesão”, escreve.

A sexualidade, aliás, é tratada em vários capítulos. A paixão por Cazuza, o relacionamento com Marco de Maria, que morria de Aids em casa enquanto Ney subia ao palco para a estreia de um show, e as perdas em decorrência da doença, nos anos 1980, são momentos marcantes. Como já havia falado em entrevistas, o cantor confessa achar um milagre estar vivo. “Tive contato sim com o vírus, e não me contaminei. Por um milagre, não me infectei”, escreve.

Ney também critica a maneira como a imprensa tratou sua homossexualidade. Ele nunca quis assumir bandeiras e sempre fez questão de reiterar que, antes de qualquer etiqueta, era um ser humano. Gostava também de mulheres, embora no livro revele que se afastou das relações heterossexuais, porque acabavam virando romance. Nunca quis assumir bandeiras mas, hoje, ele entende a necessidade dos rótulos LGBT para as lutas de gênero. “Dentro do movimento, agora, existem esses rótulos, as pessoas fazem questão disso. Agora, meu pensamento é um pensamento anterior a esse. Não faço questão de rótulos, acho que rótulos são limitadores. Entendo também que as pessoas precisam se juntar e se organizar dentro desses rótulos para ter força, mas eu nunca tive esse impulso para isso”, diz.

A relação com a natureza é outro ponto presente do início ao fim do livro. Desde muito pequeno, o cantor se alimenta do contato com a terra, as plantas e os bichos. Os figurinos de chifres, penas e peles nas apresentações do Secos & molhados refletem essa ligação e as experiências com as drogas, especialmente a ayauhasca do Santo Daime, foram tentativas de se conectar com ele mesmo e com a natureza. Nunca, ele insiste, usou drogas para se desconectar da realidade.

A solidão e a idade também são tratadas no livro com muita sinceridade. Aos 77 anos, Ney se surpreende por não sentir o peso da idade. A libido, ele confessa, continua ótima, assim como o corpo e o espírito. “Não me sinto nem um pouco velho, faço quase duas horas de show, com fôlego e flexibilidade , dançando e cantando”, escreve. Manter a mente aberta ao novo, não ser saudosista e não guardar mágoas, ensina, ajuda a preservar o vigor.

Hoje, Ney não quer um relacionamento fixo. E também não se classifica como solitário, embora tenha achado que o documentário de Joel Pizzini, Olho nu, trace dele um perfil de homem só. “Não me sinto solitário. Pelo contrário. Isso não é um sofrimento, não é um peso na minha vida. Eu preciso disso, ficar muito sozinho, porque minha vida me coloca muito exposto e tenho necessidade de ficar só. Sem sofrer”, garante. “Olha, eu tenho um círculo de amigos, não sou uma pessoa que se fecha em casa sozinha, mas respeito a individualidade.”

Quatro perguntas/Ney Matogrosso

 

Você aprofunda, no livro, momentos difíceis, como a relação com seu pai e a morte de Cazuza e Marco de Maria. Foi sofrido reviver isso?

Não. Não foi sofrimento nenhum porque aquilo é passado, isso não me toca mais. Minha teoria é que, se você vai vivendo sua vida com intensidade, com verdade, as coisas vão passando e elas vão ficando. E você guarda as suas recordações, mas as coisas ruins passam também. Não teve nenhuma dificuldade, nenhum momento difícil, porque isso não me toca mais, tá tudo pra trás. Eu tou em outro momento da minha vida, em outro ponto da minha vida. Mesmo a história com meu pai.

Você fala, em vários momentos, que o Brasil ficou careta para aquela transgressão dos anos 1970. O que aconteceu conosco? Como está sua expectativa para o Brasil?

Olha, nós demos o passo que nunca imaginei que daríamos. Entendo que demos o passo, porque o caminho foi pavimentado pelos que passaram antes. Para essa chegada onde chegamos, essa estrada foi pavimentada. Foi asfaltada e posta para esse pensamento chegar ao poder. Então, tudo é consequente. A gente não pode achar que o povo brasileiro enlouqueceu. Ele está desiludido. Agora, espero que não tenhamos outra desilusão pela frente, porque se Bolsonaro foi eleito democraticamente, não podemos contestar isso. Espero que a gente também não tenha arrependimentos. Torço para que tudo dê certo, para que ele realmente tenha bom senso. Toda aquela coisa de antes, aquelas coisas muito extremistas, isso tudo já não é mais porque ele se depara com tanta coisa para resolver que não pode se prender à vida particular de ninguém. Ninguém tem  de se meter na vida particular de ninguém, nem Estado, nem religião, nem ninguém. A vida de cada um é a vida de cada um. Espero que ele realmente cuide do Brasil, que faça um bom trabalho e que deixe as pessoas viverem em paz.

Sua política, você escreve, é no palco. Olho no olho, com o público. Como é isso?

Quando me vi sozinho, naquele momento em que gravei meu primeiro disco solo, achava que a esquerda estaria me compreendendo. Que a esquerda me apoiaria em alguma instância. Não. Fui tão rejeitado pela esquerda quanto pela direita. Então, atinei para o seguinte: então, é cada um por si, vou cuidar da minha vida. Não preciso de apoio nem de esquerda nem de direita, porque sou um ser humano independente e vou tocar minha vida. E toquei minha vida. Para falar a verdade, tenho horror à política partidária.

Como chegou a essa conclusão?

A partir de muitas coisas que foram acontecendo, me mostrando que eu era sozinho. Quando saí do Secos & molhados, eu não era do grupo dos baianos, do grupo dos cearenses, dos mineiros. Era eu sozinho. Porque é mais fácil quando você vem com uma leva. Eu vim sozinho e vi que era sozinho, que eu estava sozinho e não podia me submeter a nada nem tentar me esconder. Pelo contrário. Sempre fui muito claro, sempre que perguntado, eu declarei a verdade. Não saio por aí jogando minha verdade na cara das pessoas, mas se perguntado, não me recuso a colocar.

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/12/16/interna_diversao_arte,725592/biografia-de-ney-matogrosso.shtml

Em livro, Ramon Nunes Mello passeia pela trajetória de um dos artistas mais performáticos do Brasil

Por Michele Rabello, O Popular

 

“Ele foi o anjo enviado por Deus para que o brasileiro compreenda melhor sua louca identidade de homem-mulher unidos num só.” A frase, escrita há tempos pelo poeta Caio Fernando Abreu (1948-1996), representa tão bem o mistério criado em torno da imagem de Ney Matogrosso que abriu o livro de memórias do artista, Vira-Lata de Raça, assinado pelo jornalista e poeta Ramon Nunes Mello e lançado recentemente pela editora Tordesilhas. Ao longo de 288 páginas, Ramon passeia pelas múltiplas facetas do sul-matogrossense que ganhou o País, na década de 1970, ao lado de João Ricardo e Gérson Conrad, com a irreverência dos Secos & Molhados. Além disso, presenteia o leitor com o resgate da discografia do herói marginal que em 2018 completou 77 anos.

