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MAURÍCIO MEIRELES | COLUNISTA DA FOLHA
GUSTAVO FIORATTI | COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Autores para quem as doenças –do corpo ou da mente– são parte de seus escritos estarão neste ano na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 29 de junho a 3 de julho, na cidade fluminense.


A escritora paulista Tati Bernardi, 36, colunista da Folha, e o poeta fluminense Ramon Nunes Mello, 32, estão entre os confirmados na 14ª edição do evento literário.


Tati acaba de lançar "Depois a Louca Sou Eu" (Companhia das Letras), no qual relata suas fobias –e, em maior grau, suas crises de pânico. A autora também conta sua relação com os remédios para controlar a ansiedade.


"Fiquei ansiosa quando me convidaram, claro, mas decidi que só vou enlouquecer com isso quando chegar mais perto", ri Tati.


Depois de lançado, o livro chegou a ficar duas semanas na lista de mais vendidos da Folha –primeiro em sexto e depois em sétimo lugar.


"Estou feliz com a carreira do livro até aqui, as críticas têm sido boas. O que eu falo é engraçado, mas é literatura", afirma a escritora, cujo livro, para além dos ansiolíticos, apresenta a própria literatura como salvação.


Nunes Mello, poeta conhecido da cena literária carioca, divulga na Flip "Há um Mar no Fundo de Cada Sonho", livro de estreia do selo de poesia Aniki Bobó, da editora Verso Brasil.


O livro, que será lançado no dia 11, às 19h, na Livraria Blooks do Shopping Frei Caneca, marca a volta do autor à poesia após quatro anos.


PERFORMANCE


"Não tinha coragem de publicar, pois a questão de ter contraído o HIV não estava muito bem resolvida na minha vida", diz o poeta, que sabe ser portador do vírus desde 2012.


O escritor conta que se sentiria "um impostor" caso escrevesse um livro omitindo sua história com a doença.


Ele decidiu publicar depois de escrever no blog do deputado Jean Willys na revista "Carta Capital", em dezembro do ano passado, para falar publicamente do HIV.


Tati não sabe ainda de qual debate vai participar.


Já Ramon será parte de uma mesa sobre poesia e sua relação com a performance. Nunes Mello não nega um viés místico. Em um poema, a frase "semelhantes curam" é repetida como um mantra.


"Depois do HIV, passei a ter uma relação mais espiritual com a vida, e isso se reflete na forma como escrevo", que depois de saber que contraiu o vírus passou a tomar o ayahuasca e a se interessar pela cultura indígena.


Além dos dois, a Flip já confirmou a presença da bielorrussa Svetlana Alexievich, Nobel de Literatura de 2015, que lança este mês "Vozes de Chernobil" (Companhia das Letras).


Além dela, está confirmado também o americano Benjamin Moser, que lança "Auto-Imperialismo" (Planeta), com três ensaios sobre o Brasil, e o volume "Todos os Contos", com as histórias curtas de Clarice Lispector, edição que foi sucesso no exterior, mas ainda não existia no Brasil.


O jornalista Caco Barcellos, que lança esta semana "Profissão Repórter, 10 anos - Grandes Aventuras, Grandes Coberturas" (Planeta), também tem presença confirmada.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/04/1757721-flip-2016-anuncia-tati-bernardi-e-ramon-nunes-mello-na-programacao.shtml

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Livro abre série de reedições de Adalgisa

Na obra, escritora, jornalista e política narra seu casamento perturbador com o pintor Ismael Nery

Por Nani Rubin - Segundo Caderno, O Globo [20 de julho de 2015]

 

[Adalgisa Nery em 1971. Foto: Paulo Garcez/O Pasquim]

A mãe morre quando ela é menina. Aos 8 anos, vai para um internato. O pai casa-se novamente, com uma italiana irascível. Aos 14 anos, apaixona-se por um homem seis anos mais velho, “de sensibilidade aguçada”. Casa-se aos 15, e muda-se para a casa da família do marido, um trio de mulheres alucinadas, em que se destaca a mãe beata com delírios persecutórios. Sua residência, mais tarde, é frequentada por intelectuais e artistas — de cujas animadas conversas, apesar de inteligente e curiosa, é alijada. Diagnosticado com tuberculose, o marido confessa ter um caso e, entre outras atitudes impiedosas, pede-lhe que procure a amante em seu nome. Jovem viúva com filhos pequenos, foge das sandices da sogra mudando-se para uma pensão, e sai à cata de emprego. É assim, entre episódios de mesquinharia, crueldade e loucura, que transcorre a vida de Berenice, narradora do romance “A imaginária”, de Adalgisa Nery. Assim transcorreu a vida da própria Adalgisa, contada neste livro de autoficção que chega às livrarias depois de 35 anos fora de catálogo, desde a morte da autora.

