Por Marcelo Reis de Mello

Sobre o livro Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv / aids, organizado por Ramon Nunes Mello (Bazar do Tempo, 2018), e apresentado no evento Poesia e HIV, organizado pelo professor Leonardo Davino no Instituto de Letras da UERJ.

Começo falando não como um portador do vírus hiv, mas como um portador do vírus da linguagem. Nasci em 1984 e, portanto, não apenas sob a bandeira das Diretas Já! e da “anistia” (depois de 20 anos de treva) mas também sob o signo da epidemia e do medo, daquele terror incutido em nós, ainda crianças, durante as aulas de educação sexual (na minha escola tínhamos essas aulas, não sei ao certo se é algo datado). E mesmo assim, mesmo com o medo de morrer de aids (como alguns dos nossos ídolos pop, herdados da geração anterior), mesmo assim adolescentes continuaram sendo adolescentes, e se por um lado aprendemos que trepar era algo a se fazer depois de passar na farmácia, por outro lado não queríamos perder as oportunidades que batiam à porta. Às vezes a coisa se dá com pressa, vocês sabem, não dá pra esperar, e não queríamos pensar muito na Tia Margarete das aulas de sexologia antes de uma trepada. Se eu não peguei o vírus do hiv, foi mais por sorte do que por juízo. Porque peguei clamídia, por exemplo, como alguns amigos tiveram gonorreia, cancro, outras doenças com nomes horríveis. Sendo assim, não me tornei (como eu disse) um portador do vírus hiv. Mas me tornei poeta, como o Ramon, a Bruna, o Thiago e o Italo.

Então aproveito esta abertura deixada pelo Ramon, quando cita esta frase lapidar do escritor norte-americano William Burroughs: A LINGUAGEM É UM VÍRUS.
Isso pode ser lido de muitas maneiras. Podemos sempre falar de vírus a partir de muitas perspectivas. Em The Electronic Revolution, um ensaio de 1971, Burroughs atribui a origem da espécie humana a uma mutação provocada pelo vírus da palavra nas gargantas das espécies primatas, resultando em um corpo que poderia hospedá-lo adequadamente. O vírus é ali uma espécie de agente infiltrado, um agente biopolítico ativado com fins de controle, cujo poder destrutivo não consiste tanto em sua letalidade, mas na sua camuflagem, sua habilidade em passar batido.

O filósofo Gilles Deleuze, por sua vez, escreve em Mil Platôs que o comportamento rizomático, ou ainda, que a forma de atuação de um Rizoma identifica-se com a forma de agir de um vírus. Diz ele: “Em certas condições, um vírus pode conectar-se a células germinais e transmitir-se como gene celular de uma espécie complexa; além disso, ele poderia fugir, passar em células de uma outra espécie, não sem carregar ‘informações genéticas’ vindas do primeiro anfitrião.” E completa: “Nós fazemos rizoma com nossos vírus, ou antes, nossos vírus nos fazem fazer rizoma com outros animais”.

Estas duas posições diferentes servem bem para ilustrar a complexidade do problema relacionado ao vírus. Da parte de William Burroughs, o vírus é centralizador e a sua natureza é imutável. Haveria apenas um código e uma decodificação possíveis. Ao contrário, no caso de Deleuze a linguagem pode vir a ser como um vírus justamente por agir contra um sistema central, pela sua capacidade de “sobrecodificação”, pelo seu comportamento errático, imprevisível em suas mutações. Não por acaso, neste mesmo livro Deleuze vai dizer que, nas tentativas americanas de criar um lugar para a América – uma “identidade nacional” – o que aconteceu e acontece de importante procede através do “rizoma americano: beatnik, underground, subterrâneo, bandos e gangues (...)”. Ou seja: Burroughs é também ele o rizoma americano. Não é que o vírus seja necessariamente o vírus de Burroughs. Não. O próprio Burroughs pode ser – ou melhor – o próprio Burroughs pode vir a ser um vírus.

Como contraponto, e trazendo essa conversa para o presente imediato, podemos pensar que a ignorância americana também opera de modo virótico. Talvez isso justifique o triunfo eleitoral da América de Donald Trump. Quanto maior a crise econômica, maior o potencial ofensivo do vírus. A mesma coisa no Brasil do pato amarelo. Aliás, a proliferação de uma plataforma fascista no Brasil é algo assustador. Um ebola antidemocrático. Tudo isso parece indicar que a ignorância histórica e política, que a falta de memória e que a própria falta de humanidade podem se manifestar também como uma espécie de epidemia social. Não há dúvidas de que este vírus da estupidez trabalha por dentro dos discursos, que ele penetra silenciosamente as palavras, como os vírus da biopolítica de Burroughs.

Mas o vírus de que fala o Ramon, ao organizar este livro de poesia e hiv, é outro. Não é o vírus que penetra os corpos como uma espécie de tatu ou de toupeira, cavando buracos – não é o vírus coveiro do fascismo. Diante deste livro – Tente entender o que tento dizer – podemos pensar num vírus que trabalha abrindo não covas, e sim linhas de errância, pontos de fuga, passagens na direção de um outro corpo, dos outros corpos. Se a linguagem deste livro é uma linguagem viral, o é na medida em que se torna capaz de infectar o organismo social sem impor uma autoridade; e sem prescrição, sem bula. Porque poesia não é medicina. Não cura. Poesia é aquilo que neste livro se expõe, sai do armário, a positividade de propor uma vocação (Vocatio > Vox) “menor” diante do poder central sobre a doença. Sem abandonar a linguagem médica, manipula, corta e rearranja nossas fitas de DNA e RNA (como na técnica de CUT UP, de William Burroughs).

Neste livro tive um último encontro com o meu amigo Victor Heringer, que deixou este mundo. O seu poema é cifrado e indecifrável, como a própria morte, um poema que tende ao silêncio e que no entanto diz. Ele se chama ANGÚSTIA e está na página 79. Um grande A negro deitado de bruços, em posição fetal. É triste pensar nisso tudo, mas existe ali uma vitalidade que não podemos vender, sem preço de capa, e que escapa ao discurso político, ou ao controle dos sonhos que pertence às estratégias do neuromarketing. Este A é o próprio vírus invertido. O começo do alfabeto, começo das possibilidades – e começo da Angústia. Viver é pesado. Pode ser um pesadelo, às vezes, como buscar o resultado de uma sorologia num laboratório de paredes brancas e cheiro de remédio. Mas não é ali que está a linguagem, não é esse o nosso vírus. É aqui.

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¹ Os demais poetas convidados para compor a mesa, no evento Poesia e HIV, realizado na UERJ em 20 de Setembro de 2018: Ramon Nunes Mello, Bruna Mitrano, Thiago Ponce de Moraes e Italo Moriconi.


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