Por Angélica Basthi, ABIA

 

Ramon Nunes Mello é escritor, poeta, jornalista e ativista dos direitos humanos. Autor de mais três títulos de poesia autorais “Vinis Mofados” e “Poemas tirados de notícias de jornal” e “Há um mar no fundo de cada Sonho”. Mello é o responsável pela organização da antologia “Tente entender o que tento dizer”, publicada pela editora Bazar do Tempo em maio deste ano.

Para Mello, que é soropositivo, a coletânea surge na tentativa de romper o silêncio na literatura sobre o HIV e a AIDS e contribuir para o diálogo e naturalização do tema: “Entre os anos 1980 e os anos 1990 existe essa representação do HIV na literatura, mas dos anos 1990 para cá tem um hiato e por que? Por que as pessoas não falam publicamente sobre o HIV, não falam em casa e não falam na literatura. Então a proposta do livro foi justamente preencher esse hiato”.

Influenciado pela vida e obra de escritores que abordaram o tema como Herbert Daniel e Marcelo Secron Bessa, ambos colaboradores da ABIA, e inspirado na luta política de Betinho, fundador da instituição, Ramon decidiu doar o valor arrecadado com os direitos autorais da antologia “Tente Entender o que tento dizer” para a ABIA. Para ele, a instituição é uma das maiores referências no pensamento e na ação das políticas públicas de HIV e AIDS hoje no Brasil.

Na entrevista abaixo, ele conta como foi a trajetória e experiência na organização da coletânea, o papel da literatura numa resposta positiva ao HIV e à AIDS e a importância de se vencer o estigma em torno do tema: “A intenção é também tirar esse lugar que o HIV é uma coisa do outro, independente da sorologia, o HIV é uma questão social, uma questão de todos! ”. Confira a entrevista exclusiva a seguir:

ABIA: Por que optou por doar o valor arrecadado com direitos autorais da antologia “Tente entender o que tento dizer” para a ABIA?

Ramon Nunes Mello: Eu escolhi a ABIA pois antes mesmo de organizar o livro, em 2012 – quando eu recebi o diagnóstico de soropositivo – soube que gostaria de trabalhar com a questão do HIV na poesia, na minha escrita, mas ainda não sabia como fazer isso… Fui amadurecendo e em 2015, quando abri publicamente a minha sorologia, comecei a perceber que a questão do HIV começou a aparecer em muitos poemas que escrevia. Mas foi através de uma frase de um escritor chamado William Burroughs em que diz que “a linguagem é um vírus do espaço sideral” que eu entendi que a linguagem é o verdadeiro vírus e que não devemos temer o vírus HIV e sim falar sobre o HIV!  Falar sobre a AIDS é ressignificar a forma como enxergamos esse tema.

A partir do momento que abordamos o tema do HIV na literatura, podemos olhá-lo de outra forma que não mais a significação de morte que ficou atribuída nos anos 1980. É claro que isso não invalida o fato que ainda hoje as pessoas morrem de AIDS, mas temos a percepção de que podemos abordar o HIV de outra forma que não somente a morte. A gente pode falar das relações sorodiscordantes, a vida afetiva e amorosa, a memória das pessoas que morreram em decorrência do HIV e até da própria linguagem. A intenção de fazer o livro se deu também através da leitura das pessoas que pensaram a questão do HIV não só na questão social e política, mas também na literatura, como o Herbert Daniel, o Betinho e o Marcelo Secron Bessa, que foi um pesquisador que trabalhou na ABIA e que tem dois livros fundamentais sobre a questão do HIV na literatura, “Vidas Positivas” e “Os perigosos- Autobiografia & Aids”. Estas obras trazem a questão do HIV na prosa brasileira.

ABIA: Como surgiu a ideia da coletânea e como foi o processo de organizar essa antologia?