“A imaginária” será lançado amanhã, na Travessa de Botafogo, numa espécie de celebração da volta ao mercado da obra de Adalgisa (1905-1980) — depois dele, serão publicados seu outro romance, “Neblina” (em outubro), os volumes de contos “Og” e “22 menos 1″ e uma coletânea de poemas, ainda sem nome (os três em 2016). O fato de a escritora, poeta e tradutora ser mais lembrada, hoje, por sua carreira de jornalista (assinou durante 12 anos, no jornal “Última Hora”, a coluna diária “Retrato Sem Retoque”) e política — teve três mandatos de deputada, de 1960 a 1969, quando foi cassada pelo regime militar —, não surpreende Ramon Nunes Mello, poeta e jornalista à frente do projeto. Decidido a promover o resgate da obra, ele procurou seus cinco netos para negociar os direitos e bateu à porta da José Olympio, editora que publicou todos os livros da autora a partir de 1947 — o único anterior a esse ano, “Poemas” (1937), saiu pela Pongetti.

— Para mim, um dos motivos de ela ter sido esquecida foi seu segundo casamento, com Lourival Fontes (chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda de Getúlio Vargas). Ela ficou muito associada ao poder, e as pessoas não perdoam isso — observa Ramon, que cursa atualmente um mestrado, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com foco na produção poética da escritora.

“LIVRO-VINGANÇA”, DIZ ANA ARRUDA

Para a escritora e jornalista Ana Arruda Callado, autora da biografia “Adalgisa Nery — Muito amada e muito só” (1999, editora Relume Dumará), produzida para a série Perfis do Rio, o fato de a obra literária ter caído no ostracismo se deve, em grande parte, à falta de interesse dos dois filhos (Ivan e Emmanuel, ambos já falecidos) em cuidar do legado da mãe.

— Dizem que o sofrimento torna as pessoas boas. Não foi o que aconteceu com ela. Era valente, corajosa, mas má com os filhos. O Samuel Wainer, seu patrão na “Última Hora”, dizia que ela só se casou com Lourival Fontes para maltratar o Murilo Mendes (o poeta, muito ligado a Ismael, pediu-a em casamento diversas vezes após a morte do amigo).

“A imaginária” foi publicado em 1959, 25 anos depois da morte de Ismael Nery (1900-1934) e seis após a separação de Lourival Fontes, tornando-se um grande sucesso à época, com cinco edições. O romance trata apenas do primeiro casamento, aquele que a oprimiu. Na abertura de sua biografia, Ana Arruda Callado reproduz uma cena entre Ismael, com a tuberculose avançada, e a mulher. “Sentindo a hemoptise iminente, ele abraçou-a com força. Enquanto o sangue se espalhava pelo vestido simples e bem talhado, ela ficava impassível”, relata. E conta ainda que ele a intimava a beber do mesmo copo no qual já havia sorvido a gemada que a mulher lhe preparara.

— O Ismael foi de uma violência horrível. E ela foi totalmente submissa. Enquanto esteve casada, não escreveu uma linha. Se o fez foi escondida — diz Ana, que, em sua biografia, refere-se a “A imaginária” como “Livro-vingança”, já que expõe um lado nada glamouroso do artista e pensador, importante nome do modernismo brasileiro.

LIVRO-CHOQUE, DIZIA DRUMMOND

Que Berenice, a narradora de “A imaginária”, é Adalgisa, isto é certo. Ainda que detalhes tenham sido modificados (como a idade do casamento, ocorrido aos 16 anos, ou a nacionalidade da madrasta, que era espanhola), a história da menina de infância triste que se apaixona pelo vizinho bonito e interessante foi confirmada como real pelos dois filhos e pela própria Adalgisa, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, em 1967.

O interessante é que ela só floresceu após a morte de Ismael. Sua beleza e inteligência foram louvadas por poetas e pintores. Durante o casamento, a casa era frequentada por Murilo Mendes, Pedro Nava, Jorge de Lima e Manuel Bandeira, entre outros. Mendes, Bandeira e Carlos Drummond de Andrade lhe dedicaram poemas. Portinari pintou-lhe o retrato (é dele a capa da primeira edição de “A imaginária”). Ismael, naturalmente, fez vários. E, muito depois, Diego Rivera também (o pintor e Frida Kahlo tornaram-se próximos de Adalgisa e Lourival Fontes quando este foi enviado ao México por Getúlio Vargas para servir na embaixada brasileira).

Editora-executiva da José Olympio, Elisa Rosa vê no romance, saudado por Drummond como “livro-choque”, de “beleza dolorida e profunda”, qualidades que justificam sua reedição:

— “A imaginária” é altamente poético, bem escrito, conta uma história muito feminina. Tem qualidade literária, além de ser relevante até historicamente. Lembra, de certa forma, Clarice Lispector, com seus diálogos interiores, sua sensibilidade feminina, oprimida pelo casamento, pelos pais, pelo mundo.

No lançamento, amanhã, haverá uma conversa com a participação de Ramon Nunes Mello, Ana Arruda Callado, que assina o prefácio da nova edição, e Affonso Romano de Sant’anna, cujo ensaio “Adalgisa Nery: vampirismo masculino ou a denúncia de Pigmalião” (1988) é reproduzido no volume.