Sob o olhar atento de Ramon, Ney tira a fantasia e relembra a infância, a juventude e o início da carreira solo, com o álbum Água do Céu – Pássaros (1975). Além disso, volta no tempo e fala sobre como foi tomar consciência de sua sexualidade e assumir relações amorosas que voltaram as atenções da mídia para ele. “Quis ir além da figura pública e entrar na história pessoal do Ney. Falar das escolhas que ele fez ao longo da vida, dos posicionamentos políticos e da forma como se conecta com o espiritual. Contar sobre suas paixões, seu romance com Cazuza e a convivência com Marco de Maria, com quem viveu por mais de dez anos”, explica Ramon.

Ao autor coube, além de pesquisar e catalogar informações datadas, ouvir o que Ney tinha para falar. O resultado foi um longo depoimento, em primeira pessoa, entremeado por fotografias de diferentes épocas e confidências afetivas. “Como já existem no mercado dois livros sobre o artista (Ney Matogrosso: um Cara Meio Estranho, de 1992, e Secos & Molhados: Entrevistas a Charles Gavin, de 2017), meu desejo foi olhar para o Ney de Souza Pereira, uma cara tão interessante quanto o ser híbrido que a gente vê no palco. Um homem que vive se reinventando e brigando contra a caretice do mundo atual. Um cara que faz questão de mostrar sua leveza ao lidar com o passar do tempo de uma forma tão única”, conta.

O desejo virou projeto quando os caminhos de Ramon e Ney se cruzaram, em um painel sobre o Secos & Molhados na Casa do Saber, um centro de debates culturais no Rio de Janeiro. Antes disso, o contato do jornalista com o artista era apenas por meio de seus álbuns prediletos e das performances arrebatadoras da figura, meio homem, meio bicho, do cantor e compositor. “Essa intensidade me deixava bastante inquieto. Quando conheci o Ney de perto e iniciei minhas pesquisas, de maneira mais sistêmica, descobri que sua essência transgressora e enigmática ia além do palco, lugar onde ele defende uma liberdade crua”, relembra.
Feito a quatro mãos

Ao todo, foram 18 meses de trabalho conjunto. Ramon escrevia e mostrava para Ney, que contribuía tornando o texto mais pessoal e próximo do homem por trás da maquiagem. Foram diversos encontros no apartamento do artista, na Zona Sul do Rio Janeiro. As conversas, sempre regadas a recortes de jornais, trajetória de composições e entrevistas antigas, passaram por diferentes fases da vida de Ney. Da infância, marcada pela relação conturbada com o pai, até a vida adulta, quando se assumiu homossexual em pleno exercício da vida militar. “Falamos ainda sobre sua formação intelectual e artística atravessada pelo teatro, pela música e pelas artes visuais”, recorda.

O título também acabou sendo uma decisão conjunta. No início, Ramon já havia decidido que o trabalho seria batizado fazendo referência à canção Astronauta Lírico, escrita por Vitor Ramil em 2007, mas em uma conversa com Ney descobriu que o cantor tinha um apreço especial pela música Vira-Lata de Raça, feita, em 1999, por Rita Lee e Beto Lee como um presente para o artista. Nos versos da rainha do rock, ele quebra o protocolo, é um bicho carente que chora sozinho, ao mesmo tempo em que banca o palhaço fazendo um estardalhaço. “Queríamos um título que traduzisse, de maneira legítima, a personalidade do Ney: um cara chique e popular ao mesmo tempo.”

Para Ramon, o maior desafio foi delimitar o recorte do trabalho. “Antes de começar a escrever, tive de tomar consciência de que eu não daria conta de abarcar toda a vida do Ney. Só de carreira, são 46 anos, com uma média de um disco sendo lançado a cada 12 meses. Então, fui agrupando fragmentos que achava importante e nesse processo a abertura dele foi fundamental. Tocamos em momentos delicados, como a epidemia de aids no Brasil, e Ney não titubeou. Nada ficou de fora”, garante o jornalista, que finalizou o trabalho ainda mais fã do homem de caminhos tortos, alma cativa e sangue latino. “Descobri que ele é um ser humano generoso, amigo e consciente do seu papel como artista.”

Por Angélica Basthi, ABIA

 

Ramon Nunes Mello é escritor, poeta, jornalista e ativista dos direitos humanos. Autor de mais três títulos de poesia autorais “Vinis Mofados” e “Poemas tirados de notícias de jornal” e “Há um mar no fundo de cada Sonho”. Mello é o responsável pela organização da antologia “Tente entender o que tento dizer”, publicada pela editora Bazar do Tempo em maio deste ano.

Para Mello, que é soropositivo, a coletânea surge na tentativa de romper o silêncio na literatura sobre o HIV e a AIDS e contribuir para o diálogo e naturalização do tema: “Entre os anos 1980 e os anos 1990 existe essa representação do HIV na literatura, mas dos anos 1990 para cá tem um hiato e por que? Por que as pessoas não falam publicamente sobre o HIV, não falam em casa e não falam na literatura. Então a proposta do livro foi justamente preencher esse hiato”.

Influenciado pela vida e obra de escritores que abordaram o tema como Herbert Daniel e Marcelo Secron Bessa, ambos colaboradores da ABIA, e inspirado na luta política de Betinho, fundador da instituição, Ramon decidiu doar o valor arrecadado com os direitos autorais da antologia “Tente Entender o que tento dizer” para a ABIA. Para ele, a instituição é uma das maiores referências no pensamento e na ação das políticas públicas de HIV e AIDS hoje no Brasil.

Na entrevista abaixo, ele conta como foi a trajetória e experiência na organização da coletânea, o papel da literatura numa resposta positiva ao HIV e à AIDS e a importância de se vencer o estigma em torno do tema: “A intenção é também tirar esse lugar que o HIV é uma coisa do outro, independente da sorologia, o HIV é uma questão social, uma questão de todos! ”. Confira a entrevista exclusiva a seguir:

ABIA: Por que optou por doar o valor arrecadado com direitos autorais da antologia “Tente entender o que tento dizer” para a ABIA?

Ramon Nunes Mello: Eu escolhi a ABIA pois antes mesmo de organizar o livro, em 2012 – quando eu recebi o diagnóstico de soropositivo – soube que gostaria de trabalhar com a questão do HIV na poesia, na minha escrita, mas ainda não sabia como fazer isso… Fui amadurecendo e em 2015, quando abri publicamente a minha sorologia, comecei a perceber que a questão do HIV começou a aparecer em muitos poemas que escrevia. Mas foi através de uma frase de um escritor chamado William Burroughs em que diz que “a linguagem é um vírus do espaço sideral” que eu entendi que a linguagem é o verdadeiro vírus e que não devemos temer o vírus HIV e sim falar sobre o HIV!  Falar sobre a AIDS é ressignificar a forma como enxergamos esse tema.