Ramon: A ideia do livro surge da inquietação de querer encontrar a literatura que trata do HIV e da AIDS. Comecei a procurar por isso e encontrei mais textos teóricos e pesquisas do que textos literários. Se você olhar na história da literatura brasileira, há um hiato neste tema. Entre os anos 1980 e os anos 1990 existe essa representação do HIV na literatura, com o Caio Fernando de Abreu, que é a maior referência na literatura sobre o HIV no Brasil, junto com o Silviano Santiago, Bernardo Carvalho, Herbert Daniel. Mas dos anos 1990 para cá tem um hiato e por que? Porque as pessoas não falam publicamente, não falam em casa e nem na literatura. A proposta do livro foi preencher esse hiato.
Notei que havia pouquíssimas pessoas falando sobre isso e então comecei a chamar os escritores: primeiro fiz um chamamento público, no meu Facebook e depois mapeei o assunto e comecei a pensar a questão da representatividade dentro da antologia, como por exemplo, incluir poetas negros, poetas mulheres, poetas trans. Reuni 96 poetas, de diferentes gêneros, diferentes gerações, escrevendo sobre o tema e não necessariamente o poeta sendo soropositivo. A pessoa não tem que estar soropositiva para abordar o HIV, porque de uma maneira direta ou indireta o tema está na vida dela, seja através de um amigo, ou nas relações afetivas, na família…A intenção foi essa também, tirar esse lugar que o HIV é uma coisa do outro. Independente da sorologia, o HIV é uma questão social, uma questão de todos.

ABIA: Sobre a literatura, alguns escritores e pesquisadores usam o termo “literatura pós coquetel” numa referência a medicação lá dos anos 1980, como você vê esse termo e a literatura do HIV de lá para cá? Acha que esta categoria delimita ou é uma afirmação fiel ao atual momento?

Ramon: Acho que todo termo acaba limitando né? Quando falamos “ ah fulano é um escritor gay, fulano é um escritor soropositivo” a gente está sempre delimitando algo. Mas neste caso acho valido porque existe essa lacuna muito grande, da escrita a partir do vírus HIV na literatura brasileira. Foi o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Alexandre Nunes de Souza, que cunhou esse termo para mostrar que a escrita da literatura que trata do HIV se modifica a partir da introdução da medicação antirretroviral.
No início, a medicação era insipiente e ainda não havia medicamentos que fizesse a pessoa se sentir saudável. O retrato do HIV na literatura antes da medicação era de morte, de medo, com a medicação passou a ser outro: a relação com os remédios, com o tempo, as relações sorodiscordantes, a memória… O Alexandre classificou isso e viu que com a introdução da medicação houve uma nova significação sobre o tema. De um lado sim, acaba limitando, mas também é importante, a gente enxergar essas pessoas, ver que elas existem e que estão produzindo.

ABIA: Você é poeta, jornalista e ativista dos direitos humanos. Como esses três elementos se interseccionam na sua carreira e obra?

Ramon: Eu comecei a minha vida na arte a partir do teatro e mudei para a poesia. Comecei a escrever livros e tenho publicado poemas desde 2009. Meu primeiro livro se chamou ‘“Vinis mofados”, em seguida escrevi “Poesias tiradas de notícias de jornal” e o logo depois “ Há um mar no fundo de cada sonho”. Paralelo a isso, fui escrevendo outras coisas e outros livros também: organizei a biografia da professora Heloísa Buarque de Hollanda, estou organizando agora um livro de memórias do Ney Matogrosso e fiz a organização desta coletânea de poemas sobre HIV e demais projetos literários ligados ao tema.
O Antônio Cândido tem uma frase que diz que a literatura é um direito humano e eu acho que as coisas se relacionam nesse sentido: o direito à literatura, à escrita e à leitura é um direito fundamental à humanidade e o poeta está ligado a esta questão da humanidade: enxergar o outro e se enxergar no outro. Me interessa a troca com o outro e de que forma essa relação me afeta. Estes três elementos (poeta, ativista e jornalista) se relacionam com os direitos humanos, saber que o outro é minha parte e que apesar, das diferenças, a gente luta por igualdade, igualdade de direitos! É dessa forma que eu devo articular essas atuações, é isso o que perpassa essas três coisas, essa vontade de lidar com o outro, de conhecer e respeitar as diferenças.