TRECHO DE “A IMAGINÁRIA”:

“Eu notava mais esse desconcerto. Ele sentia-se acima de todas as conjunturas da vida. Opinava drasticamente. Lembro-me de um fato importante para mim naquela época. Um dia um amigo nosso,

poeta extraordinário, vendo-me e sabendo que eu não tinha convivência de amigas, conhecendo a minha vida entre alucinados, sem distrações normais, perguntou ao meu marido se ele não receava que eu, uma mulher tão jovem, vivendo unicamente entre homens, viesse a ter preferência por um de seus amigos. Recebeu como resposta: ‘A minha mulher é como a minha mão. No dia em que ela gangrenar, eu a decepo e continuo a viver com o resto do corpo.’

Sim, eu não passava de um detalhe que não fazia falta ao todo. Mal sabia ele que o meu mundo era grandioso, o meu mundo estava na sua vida e na sua alma separado por um silêncio que ele mesmo provocara”.

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Incentivada a escrever por Murilo Mendes, Adalgisa Nery tem obra de volta às prateleiras após décadas fora de catálogo

POR MAURO MORAIS

 

[Adalgisa Nery em 1971. Foto: Paulo Garcez/O Pasquim] Casada com Ismael Nery, escritora tem best-seller de memórias, lançado em 1959, reeditado.

No dia 1º de dezembro de 1937, Murilo Mendes recebeu “Poemas”, livro que havia incentivado a existir. Na dedicatória: “Ao querido Murilo, toda a minha grande amizade. Adalgisa”. A partir daquelas páginas, passava a existir, também, uma autora, que, em 1943, voltou a autografar para o poeta, na folha de rosto de “Og”, sua estreia nos contos. “Ao meu grande e certo amigo Murilo. Com o mesmo abraço e a terna amizade de vinte anos, de Adalgisa”. Das 14 obras publicadas pela escritora, seis delas estão presentes no acervo do poeta juiz-forano, no Museu de Arte Murilo Mendes, todas com autógrafos. Raridades, já que há mais de três décadas sua produção encontra-se fora de catálogo. No 2015 em que Adalgisa tornaria-se centenária, quando sua despedida soma 35 anos, a editora José Olympio, de sua estreia, reedita “A imaginária” (351 páginas), romance de memórias, no qual revela, através da personagem Berenice, seu traumático casamento com o poeta e pintor Ismael Nery.

Cruel, o primeiro romance de Adalgisa demarca, justamente, o lugar que ocupa aquele que a uniu a Murilo. “A relação dela com o Ismael a marcou muito, ao ponto de ela escrever esse romance contando a história dos dois, desde o casamento, falando da relação vampiresca dele com ela. Ele não a deixava participar das coisas, ela não podia ter voz. Adalgisa começa a escrever e a publicar depois que Ismael morre, muito por influência do Murilo Mendes e do Jorge de Lima. Essa relação, ao mesmo tempo que a inspirava, a trancava como um ser à parte da sociedade, sem inteligência e sensibilidade”, comenta o jornalista e escritor Ramon Nunes Mello, curador e organizador das reedições.

“Reconstruir o próprio imaginário, por exemplo, através da escrita, é uma das formas de reachar a identidade tanto na ficção quanto na realidade”, aponta o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, em posfácio analítico do romance. E foi preciso que Adalgisa se reconstruísse em diferentes momentos de sua jornada. Casada aos 16, ela teve oito filhos, mas apenas dois sobreviveram: o mais velho e o caçula. Viúva aos 29, casou-se novamente, seis anos depois, com Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura Vargas. Mais uma vez, a mulher se viu forçada ao silêncio. Em carta de Murilo Mendes, escrita em 15 de maio de 1971, presente em seu acervo no Mamm, o poeta comenta o casamento “forçado”. “Compreendo bem seu ato relativo ao seu segundo casamento. Como diz São Paulo, o amor cobre uma multidão de faltas e enganos. Nesse caso, o amor aos seus filhos justificou”, escreve Murilo.

Nas nove correspondências enviadas à poeta e cujos originais pertencem à Fundação Casa de Rui Barbosa, onde fica todo o acervo de Adalgisa, o poeta sempre reclama das dificuldades em relação às frequentes greves dos carteiros italianos. Também se mostra preocupado com a saúde da amiga, morta em 1980, aos 74 anos, numa casa de repouso carioca, para onde foi por vontade própria. “Lamento, mas compreendo suas angústias. Tudo é terrível. Eu também ando muito angustiado, é sempre o problema existencial, a preocupação com a inutilidade da vida, etc., tudo isso agravado pela situação da Itália atual, com sua enorme sequência de assassinatos, roubos, sequestros de pessoas, etc., um horror. Verdade é que o mundo em geral não cria juízo”, diz Murilo em carta de janeiro de 1975.

A contemporânea

Polêmica comentarista política, Adalgisa, a mulher que foi eleita por três vezes deputada pelo Rio de Janeiro, era das tintas fortes. Em sua literatura, ligou-se a Murilo Mendes, justamente pela intensidade dos raciocínios. E tudo, retirava dos dias. “Ela teve uma vida tão dura quanto a da personagem de ‘A imaginária’. Era uma mulher muito sensível e sentia tudo com muita intensidade. Conseguiu traduzir isso na poesia dela. Basta observar alguns títulos de seus livros: ‘Cantos de angústia’ e ‘A mulher ausente’. Ao mesmo tempo em que tem uma relação com o cosmo, com a vida, ela oscila entre otimismo e pessimismo profundos. Os casamentos a marcaram”, avalia Ramon Mello. “Sofrida, bela, indômita, A Imaginária (não o livro, mas a autora) teve uma vida solitária em meio a muita agitação, que sua hipersensibilidade não suportava”, acrescenta a biógrafa da escritora, Ana Arruda Callado, em prefácio da recente reedição.