A partir do momento que abordamos o tema do HIV na literatura, podemos olhá-lo de outra forma que não mais a significação de morte que ficou atribuída nos anos 1980. É claro que isso não invalida o fato que ainda hoje as pessoas morrem de AIDS, mas temos a percepção de que podemos abordar o HIV de outra forma que não somente a morte. A gente pode falar das relações sorodiscordantes, a vida afetiva e amorosa, a memória das pessoas que morreram em decorrência do HIV e até da própria linguagem. A intenção de fazer o livro se deu também através da leitura das pessoas que pensaram a questão do HIV não só na questão social e política, mas também na literatura, como o Herbert Daniel, o Betinho e o Marcelo Secron Bessa, que foi um pesquisador que trabalhou na ABIA e que tem dois livros fundamentais sobre a questão do HIV na literatura, “Vidas Positivas” e “Os perigosos- Autobiografia & Aids”. Estas obras trazem a questão do HIV na prosa brasileira.

ABIA: Como surgiu a ideia da coletânea e como foi o processo de organizar essa antologia?


Ramon: A ideia do livro surge da inquietação de querer encontrar a literatura que trata do HIV e da AIDS. Comecei a procurar por isso e encontrei mais textos teóricos e pesquisas do que textos literários. Se você olhar na história da literatura brasileira, há um hiato neste tema. Entre os anos 1980 e os anos 1990 existe essa representação do HIV na literatura, com o Caio Fernando de Abreu, que é a maior referência na literatura sobre o HIV no Brasil, junto com o Silviano Santiago, Bernardo Carvalho, Herbert Daniel. Mas dos anos 1990 para cá tem um hiato e por que? Porque as pessoas não falam publicamente, não falam em casa e nem na literatura. A proposta do livro foi preencher esse hiato.
Notei que havia pouquíssimas pessoas falando sobre isso e então comecei a chamar os escritores: primeiro fiz um chamamento público, no meu Facebook e depois mapeei o assunto e comecei a pensar a questão da representatividade dentro da antologia, como por exemplo, incluir poetas negros, poetas mulheres, poetas trans. Reuni 96 poetas, de diferentes gêneros, diferentes gerações, escrevendo sobre o tema e não necessariamente o poeta sendo soropositivo. A pessoa não tem que estar soropositiva para abordar o HIV, porque de uma maneira direta ou indireta o tema está na vida dela, seja através de um amigo, ou nas relações afetivas, na família…A intenção foi essa também, tirar esse lugar que o HIV é uma coisa do outro. Independente da sorologia, o HIV é uma questão social, uma questão de todos.

ABIA: Sobre a literatura, alguns escritores e pesquisadores usam o termo “literatura pós coquetel” numa referência a medicação lá dos anos 1980, como você vê esse termo e a literatura do HIV de lá para cá? Acha que esta categoria delimita ou é uma afirmação fiel ao atual momento?

Ramon: Acho que todo termo acaba limitando né? Quando falamos “ ah fulano é um escritor gay, fulano é um escritor soropositivo” a gente está sempre delimitando algo. Mas neste caso acho valido porque existe essa lacuna muito grande, da escrita a partir do vírus HIV na literatura brasileira. Foi o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Alexandre Nunes de Souza, que cunhou esse termo para mostrar que a escrita da literatura que trata do HIV se modifica a partir da introdução da medicação antirretroviral.
No início, a medicação era insipiente e ainda não havia medicamentos que fizesse a pessoa se sentir saudável. O retrato do HIV na literatura antes da medicação era de morte, de medo, com a medicação passou a ser outro: a relação com os remédios, com o tempo, as relações sorodiscordantes, a memória… O Alexandre classificou isso e viu que com a introdução da medicação houve uma nova significação sobre o tema. De um lado sim, acaba limitando, mas também é importante, a gente enxergar essas pessoas, ver que elas existem e que estão produzindo.

ABIA: Você é poeta, jornalista e ativista dos direitos humanos. Como esses três elementos se interseccionam na sua carreira e obra?

Ramon: Eu comecei a minha vida na arte a partir do teatro e mudei para a poesia. Comecei a escrever livros e tenho publicado poemas desde 2009. Meu primeiro livro se chamou ‘“Vinis mofados”, em seguida escrevi “Poesias tiradas de notícias de jornal” e o logo depois “ Há um mar no fundo de cada sonho”. Paralelo a isso, fui escrevendo outras coisas e outros livros também: organizei a biografia da professora Heloísa Buarque de Hollanda, estou organizando agora um livro de memórias do Ney Matogrosso e fiz a organização desta coletânea de poemas sobre HIV e demais projetos literários ligados ao tema.
O Antônio Cândido tem uma frase que diz que a literatura é um direito humano e eu acho que as coisas se relacionam nesse sentido: o direito à literatura, à escrita e à leitura é um direito fundamental à humanidade e o poeta está ligado a esta questão da humanidade: enxergar o outro e se enxergar no outro. Me interessa a troca com o outro e de que forma essa relação me afeta. Estes três elementos (poeta, ativista e jornalista) se relacionam com os direitos humanos, saber que o outro é minha parte e que apesar, das diferenças, a gente luta por igualdade, igualdade de direitos! É dessa forma que eu devo articular essas atuações, é isso o que perpassa essas três coisas, essa vontade de lidar com o outro, de conhecer e respeitar as diferenças.

ABIA: Você já comentou um pouco sobre a importância da linguagem, em como ela pode definir ou redefinir a materialidade das relações sociais.  Como você acha que a Literatura, as artes e a cultura de maneira geral podem contribuir numa resposta positiva à epidemia do HIV/AIDS?


Ramon: Acho que nem toda arte precisa ser ativista, são coisas diferentes, mas acredito que podem trabalhar juntas. O ativismo está preocupado com a questão social, já a arte pode fazer isso também, mas não é uma obrigatoriedade porque a maior virtude da arte é a liberdade de falar sobre o que se quer. Quando há uma aliança entre essas duas coisas como na antologia “Tente entender o que tento dizer” entre a poesia e o HIV é para ressaltar a ausência deste tema dentro da arte. É para falar: ‘Olha essa questão é importante e as pessoas fingem que não existem” e fingem mesmo! Não existe um protagonista ou sequer um personagem na literatura que é HIV positivo, então é como se não existisse.
E se tema não está na literatura também não está no nosso dia-a-dia. Não falamos sobre o HIV com nossos amigos, com nossa família, no ambiente de trabalho…. Quando isso é abordado na arte, torna-se mais natural para as pessoas entenderem que podemos tratar desse tema sem tanto medo, tanto pudor, que não precisa falar baixinho, escondido: “aquela doença”. Para mim, a maior contribuição que a arte pode trazer é ressignificando o olhar sobre essa questão, dizendo ‘olha, podemos sim falar sobre HIV e AIDS’.

ABIA: Como você vê a epidemia do HIV e AIDS hoje em relação ao passado em relação ao acesso a informação, as políticas públicas e o atual cenário conservador que movimento AIDS enfrenta?

Ramon: Acho que é um momento muito complicado para os movimentos sociais principalmente após a saída da Dilma e entrada do Temer. Temos visto um retrocesso nas políticas públicas principalmente no SUS e nos programas de HIV e AIDS. A gente vê hoje absurdamente os planos de saúde mandando nas relações políticas e isso não é só lamentável como é muito perigoso. Precisamos sempre ficar atentos e alertar da importância do SUS e das políticas públicas de saúde.

