Por Agnaldo Medici Severino

 

O admirável Ney Matogrosso conta sua história em um dos livros mais bacanas que li este ano. "Vira-lata de raça" é um livro de memórias, um conjunto de depoimentos, organizado por Ramon Nunes Mello, um jovem poeta e jornalista carioca. São nove capítulos. Nos quatro primeiros os depoimentos seguem numa ordem cronológica: (i) infância e juventude, em que acompanhava a família em constantes mudanças (ele nasceu em 1941 no Mato Grosso e seu pai era militar); (ii) os anos 1960, em que já emancipado viveu no Rio de Janeiro e em Brasília; (iii) os anos rápidos do sucesso com o grupo Secos e Molhados, no início dos anos 1970; e (iv), por último, os anos imediatamente posteriores a seu afastamento do grupo e o início de sua carreira solo. Os cinco capítulos restantes são aproximadamente temáticos: (v) um dedicado a seu relacionamento com Cazuza; (vi) um sobre a sexualidade, a AIDS, a perda de amigos; (vii)  um sobre autoconhecimento, religião, espiritualidade; (viii) um sobre política e seu apoio específico a causas sociais; e o último, (ix), sobre o tempo, a vida e a liberdade (valor que ele mais preza). Claro, há superposição de assuntos, informações, episódios de sua vida, mas o formato adotado pelo organizador na produção do livro realmente torna a leitura muito agradável e emocionante. O tom é confessional, mas o sujeito que fala o faz com segurança, posiciona-se, sabe ser bem humorado e debochado. O livro é muito bem editado, incluindo muitos mimos: dezenas ilustrações, várias delas coloridas; seis boas matérias publicadas originalmente em jornais em períodos marcantes de sua carreira, assinadas por sujeitos que conhecem muito bem sua vida e sua obra (Tárik de Souza, Nelson Motta, Vinícius Rangel Souza, Caio Fernando Abreu, Luiz Rosemberg Filho, Mauro Ferreira); uma detalhada discografia e uma generosa bibliografia. Os capítulos oferecem ao leitor várias epígrafes e aforismos retirados das canções mais conhecidas dele. Impressionante a clareza e a segurança com que ele fala de qualquer assunto, nada parece constrangê-lo, nenhum fragmento de memória soa artificial, falso, seja quando ele fala da vida pessoal, de questões sociais brasileiras, de dinheiro, drogas, sexo, amor, religião ou morte. Trata-se mesmo de um artista notável, de um brasileiro digno e talentoso, que merece o perene reconhecimento e o sucesso que alcançou nestes seus quase 80 anos. Vale!


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