Resgatar, agora, a amiga de Frida Kahlo, Diego Rivera, Flávio Cavalcanti, Orozco, Pedro Nava, Drummond, dentre outros nomes de peso, é jogar luzes sobre uma silenciosa influência contemporânea. “A literatura da Adalgisa é muito atual. Há pouquíssimo tempo, falávamos sobre a literatura auto-ficcional, de como as escritoras de hoje colocam suas vidas na narrativa. Adalgisa fez isso em 1959. E muito antes já era feito por outras escritoras. Esse livro mostra como a vida é um elemento fundamental para servir de motivação para transformar em linguagem a existência que temos, rápida, efêmera e, por vezes, tão dolorida quanto a dela”, pontua Mello. Segundo ele, além de “A imaginária”, best-seller assim que lançado, “este ano será publicado ‘Neblina’, que é o último romance. Curiosamente, nesse livro, a personagem fica sem voz, da forma como ela morreu. Além disso, vamos publicar os dois livros de contos e uma antologia, incluindo sua última obra poética.”

Críticas e Resenhas Estudos Críticos

LARANJEIRA, A. E. S. "O sujeito lírico voyer de Ramon Mello e Caio Meira" Professor adjunto de Teoria da Literatura na Universidade Federal da Bahia (UFBA) In: Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea. Rio de Janeiro, v.1, n.9, p.25-39

https://docs.google.com/file/d/0B4Or_Ga2ft0QM2p5SlFlZTA2TGM/edit?pli=1

LARANJEIRA, A. E. S. "O sujeito lírico voyer na poesia contemporânea brasileira" Professor adjunto de Teoria da Literatura na Universidade Federal da Bahia (UFBA) In: publicado na ABRALIC - Associação Brasileira de Literatura Comparada

http://www.xivabralic.com.br/anais/arquivos/157.pdf

MOTTA, Luciano. "Ressoonâncias literárias e midiáticas na poesia de Ramon Mello" (2014). Dissertação de Mestrado em Estudos de Literatura. UFF - Universidade Federal Fluminense. Orientadora: Claudia Neiva de Matos

MOTTA, Luciano. "Uma análise de Vinis mofados, de Ramon Melo" (2011) Monografia - Aperfeiçoamento/Especialização em Curso de Especialização em Estudos Literários. UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Orientador: Armando Ferreira Gens Filho

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O ESTADO DE S. PAULO - 13 Novembro 2014

 Veja a repercussão da morte do poeta no meio literário e editorial

O poeta Manoel de Barros, morto nesta quinta-feira, dia 13, aos 97 anos, foi lembrado com carinho por amigos, escritores e admiradores. Confira:

 Mia Couto, escritor moçambicano

"Mais do que um poeta, foi um mestre na aprendizagem de um outro olhar, um olhar mais próximo das coisas essenciais, essas que só entendemos por via da infância. Por meio da poesia ele re-arrumou o mundo e ensinou-nos o valor das coisas que não parecem ter préstimo. Esse préstimo pode ser o simples facto de se ser pequeno, desvalido e instigador de beleza. A sua palavra foi uma espécie de microscópio para vermos o que nos ensinaram a desconsiderar. Por tudo isso, a sua vida e o seu nome não podem ser ditos no pretérito."

 

Ignácio de Loyola Brandão, escritor

"Quantos sabem o que é o Idioleto Manoelês Archaico?

É o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e as moscas.

Você conhece palavra desutilidade? E criançamento?

O que Manoel quer dizer quando fala: 'Prefiro as máquinas que servem para não funcionar'?

Ou: 'Perder o nada é um empobrecimento'?

Encantos, foi o que Manoel de Barros fez a vida inteira.

Na sua simplicidade, singeleza, despojamento há mais temas do que tratados de filosofia.

Quantos volumes podemos escrever sobre esta afirmação: Tudo que não invento é falso.

E esta, então: As palavras me escondem sem cuidado.

Ah, Manoel, sem você vai ficar tudo tão rasteiro. Quem escreverá sobre ignoranças ou sobre o Nada com o teu jeito?"

 

Armando Freitas Filho, poeta

"Acompanhei a obra dele a partir dos anos 1960 até 1980. De Face imóvel (1942) ao Compêndio para uso dos pássaros de 1960 a mudança foi grande. Basta ver os títulos dos livros citados. A meu ver sua poesia sofreu essa metamorfose quando assimilou uma escrita "roseana", como se ele escrevesse a partir dos rascunhos de Guimarães Rosa. O resultado foi bom e até surpreendente em Gramática expositiva do chão (1966) e Arranjos para assobio (1980). Com o andar do tempo o que foi surpresa ficou maquinal, maneirismo de frases, mais ou menos felizes."