É preciso também lembrar da atuação de instituições como a ABIA, a GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS), o Grupo pela Vidda no pensamento e na ação das politicas públicas de HIV e AIDS no Brasil. Eu vejo esse momento como delicado, mas acho que nas crises, a gente cresce também! É quando nos unimos para falar, lutar, resistir e dizer nós existimos e não aceitamos essas políticas.

Nesse sentido, é muito importante lembrar quem veio antes da gente. Herbert Daniel já falava que a grande vacina da AIDS é o combate ao preconceito e Betinho sempre disse que a AIDS é uma questão política. Daí lembrar, falar, inquietar as pessoas para a causa e também dar voz as populações mais afetadas. É um absurdo o genocídio que a população negra sofre pelo HIV e AIDS. Sabemos que falta saúde, falta acesso à educação, que a violência é constante nas comunidades que essas pessoas vivem. Mas se olharmos os indicies de mortalidade por HIV/AIDS veremos que são maiores na população negra e isso é quase uma política pública governamental para exterminar essas pessoas. Então é necessário também dar voz as pessoas que militam, que estão à frente e que pensam as políticas públicas de HIV direcionadas as populações mais vulneráveis. Espero que esse livro possa ser uma ponte de diálogo com qualquer pessoa, independente da sorologia. Será lindo ver ele circulando por aí!

Reportagem: Maria Lúcia Meira, estagiária sob a supervisão de Angélica Basthi

Edição: Angélica Basthi

Por André Duchiade, Jornal do Brasil 

 

Como a literatura ajuda a entender o impacto de quem se descobre soropositivo? Os significados de se relacionar com pessoas que vivem com o vírus podem ser traduzidos em versos? A abordagem do tema do HIV/Aids nas artes é uma estratégia política? Pode a poesia se contrapor à infecção? Como? É possível uma literatura do HIV/Aids? 

A coletânea de poesias “Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv/aids”, que a Bazar do Tempo publicou em maio, suscita questões como essas. O livro traz 96 poemas que abordam o tema direta ou indiretamente, sob organização do poeta e jornalista Ramon Nunes Mello. 

Além de fazer uma antologia da produção brasileira em verso sobre o tema, a obra também apresenta criações inéditas, feitas a convite do organizador por autores de diferentes gerações, gêneros, raças e sorologias. Dentre os poetas mais conhecidos da obra estão Angélica Freitas, Antônio Carlos Secchin, Chacal, Silviano Santiago, Victor Heringer e Viviane Mosé.

A motivação da obra remete a 2012, quando Ramon, aos 28 anos, recebeu o diagnóstico: reagente, HIV positivo. Sua primeira reação, ele diz, foi de desespero: iria morrer? Não mais namoraria nem faria sexo? Como seria a vida dali para frente? “Tive de enfrentar meus medos e rever a forma de enxergar o mundo. Não foi fácil. Procurei amigos, familiares e conhecidos para me entender perante a vida”, conta. 

Em 2015, o poeta discutiu publicamente o assunto, no texto “O sentido de urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV”, publicado na “Carta Capital”. O artigo contava como, vencido o pavor inicial, a infecção o levou a mudanças na relação com corpo, mente e espiritualidade, por meio, por exemplo, da prática do ioga, da meditação e do uso da ayahuasca. 

Falava ainda sobre como o HIV não mais significava uma sentença de morte desde o coquetel antirretroviral. E justificava a razão do próprio texto: "É preciso acabar com o tabu, romper com a representação de que o HIV é igual à morte (...) compartilho publicamente o meu diagnóstico porque hoje tenho consciência de que a visibilidade pode modificar minha realidade e colaborar com aqueles que passam pela mesma experiência". 

A antologia é mais um encadeamento dessa mesma cadeia. O poeta afirma que, ao pegar o diagnóstico, buscou referências na literatura. Embora encontrasse textos mais antigos – incluindo cartas públicas de Caio Fernando Abreu, de onde veio o título do livro –, não achava produção substancial na poesia brasileira contemporânea. Isso o levou a postar no Facebook, convocando conhecidos a escrever. Mais convites se seguiram. Não houve seleção por fatores como sorologia porque, segundo Ramon a epidemia “diz respeito a todos. Todos estão sujeitos a conviver com ela, direta ou indiretamente”. 

A intenção principal da obra, diz Ramon, não é política, mas estética. O poeta diz não desejar apresentar “reivindicações”, mas testar como o tema pode ser tratado na poesia. “Se a arte poética tem uma contribuição que a diferencia de outras formas de expressão, esta é mostrar dimensões subjetivas e diversas do tema. Isso permite expandir as maneiras como falamos sobre o HIV, indo além dos dados médicos e estatísticos e transformando os seus significados”, diz.

Uma das ideias a orientar a coletânea é a de que “o verdadeiro vírus é a linguagem”. A noção foi formulada pelo escritor norte-americano William S. Burroughs, que desenvolve a premissa de que a humanidade está infectada pela linguagem, um meio ao mesmo tempo de comunicação e de controle. Ramon afirma que “se a linguagem é um vírus, conseguimos afetar o outro conversando sobre a questão ou escrevendo”. Esta convicção, ele diz, o levou a grafar “hiv” e “aids”, em minúsculas, no livro. “Não quero dar protagonismo ao vírus, nem ao medo. A vida é muito mais importante”.

Linguagem, memória, corpo 

O livro divide-se em três partes: linguagem, memória e corpo. Na primeira, diz o organizador, estão os poemas mais subjetivos, que mais se aventuram na investigação de até onde um discurso poético consegue ir ao falar sobre HIV/Aids. 

Na segunda, a lembrança da geração que passou pelo período entre o início da epidemia, em 1982, e a introdução da terapia antirretroviral, em 1996, se faz fortemente presente. Na época, a expectativa de vida de quem era diagnosticado soropositivo era de um ano. O tema da memória, observa Ramon, aparece “principalmente entre os poetas mais velhos, que perderam muitas pessoas”. 

Na parte sobre o corpo, alguns poemas se referem à vida permeada por remédios. Nas palavras de Ramon, a vida de quem é soropositivo “tem uma relação com os remédios e com o tempo controlado pela medicação. Há também efeitos colaterais até o fim da vida”. O tema da sexualidade também aparece muito. “Como se trata de um vírus que enfraquece a imunidade das pessoas, que ataca diretamente o corpo, essa questão é muito latente”, diz Ramon. 

Para o poeta, esta relação com a sexualidade é uma das explicações sobre por que o HIV/Aids ainda é tabu e continua a se propagar. Segundo as Nações Unidas, 830 mil pessoas no Brasil têm a sorologia positiva; dessas, 112 mil não o sabem. “As infecções ainda ocorrem devido ao desmonte das políticas de HIV e ao avanço do conservadorismo. Nós, enquanto sociedade, não levamos a informação às pessoas. Antes de meu diagnóstico, o tema não era conversado entre meus amigos ou pares. Quando você vai transar com alguém, ninguém pergunta se você fez o teste”, diz Ramon. 

