Por Antônio Cabral Filho

Num tempo em que ninguém ousava bater na cara do monstro, foi ele, só esqueleto quase nada, Caio Fernando Abreu, que mesmo sem a coragem dos gladiadores, tomou conta da cena e mostrou o caminho. 

Hoje, décadas passadas, o assunto não é mais tabu para ninguém, mas muitos nomes ilustres das letras, da música, do cinema e das artes em geral, contribuíram para essa desmistificação, buscando vencer os piores inimigos da pessoa portadora: a ignorância, o preconceito, além da homofobia.

É muito oportuna esta capa da Revista Literária Inéditos, do meado dos anos 80, na qual ele aborda temas polêmicos na entrevista - tais como a homossexualidade e a AIDS - e diz "Eu sou o Ney Matogrosso da literatura brasileira", pois este era uma das mais fortes vozes dissonante no ambiente da ditadura militar com a censura às artes. Daí que fazia-se necessário ombrear-se com Ney Matogrosso contra  a mesmice imposta pelo generalato. Foi um tempo em que se buscava, ávidamente, qualquer jornal ou revista onde estive algo dele - poemas, crônicas, contos - porque sabia-se tratar de algo oxigenador, contra  aquela atmosfera sufocante.

Por isso e tudo mais é oportuníssimo o lançamento do livro "Tente Entender o Que Tento Dizer". Ele vem coroar estas últimas três décadas de lutas sociais e populares em favor dos direitos e da cidadania da pessoa portadora de hiv-aids.

Seu organizador, Ramon Nunes Mello, foi não apenas feliz na iniciativa, mas necessário, por vislumbrar não apenas a reunião de um calhamaço de poemas, mas muito mais: ergueu uma bandeira para uma legião de caminhantes. A partir de agora, a música, o teatro, as artes plásticas, o cinema e a  literatura em geral, sobretudo a de Caio Fernando Abreu, ganham mais um componente nessa messe estética sobre tema tão candente.

Poderia seguir falando sobre poesia, hiv aids, livros sobre etc, mas creio que uns poemas farão muito melhor e muito bem aos amigos.?

SORODISCORDANTE

Para Bruno Cattoni

 

Discordância de sorologias,
encontro de afetos.
Nossas histórias, projetos

- conjuntos, unos.

Que nem tudo é luto,
nem tudo é luta,
nem todo desfraldar é de bandeiras.
Nem toda discordância é ausência.

Apologia do amor positivo.

Construção do dia a dia,
sólido.
Pequenas intimidades
povoam a casa.
O amor, positivamente,
une, congraça.

Este poema está na antologia Tente Entender o que Tento Dizer
http://dedodemoca.blogspot.com/2018/05/sorodiscordante.html 

&

VIRUS/VERSO

Eles não sabem que eu carrego o virus
como um sorriso ou um revólver.
Eles não sabem que esse sorriso me carrega.
Eles não sabem que isso
foi a melhor coisa que me aconteceu.
Quando a vida termina, ela enfim ode começar.
Eles não sabem que estão mortos, mas eu
estou vivo.
A vida se pega por contágio,
mas é um tipo muito raro de virus.

Renato Rezende
http://www.renato-rezende.com/poesia/antologias.html 

fonte:

https://letrastaquarenses.blogspot.com/


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