 

Ondjaki, escritor angolano

"Não há palavras de dizer esse nosso dikota (mais-velho) Manoel. Uma vez chamaram-lhe Manoel do Barro. Manoel-em-Barros. Hoje eu queria sonhar um post-scriptum para ele: era quase assim: 'talvez ao poeta faça bem / desabrochar-se / tanto quanto ele / se nos acendeu nos vagalumes'."

Wesley Peres, escritor e autor da tese Formações do Inconsciente e Formações Poética Manoelinas: Uma Leitura Psicanalítica Acerca da Subjetividade e da Alteridade na Obra de Manoel de Barros (Universidade Federal de Goiás)

"Manoel poetizou a natureza arrancando-a de si, usou a linguagem para executar tal separação. Além disso, deu primazia ao sensório sobre a razão, utilizando a razão e o sensório para afirmar tal primazia. Mas, eis, que sua obra deu um salto, ao escrever versos como: "o perfume vermelho me pensa". Aí sua poética rompeu os limites entre o sensorial e o conceitual, entre percepção e pensamento, de modo a fazer a matéria pensar e o pensamento encarnar-se em coisas do mundo. Um projeto e tanto, que só não digo irrealizável porque se realizou".

 

Socorro Acioli, escritora

"O Manoel de Barros faz parte da minha santíssima trindade dos poetas brasileiros, junto com Adélia Prado e João Cabral. Eu acho que poeta é ou não é. E ele era. Uma poesia sem pose, extensão da vida que ele vivia."

 

Pascoal Soto, diretor editorial da Leya

"Querido Manoel: Tentei me preparar para esse momento. Achei que, chegada a hora, estaria suficientemente forte para suportar a dor de sua ausência... Enganei-me... Descanse em paz, Manoel. Abraço a Bernardo-passarinho. Agora, tem aqui um deserto em nós."

 

Marcelo Ferroni, editor da Alfaguara

"Manoel de Barros conseguiu desenvolver uma linguagem própria, marcante e emocionante. E ele trabalhava as palavras de uma forma muito delicada. Era muito querido por todos aqui na editora. Vamos tentar adiantar para o primeiro semestre a reedição da obra dele, prevista, antes, para o segundo semestre." (A Alfaguara anunciou no dia 31 de outubro que passaria a publicar toda a obra do autor, que antes estava no catálogo da Leya)

 

Ramon Nunes Mello, poeta

"A poesia de Manoel de Barros me ensinou que "há várias maneiras de dizer nada”. Aprendi com seus livros encantatórios, como Arranjos para Assobio e Livro Sobre Nada, a verdadeira “virtude de ser inútil”. A poesia de Manoel de Barros é tão forte que dialoga com outras linguagens como a dança, a música, o teatro e as artes visuais. Basta assistir ao espetáculo Tudo que não invento é falso, de Paula Maracajá, ou ainda a "desbiografia oficial” pintada pelo cineasta Pedro Cezar, Só Dez Por Cento é Mentira, para entender que a poesia de Manoel de Barros é a infância da língua portuguesa."

 

Mário Alex Rosa, poeta

"O meu primeiro contato com a poesia de Manoel de Barros foi pela belíssima capa do livro Concerto a céu aberto para solos de aves, editado pela Civilização Brasileira, em 1991. Fiquei deslumbrado com aquele “objeto” estranho composto por um caracol, um alicate e dois olhinhos. Essa composição parece formar um bicho que ao mesmo tempo traz uma delicadeza tem uma tensão naquele olhinho preso no alicate. Portanto foi pela imagem de uma capa que descobri e passei a ler seus poemas. Aliás, prefiro mais esta capa do que da nova edição. Gosto da poesia de Manoel de Barros não apenas pela linguagem construída, mas sobretudo pelas imagens que ela (a linguagem) pode suscitar. Todas as perdas são doídas e irreparáveis, mas de um poeta verdadeiramente poeta, parece doer mais na gente, pelo menos em mim."

 

Victor Heringer, poeta

"Manoel de Barros é um poeta perigoso. Como Guimarães Rosa, Beckett ou João Cabral, seu estilo é daqueles que encanta o leitor e pode levar um escritor ao desespero. O leitor em mim, sobretudo quando está de bom humor (Manoel é melhor lido em dias de bom humor), fica maravilhado com sua capacidade de moldar as palavras como se elas ainda fossem barro mole, como se ele ainda fosse criança! E com as suas ideias pequenas, suas ingenuidades essenciais, sua filosofia miúda. Como gosto de gente sem pompa, só com circunstâncias... O leitor em mim gosta do Manoel de Barros; o Manoel não tem medo do ridículo, porque só o ridículo é matéria de poesia. Aí vou escrever, me ponho a escrever. Estou escrevendo e de repente brota uma dália manoelina no meu texto, um girassol em forma de horizonte, uma lista de instruções para a engenharia de nuvens. De repente meu verbo começa a pegar delírio (e olha que eu dei a ele todas as vacinas). Sobrevém o temido momento: impossibilitado de copiar o Manoel de Barros, eu fico imprestável para a escrita, sentado ali, em estado de árvore. Bendito seja."

 

Fabricio Carpinejar, poeta

"Manoel de Barros era o último sobrevivente de uma tradição literária de trabalhar o folclore, inventariar a linguagem e propor um pacto de ingenuidade com o leitor. Era um tarado pelas palavras. Buscava os primórdios, o intuitivo. Os personagens comuns e deliciosamente simples. Ele professava douta ignorância. Sua poesia é um menino aprendendo a falar e um velho aprendendo a esquecer."