Em debate na Livraria Leonardo da Vinci sobre o livro na semana passada, o escritor e ensaísta Silviano Santiago afirmou que os poemas do livro abordam “sempre o amor e a morte”. Ele ressaltou que o que o “fascina na Aids é que somos todos iminentes. Estamos todos programados para amar e para a morte”. O professor de Comunicação da UFRJ Denilson Lopes, por sua vez, afirmou que o livro constrói uma história do HIV distante dos grandes fatos. Para Denilson, há na obra uma história feita a partir do corpo, “que tem e carrega marcas do passado”. 

Ramon destaca que “a questão do HIV é muito complexa e diversa. Tentamos trazer uma diversidade de vozes. Em momento algum o livro pretende esgotar o assunto.  Em meio ao trabalho da poesia, há preconceito, estigma e morte, sobretudo de populações mais vulneráveis. Quero fazer uma radiografia de como gerações de poetas antigos e novos enxergam a questão. Isso não significa que ela esteja resolvida”.

http://m.jb.com.br/cultura/noticias/2018/06/03/poesias-positivas-antologia-tente-entender-o-que-tento-dizer-reune-poetas-para-abordar-hiv/

Por Marcelo Reis de Mello

Sobre o livro Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv / aids, organizado por Ramon Nunes Mello (Bazar do Tempo, 2018), e apresentado no evento Poesia e HIV, organizado pelo professor Leonardo Davino no Instituto de Letras da UERJ.

Começo falando não como um portador do vírus hiv, mas como um portador do vírus da linguagem. Nasci em 1984 e, portanto, não apenas sob a bandeira das Diretas Já! e da “anistia” (depois de 20 anos de treva) mas também sob o signo da epidemia e do medo, daquele terror incutido em nós, ainda crianças, durante as aulas de educação sexual (na minha escola tínhamos essas aulas, não sei ao certo se é algo datado). E mesmo assim, mesmo com o medo de morrer de aids (como alguns dos nossos ídolos pop, herdados da geração anterior), mesmo assim adolescentes continuaram sendo adolescentes, e se por um lado aprendemos que trepar era algo a se fazer depois de passar na farmácia, por outro lado não queríamos perder as oportunidades que batiam à porta. Às vezes a coisa se dá com pressa, vocês sabem, não dá pra esperar, e não queríamos pensar muito na Tia Margarete das aulas de sexologia antes de uma trepada. Se eu não peguei o vírus do hiv, foi mais por sorte do que por juízo. Porque peguei clamídia, por exemplo, como alguns amigos tiveram gonorreia, cancro, outras doenças com nomes horríveis. Sendo assim, não me tornei (como eu disse) um portador do vírus hiv. Mas me tornei poeta, como o Ramon, a Bruna, o Thiago e o Italo.

Então aproveito esta abertura deixada pelo Ramon, quando cita esta frase lapidar do escritor norte-americano William Burroughs: A LINGUAGEM É UM VÍRUS.
Isso pode ser lido de muitas maneiras. Podemos sempre falar de vírus a partir de muitas perspectivas. Em The Electronic Revolution, um ensaio de 1971, Burroughs atribui a origem da espécie humana a uma mutação provocada pelo vírus da palavra nas gargantas das espécies primatas, resultando em um corpo que poderia hospedá-lo adequadamente. O vírus é ali uma espécie de agente infiltrado, um agente biopolítico ativado com fins de controle, cujo poder destrutivo não consiste tanto em sua letalidade, mas na sua camuflagem, sua habilidade em passar batido.

O filósofo Gilles Deleuze, por sua vez, escreve em Mil Platôs que o comportamento rizomático, ou ainda, que a forma de atuação de um Rizoma identifica-se com a forma de agir de um vírus. Diz ele: “Em certas condições, um vírus pode conectar-se a células germinais e transmitir-se como gene celular de uma espécie complexa; além disso, ele poderia fugir, passar em células de uma outra espécie, não sem carregar ‘informações genéticas’ vindas do primeiro anfitrião.” E completa: “Nós fazemos rizoma com nossos vírus, ou antes, nossos vírus nos fazem fazer rizoma com outros animais”.

Estas duas posições diferentes servem bem para ilustrar a complexidade do problema relacionado ao vírus. Da parte de William Burroughs, o vírus é centralizador e a sua natureza é imutável. Haveria apenas um código e uma decodificação possíveis. Ao contrário, no caso de Deleuze a linguagem pode vir a ser como um vírus justamente por agir contra um sistema central, pela sua capacidade de “sobrecodificação”, pelo seu comportamento errático, imprevisível em suas mutações. Não por acaso, neste mesmo livro Deleuze vai dizer que, nas tentativas americanas de criar um lugar para a América – uma “identidade nacional” – o que aconteceu e acontece de importante procede através do “rizoma americano: beatnik, underground, subterrâneo, bandos e gangues (...)”. Ou seja: Burroughs é também ele o rizoma americano. Não é que o vírus seja necessariamente o vírus de Burroughs. Não. O próprio Burroughs pode ser – ou melhor – o próprio Burroughs pode vir a ser um vírus.

Como contraponto, e trazendo essa conversa para o presente imediato, podemos pensar que a ignorância americana também opera de modo virótico. Talvez isso justifique o triunfo eleitoral da América de Donald Trump. Quanto maior a crise econômica, maior o potencial ofensivo do vírus. A mesma coisa no Brasil do pato amarelo. Aliás, a proliferação de uma plataforma fascista no Brasil é algo assustador. Um ebola antidemocrático. Tudo isso parece indicar que a ignorância histórica e política, que a falta de memória e que a própria falta de humanidade podem se manifestar também como uma espécie de epidemia social. Não há dúvidas de que este vírus da estupidez trabalha por dentro dos discursos, que ele penetra silenciosamente as palavras, como os vírus da biopolítica de Burroughs.

Mas o vírus de que fala o Ramon, ao organizar este livro de poesia e hiv, é outro. Não é o vírus que penetra os corpos como uma espécie de tatu ou de toupeira, cavando buracos – não é o vírus coveiro do fascismo. Diante deste livro – Tente entender o que tento dizer – podemos pensar num vírus que trabalha abrindo não covas, e sim linhas de errância, pontos de fuga, passagens na direção de um outro corpo, dos outros corpos. Se a linguagem deste livro é uma linguagem viral, o é na medida em que se torna capaz de infectar o organismo social sem impor uma autoridade; e sem prescrição, sem bula. Porque poesia não é medicina. Não cura. Poesia é aquilo que neste livro se expõe, sai do armário, a positividade de propor uma vocação (Vocatio > Vox) “menor” diante do poder central sobre a doença. Sem abandonar a linguagem médica, manipula, corta e rearranja nossas fitas de DNA e RNA (como na técnica de CUT UP, de William Burroughs).

