Em livro, Ramon Nunes Mello passeia pela trajetória de um dos artistas mais performáticos do Brasil

Por Michele Rabello, O Popular

 

“Ele foi o anjo enviado por Deus para que o brasileiro compreenda melhor sua louca identidade de homem-mulher unidos num só.” A frase, escrita há tempos pelo poeta Caio Fernando Abreu (1948-1996), representa tão bem o mistério criado em torno da imagem de Ney Matogrosso que abriu o livro de memórias do artista, Vira-Lata de Raça, assinado pelo jornalista e poeta Ramon Nunes Mello e lançado recentemente pela editora Tordesilhas. Ao longo de 288 páginas, Ramon passeia pelas múltiplas facetas do sul-matogrossense que ganhou o País, na década de 1970, ao lado de João Ricardo e Gérson Conrad, com a irreverência dos Secos & Molhados. Além disso, presenteia o leitor com o resgate da discografia do herói marginal que em 2018 completou 77 anos.

Sob o olhar atento de Ramon, Ney tira a fantasia e relembra a infância, a juventude e o início da carreira solo, com o álbum Água do Céu – Pássaros (1975). Além disso, volta no tempo e fala sobre como foi tomar consciência de sua sexualidade e assumir relações amorosas que voltaram as atenções da mídia para ele. “Quis ir além da figura pública e entrar na história pessoal do Ney. Falar das escolhas que ele fez ao longo da vida, dos posicionamentos políticos e da forma como se conecta com o espiritual. Contar sobre suas paixões, seu romance com Cazuza e a convivência com Marco de Maria, com quem viveu por mais de dez anos”, explica Ramon.

Ao autor coube, além de pesquisar e catalogar informações datadas, ouvir o que Ney tinha para falar. O resultado foi um longo depoimento, em primeira pessoa, entremeado por fotografias de diferentes épocas e confidências afetivas. “Como já existem no mercado dois livros sobre o artista (Ney Matogrosso: um Cara Meio Estranho, de 1992, e Secos & Molhados: Entrevistas a Charles Gavin, de 2017), meu desejo foi olhar para o Ney de Souza Pereira, uma cara tão interessante quanto o ser híbrido que a gente vê no palco. Um homem que vive se reinventando e brigando contra a caretice do mundo atual. Um cara que faz questão de mostrar sua leveza ao lidar com o passar do tempo de uma forma tão única”, conta.

O desejo virou projeto quando os caminhos de Ramon e Ney se cruzaram, em um painel sobre o Secos & Molhados na Casa do Saber, um centro de debates culturais no Rio de Janeiro. Antes disso, o contato do jornalista com o artista era apenas por meio de seus álbuns prediletos e das performances arrebatadoras da figura, meio homem, meio bicho, do cantor e compositor. “Essa intensidade me deixava bastante inquieto. Quando conheci o Ney de perto e iniciei minhas pesquisas, de maneira mais sistêmica, descobri que sua essência transgressora e enigmática ia além do palco, lugar onde ele defende uma liberdade crua”, relembra.
Feito a quatro mãos

Ao todo, foram 18 meses de trabalho conjunto. Ramon escrevia e mostrava para Ney, que contribuía tornando o texto mais pessoal e próximo do homem por trás da maquiagem. Foram diversos encontros no apartamento do artista, na Zona Sul do Rio Janeiro. As conversas, sempre regadas a recortes de jornais, trajetória de composições e entrevistas antigas, passaram por diferentes fases da vida de Ney. Da infância, marcada pela relação conturbada com o pai, até a vida adulta, quando se assumiu homossexual em pleno exercício da vida militar. “Falamos ainda sobre sua formação intelectual e artística atravessada pelo teatro, pela música e pelas artes visuais”, recorda.

O título também acabou sendo uma decisão conjunta. No início, Ramon já havia decidido que o trabalho seria batizado fazendo referência à canção Astronauta Lírico, escrita por Vitor Ramil em 2007, mas em uma conversa com Ney descobriu que o cantor tinha um apreço especial pela música Vira-Lata de Raça, feita, em 1999, por Rita Lee e Beto Lee como um presente para o artista. Nos versos da rainha do rock, ele quebra o protocolo, é um bicho carente que chora sozinho, ao mesmo tempo em que banca o palhaço fazendo um estardalhaço. “Queríamos um título que traduzisse, de maneira legítima, a personalidade do Ney: um cara chique e popular ao mesmo tempo.”

Para Ramon, o maior desafio foi delimitar o recorte do trabalho. “Antes de começar a escrever, tive de tomar consciência de que eu não daria conta de abarcar toda a vida do Ney. Só de carreira, são 46 anos, com uma média de um disco sendo lançado a cada 12 meses. Então, fui agrupando fragmentos que achava importante e nesse processo a abertura dele foi fundamental. Tocamos em momentos delicados, como a epidemia de aids no Brasil, e Ney não titubeou. Nada ficou de fora”, garante o jornalista, que finalizou o trabalho ainda mais fã do homem de caminhos tortos, alma cativa e sangue latino. “Descobri que ele é um ser humano generoso, amigo e consciente do seu papel como artista.”


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