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Livro, exposição e show prestam homenagem ao poeta e agitador Waly Salomão

MARIA FERNANDA RODRIGUES - O ESTADO DE S. PAULO - 23 Maio 2014

 

Há muito não se via um livro de poesia nas listas de mais vendidos no Brasil, mas o curitibano Paulo Leminski conseguiu tal feito este ano quando a Companhia das Letras lançou um volume com toda a sua produção poética. Ele chegou, inclusive, a desbancar o best-seller erótico Cinquenta Tons de Cinza.

Quem entra na briga pela atenção do leitor brasileiro agora é Waly Salomão, baiano de Jequié, filho de pai sírio e mãe sertaneja, e poeta que agitou o Rio de Janeiro nos anos 70, 80, 90, morreu precocemente e fez escola influenciando novas gerações de poetas.

Poesia Total, que será lançado na segunda-feira no Rio e no dia 31 em São Paulo, traz, além de seus poemas, as músicas que escreveu e que ficaram famosas na voz de artistas – entre elas estão Vapor Barato, gravada por Jards Macalé, Gal Costa e Rappa;Mel, por Maria Bethânia e Caetano Veloso; e Assaltaram a Gramática, interpretada por Lulu Santos e Paralamas do Sucesso.

Waly Salomão não falava, declamava. Era todo gestos, caras, bocas e sorrisos largos. Inventou um personagem e viveu nele até perder a batalha para o câncer em 2003 – nessa época, ele era também secretário nacional do livro enquanto o amigo Gilberto Gil comandava o ministério da Cultura.

O movimento de resgate da obra de Waly Salomão (1943-2003), iniciado agora com o lançamento de Poesia Total, terá desdobramentos durante o ano. Omar Salomão, poeta como o pai, músico e artista visual, está organizando um show em São Paulo com a presença de Gal Costa, Jards Macalé e Lirinha e de cantores da nova geração, como Alice Caymmi e Botika.

No Rio, está prevista para setembro a exposição A Biblioteca de Grifos de Waly Salomão. Omar, curador ao lado de Anna Dantes, conta que a mostra que estará em cartaz na Biblioteca Pública do Estado partirá do acervo de seus pais e das anotações que ele fazia nas beiradas dos livros. Será uma boa oportunidade de rever Waly Salomão ou de apresentar à nova geração o artista hiperativo, "de olhar periférico", que vivia em constante estado de alerta e representando seu personagem, e que teve a primeira grande motivação para escrever quando foi pego numa blitz com fumo e levado ao Carandiru.

"O fato de eu ver o sol quadrado foi uma concentração até espacial do meu desejo e meu primeiro texto jorrou daqui de dentro", ouvimos o poeta contar em Pan-Cinema Americano, documentário de Carlos Nader sobre ele.

O texto a que se refere é Apontamentos de Pav Dois, e o também poeta e letrista Antonio Cicero comenta sobre ele num dos vários textos críticos que completam o volume lançado agora com as letras e os livros do autor - Me Segura q’eu Vou Dar um Troço (1972), Gigolô de Bibelôs (1983), Algaravias: Câmara de Ecos (1996),Lábia (1998), Tarifa de Embarque (2000) e Pescados Vivos (2004). De Poemas de Armarinho de Miudezas (1993) e Hélio Oiticica: Qual é o Parangolé? (1996), livros de gêneros mistos, foram extraídos alguns textos.

Ao Estado, Cicero disse que a poesia do amigo é, ao mesmo tempo, vital e elaborada. Ele explica: "Pela vitalidade dos seus poemas, pode-se pensar que eles surgiram num jorro. De certa maneira, sim: elas surgiam num jorro. Por outro lado, esse jorro inicial era submetido a um trabalho exaustivo, até chegar ao ponto de ser publicado".

A amizade dos dois e admiração mútua remete aos anos 1970. Cicero já tinha ouvido músicas escritas por Waly Salomão quando o conheceu num jantar na casa de Gal Costa e de sua mãe, "uma distinta senhora". A casa estava cheia e o poeta estava há muito trancado no banheiro. "Ao aparecer na sala, sem cumprimentar ninguém, anunciou, com sua voz megafônica, que ia nos mostrar, em primeira mão, alguns de seus novos poemas. E começou a recitar. Entretanto, os versos que ele dizia não pareciam em nada com os poemas e as letras dele que eu já tinha ouvido. Falavam de crianças, flores, borboletas borboleteando, etc.". Ele e Caetano Veloso se entreolharam sem entender nada. "De repente, dona Mariah gritou, com sua voz rouca: ‘Ladrão! Esses poemas são meus!’", conta Cicero - e isso dá uma ideia de sua personalidade.

Os dois viraram amigos e Cicero, tímido, teve a ajuda de Waly para se soltar. "Com sua irreverência, ele tinha a capacidade de desarmar qualquer situação de convencionalismo repressor ou caretice. Ele expunha a farsa subjacente a tais situações. Isso me fez muito bem."