Neste livro tive um último encontro com o meu amigo Victor Heringer, que deixou este mundo. O seu poema é cifrado e indecifrável, como a própria morte, um poema que tende ao silêncio e que no entanto diz. Ele se chama ANGÚSTIA e está na página 79. Um grande A negro deitado de bruços, em posição fetal. É triste pensar nisso tudo, mas existe ali uma vitalidade que não podemos vender, sem preço de capa, e que escapa ao discurso político, ou ao controle dos sonhos que pertence às estratégias do neuromarketing. Este A é o próprio vírus invertido. O começo do alfabeto, começo das possibilidades – e começo da Angústia. Viver é pesado. Pode ser um pesadelo, às vezes, como buscar o resultado de uma sorologia num laboratório de paredes brancas e cheiro de remédio. Mas não é ali que está a linguagem, não é esse o nosso vírus. É aqui.

. . . . . 

 

¹ Os demais poetas convidados para compor a mesa, no evento Poesia e HIV, realizado na UERJ em 20 de Setembro de 2018: Ramon Nunes Mello, Bruna Mitrano, Thiago Ponce de Moraes e Italo Moriconi.

Visceral, o relato de um dos principais nomes da MPB cativa o leitor

Por Lúcio Flávio, Estadão

 

Em 1961, aos 19 anos, o jovem Ney Matogrosso desembarcava em Brasília vindo do Rio de Janeiro, numa rota de “fuga” que começou a traçar quando se alistou em seu estado natal, Mato Grosso. As brigas em casa com o pai, um militar conservador e autoritário, eram intensas e, asfixiado pelo clima de terror e repreensão, resolveu partir vestido de farda. Com o gesto corajoso e desafiador, ele quis quebrar os grilhões de uma vida de opressão e tristeza.

“A Aeronáutica foi (…) uma carta de alforria, pois não aguentava mais ficar com a minha família, num ambiente em que, aos 17 anos, ainda era obrigado a aceitar a imposição de castigos”, lamenta uma das vozes mais marcantes da nossa música no livro de memórias Um Vira-Lata de Raça, lançado pela Editora Tordesilhas.

Hoje, aos 77, o artista conta que os cinco anos vividos na então recém-construída capital foram de descobertas e liberdade plena. “Sem dúvida, essa cidade tem um lugar especial em minha vida”, admite. “Nessa época, eu me descobri como ser humano, passei a ter consciência da minha sexualidade, escolher com quem gostaria de dividi-la, sem a culpa cristã”, revela o cantor.

Em Brasília, onde trabalhou até 1966 no Hospital de Base, apresentou-se pela primeira vez como cantor, num festival de música realizado na Universidade de Brasília (UnB), descobrindo, graças ao mestre Livino de Alcântara, que sua voz aguda não era um defeito, como ele achava, mas uma dádiva. Também foi aqui sua primeira transa, com um homem de 40 anos, filho de uma família quatrocentona paulista.

“Definitivamente eu não queria que minha primeira experiência sexual com um homem fosse com qualquer jovenzinho, então resolvi esperar o homem que considerava ideal. (…) Nos apaixonamos e namoramos por um ano”, conta.
Visceral e sem rodeios, a obra – cujo título é baseado numa canção de Rita Lee e do filho Beto, gravada pelo cantor –, passa a limpo a trajetória de uma vida inteira com tom de reflexão, contextualizando o passado e lançando provocações para o futuro. Sem papas na língua, medo ou pudor de esconder tudo sobre sua vida, Ney se escancara numa versão sem filtro de si mesmo. Trata-se de uma catarse do “eu” sem vaidade ou egocentrismo.

“Desde o início da minha trajetória, jornalistas e críticos me retratam como um ser híbrido. (…) Nas primeiras críticas que recebi do meu trabalho, pontuavam que eu reunia os opostos: a fúria de um felino e a leveza de um pássaro. Gosto dessa ideia de reunir os opostos, confundir as classificações e diluir os rótulos”, provoca.

História oral?O livro, cheio de fotos incríveis, começou a ganhar contornos em 2011, quando o poeta Ramon Nunes Mello, interlocutor e organizador da obra, esbarrou com o ídolo numa exposição no Rio de Janeiro sobre os Secos & Molhados, a mítica banda que catapultou a carreira do artista nos anos 1970. Após passar anos alimentando uma pesquisa silenciosa, ele tomou coragem de apresentar a ideia a Ney Matogrosso.

“Detenho-me aqui o papel de organizador das palavras de Ney e não de autor, um interlocutor em busca de um diálogo sobre o agora”, esclarece Ramon Nunes na apresentação da obra.

A princípio, a ideia era contar a história de Ney por meio de reprodução de matérias publicadas ao longo de sua carreira, além das críticas dos discos e dos shows, que surgem como adendo no final do livro, com textos primorosos de gente do naipe de Tárik de Souza, Nelson Motta e por aí vai. Mas a necessidade de um envolvimento mais incisivo, passional e pessoal do artista resultou numa bateria de depoimentos na linha “história oral”.

O produto final é revelador. Ney expurga fantasmas, traumas, liberdades conquistadas e questões polêmicas. A lucidez com que fala sobre política e um Brasil injusto e imoral contagia. “Hoje, não tenho mais ilusão quanto à política como veículo transformador da sociedade”, sentencia.

As primeiras lembranças impregnadas de aventuras sensoriais, as origens pantaneiras, a descoberta da sexualidade e os conflitos pessoais e familiares em torno dessa idiossincrasia, o sucesso apoteótico à frente dos Secos & Molhados, as grandes paixões – entre elas com Cazuza, que durou três fulminantes meses –, o lado transgressor fora e cima dos palcos, com ou sem máscaras, o medo da Aids, a relação com as drogas, Deus, a chegada da velhice.

Numa sociedade dominada cada vez mais pela falsidade e dissimulação, a sinceridade de Ney é um bálsamo. Mais do que isso, é uma inspiração motivadora. A impressão ao ler Vira-Lata de Raça é: cada palavra proferida pelo artista num depoimento de fôlego e entrega não é vão…

https://www.metropoles.com/entretenimento/literatura/vira-lata-de-raca-ney-matogrosso-fala-sobre-sexo-e-musica-em-livro

 

Por Agnaldo Medici Severino

 