ABIA: Você já comentou um pouco sobre a importância da linguagem, em como ela pode definir ou redefinir a materialidade das relações sociais.  Como você acha que a Literatura, as artes e a cultura de maneira geral podem contribuir numa resposta positiva à epidemia do HIV/AIDS?


Ramon: Acho que nem toda arte precisa ser ativista, são coisas diferentes, mas acredito que podem trabalhar juntas. O ativismo está preocupado com a questão social, já a arte pode fazer isso também, mas não é uma obrigatoriedade porque a maior virtude da arte é a liberdade de falar sobre o que se quer. Quando há uma aliança entre essas duas coisas como na antologia “Tente entender o que tento dizer” entre a poesia e o HIV é para ressaltar a ausência deste tema dentro da arte. É para falar: ‘Olha essa questão é importante e as pessoas fingem que não existem” e fingem mesmo! Não existe um protagonista ou sequer um personagem na literatura que é HIV positivo, então é como se não existisse.
E se tema não está na literatura também não está no nosso dia-a-dia. Não falamos sobre o HIV com nossos amigos, com nossa família, no ambiente de trabalho…. Quando isso é abordado na arte, torna-se mais natural para as pessoas entenderem que podemos tratar desse tema sem tanto medo, tanto pudor, que não precisa falar baixinho, escondido: “aquela doença”. Para mim, a maior contribuição que a arte pode trazer é ressignificando o olhar sobre essa questão, dizendo ‘olha, podemos sim falar sobre HIV e AIDS’.

ABIA: Como você vê a epidemia do HIV e AIDS hoje em relação ao passado em relação ao acesso a informação, as políticas públicas e o atual cenário conservador que movimento AIDS enfrenta?

Ramon: Acho que é um momento muito complicado para os movimentos sociais principalmente após a saída da Dilma e entrada do Temer. Temos visto um retrocesso nas políticas públicas principalmente no SUS e nos programas de HIV e AIDS. A gente vê hoje absurdamente os planos de saúde mandando nas relações políticas e isso não é só lamentável como é muito perigoso. Precisamos sempre ficar atentos e alertar da importância do SUS e das políticas públicas de saúde.

É preciso também lembrar da atuação de instituições como a ABIA, a GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS), o Grupo pela Vidda no pensamento e na ação das politicas públicas de HIV e AIDS no Brasil. Eu vejo esse momento como delicado, mas acho que nas crises, a gente cresce também! É quando nos unimos para falar, lutar, resistir e dizer nós existimos e não aceitamos essas políticas.

Nesse sentido, é muito importante lembrar quem veio antes da gente. Herbert Daniel já falava que a grande vacina da AIDS é o combate ao preconceito e Betinho sempre disse que a AIDS é uma questão política. Daí lembrar, falar, inquietar as pessoas para a causa e também dar voz as populações mais afetadas. É um absurdo o genocídio que a população negra sofre pelo HIV e AIDS. Sabemos que falta saúde, falta acesso à educação, que a violência é constante nas comunidades que essas pessoas vivem. Mas se olharmos os indicies de mortalidade por HIV/AIDS veremos que são maiores na população negra e isso é quase uma política pública governamental para exterminar essas pessoas. Então é necessário também dar voz as pessoas que militam, que estão à frente e que pensam as políticas públicas de HIV direcionadas as populações mais vulneráveis. Espero que esse livro possa ser uma ponte de diálogo com qualquer pessoa, independente da sorologia. Será lindo ver ele circulando por aí!

Reportagem: Maria Lúcia Meira, estagiária sob a supervisão de Angélica Basthi

Edição: Angélica Basthi


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