O poeta Ramon Mello, de 30 anos, não conheceu Waly, mas, admirador de sua obra, desabafa em determinado ponto de seu Poema Atravessado Pelo Manifesto Sampler: "Alô Waly. Ah, se você ainda estivesse por aqui". Ele tem todos os livros em primeira edição. "Era um poeta que estava muito a frente de seu tempo e que fazia uma poesia que estava em diálogo com as manifestações culturais e artísticas. Isso é fundamental", conta.

Da mesma geração de Ramon, Bruna Beber se encantou primeiro pela música Mel, que a mãe ouvia sem parar. "Depois fui pescando uma letra dele aqui e ali quando comecei a ouvir Gal e Jards Macalé. Daí para os livros foi um passo só", comenta. E completa: "Eu não conheci o Waly, mas é difícil ler seus livros sem sentir sua presença, ao mesmo tempo impávida e doce. Seu nome me remete à palavra ‘vigor’ em todos os seus significados".

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Estadão - 16/06/2012

O carioca Ramon Mello lança no fim do mês, no Rio e em São Paulo, Poemas Tirados de Notícias de Jornal pela Móbile e logo já embarca para Londres. Ele foi um dos 20 selecionados do programa Rio Artists Occupation London, residência artística organizada pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro. Ramon Mello criará uma instalação a partir de seu livro Vinis Mofados (Língua Geral). A obra que sai agora será tema de trabalho dos artistas plásticos brasileiros José Sanchez e João Penoni.

“Bloomsday”, suplemento Sabático do Estadão, página S2.

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Os trabalhos e as histórias da ocupação de 30 artistas do Rio na capital inglesa

André Miranda [O Globo]

LONDRES - Há um mês, a maior preocupação dos responsáveis pelo Battersea Arts Centre (BAC), espaço cultural no sul de Londres, era como seria receber 30 brasileiros por uma temporada. Eles chegaram no início de julho para dormir, comer e criar no BAC, formando o maior grupo que já se hospedou no centro ao mesmo tempo. Hoje, após um período de música, vídeos, fotos, bananas penduradas e feijoada para cem pessoas — enfim, manifestações artísticas de todos os tipos —, a grande preocupação do povo do BAC é como será ficar, a partir do próximo domingo, sem os brasileiros.

O grupo de 30 artistas está na Inglaterra pelo Rio Occupation London, projeto criado pela Secretaria de Estado de Cultura do Rio como parte da programação oficial dos Jogos Olímpicos. Todos atuam em território fluminense e foram selecionados para trocar experiências e criar coletivamente. Há gente de vários campos das artes, assim como há campos para todas as gentes. A ocupação mostrou como as artes podem se integrar às pessoas, ao espaço, ao tempo.

O resultado, prova maior dessa integração, está na exposição montada nos galpões de uma antiga fábrica de biscoito de Londres, atualmente um centro de exposições e estúdios, o V22. A mostra foi aberta anteontem e fica em cartaz até amanhã.

 

 

— Quando estão num processo de pesquisa, os artistas precisam conviver com outras pessoas. É assim que vão alcançar uma elasticidade em seus trabalhos — afirma a artista visual Laura Lima, uma das participantes da ocupação.

— O que interessa para a gente é o que está entre as áreas. É um processo que coloca todo mundo em risco — acrescenta o músico Domenico Lancelloti, outro integrante da comitiva.

A turma chegou a Londres na primeira semana de julho. No BAC, eles se dividem em quartos individuais ou coletivos, a maioria com lembranças deixadas por artistas que já passaram por lá. Por exemplo: um dos quartos é um salão com seis cabanas, como casas de bonecas gigantes, dentro das quais ficam as camas. Em outro, a cama é suspensa por cordas e pode balançar enquanto o artista dorme.

As festas costumam acontecer numa das cozinhas do BAC. Assim, foi pelo estômago, literal e metaforicamente, que um dos frutos mais interessantes da ocupação foi gerado. Liderados por Pedro Miranda, Domenico, Eddu Grau, Felipe Rocha, Siri, João Brasil e Alessandra Maestrini formaram a big band Brazilian Kitchen (em português, Cozinha Brasileira). A novíssima banda fez três apresentações no BAC, uma para mais de cem pessoas. Só que o caldo não era apenas musical: enquanto tocavam, eles cozinhavam para a plateia. O cardápio foi de feijoada a xinxim de galinha.

— Numas das apresentações, vieram uns romenos. Todos tocaram com a gente. Agora vamos nos reunir mais uma vez na sexta, no V22 — conta Pedro Miranda.

A convivência no BAC não é somente entre os artistas fluminenses. Lá são encenadas peças de teatro, grupos de ingleses se reúnem para oficinas, e mães passeiam com seus filhos. No último domingo, foi realizado um casamento indiano num salão grande nos fundos. Na terça, houve um baile de idosos.

Nesse mesmo salão, Siri fez funcionar um órgão fabricado em 1900 e parado há décadas. Já numa das festas na cozinha, o poeta Ramon Mello juntou a turma para recitar versos de Sylvia Plath. Na escada que dá acesso ao segundo andar, foram pendurados painéis feitos em papel de arroz por João Sanchez. E na calçada em frente ao BAC, há sinais do trabalho de Breno Pineschi: bananas coloridas presas a postes.