O admirável Ney Matogrosso conta sua história em um dos livros mais bacanas que li este ano. "Vira-lata de raça" é um livro de memórias, um conjunto de depoimentos, organizado por Ramon Nunes Mello, um jovem poeta e jornalista carioca. São nove capítulos. Nos quatro primeiros os depoimentos seguem numa ordem cronológica: (i) infância e juventude, em que acompanhava a família em constantes mudanças (ele nasceu em 1941 no Mato Grosso e seu pai era militar); (ii) os anos 1960, em que já emancipado viveu no Rio de Janeiro e em Brasília; (iii) os anos rápidos do sucesso com o grupo Secos e Molhados, no início dos anos 1970; e (iv), por último, os anos imediatamente posteriores a seu afastamento do grupo e o início de sua carreira solo. Os cinco capítulos restantes são aproximadamente temáticos: (v) um dedicado a seu relacionamento com Cazuza; (vi) um sobre a sexualidade, a AIDS, a perda de amigos; (vii)  um sobre autoconhecimento, religião, espiritualidade; (viii) um sobre política e seu apoio específico a causas sociais; e o último, (ix), sobre o tempo, a vida e a liberdade (valor que ele mais preza). Claro, há superposição de assuntos, informações, episódios de sua vida, mas o formato adotado pelo organizador na produção do livro realmente torna a leitura muito agradável e emocionante. O tom é confessional, mas o sujeito que fala o faz com segurança, posiciona-se, sabe ser bem humorado e debochado. O livro é muito bem editado, incluindo muitos mimos: dezenas ilustrações, várias delas coloridas; seis boas matérias publicadas originalmente em jornais em períodos marcantes de sua carreira, assinadas por sujeitos que conhecem muito bem sua vida e sua obra (Tárik de Souza, Nelson Motta, Vinícius Rangel Souza, Caio Fernando Abreu, Luiz Rosemberg Filho, Mauro Ferreira); uma detalhada discografia e uma generosa bibliografia. Os capítulos oferecem ao leitor várias epígrafes e aforismos retirados das canções mais conhecidas dele. Impressionante a clareza e a segurança com que ele fala de qualquer assunto, nada parece constrangê-lo, nenhum fragmento de memória soa artificial, falso, seja quando ele fala da vida pessoal, de questões sociais brasileiras, de dinheiro, drogas, sexo, amor, religião ou morte. Trata-se mesmo de um artista notável, de um brasileiro digno e talentoso, que merece o perene reconhecimento e o sucesso que alcançou nestes seus quase 80 anos. Vale!

Por Eduardo Jardim

Em 2012, em uma reação ao choque de se saber soropositivo, o poeta Ramon Nunes Mello iniciou um levantamento amplo da produção poética brasileira das últimas décadas sobre o HIV e a soropositividade. Vale lembrar que a carta em que Ramon declarou publicamente que é soropositivo poderia ser um destaque desse repertório, se ele assim consentisse, pois tem uma maneira muito própria de tratar do assunto e é de grande valor literário. O resultado dessa empreitada está registrado nesse livro, vibrando com uma energia que explode em muitas direções. Primeiro, do ponto de vista cronológico, o livro acolhe desde poemas dos anos oitenta, quando a soropositividade significava em geral uma condenação à morte, até os dias de hoje, da era pós-coquetel. Em segundo lugar, o livro não faz nenhuma discriminação de gênero ou de orientação sexual dos seus autores – homens, mulheres, trans, gays, héteros atenderam ao mesmo chamado da poesia. Por fim, há também uma explosão de reações e de sentimentos: não seria mesmo possível igualar o tom combativo presente em muitos poemas atuais e o ânimo abatido de 30 anos atrás.

Minha lembrança mais antiga é de uma mesa de bar, em 1983, quando recebemos a notícia da chegada avassaladora do “câncer gay”. Não havia poesia naquela ocasião. Líamos, assustados, os laudos dos exames de laboratório, o noticiário ameaçador e os anúncios de morte. Quantas? Não sei mais - um ex-namorado, amigos, paqueras, famosos e desconhecidos. Depois, uma nesga de esperança, já no final dos anos oitenta - a descoberta do vírus e o AZT. Mais tarde, apareceria o coquetel, a triterapia, provocando um grande desafogo.

A epidemia da Aids, além de, sobretudo no início, trazer a morte e as doenças, imprimiu a marca da precariedade em nossas mentes e corações. Até então, os de minha geração e de meu grupo, alguns com seus projetos revolucionários, outros com muita droga, ignorávamos que o tempo existia. Com a Aids, o sentido de um término se impunha, e, com isso, chegamos a perceber que estamos inexoravelmente imersos na grande passagem.

Não à toa, o principal assunto dos poemas que Ramon nos apresenta é o tempo – o da antecipação do fim, o ritmo da tomada dos remédios, a expectativa com a chegada de novas drogas, o tempo de formas de amor muitas vezes impacientes.

E não seria o tempo o elemento em que se move propriamente a poesia? Ao escrever ou ler poemas sentimos como que uma suspensão da monotonia dos “agoras” que se sucedem; por causa disso, não somos exilados do tempo, mas temos acesso a uma dimensão sua mais essencial.

É preciso saudar o lançamento de Tente entender o que tento dizer. Além de suas qualidades intrínsecas, ele é como o primeiro passo de novos caminhos a serem explorados pelos poetas e seus leitores – os únicos que poderão apontar para uma reconciliação com a época difícil que vivemos.

Por Antônio Cabral Filho

Num tempo em que ninguém ousava bater na cara do monstro, foi ele, só esqueleto quase nada, Caio Fernando Abreu, que mesmo sem a coragem dos gladiadores, tomou conta da cena e mostrou o caminho. 

Hoje, décadas passadas, o assunto não é mais tabu para ninguém, mas muitos nomes ilustres das letras, da música, do cinema e das artes em geral, contribuíram para essa desmistificação, buscando vencer os piores inimigos da pessoa portadora: a ignorância, o preconceito, além da homofobia.

É muito oportuna esta capa da Revista Literária Inéditos, do meado dos anos 80, na qual ele aborda temas polêmicos na entrevista - tais como a homossexualidade e a AIDS - e diz "Eu sou o Ney Matogrosso da literatura brasileira", pois este era uma das mais fortes vozes dissonante no ambiente da ditadura militar com a censura às artes. Daí que fazia-se necessário ombrear-se com Ney Matogrosso contra  a mesmice imposta pelo generalato. Foi um tempo em que se buscava, ávidamente, qualquer jornal ou revista onde estive algo dele - poemas, crônicas, contos - porque sabia-se tratar de algo oxigenador, contra  aquela atmosfera sufocante.

Por isso e tudo mais é oportuníssimo o lançamento do livro "Tente Entender o Que Tento Dizer". Ele vem coroar estas últimas três décadas de lutas sociais e populares em favor dos direitos e da cidadania da pessoa portadora de hiv-aids.

Seu organizador, Ramon Nunes Mello, foi não apenas feliz na iniciativa, mas necessário, por vislumbrar não apenas a reunião de um calhamaço de poemas, mas muito mais: ergueu uma bandeira para uma legião de caminhantes. A partir de agora, a música, o teatro, as artes plásticas, o cinema e a  literatura em geral, sobretudo a de Caio Fernando Abreu, ganham mais um componente nessa messe estética sobre tema tão candente.

Poderia seguir falando sobre poesia, hiv aids, livros sobre etc, mas creio que uns poemas farão muito melhor e muito bem aos amigos.?

SORODISCORDANTE

Para Bruno Cattoni

 

Discordância de sorologias,
encontro de afetos.
Nossas histórias, projetos

- conjuntos, unos.

Que nem tudo é luto,
nem tudo é luta,
nem todo desfraldar é de bandeiras.
Nem toda discordância é ausência.

Apologia do amor positivo.

Construção do dia a dia,
sólido.
Pequenas intimidades
povoam a casa.
O amor, positivamente,
une, congraça.