— Aqui, pessoas que não se conheciam acabaram se descobrindo — conta Christiane Jatahy, que, ao lado de Gringo Cardia, responde pela direção artística da ocupação. — Nada acontece individualmente. No meu trabalho, por exemplo, todos participaram. Fizemos 14 apresentações em casas londrinas, para pessoas que haviam respondido um anúncio que publicamos. Houve desde um muçulmano que mora num barco até uma senhora de 92 anos. O Paulo Camacho filmou tudo e vamos transformar esse material num documentário. Todos os artistas que estão aqui fazem parte de um grande corpo. (Veja os vídeos no canal do artista no Youtube)

Ontem, esse corpo praticamente se mudou do BAC para o V22, a 30 minutos de distância, incluídos metrô e trem. A exposição dos brasileiros, com entrada gratuita, reúne instalações, performances, pinturas, filmes e tudo mais que a imaginação deles pôde criar. Eduardo Nunes transformou os quatro narradores do romance “De verdade”, do húngaro Sándor Márai, numa videoinstalação de quatro telas que alteram o ambiente de acordo com o personagem que esteja falando para o público.

Luciana Bezerra deixou uma pequena casa montada numa praça durante dias, onde recebia pessoas para conversar. Dessas conversas, fez cinco vídeos num formato de diário de viagem, exibidos na exposição. João Penoni, por sua vez, fez autorretratos animados, em que o corpo se funde ao espaço. Enquanto isso, Domenico criou vídeos sensoriais de três a quatro minutos para acompanhar a trilha sonora feita em parceria com o irlandês Sean O'Hagan, ex-integrante do Stereolab.

Já Anna Azevedo trouxe imagens de duas cerimônias em homenagem a Iemanjá, na Urca e na Praça XV, à noite e pela manhã. A videoinstalação, “Janaína”, é apresentada em duas telas que se encontram com ângulo de 130 graus, com trilha de Siri que, diz ela, dá “roupagem contemporânea a uma imagem tradicional”.

Além dos já citados, a Rio Occupation London teve a participação de Andrea Capella, Bernardo Stumpf, Bruno Vianna, Dina Salem Levy, Emanuel Aragão, Eric Fuly, Gustavo Ciríaco, Marcela Levi, Pedro Rivera, Ratão Diniz, Robson Rosa e Stella Rabello. Todos têm de 20 a 40 e tantos anos, e pretendem dar continuidade às parcerias surgidas em Londres quando o projeto se encerrar. A ideia é que no início de 2013 o Rio receba um grupo de artistas ingleses para uma ocupação na Lapa.

Matérias

Uma aposta no íntimo diálogo entre poesia e música

Um livro de um poeta estreante é sempre uma busca. E a obra nasceu de um diálogo entre música e literatura, explícito no título, que junta os vinis com o clássico Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. A estrutura da obra é dividida como em um disco. No lado A, há uma procura por desvendar o enigma da palavra, o modo como ela se relaciona com o organismo do poema, como nos versos de “Dicionário ou Impressão”. É ali que Ramon nos apresenta sua preocupação mais formal, seu catálogo de intenções. No Lado B, o autor dá as caras de maneira mais desabrida, sem medo de se expor. Ramon se coloca como parte integrante do poema com toda a carga emocional que tal opção estilística pode carregar. Vemos dores de cotovelo, rompimentos e um certo cinismo com os caminhos do amor e da vida, como em “Faixa Arranhada” ou “Doida Canção”. Tudo repleto de referências ao mundo moderno, à cultura pop, à MPB, ao blues e ao computador – há um ótimo poema em linguagem de MSN. É um início e, como todo começo, deixa brechas, sinaliza melhoras. Mas, ao mesmo tempo, nos deixa querendo mais. Basta seguir a trilha sonora proposta por Ramon.

Entrevista – Ramon Mello

Fale um pouco de seu processo de criação.
Não consigo entender a arte sem diálogo. Assim é com a música e a poesia. Quando penso em nossos intelectuais, não me lembro dos acadêmicos ou imortais. Vibro ao saber que minha formação passa por músicos e compositores como Caetano Veloso, Renato Russo, Maria Bethânia, Lirinha, Marina, Arnaldo Antunes, Tom Zé. E junto tudo isso com a obra de Caio Fernando Abreu, que era um apaixonado por MPB. Vinis Mofados é resultado da conversa de uma vitrola 78 rotações com uma caneta Bic.

Então, o que influencia mais você?
A vida. Leio muito mais do que ouço música, mas não entendo maior influência de uma determinada área. O respeito que tenho quando ouço uma música do Chico Buarque é o mesmo ao assistir a uma peça do Zé Celso ou ao ler um livro da Cecília Meireles. A questão está na palavra, ela costura minha identidade. Escrevo muito a partir do amor intenso e da desilusão.

Por que a obsessão com o vinil?
Não é obsessão, mas relação afetiva. Gosto das capas grandes, do ritual de ligar a vitrola e virar o disco. Há muita diferença entre escutar um vinil e um MP4. Não tem juízo de valor, é diferente. Quando posso escolher, ouço música na vitrola.

Por Alexandre Duarte

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