Este poema está na antologia Tente Entender o que Tento Dizer
http://dedodemoca.blogspot.com/2018/05/sorodiscordante.html 

&

VIRUS/VERSO

Eles não sabem que eu carrego o virus
como um sorriso ou um revólver.
Eles não sabem que esse sorriso me carrega.
Eles não sabem que isso
foi a melhor coisa que me aconteceu.
Quando a vida termina, ela enfim ode começar.
Eles não sabem que estão mortos, mas eu
estou vivo.
A vida se pega por contágio,
mas é um tipo muito raro de virus.

Renato Rezende
http://www.renato-rezende.com/poesia/antologias.html 

fonte:

https://letrastaquarenses.blogspot.com/

Por Zema Ribeiro, São Luís do Maranhão

Vi ontem, pela manhã e à noite, as duas mesas de que Ramon Nunes Mello participou na Feira do Livro de São Luís. E se não disse o poeta Ramon Nunes Mello é simplesmente por que epítetos não lhe comportam: além de poeta, dos bons, é jornalista, ator, militante de direitos humanos. E está soropositivo, para usar sua própria expressão.

Impressiona-me a força de Ramon, cuja poesia, e sua força, conheci há quase 10 anos quando lançou seu primeiro livro, Vinis mofados [Língua Geral, 2009] – depois ele publicaria Poemas tirados de notícias de jornal[Móbile, 2012] e Há um mar no fundo de cada sonho [Verso Brasil, 2016]. A consistência de sua poesia e de seu refletir sobre poesia, imaginação e crítica caminhando lado a lado – “linguagem é um vírus”, no dizer de William S. Burroughs com que o próprio autor dialoga, ele cuja dissertação de mestrado versou sobre a obra poética de Adalgisa Néri (de cuja obra é curador, bem como do poeta Rodrigo de Souza Leão). Para quem quiser mais credenciais, foi ele quem organizou, com o cantor, Vira-lata de raça[Tordesilhas, 2018], a recém-lançada autobiografia de Ney Matogrosso.

Ramon descobriu estar com o vírus HIV às vésperas de uma viagem, em 2012, para Londres, onde passaria um mês em uma residência literária. Encarou a travessia do oceano deixando para depois pensar no que fazer com a notícia. Ao voltar e conversar com amigos próximos e familiares, resolveu ser um dos poucos entre os 800 mil brasileiros soropositivos a falar abertamente sobre o tema (no mundo são 37 milhões de pessoas infectadas).

“Tente entender o que tento dizer” era o tema da/s mesa/ (mediada/s pelo poeta Celso Borges) – pela manhã, o Café Literário estava repleto de estudantes aparentemente do ensino médio, que não lhe pouparam de perguntas, digamos, extraliterárias; à noite, no Auditório Graça Aranha, o principal da 12ª. FeliS, o público ligeiramente maior foi mais tímido.


O tema da mesa é o título do livro, organizado por ele, lançado este ano pela editora Bazar do Tempo – a mesma que publicou Tudo em volta está deserto, de Eduardo Jardim, outro autor que per/segui na Feira (em uma fala que, como sua obra, busca recolocar o maranhense Graça Aranha, patrono desta FeliS, no seu devido lugar no Modernismo brasileiro) e antes (no lançamento do citado livro em uma agradável noite de afetos no Chico Discos).

Ramon reuniu 96 poetas que escreveram sobre “poesia + HIV/Aids”, como indica o subtítulo do livro que tem desde poetas muito jovens, ainda sem livro lançado, até nomes consagrados como Antonio Carlos Secchin, Chacal, Silviano Santiago e Viviane Mosé, entre muitos outros, além do próprio organizador – somente três dos autores são soropositivos e o fato de sua opção não fazer este recorte leva em conta a necessidade de todos lidarmos com o assunto, escritores ou leitores.

O livro é dividido em três partes, linguagem, memória e corpo, e há uma impressionante diversidade de representações: homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais e transexuais, jovens e velhos, brancos, negros e indígenas, soropositivos e soronegativos.

Ao fazer a opção de falar abertamente sobre o tema, o próprio Ramon personifica a desmistificação de um destino trágico, cruel e rápido, cretinamente ilustrado pela capa da revista Veja do início da década de 1990, com a agonia de Cazuza – um dos vários nomes a quem o livro é dedicado, todos vítimas do vírus, quando este ainda era uma incógnita e os remédios eram, além de inacessíveis, em geral agressivos.

A poesia selecionada por Ramon em Tente entender o que tento dizer não é panfletária, tampouco ele se torna um poeta ativista – embora as duas coisas, como dito, convivam nele. Apesar de vida e obra se confundirem, uma coisa é uma coisa.

O título do livro foi retirado de uma carta do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicada no jornal O Estado de S. Paulo – outro nome a quem o livro é dedicado, foi uma das primeiras personalidades brasileiras a falar abertamente sobre o assunto, ainda na década de 1990, que também levou Renato Russo (outro a quem o livro é dedicado), ambos também vítimas de complicações decorrentes do vírus HIV.

A bonita capa do livro traz o título sobre uma obra do artista plástico Leonilson (mais um!), cuja reprodução da obra original aparece na orelha, conforme autorização e exigência da família. Não li o livro (ainda), conheci alguns poemas ditos por Ramon e Celso, e o esforço deste texto é tentar reter algo da participação iluminada de seu organizador na FeliS.

Digo iluminada aqui, não no sentido de ungi-lo – nem eu tenho este poder, nem é seu desejo. Digo iluminada em oposição a trevosa, como muitos ainda querem o tema HIV/Aids – inclusive com declarações desastrosas do presidente eleito, que sinalizou ameaças ao tratamento de soropositivos no Brasil, pensamento tacanho de alguém cuja cabeça ainda vive no mundo da época da epidemia. Ou antes.

Os recursos obtidos com a venda do livro, com a cessão dos direitos autorais por parte dos autores, são revertidos em favor da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), fundada por Betinho, o sociólogo Herbert de Souza – que também fundou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida –, e Herbert Daniel, outros dois nomes a quem o livro é dedicado.

Ao longo de sua/s fala/s, Ramon discorreu também sobre os bastidores da feitura do livro, da ideia, do recrutamento dos autores, do interesse da editora – a maioria das etapas resolvida através de contatos por redes sociais, demonstrando o poder desta ferramenta também para o bem (perdoem aqui o inevitável maniqueísmo).

Ramon não fugiu de nenhuma pergunta, entre literatura, política, HIV/Aids ou mesmo sua vida pessoal. Não é oportunista, no entanto: não faz de sua condição um caça-níqueis. Mas como bom “antena da raça”, pauta o debate sobre o tema, acreditando, com razão, que o melhor remédio para o preconceito e a ignorância são o amor, o diálogo e a solidariedade.

Convivendo com o HIV, Ramon colocou-o em seu devido lugar: o vírus não é protagonista, não é seu próprio corpo, é apenas um inquilino. Sua lição, poética, é aprender a dar valor ao que merece. Antes do HIV, Ramon já havia sido infectado pelo vírus da poesia, da literatura, das artes, da linguagem, este, para sorte sua e nossa, o vírus protagonista de sua história.

https://zemaribeiro.com.br/2018/11/20/o-virus-linguagem-e-a-imensidao-de-ramon-nunes-mello/

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